Luís de Loureiro, por vezes Luís do Loureiro (Viseu, Silgueiros?, c. 1490 - Tânger, 13 de Março de 1553), a quem vulgarmente se chama o Grande Luís de Loureiro foi um nobre e notável Capitão português que, durante mais de 40 anos, terçou armas em Marrocos, onde veio a morrer numa refrega com os Mouros. Exerceu os cargos de Adail-Mor do Reino de Portugal, Capitão de Safim, de Santa Cruz do Cabo de Gué, novamente de Safim para a sua evacuação, de Mazagão, de Arzila para a sua evacuação, e de Tânger, e foi um dos heróis mais esclarecidos na Nação.
Biografia
Família Nascido no reinado de D. João II de Portugal, era filho de Henrique de Loureiro, por vezes Henrique do Loureiro, nascido cerca de 1460, o qual consta duma Decisão de Phebo ser filho natural legitimado por Carta Real de D. João II de Portugal de 25 de Junho de 1482, que foi Senhor da Casa de seu Pai e sucedeu na Honra e Quintã de Loureiro, por doação de seu pai, feita a 10 de Setembro de 1485 e confirmada por D. João II a 8 de Junho de 1487, Cavaleiro d' El-Rei com Carta de Privilégio de Fidalgo de 9 de Julho de 1487, e grande Cavaleiro em África, onde assistiu muito tempo e serviu com valor. Foi Fidalgo da Casa Real de El-Rei D. Manuel I de Portugal, como consta do Livro dos Registos da Câmara de Viseu, Cavaleiro Fidalgo e Cidadão Nobre da Governança de Viseu, onde foi, nomeadamente, Vereador do Senado da Câmara pela Nobreza em 1505, e de sua mulher Brites ou Beatriz Rodrigues Cardoso, filha de Diogo Rodrigues Cardoso e de sua mulher, e irmã de Pedro Rodrigues Cardoso, chamado o Surdo, casado e com geração. Este Diogo Rodrigues Cardoso teve uma irmã que se chamava Leonor Rodrigues Cardoso, primeira mulher de Lopo Álvares Cardoso, de Viseu. O seu pai teve uma filha bastarda, Briolanja de Figueiredo, que se criou em casa de Álvaro de Carvalho e de lá casou com Diogo Lopes de Figueiredo, nascido em Viseu, Silgueiros, Silvares, certamente neto ou bisneto doutro Diogo Lopes de Figueiredo, Escudeiro do Infante D. Henrique, morador em Silvares, Silgueiros, Viseu, onde, a 21 de Abril de 1447, recebeu do Cabido de Viseu o Prazo de três casas, com geração feminina. Descendia dum Monge do século XII, Frei Dionísio, que fundara a Igreja de Santa Maria de Silgueiros, na cidade Beirã de Viseu.
Adail de Safim Parece ter ido pela primeira vez a Marrocos com Nuno Fernandes de Ataíde em 1510, visto que, segundo carta deste ao Rei D. Manuel I de Portugal, servira no Cerco de Safim, em Dezembro desse ano.
Em 1511, era Adail da cidade Africana de Safim.
Em 1515, encontramo-lo na expedição malograda da Mamora e, logo no ano seguinte, vemo-lo entre os defensores de Arzila, durante o cerco posto pelo Rei de Fez, de 30 de Abril a 3 de Maio de 1516.
Capitão e Governador de Safim Em 1534, finalmente, Luís de Loureiro obtinha a sua primeira Capitania e Governo. Colocado à frente de Safim, por altura do mais apertado dos cercos que a Praça sofreu, e após a morte em combate pelos Mouros dos esforçados guerreiros Lopo Barriga e do anterior Capitão e Governador da praça-forte de Safim D. João de Faro, este foi substituído por Rui Freire que, entretanto, era muito jovem. Por essa razão, o Rei D. João III de Portugal enviou para governar Safim como seu 11.º Capitão e Governador Luís de Loureiro, antes de enviar outro Capitão e Governador, D. Garcia de Noronha. Luís de Loureiro apenas exerceu a função por um mês, de Março a Maio (alguns indicam desde 28 de Maio, data em que terá chegado, até Junho de 1534), defendendo-a do ataque dos Mouros. Luís de Loureiro exerceu o cargo com tanta actividade, inteligência e coragem, que os serviços prestados nesse tempo vieram a ser alegados mais tarde ao conceder-se-lhe Carta de Brasão.
Capitão de Santa Cruz do Cabo de Gué A nomeação para o cargo de Capitão da Praça de Santa Cruz do Cabo de Gué, que se seguiu, foi, certamente, devida ao prestígio de que Luís de Loureiro já então gozava na Corte Portuguesa. Nessa data de Junho de 1534, foi enviado para Santa Cruz do Cabo de Gué, em substituição de D. Guterre de Monroy, que o Rei chamava para Portugal.
Começou a exercer a Capitania da Fortaleza de Santa Cruz do Cabo de Gué como seu 13.º e penúltimo Capitão entre Junho e 3 de Novembro de 1534. Apesar de pazes "quasy feitas de Dom Goterres","Chronique de Santa-Cruz du Cap de Gué". p. 84. teve que combater várias vezes "e sempre sahya com o milhor d'elles"."Chronique de Santa-Cruz du Cap de Gué". Idem. Em Santa Cruz, experimentada num cerco igualmente estreito, em que estivera a ponto de se render às forças de Mulei Maomé Axeique, Xerife de Suz, em 1533, manteve-se Luís de Loureiro durante quatro anos, de 1534 a 1538, escaramuçando a cada passo com os Alcaides da região, e negociando, pouco antes de terminado o seu Governo, as tréguas tão necessárias aos Xerifes, que queriam continuar a sua luta com o Rei de Fez, como aos Portugueses, precisados de reparar os danos causados pelos assédios, e de abastecer e municiar as Praças. Então celebrou a paz com o Xerife Maomé Axeique por seis anos. As tréguas com Santa Cruz ficaram assentes em fins de Agosto ou princípios de Setembro de 1536 e deviam durar quatro anos. As das Praças de Safim, Azamor e Mazagão só foram definitivamente concertadas em Abril de 1537, com uma duração de três anos. Ao cabo de quase cinco anos, em 1538, D. Guterre de Monroy voltou para governar Santa Cruz, e, três anos mais tarde, Luís de Loureiro foi novamente nomeado Capitão de Safim.
Capitão e Governador de Safim Entre 1541 e Outubro de 1541 voltou a ser 15.º Capitão e Governador de Safim, de cuja Capitania e Governo foi o último titular antes da sua evacuação, após o que foi nomeado Capitão-Mor de Mazagão.
Luís de Loureiro, depois dum descanso em Portugal, voltou a Marrocos, encarregado do Governo de Mazagão. Marrocos, nesse período, conhecia o poder cada vez mais forte dos "Xarifes" Amade Alaraje e, sobretudo, Maomé Axeique, marcado pela intenção de reunificar o país, e que, no ano anterior, havia obtido uma expressiva vitória sobre os cristãos, apoderando-se da Fortaleza do Cabo de Gué a 12 de Março de 1541. As coisas portuguesas em África caminhavam bastante mal: caída em poder do Xerife Mulei Maomé Axeique a vila de Santa Cruz, a 12 de Março de 1541, o poder deste e o de seu irmão, Mulei Amade Alaraje, Senhores de todo o Sul Marroquino, ameaçava, por um lado, o fraco Amade Uatassi, Rei de Fez, e, por outro, as Praças Portuguesas da Costa Atlântica. D. João III, após grandes hesitações, ia decidir-se pelo desamparo dalgumas dessas Praças, e pela conservação, naquela costa, dum Porto bem fortificado e de acesso marítimo relativamente fácil. Esse Porto era Mazagão, cuja Fortaleza vinha sendo edificada, segundo os planos do Arquitecto Militar Italiano Benedito de Ravena, pelo célebre Mestre João de Castilho.
No fim do ano de 1541, já foi possível passar para ali os moradores de Azamor, lugar afastado duas ou três léguas para o Norte, e de cujo despejo o Monarca encarregava, bem como do de Safim, o notável D. João de Castro, futuro Governador da Índia. Este, conseguiu desempenhar-se do duro encargo numa operação admirável, pela maneira como foi planeada e executada.
Capitão-Mor de Mazagão Em Março de 1541 foi nomeado 8.º Capitão-Mor de Mazagão. Luís de Loureiro conservou-se aí até 1548.
A balbúrdia e o alvoroço que iam naquele lugar entre os evacuados de Safim e Azamor, eram indescritíveis. Refere-se-lhes o Capitão-Mor, na carta em que propõe ao Rei D. João III que se dê a Mazagão o nome de Vila da Boaventura.
Durante todo este período, davam-se em Marrocos acontecimentos graves. Os dois Xerifes desentendidos guerreavam-se até à completa derrota dum deles, Amade Alaraje, e ao estabelecimento do domínio do segundo em todo o Sul de Marrocos. Desaparecida a frente Cristã da costa do Atlântico pela perda de Santa Cruz e pelo despejo de Safim e Azamor, restava ao Xerife a tarefa de conquistar o Reino de Fez ao seu fraco Soberano. Este, fora aprisionado em 1545, ao terminar a Batalha do Ouadi Derna. Reintegrado no seu trono, depois de ter estado dois anos a ferros, Amade Uatassi encontrava-se bloqueado na sua capital, desde os fins de 1547, sem condições de resistência e abandonado dos seus Alcaides principais, que viam no Xerife o Sol nascente e no Sultão abatido o antigo aliado dos cristãos. Em paz com Portugal, o Rei de Fez Amade Uatassi que, embora Sultão legítimo do país, apenas reinava efectivamente sobre Fez e os seus arredores, não opunha grande resistência ao seus inimigo de Marraquexe e do Suz. O avanço de Maomé Axeique trazia em grande sobressalto a Corte Portuguesa. Os Portugueses compreendem que, se derem a oportunidade duma unificação do país, não terão meios para atender às necessidades de todas as vilas e fortalezas que controlam na região. Por esse motivo, Luís de Loureiro chegou a propor, em 1547, a D. João III, que se atacasse o Xerife com um desembarque no Suz, para evitar a Conquista de Fez pelo Xerife, enquanto o Rei de Fez preparava uma Armada contra ele. D. João III chamou-o, então, a Lisboa, e encarregou-o de recrutar gente de guerra no Puerto de Santa María, na Andaluzia. Essa gente devia ser enviada para Tânger, Arzila e Ceuta. Ia seguir, também, o necessário à construção dum Forte no Morro sobranceiro à povoação de Alcácer Ceguer, na costa do Estreito de Gibraltar, por haver receio de que o Xerife quisesse utilizar este local, para, à imitação dos invasores Árabes precedentes, tentar, por sua vez, levar as suas Tropas à Península Ibérica. Com aquela Armada, Amade Uatassi partiu de Fez a 25 de Janeiro de 1548, mas retornou sem ter executado nenhuma acção. A situação agravou-se, depois, no ano seguinte, com a Conquista de Fez, que foi tomada pelo Xerife Maomé Axeique, a 29 ou 31 de Janeiro de 1549,David Lopes, História de Arzila, p. 409. e as suas ameaças contra os lugares portugueses do Norte, especialmente Arzila e Alcácer Ceguer.
Nesse contexto, D. João III mandou fortalecer as suas praças no Marrocos, erguer o forte do Seinal e, para "guarnecer convenientemente todos êstes lugares mandou vir ao reino Luís de Loureiro (…) muito experiente nas cousas d'África, e no fim de Fevereiro enviou-o a Andaluzia a recrutar a gente de guerra necessária".História de Arzila. p. 412. Luís de Loureiro voltou, então, à Andaluzia, para continuar o abastecimento das Praças. Mas o Conselho do Rei resolvia, subitamente, o despejo de Arzila, e encarregava de o levar a cabo a Luís de Loureiro. Este, largou do Puerto de Santa María e, conforme as últimas ordens que recebera, promoveu o embarque das mulheres, crianças e moradores, bem como o das munições, e ocupou a vila, temporariamente, com seus Fronteiros e Soldados.
Permaneceu no cargo até 1548, sendo nomeado 18.º Capitão de Arzila em 1549 ou 1550.
Capitão de Arzila Nesse mesmo ano de 1549, D. Francisco Coutinho, o 3.º Conde de Redondo, que então era Capitão de Arzila, entregou-lhe o lugar e retirou-se para o Reino, tendo recebido, depois, várias mercês de D. João III. Informou "el-rei [D. João III] que se dizia que os filhos do Xerife com muitos alcaides se preparavam para virem sôbre os lugares de África, principalmente sobre Alcácer Ceguer e Arzila". Assim, o Rei ordenou buscar o resto do socorro ao Algarve e à Andaluzia, por Luís de Loureiro, que estava em Alcácer Ceguer.História de Arzila, p. 416. Mas isso era apenas uma manobra de diversão, uma vez que a evacuação de Arzila já estava decidida em Conselho, uma vez que esta praça não tinha porto seguro, e que o Rei D. Carlos I de Espanha mostrou indiferença ao pedido de ajuda formulado pelo Rei de Portugal. As reais ordens de Luís de Loureiro, que tinha a missão declarada de socorrer os lugares de África, devia ajuntar no porto de Arzila 60 navios "que se julgaram bastantes para a embarcação de todos os moradores da vila". O motivo do segredo era que os "mouros o não soubessem (…) para não estorvar o despejo".