Este é um artigo sobre a história da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).
Anos 1930 : A Fundação Muitos são os fatores que levaram ao surgimento da Escola Paulista de Medicina. Comumente, são referidos entre outros o crescimento populacional e o surto de industrialização da cidade de São Paulo, nas primeiras décadas do século XX, o sistema do vestibular até então vigente, o sistema de cátedras da Universidade de São Paulo, que restringia os círculos acadêmicos a pouco profissionais , que gerava descontentamento entre médicos com condições de lecionar mas sem espaço, a escassez de centros de formação médica àquela época, o que resultava no êxodo para outros estados e países de jovens estudantes para realizarem o curso médico e a própria Revolução de 1932, onde a precariedade do atendimento aos feridos chocou a sociedade paulistana da época,e o consequente clima desfavorável à São Paulo na representação junto ao governo federal que se seguiu após o conflito. Acrescentam-se em consideração à época as condições de saneamento básico ruins e a falta de hospitais na cidade, bem como o fato de que, para elite paulistana era agradável a ideia de uma escola privada de Medicina.
Reuniram-se então 31 distintos médicos e 2 engenheiros, atuantes em São Paulo à época, sob a liderança de Otávio de Carvalho com a intenção de fundarem uma nova escola médica em São Paulo. As reuniões ocorriam ora no consultório de Otávio de Carvalho, ora no Parque Trianon. Numa dessas reuniões ficou decidido que a Escola Paulista de Medicina seria criada.Havia o problema do financiamento : cada fundador deveria desembolsar cinco contos de réis divididos até o ano de 1937 e que os futuros alunos pagariam uma mensalidade de 240 mil-réis, o que equivaleria a R$520,00 atuais. Parte da renda da EPM entre 1934 e 1946 viria do Departamento Nacional do Café, com a venda de amostras de café em favor da EPM.
O evento deflagrador da criação da EPM é considerado por muitos autores o vestibular de 1933: graças aos estudantes aprovados no vestibular de 1933 para a Faculdade de Medicina de São Paulo, porém considerados excedentes e sem a possibilidade de efetivarem sua matrícula. Otávio de Carvalho convidou esses mesmos estudantes "excedentes", descontentes com a situação gerada, a serem os primeiros estudantes da nova escola que ele propunha, sendo convidados 117 destes alunos. Um novo vestibular foi aplicado e 85 estudantes foram aprovados, sendo que destes, 83 foram os matriculados na Turma I do curso de Medicina.
Com isto, sob a influência dos ares pós Revolução Constitucionalista de 1932, uma nova escola médica nascia no estado de São Paulo,a segunda na cidade de São Paulo, sendo fundada em 1 de junho do ano de 1933 com o nome de Escola Paulista de Medicina (e ainda assim até hoje conhecida por muitos sob esta designação), iniciando sua trajetória acadêmica com o Curso de Medicina, cuja aula inaugural deu-se em 15 de julho de 1933, na sede inicial, uma casa alugada na Rua Oscar Porto n.54, no bairro de Vila Mariana. Esta era a segunda escola médica a ser criada no estado de São Paulo, tendo sido a primeira a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo em 1913 e a 11ª Escola Médica fundada no país. A sociedade sem fins lucrativos Escola Paulista de Medicina foi registrada em cartório no dia 26 de junho de 1933. Uma ano depois de fundada, a EPM já dava sinais de que precisava crescer.Com negociações iniciadas no ano de 1935, temos que em setembro de 1936, a recém-fundada Escola Médica transferia-se para o "embrião" do atual e definitivo campus da Vila Clementino, na Chácara Schiffini, no quadrilátero das atuais ruas Botucatu, Borges Lagoa, Pedro de Toledo e Napoleão de Barros e se iniciaria a construção do Hospital São Paulo, primeiro hospital universitário brasileiro em 1936, com sua pedra fundamental lançada em 30 de setembro. A Faculdade tinha neste ano 301 estudantes matriculados, muitos transferidos de outras instituições nacionais e internacionais.
A escolha da chácara da Vila Clementino teve um forte fator decisivo: um dos proprietários anteriores , o médico Joaquim Basílio Pennino pretendia fazer dele da construção um hospital dedicado a crianças deficientes, portanto parte do que precisaria ser adaptado para o hospital-escola da EPM já estava pronto, sendo construídos e incorporados ao prédio inicial salas de aula e laboratórios. Comprado pelo pai de Joaquim Basílio, Luis Schiffini, em 1920, o terreno da Chácara teria inicialmente fins residenciais, porém em 1930 houve a mudança de planos para a criação do que seria o "Instituto Médico Pedagógico Paulista". Em 1934, a Chácara foi vendida para um grupo de padres que criariam ali uma escola tradicional, sendo vendida para a Escola Paulista de Medicina em 1936 e tornando-se sede definitiva em 1937. Em janeiro de 2013, o escritura original do terreno da Chácara Schiffini foi entregue pela filha de Joaquim Basílio, Sra. Maria Helena Schiffini Pennino, para a UNIFESP.
O início do ciclo clínico do curso médico contou com a criatividade e o improviso, dadas as condições do Hospital São Paulo encontrar-se em obras. O curso de propedêutica médica do quarto ano médico de 1936 inicialmente foi ministrado nas enfermarias emprestadas para o ensino médico dos alunos epemistas do Hospital Umberto Primo (também conhecido como Hospital Matarazzo). Em 19 de junho de 1937, parte do prédio da antiga chácara em que a E.P.M. se havia transferido foi transformado no Pavilhão Maria Thereza, para o atendimento de pacientes,com 3 andares e 80 leitos sendo este uma sede provisória do Hospital São Paulo e assim o primeiro serviço de saúde instalado em Vila Clementino, que seria substituído nos anos 1970 pelo atual edifício da Reitoria/Ambulatórios. A criação do Pavilhão Maria Thereza foi de fundamental importância para o reconhecimento da EPM pelo MEC no ano seguinte.O nome foi uma homenagem à Maria Thereza Nogueira de Azevedo, senhora da alta sociedade paulistana, que tinha o desejo de construir um hospital infantil na cidade (por ela proposto de "Hospital Piratininga") e que doara o dinheiro para o pavilhão graças a atuação de Otávio de Carvalho. Apesar da alteração do desejo de Joaquim Basílio e Maria Thereza de que as crianças fossem atendidas, em prol da construção Hospital São Paulo, décadas depois a vontade de ambos seria atendida: a construção da APAE e da AACD em torno da EPM (centros de atendimento à criança excepcional e defeituosa, como bem queria Basílio) e do GRAAC( Grupo de Amigos e Apoio à Criança com Câncer, na Rua Botucatu, em frente ao local que foi o Pavilhão Maria Thereza, atendendo à crianças como ela idealizou no seu Hospital Piratininga…)
As primeiras turmas de estudantes de medicina porém viviam naquele momento a incerteza acerca da validação do seu diploma,pois a EPM era vista como uma escola nova e sem tradição, dúvida esta que foi dissipada finalmente com o Decreto-lei nº 2703 de 31 de maio de 1938, no qual o governo federal concedeu reconhecimento à faculdade, ano este da formatura da primeira turma de Medicina da EPM, ocorrida no Teatro Municipal de São Paulo em 8 de dezembro de 1938.
A necessidade da Enfermagem na nova instituição já era notada desde 1937, com autorização para a instalação de um curso de Enfermagem Obstétrica a pedido do catedrático Prof. Álvaro Guimarães Filho. Em 1939, iniciava-se o segundo curso universitário da Instituição, a Escola de Enfermagem,com a iniciativa de Enfermeiras religiosas provenientes da França , introduzindo um curso aos moldes do modelo padrão da Escola Anna Nery do Rio de Janeiro, fundada em 1923.Em 1968, o curso passou a se chamar Escola Paulista de Enfermagem e no ano de 1977, incorpora-se à Escola Paulista de Medicina, ainda em consequência do processo de federalização da faculdade. Em 1994, passou a ser constituído o Departamento de Enfermagem da UNIFESP.
Anos 1940 : Tempos de Guerra, Crescimento e Crise Após 4 anos do início das obras,em 1940, com cinco andares prontos e outros ainda em construção, o Hospital São Paulo começava enfim a funcionar.
A Escola Paulista de Medicina é considerada a pioneira na criação e introdução no Brasil do primeiro hospital universitário (Hospital São Paulo, 1936), sendo uma instituição de caráter privado em seus primeiros anos de existência.
Cria-se em 1947 o Laboratório de Farmacologia e Bioquímica , que se localizava no segundo andar do HSP , embrião do núcleo de pesquisa básica da faculdade. Em 1956 o Laboratório instalar-se-ia em edifício próprio, hoje denominado Edifício José Leal Prado.
Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) as finanças tornaram-se precárias. 28 leitos do HSP são destinados aos pensionistas do Instituto de Aposentadorias de São Paulo para fins de provimento da receita do hospital. Em 1949 ocorre o perdão da dívida da EPM junto à Caixa Econômica Federal, por intermédio do deputado Horácio Lafer.
Anos 1950: Federalização da EPM A década de 1950 foi um período de grandes transformações na então faculdade particular de medicina. O ano de 1951 foi marcado pelo fim do sistema de cátedras e início do sistema departamental, sendo o primeiro departamento constituído o de Clínica Médica.
A crise financeira continuaria nos anos 1950, com propostas de doação total ao governo federal da Escola ou mesmo o seu fechamento. A saída encontrada teria uma grande repercussão: a EPM seria federalizada em 21 janeiro de 1956 , sob o governo de Nereu Ramos (Lei n. 2712), assumindo o aspecto de autarquia federal. O Hospital São Paulo permaneceria sob controle da sociedade civil Escola Paulista de Medicina, que em 1960 mudaria seu nome para Sociedade Paulista para o Desenvolvimento da Medicina - SPDM.
Em 1957 inicia-se o programa de Residência médica, sendo o terceiro do país até então, com 10 vagas para a área de Clínica Médica e 10 para a de Cirurgia Geral.
Anos 1960 :Tempos da "primeira" Universidade Federal de São Paulo - UFSP Algumas tentativas de transformação da escola de Medicina em Universidade malograram durante os anos 1960, 70 e 80, sendo a principal destas iniciativas a junção com a Escola de Engenharia de São Carlos da USP e outras instituições isoladas estaduais do interior que mais tarde viriam a ser integradas na UNESP, Araçatuba (Faculdade de Farmácia e Odontologia), Araraquara (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras), além de Santo André (Faculdade Municipal de Ciências Econômicas), criando-se em 13 de dezembro 1960 a Universidade Federal de São Paulo (UFSP), com sede à cidade de São Carlos (Lei nº 3835), sendo o seu primeiro reitor o professor epmista Marcos Lindemberg. A medida precisava de legislação complementar para a efetiva instalação, porém ficou esquecida. Em 1963 João Goulart chega a criar um Conselho Consultivo para a implantação da UFSP, porém o golpe militar leva por fim a UFSP a ter uma duração efêmera até 29 de setembro de 1964 (Decreto-Lei 4421),sendo extinguida e a EPM voltava a ser um "estabelecimento isolado federal de ensino superior de natureza autárquica". O episódio da UFSP dividiria o corpo docente e deixaria marcas na EPM durante o regime militar nos anos 70. Outras propostas que acabariam por serem postuladas foram ainda criação à época de uma Universidade Federal na própria cidade de São Paulo ou na região do ABC paulista. Em 28 de setembro de 1968, contudo, a EPM foi elevada à categoria de Autarquia Federal de Regime Especial. Em 1963 é inaugurado o Edifício de Ciências Biomédicas (atual Edifício Antônio C.M.Paiva) para a ampliação dos laboratórios e dos grupos em pesquisa. Em 1965 iniciam-se as atividades do Programa de saúde indígena no Xingu, onde estudantes e docentes passam a atuar no Parque Nacional do Xingu realizando ações de assistência médica, imunização e educação em saúde, além de pesquisa.