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Os Gautas ou Gotas (; ; ; em germânico comum: gautoz*) foram uma tribo germânica, composta por uma amálgama de grupos e clãs com diversos líderes, que habitou parte da atual Gotalândia, na Suécia. Tinham como base territorial a bacia do rio Gota e as férteis planícies da Gotalândia Ocidental junto aos grandes lagos Veter e Vener, de onde teriam expandido para a Gotalândia Oriental, Dalslândia e Varmlândia. Foi na Gotalândia que se desenvolveram inicialmente as instituições monárquicas, clericais e administrativas da futura Suécia.
O nome
A historiografia moderna sueca vê o termo proto-histórico Götar como uma designação dos antigos habitantes das províncias históricas suecas da Västergötland e da Östergötland, e até mesmo da Dalsland e da Värmland. Mais do que um povo, no sentido moderno do termo, dispondo de identidade étnica, língua e território comuns, o termo pode indicar grupos populacionais dispersos na região à volta do rio Gota, organizados em clãs com relações de soberania baseadas em fidelidade e sujeição aos "grandes senhores". Os nomes götar, göter, gautar, gutar e goter podem ter uma raiz comum germânica, significando "os homens". Como comparação, o nome do outro povo da Suécia - os Svear - poderiam significar inicialmente "os próprios".
Nos tempos medievais, göt-göte-göta podia designar alguém ou algo com uma conotação à tribo dos götar ou alguém ou algo da Gotalândia. Um rei gauta (götakung) podia ser um rei conotado à tribo dos gautas ou um rei com base na Gotalândia. Por ex.: Siggeir (rei lendário da Gotalândia na Saga dos Volsungos) e Gizur (rei lendário da Gotalândia na Saga de Hervör). Nos tempos modernos, göt-göte-göta é usado para designar algo com ligação à Gotalândia ou até a toda a Suécia. Por ex.: Göta hovrätt (tribunal de apelação da maior parte da Gotlândia), Göta kanal (canal através da Gotalândia), Göta livgarde (antigo regimento de infantaria sediado em Estocolmo), Göta artilleriregemente (antigo regimento de artilharia em Gotemburgo).
Gautas e Godos
Apesar da semelhança das palavras, não há motivos históricos comprovados para associar os Gautas da Suécia aos Godos da Europa Continental (). Um ou outro grupo da Escandinávia pode ter feito parte dos exércitos dos godos, mas que os godos como povo ou "comunidade de povos" tivesse uma origem na Escandinávia parece ser uma ideia sem suficiente fundamento histórico.
Por consequência, não há evidência histórica, arqueológica ou linguística que sustente a lenda dos "Godos da Escandinávia". Há todavia um mito de origem cultivado desde a Idade Média até ao , desenvolvido pelo movimento cultural patriótico do Goticismo, segundo o qual os Godos seriam originários da região histórica da Gotalândia e da ilha da Gotlândia.
Gautas e Geatas
Igualmente, foi objeto de mito a biografia fantasiosa do lendário rei Beovulfo, protagonista do poema anglo-saxão homônimo. Nesta obra de ficção, Beovulfo é apresentado como membro da tribo dos Geatas (), um povo de marinheiros, de difícil identificação, fazendo lembrar os Jutos da Dinamarca, os Gutas da ilha da Gotlândia, ou os olandeses da ilha da Olândia, mas não os continentais Gautas da Gotalândia na Suécia.
Diferentes teorias propõem que estes Geatas poderiam ter sido os Jutos (ou mesmo os Danos) da Dinamarca, os Gautas da Gotalândia na Suécia (tanto Gotas Ocidentais - Västgötas, como Gotas Orientais - Östgötas), os Gutas da ilha da Gotlândia, os olandeses da ilha da Olândia, ou até mesmo os Getas da Europa Oriental. Não há uma resposta a esta questão, mas não seria impossível que o autor inglês, não conhecendo muito bem a geografia e os povos da Escandinávia, tivesse criado um personagem, de um povo inventado, numa região inventada, embora com bastantes semelhanças com a Escandinávia.
Os Gautas, os Suíones e a Suécia
O significado dos termos gautas e suíones (götar e svear) variou através dos tempos e das fontes referenciais. Tanto podiam designar vagamente comunidades étnicas e linguísticas, como clãs de líderes dominantes, como ainda todos os habitantes daquilo que mais tarde recebeu o nome de Suécia. Igualmente, está rodeado de incertezas o relacionamento destes grupos com os termos usados por viajantes e cronistas estrangeiros. O cenário desta épocas era protagonizado por uma série de pequenos reinos, com autonomias e dependências variadas, evoluindo à mercê de poderios e alianças militares variáveis e instáveis.
Não se sabe como foi o processo de unificação entre os suíones e os gautas, pois não há documentos contemporâneos e as fontes históricas existentes são tardias e estrangeiras. Antigamente pensava-se que o processo tinha sido violento, caracterizado por hostilidades entre os dois povos. Hoje em dia, os historiadores inclinam-se para uma integração fundamentalmente pacífica, com um ou outro conflito armado, mas principalmente através de relações comerciais e casamentos, e através da introdução do cristianismo e da cultura medieval europeia na região.
Quando e como teve lugar a fundação do estado sueco, quem foi o primeiro rei, são duas perguntas sem resposta definitiva, embora haja opiniões e conjeturas mais ou menos fundamentadas.
250px|thumb|A Suécia após o Tratado de Rosquilda, 1658.
História
Referências históricas aos Gautas O naturalista romano Plínio, o Velho, menciona na História Natural do , escrita em latim, um povo designado pelo termo latino gutões (gutones). O geógrafo grego Ptolemeu (em Alexandria, no , na sua obra "Geografia") cita um povo de uma pequena ilha a leste da península dinamarquesa da Jutlândia pelo nome grego gutas (goutai). Talvez uma referência aos gautas da Gotalândia, talvez uma referência aos gutas da ilha da Gotlândia. O historiador bizantino Procópio, no , cita pelo termo grego gautos (gautoi) o povo mais numeroso da ilha de Thule - talvez a Escandinávia, e localiza-os no sul da ilha. O historiador bizantino Jordanes, no , escreve na sua obra Gética que havia 28 tribos, algures na Escandinávia, entre os quais os gauthigoth, os ostrogoth e os vagoth, possivelmente com conotação aos gautas ocidentais (habitantes da Gotalândia Ocidental), gautas orientais (habitantes da Gotalândia Oriental) e gutas (habitantes da ilha da Gotlândia), e hipoteticamente correspondendo a três povos chamados gautigodos (gautigoth), ostrogodos (ostrogothae) e valagodos (vagoth). O historiador alemão Adão de Brema, no , na sua obra Gesta Hammaburgensis Ecclesiae Pontificum, diz que os gotos (gothi) viviam junto ao rio Gota, e que eles eram cristãos, ao contrário dos suíones. Além disto, Adão refere a povoação de Skara na Gotalândia Ocidental. O historiador dinamarquês Saxão Gramático, no , escreve sobre os gautas da Gotalândia e sobre o rei dos gautas, na sua obra Feitos dos Danos.
Gotalândia - A Terra dos Gautas
Embora de impossível demarcação a partir das referências históricas, podemos concluir que os Gautas viviam no interior da Gotalândia - as terras ao redor do rio Gota, tanto na Västergötland como na Östegötland, e possivelmente em outras zonas adjacentes da Värmland, Dalsland e Småland.
Não há notícia de ter havido uma unidade política na Gotalândia. Enquanto que Pontus Fahlbeck pensa que nunca houve uma união entre a Gotalândia Ocidental e Gotalândia Oriental, Knut Stjerna julga que o reino dos Gautas incluía as duas regiões. Na Idade Média havia duas leis provinciais distintas - a Lei da Gotalândia Ocidental e a Lei da Gotalândia Oriental, e duas dioceses distintas - em Skara e em Lincopinga.
Idade do Ferro As referências aos gautas da Idade do Ferro até a Era Viquingue são poucas, vagas e incertas. O historiador Jordanes e a obra Beovulfo citam grupos étnicos com possível associação aos gautas. Algumas poesias escáldicas noruego-islandesas apontam os gautas, suíones e danos como adversários dos noruegueses.
Era Viquingue No início da Era Viquingue , os gautas estavam confinados ao interior da Gotalândia, tendo um carácter continental. Habitavam particularmente a região situada entre os lagos Veter e Vener, com concentração apreciável nas áreas de Falcopinga e Husaby, e não tinham acesso ao mar, devido à presença dos Danos na faixa costeira.
Possíveis referências aos Gautas podem ser encontradas em:
No Heimskringla, Snorri Sturluson descreve diversas batalhas ocorridas durante o entre os gautas e os noruegueses, comandados pelo rei Haroldo. Na Batalha do Fiorde de Hafrs, Haroldo derrotou , lendário rei dos Suíones, que parecia ter a intenção de conquistar a província norueguesa de Viken, depois de ter submetido a Varmlândia, a Gotalândia Ocidental e o Condado de Bohus.
Ele também escreveu sobre a expedição do rei norueguês Haakon, o Bom à Dinamarca e à Gotalândia, na batalha de Haroldo I da Dinamarca contra o Conde Otaro de Gotalândia Oriental (uma província histórica da Suécia situada na antiga nação de Gotalândia) e as batalhas de o Olavo II da Noruega, o Santo, contra os Godos durante a guerra contra Olavo, o Tesoureiro .
Idade Média No início da Idade Média da Suécia (1050-1521), os suíones eram os habitantes do "país de Nordanskog", as terras a norte das florestas assustadoras e impenetráveis de Tiveden e Kolmården, e os gautas eram os habitantes do "país de Sunnanskog", as terras a sul dessa duas florestas. Enquanto os suíones ainda eram pagãos, os gautas já tinham adotado o cristianismo e a cultura feudal da Europa continental. Nesses tempos conturbados, gautas e suíones ainda tinham por vezes os seus respetivos reis. Vários investigadores veem precisamente as lutas dinásticas do início da Idade Média em termos de conflitos com conotações a gautas e suíones. Na batalha de Sparrsätra em 1247, os rebeldes, conotados aos suíones, teriam sido derrotados pelas forças reais, conotadas aos gautas, tendo então os camponeses da Uplândia, conotados aos suíones, "perdido a sua liberdade e isenção de impostos".
Os Gautas viviam, tradicionalmente, divididos em pequenos reinos sem importância, que tinham suas próprias assembleias populares independentes e suas leis. O maior desses distritos era Gotalândia Ocidental, e que era onde deu-se o maior dos redutos ou centros de reuniões dos Gautas, que tinha seu corpo de decisão, formado dentre os cidadãos, renovado a cada ano em Skara. Ao contrário dos Suíones, que se organizaram em centenas, os Gotas se dividiam, a exemplo dos noruegueses e dinamarqueses, em pequenos grupos. Surpreendentemente, ele seria (o nome "Geata") que se tornaria comum no reino sueco. Esta possibilidade é relacionada com o fato de que vários reis suecos na Idade Média, provinha, dos Gautas e que viviam, por vezes, principalmente em Gotalândia.
No , a dinastia sueca Casa de Munsö foi extinta com Emundo, o Velho. Surgiu a Casa de Estenquilo com a eleição de Estenquilo, um Geata, Rei da Suécia, os Gautas tornam-se então um grupo ainda mais influente no reino nascente da Suécia, agora como um reino cristão. No entanto, esta eleição mergulhou o reino em conflitos entre cristãos e pagãos, entre Gautas e Suíones. Os Gautas tendiam cada vez mais para o cristianismo, e os suíones pendiam para o retorno ao paganismo, isto se dava porque o rei cristão da Suécia fugiu para Gotalândia Ocidental, quando ele foi derrubado e substituído no trono por , um rei mais favorável o paganismo nórdico, no início de 1080. Inge I retornou para retomar o trono e reinou até à sua morte por volta de 1100.
Os Gautas não foram tratados como iguais pelos Suíones. Em seu Feitos dos Danos (livro 13), do , o cronista dinamarquês Saxão Gramático relata que não foram levados em conta ao escolher um rei, com apenas os Suíones podendo escolher. Quando a Lei da Gotalândia Ocidental foi transcrita para o papel no , fora recordado que os Gautas haviam aceitado a eleição dos Suíones conforme mencionado na Pedra de Mora.