thumb|290px|Santuário de Abu Ubaida, onde se encontra o seu túmulo

Amir ibne Abedalá ou Amir ibne Abedalá ibne Aljarrá (nome completo ), mais conhecido como Abu Ubaida ibne Aljarrá ( ou ; 583 — 638) foi um dos companheiros de Maomé e um destacado comandante militar dos exércitos muçulmanos que iniciaram as conquistas islâmicas, nomeadamente liderando a invasão da Síria. Foi um dos a quem Maomé assegurou que teriam lugar no paraíso. Matou o seu pai no decurso de uma batalha por este estar do lado dos politeístas.

Depois da morte de Maomé permaneceu à frente de uma grande parte dos exércitos muçulmanos durante o reinado do califa Omar (Omar ibne Alcatabe) e este incluiu-o na sua lista de sucessores à frente do Califado Ortodoxo.

Biografia Primeiros anos e conversão ao islão Abu Ubaida nasceu em 581 ou 583 na família de Abedalá ibne Aljarrá, um comerciante de Meca pertencente ao clã dos alharititas dos coraixitas (Quraysh). Já antes da sua conversão ao islão, Abu Ubaida era considerado um dos mais nobres coraixitas e era famoso entre os coraixitas de Meca pela sua modéstia e valentia.

Em 611, Maomé começa a pregar a unicidade de deus ao povo de Meca. Começa por converter em segredo os que lhes estão mais próximos, amigos e familiares. Ubaida abraçou o islão apenas um dia depois de Abu Becre, e ao mesmo tempo que Omar, em 611. Ubaida é o único da sua família a converter-se e por isso foi alvo de vexação por parte da família.

thumb|upright=0.85|Mapa da campanha que culminou na batalha de Badre

thumb|upright=0.85|Maomé na batalha de Badre lançando hordas de cavaleiros, no épico turco do Siyer-i Nebi (A Vida do Profeta)

Abu Ubaida viveu a dura experiência vivida pelos primeiros muçulmanos em Meca do princípio ao fim. Como os outros, suportou insultos e a opressão dos coraixitas, que aumentaram depois do sucesso da primeira emigração para a Abissínia (Etiópia). Sendo o único convertido do seu clã Abu Ubaida sofreu ainda mais do a generalidade dos companheiros com as perseguições. Maomé sugeriu então que os mais afetados pela violência contra os muçulmanos também se exilassem na Abissínia. Abu Ubaida integrou então o grupo de 83 homens e 23 mulheres que foram para a Etiópia em 615, um episódio conhecido na história islâmica como "Migração para a Abissínia" ("Pequena Hégira").

Os coraixitas que se opunham ao islão enviaram uma embaixada ao negus (rei etíope) pedindo-lhe que expulsasse os refugiados, contudo este recusou-se a fazê-lo e rejeitou os presentes que os coraixitas lhe enviavam. Pelo contrário, o rei convidou os muçulmanos a compararem os méritos do Cristianismo e do islão. Durante este tempo, Maomé sofria em Meca todo o tipo de pressões. É nesse período que historiador e exegeta persa Atabari situa o célebre episódio dos "versículos satânicos". Alguns dos exilados, entre eles Abu Becre, voltam a Meca, mas a maior parte deles só se juntam a Maomé depois da conquista de Caibar em 629.

Em 622, quando Maomé emigrou de Meca para Medina (Hégira), Abu Ubaida acompanhou-o. Quando Maomé chegou a Medina, cada um dos seus seguidores (muhajirun) ficou na casa de um muçulmano de Medina (ançares). Abu Ubaida ficou em casa de Muade ibne Jabal, do qual se tornou "irmão de fé". Os muçulmanos permaneceram em paz em Medina durante cerca de um ano até que os coraixitas juntaram um exército para atacar a cidade.

Campanhas militares durante a vida de Maomé Batalha de Badre e parricídio

Em 624, Abu Ubaida participou na primeiro grande confronto militar entre os muçulmanos e os coraixitas de Meca, a batalha de Badre. Durante os combates, Abu Ubaida foi atacado pelo seu pai Ubaida ibne Aljarrá, que combatia ao lado dos coraixitas. O filho tentou evitar lutar com o pai, mas este acabou por conseguir encurralá-lo. Abu Ubaida atacou então o pai e matou-o.

O episódio do parricídio de Abu Ubaida é contado numa "biografia", mas não é referido por Tabari na sua crónica nem por William Muir em The Life of Mahomet (A Vida de Maomé).

Batalha de Uude

Em 625, Abu Ubaida participou na batalha de Uude. Na segunda fase da batalha, quando a cavalaria de Calide ibne Alualide atacou os muçulmanos da retaguarda, transformando o curso vitorioso destes numa derrota, o grosso dos soldados muçulmanos foi posto fora de combate, mas alguns mantiveram-se firmes. Abu Ubaida foi um deles e protegeu Maomé dos ataques dos soldados coraixitas. Maomé foi ferido por um golpe de sabre, caiu do seu cavalo e não conseguiu levantar-se por causa dos ferimentos e do peso da armadura. Foi inclusivamente dado como morto por alguns. O ferido foi depois posto num abrigo e a notícia de que tinha sobrevivido espalhou-se pelas hostes muçulmanas fazendo-as retomar o ardor aos combatentes. Uma vez no abrigo, a primeira preocupação dos companheiros de Maomé foi tirar-lhe o capacete. Dois dos anéis do capacete estavam espetados nas bochechas de tal forma, que Abu Ubaida teve que os retirar com a boca e perdeu dois dentes da frente ao fazê-lo. O sangue jorrou das feridas do profeta; Abu Ubaida trouxe-lhe água, mas Maomé não conseguiu mais do que lavar a boca. Depois enfiou o capacete de Cabe e juntou-se novamente aos combatentes.

Outras campanhas thumb|left|upright|A tomada da fortaleza dos curaizaítas, numa ilustração da autoria de da obra , publicada em 1808

Em 627, Abu Ubaida Aljarrá participou na Batalha da Trincheira (Cerco de Medina) e na tomada da fortaleza dos curaizaítas, uma tribo judia de Medina. Foi ainda comandante de uma pequena expedição que atacou e esmagou as tribos dos e anemaritas, as quais andavam a pilhar as aldeias vizinhas.

Em 628 participou e foi uma das testemunhas no Tratado de Hudaibia, entre os coraixitas e os muçulmanos. No mesmo ano participou na campanha contra Caibar, um oásis 150 km a norte de Medina.

O primeiro recontro entre os muçulmanos e o Império Bizantino teve lugar em setembro de 629, na batalha de Muta. Maomé tinha ficado em Medina e a batalha foi muito difícil para os muçulmanos. Durante os combates, Calide ibne Alualide, recém convertido ao islão, permitiu que os muçulmanos se retirassem estrategicamente com um mínimo de perdas, o que lhe valeu o cognome de (; "espada desembainhada de Deus"}}).

O prestígio de Maomé foi muito abalado por este revés. Espalharam-se rumores que tribos hostis se estavam a concentrar. Anre ibne Alas, que então não era mais que um novo convertido, viu ser-lhe confiado o comando de 300 homens e 30 cavalos para enfrentar essas tribos. A escolha de Amir para essa missão foi ditada pela sua habilidade e principalmente pelas suas ligações a essas tribos. Depois de cinco dias de marcha, Amir instalou o seu acampamento ao pé da nascente chamada ou Daat al-Salaasil, não muito longe da fronteira da Síria. O número dos inimigos reunidos nos arredores fê-lo recear que não o considerariam mais do que um objetivo de menor importância. Maomé enviou-lhe então um reforço de 200 homens comandados por Abu Ubaida. Tendo-se juntado a Amir, Ubaida pretendeu tomar o comando, mas Amir recusou e Ubaida desistiu dos seus intentos. Com esta nova força, Amir atravessou os territórios das tribos inimigas, recebendo delas juramentos de fidelidade. Amir pôde assim voltar a Medina com o sentimento de dever cumprido, apesar de nunca ter tido oportunidade de combater.

Em novembro de 629, Maomé deu a Abu Ubaida o comando duma expedição contra os judamitas que viviam à beira-mar. Os muçulmanos perderam-se e ficaram sem comida. Ao princípio contentaram-se em chupar tâmaras, mas quando estas começam a faltar, tiveram que sacudir árvores para mastigarem as suas folhas. Deus veio em seu socorro deles, fazendo-os apanhar um peixe tão grande que os alimentou durante vários dias. A seguir foi a carne de um animal chamado Ambar que os alimentou durante quinze dias. Por fim alimentaram-se dos camelos e reentraram em Medina sem ter combatido.

Algumas fontes colocam os episódios da ajuda divina a uma expedição de Abu Ubaida, também chamada de "expedição das folhas", "do peixe" ou "Expedição de Abu Ubaide ibne Aljarrá" na expedição anterior, feita em conjunto com Anre ibne Alas, a qual teria como objetivo a descoberta das rotas das caravanas coraixitas. Segundo algumas fontes, o "peixe" seria afinal um cachalote que deu à costa e o próprio Maomé teria provado a sua carne seca, que lhe foi oferecida pelos homens de Abu Ubaida quando votaram da sua missão.

thumb|Paisagem da região de Taife, atualmente parte da Arábia Saudita

Em 630, quando os muçulmanos conquistaram Meca, Abu Ubaida foi o comandante de uma das quatro divisões que entrou na cidade. Mais tarde, no mesmo ano, participou na batalha de Hunaine, no e na Campanha de Tabuque, esta comandada pelo próprio Maomé. Ao voltarem a Medina após a batalha de Tabuque, uma delegação de cristãos de Najrã chegou à cidade e mostrou interesse no islão, pedindo a Maomé que lhes mandasse alguém que os guiasse em temas de religião e outros assuntos tribais à luz das leis islâmicas. Abu Ubaida foi a pessoas escolhida por Maomé para ir com eles. Foi também enviado como cobrador de impostos ao Barém.

Quando Maomé morreu em 632, Abu Ubaida estava em Meca e foi brevemente um dos candidatos propostos para o título de califa, juntamente com Omar, Ali e Abu Becre, acabando este último por ser o escolhido na Saquifa dos saidaítas, onde Abu Ubaida também esteve presente. Omar convidou Abu Ubaida a estender-lhe a mão e apoiá-lo para califa, mas recusou e deu o seu apoio a Abu Becre.

Reinado de Abu Becre

Depois das Guerras da Apostasia pela sucessão de Maomé, Abu Becre enviou Calide ibne Alualide para conquistar o Iraque e em 634 enviou Abu Ubaida para o Levante e Síria à frente de um exército composto de voluntários recentemente chegados a Medina. Este exército de invasão que em breve teria 24 mil homens, era formado por tribos beduínas e estava dividido em quatro divisões, uma delas comandadas por Abu Ubaida, que era também o comandante-em-chefe. O imperador de Bizâncio Heráclio, debatendo-se com problemas financeiros, não tinha dado as subvenções habituais às tribos árabes encarregues de proteger as suas fronteiras, pelo que a entrada das tropas muçulmanas na Síria foi facilitada. As populações mantiveram-se como espectadoras da invasão muçulmana.

thumb|esquerda|Ruínas de uma igreja em Bostra (Síria)

A primeira missão atribuída a Abu Ubaida foi conquistar Emesa (Hómece) e foi-lhe ordenado que atravessasse a região de Tabuque para se reunir com o exército de Xurabil ibne Haçana. Abu Becre tinha atribuído uma província a cada um dos seus generais: Abu Ubaida recebeu a província de Hómece, Iázide ibne Abi Sufiane a de Damasco, Anre ibne Alas a Palestina (Filistine) e Churahbi a Jordânia (Urdune). Vendo-se confrontados com um exército de 150 a 200 mil homens, os quatro generais escreveram a Abu Becre a pedir reforços, e este ordenou a Calide ibne Alualide que se lhes juntasse vindo do Iraque. Calide tomou o comando das operações e ordenou a Abu Ubaida que permanecesse onde estava até que Calide chegasse à cidade gassânida de Bostra, onde se encontraria com ele. O castelo e a cidade renderam-se após a Batalha de Bostra, travada em meados de julho de 634, na qual morreram 130 muçulmanos.

Pouco depois os muçulmanos tiveram notícia da concentração de 90 mil soldados bizantinos em Ajenadaim, a cerca de 24 km a sudoeste de Jerusalém. Sob o comando de Calide ibne Alualide, os muçulmanos derrotaram os bizantinos a 30 de julho de 634 na Batalha de Ajenadaim. Passada uma semana, Abu Ubaida e Calide marcharam em direção a Damasco. No caminho de Damasco infligiram outra derrota aos bizantinos na batalha de Yakusa, travada em meados de agosto de 634. O governador de Damasco enviou outro exército para deter os invasores muçulmanos, mas este também foi derrotado em 19 de agosto na Batalha de Marje Açafar.

thumb|A Bab Sharqi, a porta oriental de Damasco