O Richelieu foi um couraçado operado pela Marinha Nacional Francesa e a primeira embarcação da Classe Richelieu, sendo seguido pelo , Clemenceau e Gascogne, porém os dois últimos não foram finalizados. Sua construção começou em outubro de 1935 em resposta à italiana Classe Littorio, sendo lançado em janeiro de 1939. Seus trabalhos de construção foram acelerados à medida que uma guerra contra a Alemanha ficou cada vez mais provável, com ele sendo comissionado às pressas em abril de 1940. O projeto do Richelieu e seus irmãos, foi baseado em seus predecessores da Classe Dunkerque, tendo mantido o mesmo arranjo incomum da bateria principal de duas torres de artilharia quádruplas montadas na proa do navio. Era armado com oito canhões de 380 milímetros, tinha deslocamento carregado de mais quarenta mil toneladas e conseguia alcançar uma velocidade de mais de trinta nós.
A embarcação foi finalizada apenas alguns dias antes da vitória alemã na Batalha da França na Segunda Guerra Mundial. O Richelieu fugiu para Dacar na África Ocidental Francesa a fim de permanecer sob controle francês. Lá, foi alvo de diversos ataques britânicos que tinham a intenção de afundá-lo ou forçar sua deserção para as Forças Navais Francesas Livres; estes incluíram a Operação Catapulta em julho de 1940 e a Batalha de Dacar em setembro. O couraçado foi danificado em ambas ocasiões, sendo lentamente consertado até ser entregue para as forças da França Livre em novembro de 1942 depois da invasão aliada do Norte da África. Ele foi enviado para os Estados Unidos para reparos e modernizações, em seguida indo servir junto com a Frota Doméstica britânica e depois na Frota Oriental em operações contra os japoneses no Oceano Índico; estas incluíram diversas operações de bombardeio.
O Richelieu fez parte da força que libertou Singapura após a rendição do Japão em setembro de 1945, posteriormente operando na Indochina Francesa como parte do esforço inicial que tinha a intenção de restaurar o domínio colonial francês na região. Foi reconvocado de volta para a França em dezembro, onde passou, em 1946, por mais reparos e pequenas modernizações. O couraçado depois disso teve uma atividade limitada no período imediatamente após o fim guerra, acabando por ser removido do serviço ativo em 1952 e usado como um navio de treinamento de artilharia. Foi colocado na reserva naval em 1956 e em seguida foi utilizado primeiro como embarcação de treinamento estacionária e por fim como alojamento flutuante até ser descomissionado em 1967, quando a Marinha Nacional decidiu descartá-lo. O Richelieu foi vendido como sucata no ano seguinte e desmontado na Itália entre 1968 e 1969.
Características
thumb|250px|esquerda|Desenho de reconhecimento do Richelieu em sua configuração original A Marinha Real Italiana anunciou em 1934 a construção de dois couraçados da Classe Littorio armados com canhões de 380 milímetros, com a Marinha Nacional Francesa iniciando imediatamente preparações para combatê-los. Os pequenos couraçados da Classe Dunkerque serviram de base para o novo projeto, mas foram ampliados para poderem se igualar aos italianos. A equipe de projeto considerou armas de 380 e 406 milímetros, porém a segunda opção não podia ser incorporada dentro do limite de 36 mil toneladas do Tratado Naval de Washington. A Classe Dunkerque tinha seu armamento principal em duas torres de artilharia quádruplas localizadas à vante da superestrutura e os projetistas experimentaram outros arranjos, porém a necessidade de maximizar o comprimento da blindagem e o peso fez com que a mesma disposição fosse adotada.
O Richelieu tinha 247,85 metros de comprimento, boca de 33,08 metros e calado de 9,9 metros. Possuía um deslocamento padrão de toneladas, mas esse valor podia chegar a toneladas quando totalmente carregado com suprimentos de combate. Seu sistema de propulsão tinha seis caldeiras Sural alimentadas por óleo combustível que impulsionavam quatro conjuntos de turbinas a vapor Parsons, que chegavam a produzir um total de 157,7 mil cavalos-vapor (116 mil quilowatts) de potência. O Richelieu era capaz de alcançar uma velocidade máxima de 32 nós (59 quilômetros por hora) e tinha uma autonomia de 9,5 mil milhas náuticas (17,6 quilômetros) a uma velocidade de quinze nós (28 quilômetros por hora). Sua tripulação era de oficiais e marinheiros. Também era equipado com duas catapultas no convés da popa, quatro hidroaviões Loire 130 para ações de reconhecimento e um guindaste para lidar com as aeronaves.
A bateria principal do Richelieu consistia em oito canhões Modèle 1935 calibre 45 de 380 milímetros. Estes eram montados em duas torres de artilharia quádruplas, ambas na frente da superestrutura com uma torre sobreposta a outra. Seu armamento secundário tinha nove canhões Modèle 1930 calibre 55 de 152 milímetros montados em três torres triplas, todas instaladas na parte de trás da superestrutura. A defesa antiaérea era composta por doze canhões Modèle 1930 calibre 45 de 100 milímetros dispostas em torres duplas, oito canhões Modèle 1925 de 37 milímetros em torres de artilharia duplas e vinte metralhadoras em quatro montagens quádruplas e duas duplas. O cinturão de blindagem tinha entre 177 milímetros de espessura nas extremidades e 327 milímetros na área central do navio, enquanto o convés era protegido por uma blindagem que ia desde quarenta milímetros até 170 milímetros de espessura. As torres de artilharia eram protegidas por 430 milímetros na frente, trezentos milímetros nas laterais, tetos que ficavam entre 170 e 195 milímetros e traseiras de 260 a 270 milímetros. A torre de comando tinha laterais de 340 milímetros, teto de 170 milímetros e traseira de 280 milímetros.
História Construção O contrato para a construção do Richelieu foi entregue ao Arsenal de Brest, em 31 de agosto de 1935 e seu batimento de quilha ocorreu no dia 22 de outubro na doca nº 4, antes ocupada pelo . O casco foi construído em partes, porque a rampa não era longa o bastante para acomodar todo o comprimento do navio. A seção principal do casco, de 197 metros de comprimento, foi construída na rampa, enquanto 43 metros da proa e oito metros da popa foram construídos em outros lugares e fixados no resto da embarcação depois do lançamento, que aconteceu em 17 de janeiro de 1939. A decisão francesa de iniciar as obras do Richelieu em 1935, colocou o país em violação do Tratado Naval de Washington, que terminaria em 31 de dezembro de 1936, pois as tonelagens combinadas do Richelieu e dos couraçados da Classe Dunkerque excederia o limite de 71 mil toneladas que tinha sido disponibilizado para a França, no período de moratório de construção. A França rejeitou as objeções britânicas sobre o novo navio, citando o Acordo Naval Anglo-Germânico, que o Reino Unido tinha assinado unilateralmente com a Alemanha; os franceses mesmo assim diminuíram o ritmo de construção do Richelieu para aliviar as preocupações britânicas. As obras também foram atrapalhadas por greves nos estaleiros, cujos trabalhos reivindicavam melhores salários e condições de trabalho.
O casco já estava montado quando a Segunda Guerra Mundial começou em setembro de 1939. O comando naval decidir retardar os trabalhos em outras embarcações menos completas e focar seus esforços no Richelieu e seu irmão . Testes iniciais começaram em 15 de outubro, enquanto o processo de equipagem estava em andamento, a fim de acelerar sua entrada em serviço; o capitão Marzin, o primeiro oficial comandante do couraçado, chegou a bordo no mesmo dia. Testes dos motores começaram em 14 de janeiro de 1940 e sua bateria principal foi finalizada uma semana depois, quando o último canhão foi instalado. Mais testes de motores ocorreram entre 31 de março e 7 de abril; o Richelieu foi comissionado durante esse período, em 1º de abril. Testes marítimos formais começaram em 14 de abril. Trabalhos de conserto foram realizados em Brest de 19 a 27 de maio e o equipamento de controle de disparo das baterias principal e secundária foi instalado. O navio passou por testes em potência total no dia 13 de junho, alcançando velocidade de 32,63 nós (60,43 quilômetros por hora) a partir de 179 mil cavalos-vapor (132 mil quilowatts), excedendo sua performance projetada. Testes de disparo foram realizados em 13 e 14 de junho. Os trabalhos na embarcação foram finalizados em 15 de junho, poucos dias antes da rendição francesa na Batalha da França.
Segunda Guerra Mundial França de Vichy Início da guerra Tropas alemães avançaram pela França em meados de junho e a Marinha Nacional decidiu evacuar o Richelieu para Dacar, na África Ocidental Francesa. Os planos iniciais eram de enviar a frota para portos britânicos a fim de continuar a guerra, porém o governo decidiu que os navios seriam bons elementos de barganha assim que surgiu a possibilidade de um armistício. Consequentemente, as embarcações deveriam ser preservadas sob controle francês e fora do controle alemão. O couraçado foi carregado com munição e combustível às 6h45min de 17 de junho, porém recebeu apenas 198 cargas de propelente para a bateria principal, o que seria suficiente para 49 disparos. Materiais ainda não instalados, foram rapidamente carregados, para serem colocados no lugar assim que o Richelieu chegasse em Dacar. Ele também recebeu reservas de ouro do Banco da França e 250 cadetes da Escola Naval. O couraçado partiu às 4h00min da manhã do dia seguinte, enquanto tropas alemães aproximavam-se de Brest, não tendo tido tempo suficiente para que uma tripulação completa embarcasse. O Richelieu navegou na companhia dos contratorpedeiros e , enquanto aeronaves alemães realizaram vários ataques fracassados contra a formação. As armas antiaéreas do couraçado atiraram de volta sem acertarem seus alvos. As embarcações navegaram inicialmente a uma velocidade de 22 nós (41 quilômetros por hora), porém problemas nas caldeiras fizeram reduziu a velocidade para dezoito nós (33 quilômetros por hora). Os motores do leme do Richelieu quebraram repetidas vezes na viagem, porém sua tripulação conseguiu conserta-los. Os contratorpedeiros foram destacados às 17h00min de 20 de junho, enquanto passavam por Casablanca no Marrocos, para reabastecerem, sendo substituídos pelo contratorpedeiro Fleuret. As duas embarcações seguiram para Dacar, chegando às 17h44min de 23 de junho.
Uma situação complicada confrontou o Richelieu assim que ele chegou em Dacar e enquanto as negociações do armistício estavam em andamento. O contra-almirante Plançon, comandante das forças navais francesas na região e Léon Cayla, o governador-geral da África Ocidental Francesa, estavam inclinados a continuar a guerra contra a Alemanha. Além disso, significativas unidades navais britânicas estavam na área, incluindo o porta-aviões , que estava atracado em Dacar, e a Esquadra do Atlântico Sul. O Richelieu também tinha usado metade de seu combustível para fugir de Brest e suas baterias principal e secundária não conseguiriam continuar disparando por muito tempo. O almirante François Darlan, o Chefe do Estado-Maior da Marinha Nacional, enviou um telegrama na noite de 23 para 24 de junho a fim de avisar Marzin que os britânicos talvez atacassem o couraçado para neutralizá-lo em caso de uma rendição francesa, ordenando-o a iniciar preparações para deliberadamente afundar a embarcação caso necessário. Enquanto isso, o cruzador pesado britânico deixou Freetown com o objetivo de observar as atividades do Richelieu em Dacar.