miniatura|upright=1.2|Corpo de Jesse Washington dependurado numa árvore após ser cruelmente queimado.

O linchamento de Jesse Washington (também conhecido como Horror de Waco) foi um linchamento ocorrido em 15 de maio de 1916 em Waco, Texas, Estados Unidos. Jesse Washington, um trabalhador agrícola afro-americano de dezessete anos de idade, foi acusado de estuprar e assassinar Lucy Fryer, esposa de seu empregador branco, na zona rural de Robinson. Nenhuma testemunha presenciou o crime, mas o jovem assinou uma confissão ao ser interrogado pelo xerife do Condado de McLennan e descreveu o local onde teria escondido a arma do crime.

Washington foi julgado em Waco, num tribunal repleto de pessoas furiosas. Ele declarou-se culpado e foi rapidamente sentenciado à morte. Após o pronunciamento da sentença, o jovem foi arrastado para fora do tribunal por populares e linchado em frente à prefeitura municipal. Cerca de dez mil pessoas, incluindo políticos e policiais, se reuniram para assistir ao ataque. A atmosfera era de comemoração, sendo que muitas crianças participaram do acontecimento durante o recreio. Os participantes do ataque ao jovem negro castraram-no, cortaram seus dedos e dependuraram-no sobre uma fogueira. Ele foi deixado sobre a fogueira por cerca de duas horas. Após o fogo ser extinto, seu torso carbonizado foi arrastado pela cidade e partes de seu corpo foram vendidas como lembranças. Um fotógrafo profissional registrou os acontecimentos, fornecendo a rara representação de um linchamento em progresso. As fotografias foram reveladas e vendidas como cartões-postais em Waco.

Apesar de o linchamento ter tido o apoio de boa parte dos habitantes de Waco, foi condenado por jornais de todos os Estados Unidos. A Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor ( - NAACP) contratou Elisabeth Freeman para investigar o ocorrido; ela conduziu uma investigação detalhada em Waco, apesar da relutância de muitos moradores em falar sobre o evento. Após receber o relatório de Freeman, o co-fundador da NAACP, W.E.B. Du Bois, publicou uma extensa reportagem com as fotos do corpo carbonizado de Washington em The Crisis, revista da associação, e a NAACP utilizou fatos do evento em sua campanha antilinchamento. Apesar de Waco ser, à época, considerada uma cidade moderna e progressista, o linchamento demonstrou que a violência racial ainda era tolerada no local. Os acontecimentos daquele dia foram apelidados de "o horror de Waco". A cidade ganhou a reputação de ser um local racista, mas líderes municipais posteriores impediram linchamentos nas décadas seguintes. Segundo os historiadores, a morte de Washington ajudou a colocar a opinião pública contra os linchamentos. A publicidade negativa que o ocorrido recebeu freou o apoio popular à prática, que passou a ser vista como uma barbárie ao invés de forma aceitável de justiça. Nas décadas de 1990 e 2000, alguns residentes de Waco fizeram uma campanha a favor de um monumento em memória à vítima do linchamento, ideia que não obteve o apoio da maioria dos habitantes.

Antecedentes thumb|Ilustração de 1911 retratando Waco como um local idílico.

No final do século XIX e início do século XX era comum ocorrerem linchamentos no sudeste dos Estados Unidos, principalmente de negros e nos estados da Geórgia, do Mississippi e do Texas. Entre 1890 e 1920, cerca de três mil afro-americanos foram mortos vítimas de linchamentos, geralmente após serem acusados de cometerem crimes contra brancos. Os adeptos da prática justificavam-na dizendo ser esta uma forma de garantir a hegemonia dos brancos sobre os negros, a quem atribuíam uma natureza criminosa. Os linchamentos também promoviam um senso de união entre os brancos numa sociedade onde as estruturas de poder e a demografia mudavam rapidamente. Apesar de os linchamentos serem tolerados por boa parte da sociedade sulista, algumas pessoas opunham-se à prática, como líderes religiosos e membros da então recém-fundada Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP).

Em 1916, Waco era uma cidade próspera com pouco mais de trinta mil habitantes. Após ser associada à criminalidade no século XIX, seus líderes comunitários buscaram mudar sua reputação; enviaram delegações para todos os Estados Unidos para que a cidade de Waco fosse promovida como um local idílico. Até 1910, a economia local se fortaleceu e a cidade ganhou uma reputação ilibada. Uma classe média negra emergiu na área, assim como duas universidades para negros. Em meados da década de 1910, os negros somavam 20% da população de Waco. Segundo a jornalista Patricia Bernstein, a cidade tinha, então, uma "fina camada" de paz racial. As tensões raciais, no entanto, se faziam presentes: os jornais locais geralmente destacavam os crimes cometidos pelos negros, e Sank Majors, um afro-americano, foi enforcado numa ponte localizada perto do centro da cidade em 1905. Um pequeno grupo de ativistas antilinchamento morava na área, incluindo o presidente da Universidade Baylor. Em 1916, diversos fatores levaram ao aumento do racismo na cidade, incluindo a estreia de O Nascimento de uma Nação — filme que promovia a supremacia branca e glorificava a Ku Klux Klan — e a venda de fotografias do linchamento de um homem negro em Temple, cidade localizada a 54 quilômetros de Waco.

Crime e prisão de Washington

Em Robinson, Lucy Fryer foi assassinada enquanto estava sozinha em sua casa em 8 de maio de 1916. Ela e o marido George eram imigrantes ingleses que se tornaram cidadãos respeitáveis na comunidade rural onde possuíam uma fazenda. A notícia da morte chegou rapidamente ao xerife do condado de McLennan, Samuel Fleming, que imediatamente começou a investigar o crime com um grupo de policiais, moradores e um médico. O médico determinou que a causa da morte de Lucy Fryer tinha sido um golpe na cabeça. Os moradores suspeitaram que o responsável pelo crime fosse Jesse Washington, um jovem negro de dezessete anos de idade que trabalhava na fazenda dos Fryer havia cinco meses; um deles afirmou ter visto Washington perto da casa dos Fryer minutos antes de o corpo de Lucy ser encontrado. Na mesma noite, os assistentes do xerife viajaram para a casa de Washington, onde ele foi encontrado vestindo um macacão sujo de sangue. Ele atribuiu as manchas na roupa a um sangramento nasal. Jesse, seu irmão William e os pais deles foram levados ao departamento do xerife em Waco para responderem a algumas perguntas; os pais e o irmão de Jesse foram liberados após algum tempo, mas ele foi detido para ser interrogado. Seus interrogadores em Waco informaram que ele negou ser o responsável pela morte de Lucy Fryer, mas que descreveu suas ações de maneira contraditória. Após sua prisão, espalharam-se os rumores de que ele teria tido uma discussão com um homem branco alguns dias antes do assassinato.

Em 9 de maio, Fleming levou Washington para o condado de Hill, temendo a ação de justiceiros contra o jovem. O xerife do condado de Hill, Fred Long, interrogou Washington com Fleming; Washington contou-lhes que ele matou Lucy após uma discussão sobre as mulas dela, descrevendo a arma do crime e o local onde ela estava escondida. Long levou Washington para Dallas, enquanto Fleming retornou para Robinson. Fleming relatou ter encontrado um martelo sujo de sangue no local indicado por Washington. Em Dallas, Washington ditou e assinou uma declaração descrevendo o estupro e o assassinato de Lucy Fryer; a confissão foi publicada no dia seguinte pelos jornais de Waco. Os jornais agiram de maneira sensacionalista ao noticiar o crime, relatando as supostas tentativas de Lucy de resistir ao estupro, embora o médico que examinou o corpo dela tivesse concluído que ela já estava morta quando foi estuprada. Populares se uniram em Waco naquela noite para linchar Washington na cadeia local; o grupo se dispersou após perceber que o rapaz não estava no local. Ainda assim, um jornal local enalteceu o esforço do grupo. Na mesma noite, Lucy Fryer foi enterrada após a realização de um pequeno funeral que contou com a presença apenas de seus familiares e amigos mais próximos.

Em 11 de maio, um júri foi formado no condado de McLennan e Washington foi rapidamente indiciado pela morte de Lucy Fryer; seu julgamento foi marcado para 15 de maio. O jornal Waco Times-Herald publicou uma nota em 12 de maio pedindo que os moradores deixassem o poder judiciário determinar o destino de Washington. Fleming viajou para Robinson em 13 de maio para pedir aos habitantes daquela cidade que mantivessem a paz; seu discurso foi bem recebido. A defesa de Washington foi atribuída a vários advogados inexperientes. Eles não prepararam a defesa do jovem e observaram que ele aparentava estar tranquilo nos dias que antecederam o julgamento.

Julgamento e linchamento thumb|Multidão se preparando para linchar Washington. thumb|Corpo de Washington pendurado na árvore. thumb|Corpo carbonizado de Washington no meio das cinzas.

Na manhã de 15 de maio, o tribunal de justiça de Waco lotou rapidamente: a multidão quase impediu a entrada de alguns jurados. Observadores também lotaram as calçadas ao redor do prédio; mais de duas mil pessoas estavam presentes. A maior parte do público era branca, mas alguns membros da comunidade negra de Waco também estiveram presentes. Conforme Washington entrava no tribunal, um membro do público apontou uma arma para ele, sendo rapidamente desarmado. Conforme o julgamento começava, o juiz tentava manter a ordem, insistindo que o público fizesse silêncio. A seleção do júri foi rápida: a defesa não se opôs às pessoas selecionadas pela acusação. Segundo Bernstein, o julgamento teve uma atmosfera de escárnio. O juiz perguntou a Washington como ele se declarava, explicando as possíveis sentenças. Washington murmurou uma resposta — possivelmente "sim" — interpretada pela corte como uma declaração de culpa. A acusação descreveu as acusações e o júri ouviu os testemunhos de policiais e do médico que examinou o corpo de Lucy Fryer. Ele descreveu a maneira como ela morreu, sem mencionar se teria sido estuprada ou não. A acusação finalizou seu caso e os advogados de Washington perguntaram-lhe se ele havia cometido o crime. Washington respondeu: "Foi o que fiz" e pediu desculpas silenciosamente. O promotor dirigiu-se ao tribunal, declarando que o julgamento tinha sido conduzido de maneira justa, conquistando os aplausos da multidão. O júri, então, se retirou para deliberar.