thumb|direita|270px| Reunida na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, uma Assembleia dos Estudantes vota por manutenção de greve estudantil após reintegração de posse na antiga Reitoria da Universidade de São Paulo. A reintegração de posse do prédio da Reitoria da Universidade de São Paulo foi um incidente político ocorrido na madrugada do dia 8 de novembro de 2011. Na ocasião, o principal prédio administrativo da USP, invadido por estudantes havia seis dias, foi desocupado através da ação de mais de 400 policiais da Polícia Militar de São Paulo.
Em termos gerais, os ocupantes contestavam o convênio entre a universidade e a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, assinado na esteira do assassinato do estudante Felipe Ramos de Paiva no estacionamento da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade. No entanto, o estopim para a crise foi um confronto entre policiais e alunos, ocorrido em 27 de outubro de 2011, quando três estudantes foram detidos pela PM, por uso de maconha, dentro de um carro, no estacionamento do prédio de História e Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, o que levou à ocupação do prédio da administração da faculdade e, após a liberação desse último, à invasão da Reitoria.
Além da detenção de 73 pessoas, a principal consequência da reintegração de posse foi a convocação de uma greve estudantil, e cujas principais reivindicações consistiam no fim do convênio entre a universidade e a Secretaria de Segurança Pública, a saída da Polícia Militar do campus, a discussão de um plano de segurança alternativo para a USP, a renúncia do reitor João Grandino Rodas, e a não punição administrativa dos estudantes envolvidos na ocupação. Por conta do movimento grevista, foram adiadas as eleições para a diretoria do Diretório Central dos Estudantes. A mobilização estudantil terminou no início de 2012, sem obter conquistas em nenhuma de suas demandas.
Antecedentes Os estudantes da universidade já haviam realizado greves em 2002, 2007 e 2009. Em todas elas exigiu-se maior democracia nas decisões administrativas da Reitoria da USP, vista como pouco transparente, eleita por um colegiado restrito e sob forte influência do governador de São Paulo. A insatisfação estudantil com a gestão da universidade se acentuou no início de 2010, com a chegada do antigo diretor da Faculdade de Direito, João Grandino Rodas, ao cargo de reitor. Além de ter ficado em segundo lugar na lista tríplice, Rodas era visto por setores do Movimentos Estudantil como tendo um histórico autoritário e simpático a um maior aprofundamento das relações da Universidade com bancos e entidades privadas.
A presença da Polícia Militar no campus A Polícia Militar sempre teve liberdade para entrar e realizar rondas no campus Butantã da Universidade de São Paulo. No início de 2009, entretanto, ainda durante a gestão da reitora Suely Vilela, sua ação foi além do policiamento ordinário ao utilizar bombas de gás e balas de borracha contra alunos, professores e funcionários em greve. Mesmo com Rodas tendo declarado que a ação policial convocada por sua antecessora havia sido legítima, a situação parecia se apaziguar com a posse do novo reitor, na medida em que ele buscou, junto às instâncias burocráticas da universidade, retirar de si o poder de convocar efetivo policial para dentro do campus.
A relação entre a universidade e os órgãos de Segurança Pública viria a mudar devido ao assassinato do estudante Felipe Ramos de Paiva, aluno de Ciências Atuariais, morto em 18 de maio de 2011 com um tiro na cabeça no estacionamento da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade. No dia seguinte à tragédia, o Centro Acadêmico Visconde de Cairu, representante dos alunos da faculdade, decidiu convocar protestos pela ampliação da segurança na USP e, posteriormente, pelo estabelecimento de bases policiais no campus. Influenciado pela situação, o Conselho Gestor do Campus da Capital reuniu-se extraordinariamente e, amparado pelo reitor, pediu maior presença da polícia no campus, deliberando que um convênio com a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo seria redigido.
O convênio não chegou a ser debatido pela comunidade universitária. O Conselho Gestor é formado por diretores das faculdades e por uma parcela reduzida de alunos e servidores, que regimentalmente não devem ultrapassar 20% dos membros do conselho. Apenas no dia 8 de setembro, tal texto foi assinado pelas duas contrapartes, USP e SSP-SP.
Noticiou-se pelos veículos oficiais da universidade que o convênio se basearia em princípios de "policiamento comunitário", considerando as peculiaridades do ambiente universitário e sendo um modelo de integração entre polícia, professores, alunos e funcionários. Foi divulgado, igualmente, a criação de um Fórum da Cidadania pela Cultura da Paz. O texto do convênio, porém, não reflete o que foi propagandeado e nem sequer cita tais fóruns de cunho pacifista.
Após a aprovação do convênio, o Diretório Central dos Estudantes, composto à época sobretudo por militantes do PSOL, publicou uma nota de repúdio. O DCE Livre da USP defendeu uma solução alternativa para a segurança na USP, por meio da criação de uma guarda universitária treinada em direitos humanos, pela ocupação do espaço e por meio de investimentos na iluminação do campus. Outros ramos do Movimento Estudantil próximos ao PSTU e e ao PCO demonstraram descontentamento com a solução encontrada pela Reitoria e tentaram articular ações de protesto.
Incidentes de 27 de outubro e invasão do prédio da Administração da FFLCH No final de outubro de 2011, a Polícia Militar iniciou uma série de abordagens no campus Butantã, inclusive na Biblioteca Florestan Fernandes, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. No dia 27 de outubro de 2011, três alunos portando 21,8 gramas de maconha foram abordados por um policial no estacionamento do prédio de História e Geografia da FFLCH. Após a abordagem dos três estudantes no período da tarde, alunos da FFLCH começaram a protestar contra a ação da Polícia Militar. Professores também participaram das primeiras discussões. Por volta das 19 horas, os policiais militares mobilizaram cerca de 20 viaturas visando intimidar os manifestantes. Jornalistas, que chegaram pelo menos seis horas após o início dos acontecimentos, alegaram ter sido agredidos por alunos e policiais, muitos dos quais atuavam sem identificação.
Em meio à confusão, a chefe do Departamento de História e a diretora da FFLCH, Sandra Nitrini, foram convocadas. Nitrini tentou encontrar uma saída negociada, pedindo que os policiais entregassem a competência do caso à administração da FFLCH. O DCE Livre da USP considerou que seria mais adequado permitir que os policiais militares levassem os alunos para assinar um termo circunstanciado. Outros ramos do movimento estudantil optaram por uma política de defesa dos estudantes usuários de maconha, visando impedir seu enquadramento. Diversos setores do movimento estudantil entraram em confronto durante a manifestação. Mais tarde, os alunos foram levados até o prédio da Filosofia e Ciências Sociais, onde foram cercados por colegas contrários ao enquadramento. No entanto, os policiais militares, auxiliados por estudantes pró-negociação, conseguiram retirar os usuários e levá-los à delegacia. Por volta das 23h00, quando a manifestação já estava esvaziada, um aluno levantou um cavalete para colocá-lo entre o carro da polícia e o estacionamento da FFLCH. Um policial militar, sentindo-se ameaçado, reagiu. Logo, os policiais começaram a atacar estudantes com balas de borracha e bombas de gás. Alunos reagiram com paus e pedras. Alunos ficaram feridos e cinco carros da PM foram danificados antes dos policiais se retirarem às pressas do local. Uma Assembleia Geral dos Estudantes de emergência foi convocada, tendo sido votada a ocupação da administração da FFLCH.
Segundo a assessoria da Reitoria, os termos do convênio previam a "repressão às drogas". No entanto, foi denunciado mais tarde que os policiais militares que atuam na USP recebiam dinheiro de traficantes do PCC. De acordo com as denúncias do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), que se infiltrou na região da São Remo, o PCC paga semanalmente "elevados valores" a policiais militares que atuam na USP.
No dia 1 de novembro de 2011, pouco mais de cem estudantes favoráveis ao convênio com a Secretaria de Segurança Pública e à presença da PM no campus realizaram uma manifestação criticaram a posição da esquerda do movimento estudantil. Os críticos dos manifestantes acusaram-los de "receber mesada" e usar roupas da GAP, disseram que "Universidade não é lugar de fumar maconha" e alegaram que os alunos estariam "admitindo a culpa" ao cobrir o rosto. O estudante Lucas Sorrillo, militante conservador da chapa Reação que à época concorria ao DCE Livre da USP, pediu "desculpas" à Polícia Militar e discursou em carros de som.
No dia 2 de novembro, após negociações com a Congregação da FFLCH, os alunos reunidos votaram pela desocupação do prédio da Administração. Enquanto a mídia divulgava rumores de que o prédio teria sido danificado por estudantes, uma comissão formada por professores, funcionários e estudantes avaliou que não houvera danos significativos ao imóvel.
A ocupação Na mesma Assembleia do dia 2 de novembro, contudo, foi votada a ocupação da Reitoria. O evento gerou controvérsia: enquanto a grande imprensa, o DCE Livre da USP e o PSTU alegaram que a ocupação foi ilegítima, tendo sido votada após o teto da Assembleia Geral dos Estudantes, o PCO, setores do PT, o MNN e a LER-QI alegam que houve manipulação da mesa moderadora e encerramento inadequado dos debates. Após a votação, centenas de estudantes encapuzados invadiram o prédio da Reitoria.
A Reitoria foi à Justiça pedir reintegração de posse já no dia 3 de novembro. No dia 4 de novembro, realizou-se uma reunião de mediação entre representantes da universidade, representantes dos estudantes e diretores do Sindicato de Trabalhadores da USP. Participaram do encontro dois representantes da Reitoria (o chefe de gabinete do reitor, Alberto Carlos Amadio e o Superintendente de Relações Institucionais, Wanderley Messias da Costa), dois professores (Jorge Luiz Souto Maior, da Faculdade de Direito do Largo São Francisco e Luiz Renato Martins, da Escola de Comunicações e Artes), dois representantes do sindicato dos funcionários (Marcello Ferreira e Magno de Carvalho), além de seis estudantes. Não houve, contudo, acordo entre as partes. Segundo Wanderley Messias, foi proposta a criação de um grupo de trabalho para "aperfeiçoar" os termos do convênio com a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, e a Reitoria comprometeu-se a analisar alguns processos administrativos movidos contra estudantes. Segundo representantes dos estudantes, a Reitoria não se comprometeu a encerrar os processos administrativos contra os estudantes nem a revogar o convênio. Magno Carvalho, representante dos funcionários, classificou a reunião de negociação como uma "farsa" na qual a Reitoria ditara as regras.