A Operação Monte Carlo foi o nome que deu-se à operação deflagrada pela Departamento da Polícia Federal brasileira para desarticular uma organização que explorava máquinas caça-níqueis e jogos de azar no estado de Goiás. Entre as apreensões feitas, constam uma frota de vinte e dois veículos, uma grande quantia de dinheiro, além de armas e joias. Ainda, foram detidos dois policiais federais em um total de vinte e oito prisões.miniaturadaimagem|esquerda|Epicentro das investigações que desencadearam a Operação Monte Carlo, empresário Carlinhos Cachoeira.|250x250pxEntre os meios utilizados pela Polícia Federal, estão grampos telefônicos utilizados em conversas de Idalberto Matias Araújo, o Dadá, sargento aposentado da aeronáutica, e do bicheiro Carlinhos Cachoeira. Dadá e Cachoeira estão presos desde fevereiro de 2012, acusados de integrar esquema de exploração de jogo ilegal.
Gravações da PF mostraram que houve: repasse de informações sobre investigações policiais ao senador Demóstenes Torres; iniciativas de “varreduras” em órgãos públicos por parte do grupo criminoso; indicações a cargos públicos em Goiás e Minas Gerais.
Por meio de gravações da Polícia Federal, foi possível interceptar conversas consideradas suspeitas entre estes e diversos políticos como Demóstenes Torres (sem partido-GO), além de conversas em que aparecem nomes de pessoas ligadas ao governo do Distrito Federal, chefiado por Agnelo Queiroz (PT) e do governo de Marconi Perillo (PSDB), de Goiás. Outros três citados na operação foram os deputados Carlos Alberto Leréia (PSDB-GO), Sandes Júnior (PP-GO) e Stepan Nercessian (PPS-RJ).
Trâmite judicial As escutas telefônicas foram autorizadas pelo juiz federal Paulo Augusto Moreira Lima. Lima também foi o juiz responsável por determinar a prisão de Carlinhos Cachoeira.
A legalidade das escutas telefônicas foi questionada pelos advogados de Cachoeira e de Demóstenes Torres, mas foram consideradas legais no dia 18 de junho de 2012 pela 3ª Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, por dois votos a um. O voto contrário à legalidade das escutas foi dado pelo juiz Fernando Tourinho Neto, que também determinou em 29 de fevereiro de 2012 a soltura de Cachoeira, sob o argumento de que o grupo que explorava jogos ilegais já não existiria mais. Entretanto Cachoeira não foi liberado, pois a juíza Ana Cláudia Barreto, da 5ª Vara da Justiça do Distrito Federal, indeferiu pedido da defesa para revogar outro mandado de prisão referente à Operação Saint-Michel, desdobramento da Monte Carlo.
No dia 18 de junho de 2012, o senador Pedro Taques (PDT-MT) criticou duramente o voto de Tourinho Neto, dizendo conhecer decisões polêmicas de Tourinho Neto "de longa data", informando que o magistrado várias vezes tomou decisões de nulificar investigações e ações penais movidas pelo Ministério Público Federal, as quais foram retificadas posteriormente pelo Superior Tribunal de Justiça.
Na tentativa de acelerar o julgamento do caso, o juiz Paulo Lima havia marcado audiências de instrução do processo, que envolve 81 pessoas, para o dia 1 de junho de 2012. No entanto, por decisão do juiz federal Tourinho Neto, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, as audiências foram canceladas, argumentando que as audiências só poderiam ocorrer depois de realizadas algumas diligências solicitadas pela defesa de Cachoeira.
No dia 18 de junho de 2012, Paulo Augusto Moreira Lima foi afastado do caso, sob a alegação de ser juiz substituto, o que permite seu remanejamento caso seja necessário preencher outros postos. Em nota oficial, a presidência do TRF/1.ª Região informou ainda que o remanejamento ocorreu "em virtude de ajuste referente a férias e convocação pelo TRE/GO, de magistrado da 3.ª Vara".
Deputados Federais citados miniaturadaimagem|esquerda|Deputado federal Carlos Alberto Leréia depondo na CPMI.|250x250px Carlos Alberto Leréia Carlos Alberto Leréia (PSDB-GO) chegou ceder um avião de sua propriedade a investigados pela Operação Monte Carlo. Carlos Leréia, que afirmou em discurso no pleńario da Câmara ser amigo pessoal de Carlinhos Cachoeira, foi flagrado nas escutas feitas pela PF durante a Operação Monte Carlo recebendo o código de segurança do cartão de crédito de Cachoeira, para que o deputado pudesse fazer uma compra na Internet.
Leréia também aparece em escuta em diálogos com Wladimir Garcez cobrando um suposto depósito de 100 mil reais de Garcez.
Jovair Arantes miniaturadaimagem|Jovair Arantes, outro deputado federal de Goiás envolvido no escândalo.|250x250px O deputado federal Jovair Arantes (PTB-GO) foi citado no relatório da Operação Monte Carlo. O parlamentar foi flagrado em ligação telefônica pedindo ajuda a Cachoeira.
Jovair Arantes não nega que tenha relações com o contraventor. Segundo ele, "todos em Goiás conhecem Cachoeira por ele ser um empresário de sucesso".
Leonardo Vilela esquerda|miniaturadaimagem|Leonardo Vilela, também deputado goiano.|250x250px O deputado federal Leonardo Vilela (PSDB-GO) foi incluído na lista de pessoas ligadas a Cachoeira pela Polícia Federal, tendo trocado ligações telefônicas e mantido encontros diretos com o bicheiro. O deputado foi ex-secretário de Meio Ambiente do governo de Goiás e era pré-candidato à Prefeitura de Goiânia nas eleições de 2012. O próprio deputado Leonardo Vilela diz ter feito ligações ao bicheiro. Em uma das ligações, segundo Leonardo, fez um pedido de entrevista de emprego para uma pessoa que atuaria numa das empresas de Cachoeira. miniaturadaimagem|Otoni em 2006.|250x250px
Rubens Otoni O deputado federal Rubens Otoni (PT-GO) aparece em dois vídeos negociando doação de campanha com Carlinhos Cachoeira. Na gravação, Cachoeira oferece R$ 100 mil e insinua já ter contribuído com a mesma quantia em outro momento.
Otoni disse que o encontro ocorreu em 2004, quando o petista foi candidato a prefeito de Anápolis, em Goiás:
esquerda|miniaturadaimagem|Sandes Júnior em 2013.|250x250px
Sandes Júnior O deputado federal Sandes Júnior (PP-GO) foi flagrado negociando diretamente com Cachoeira a realização de uma concorrência pública. O deputado admitiu ser amigo de Cachoeira, mas afirmou que cheques mencionados em diálogo (que somavam R$ 50 mil) eram de uma rádio em que trabalhou e que Cachoeira "estava brincando ao fazer a cobrança de metade do valor".
Sandes Júnior também pediu a Cachoeira ajuda financeira para bancar pesquisa eleitoral. Em uma conversa gravada pela Polícia Federal, o parlamentar recorre ao bicheiro para obter R$ 7 mil para uma sondagem de intenções de votos à Prefeitura de Goiânia. Cachoeira, com interesse em contratos no município, trabalhava para emplacar a candidatura do senador Demóstenes Torres nas eleições de 2012, enquanto Sandes fazia lobby para ser vice de Demóstenes, apontado como favorito em levantamentos internos de partidos aliados.
Sandes Júnior também pediu a Cachoeira ajuda para bancar viagem ao exterior do time de futebol em que joga o seu filho adolescente. O parlamentar apelou (em 28 de abril de 2011) a Carlinhos Cachoeira para que o contraventor conseguisse R$ 150 mil com a cúpula do Laboratório NeoQuímica de Anápolis (GO), para que os jogadores do Colégio Podium, de Goiânia, participassem de competição em Orlando, nos Estados Unidos. O filho de Sandes também viajaria com a equipe.
O deputado já havia sido flagrado na Operação Vegas encomendando a Cachoeira a importação de equipamentos que, uma vez adquiridos, permitiriam a montagem de uma emissora de rádio. Sandes Júnior tornou-se alvo de inquérito no STF e de representação na Corregedoria da Câmara, que pode dar origem a um processo de cassação por quebra de decoro.esquerda|miniaturadaimagem|Stepan Nercessian.|250x250px
Stepan Nercessian Stepan Nercessian (PPS-RJ) também confirmou ser amigo do contraventor.JCNet - Stepan Nercessian, envolvido com Carlinhos Cachoeira, se licencia do PPS Nercessian recebeu 175 mil reais de Carlinhos Cachoeira, tendo o deputado admitido à Folha de S.Paulo que recebeu o dinheiro, e que o valor de 160 mil reais seria usado na compra de um apartamento no Rio.Folha - Stepan Nercessian recebeu R$ 175 mil de Carlinhos CachoeiraJornal do Brasil - Deputado pede investigação de Stepan e mais três por laços com CachoeiraVeja - Além de Demóstenes, escutas da PF já ligam três deputados a Carlinhos Cachoeira Stepan disse que o restante, 15 mil reais, usaria para adquirir entradas para camarotes na Sapucaí para o Carnaval de 2012. Stepan disse também não se considerar "nenhum criminoso", mas admitiu conhecer Cachoeira "há mais de 20 anos" e que "sempre teve relação social" com o contraventor.O Globo - PPS quer mais explicações do deputado Stepan Nercessian miniaturadaimagem|Russomano em 2013.|250x250px
Celso Russomanno O ex-deputado federal Celso Russomanno (PRB-SP) foi citado em uma gravação interceptada pela PF, durante a Monte Carlo, que indicia Russomanno como relacionado ao esquema operado pela quadrilha de Cachoeira. Um relatório da Superintendência da Polícia Federal do Distrito Federal, revelado pelo jornal Correio Braziliense, mostra que Russomano é citado em diálogo como detentor de R$ 7 milhões em uma conta que seria operada pelo grupo do bicheiro.
Senadores citados esquerda|miniaturadaimagem|Neves em foto oficial do Senado.|250x250px
Aécio Neves (PSDB-MG) As escutas telefônicas da operação revelaram que o senador Demóstenes Torres intercedeu diretamente junto a Aécio Neves, para que Aécio empregasse Mônica Beatriz Silva Vieira, prima de Carlinhos Cachoeira, em um cargo comissionado no governo de Minas Gerais. O cargo, assumido em 25 de maio de 2011 por Mônica, foi o de diretora regional da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Sedese) em Uberaba. Entre o pedido de Cachoeira a Demóstenes até a nomeação de Mônica, passaram-se 12 dias e 7 telefonemas.
Aécio confirmou o empenho em atender à solicitação de Demóstenes, mas alegou desconhecer interesse de Cachoeira na indicação. Aécio disse também se sentir "traído" pelo senador Demóstenes Torres e que, na época em que Demóstenes fez o pedido, não sabia do envolvimento do senador com Cachoeira:
Aécio, antes desta denúncia, solidarizara-se com o senador Demóstenes Torres, quando do surgimento de acusações a Demóstenes suscitadas pela Operação Monte Carlo:
miniaturadaimagem|Demóstenes em foto oficial do Senado.|250x250px
Demóstenes Torres Nesse escândalo, o senador Demóstenes Torres pediu a desfiliação do DEM-GO por também estar envolvido em relações suspeitas com Carlinhos Cachoeira desvendadas pela operação. esquerda|miniaturadaimagem|Senador Wilder Morais.|250x250px
Wilder Pedro de Morais Conversas telefônicas usadas pela PF na Operação Monte Carlo mostram que Cachoeira atuou para que Wilder Pedro de Morais (DEM-GO) fosse o senador suplente de Demóstenes Torres.
Devido à cassação de Demóstenes, no dia 13 de julho de 2012, Wilder assumiu o mandato no Senado. Wilder foi secretário de infraestrutura no governo de Marconi Perillo (PSDB) em Goiás e, conforme as escutas, discutiu com o tucano assuntos tratados anteriormente com o bicheiro.
Wilder é um dos empresários mais ricos de Goiás e enfrenta também denúncias relativas à omissão de boa parte de seus bens na prestação de contas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Apenas na Junta Comercial de Goiás, registros mostram que Wilder é sócio-proprietário de 24 empresas. Na declaração de bens ao TSE, são listadas somente 15 empresas e um patrimônio de apenas R$ 14,4 milhões.
Governadores citados miniaturadaimagem|Outro envolvido, o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz.|200x200px
Agnelo Queiroz Agnelo Queiroz (PT-DF), governador do Distrito Federal, foi citado em gravações da Monte Carlo por membros da quadrilha de Cachoeira como envolvido. Seu chefe de gabinete, Cláudio Monteiro, pediu exoneração após ter seu nome citado nas escutas.