O Rio do Quarto é um romance de Joaquim Manuel de Macedo, publicado em 1869, mesmo ano de A Luneta Mágica e de As Vítimas-Algozes, sendo o oitavo romance do autor.

O cenário é a antiga freguesia de São João de Itaboraí, terra natal do próprio Macedo, o romance se apresenta como parte de uma série de "pequenos romances" em que o autor se propôs, segundo declara no prefácio a registrar tradições e histórias antigas da sua região natal, "protestando não inventar" e reproduzindo o que ouvira "de um velho, cuja memória era um archivo das tradições da terra do meu berço".

O narrador toma como pretexto a explicação da origem do nome do pequeno rio que banha Itaboraí, o "Rio do Quarto", para contar, em suas palavras, "a historia de um grande crime e do terrível castigo que caiu sobre o homem que o perpetrou". No centro da trama está o embate entre a avareza e a usura do padre Martin e a bondade de sua filha secreta, Luizinha, cujo amor de infância por Millo, um enjeitado criado pela família, é ameaçado pela chegada de um sobrinho ambicioso vindo de Portugal, Manoel Pereira. Millo é retratado como exemplo do homem do campo, sincero e honesto, que não é contaminado pelas máscaras sociais.

Enredo A ação se passa em Itaboraí a partir de 1740, quando um forasteiro solitário, o padre Martin, se estabelece na freguesia com uma menina de poucos anos, Luizinha, que apresenta como afilhada mas que, na verdade, é sua filha. Avarento, e cada vez mais isolado da comunidade por seu comportamento, o padre Martin acolhe também, quando Luizinha adoece gravemente, a curandeira Martha e seu neto Camillo (chamado por todos de "Millo"), que passam a viver definitivamente com a família após salvarem a menina. Luizinha e Millo crescem juntos como irmãos de criação, e a menina, generosa e caridosa, consegue amolecer parcialmente a dureza do pai, que, apesar disso, secretamente estabelece uma sociedade de usura com outro avarento da região, João-Maneta, para satisfazer às escondidas sua paixão pelo ouro.

Antes de morrer, a curandeira Martha faz ao padre Martin uma predição sombria: que ele, avarento e usurário, "morrerá pelo ouro". Temendo que o casamento entre Luizinha e Millo venha a ameaçar sua riqueza, o padre manda vir de Portugal um sobrinho legítimo, Manoel Pereira, na esperança de que este se torne o herdeiro de sua fortuna e, eventualmente, o marido de Luizinha. Manoel, ambicioso e calculista, logo identifica Millo como obstáculo aos seus planos e passa a hostilizá-lo veladamente, ao mesmo tempo em que Luizinha e Millo, ainda inconscientes de seus próprios sentimentos, descobrem-se apaixonados um pelo outro durante a cerimônia de um casamento na igreja da freguesia.

O conflito se agrava quando Manoel, por despeito, mata a tiros a cadela Meduza, que amamentara o cão de estimação de Luizinha e Millo, Relâmpago. Isso acaba provocando o ataque do animal contra o próprio agressor. Paralelamente, o usurário João-Maneta, percebendo em Manoel um aliado em potencial contra a influência de Luizinha sobre o padre Martin, arquiteta com sua sobrinha Fabrícia um plano para consolidar essa aliança por meio de um casamento de conveniência. É nesse quadro de ganância, ciúme e intriga crescentes que se prepara o desenlace trágico que dá origem, segundo a tradição recolhida por Macedo, ao nome do Rio do Quarto.

Análise O historiador Rafael de Almeida Daltro Bosisio propõe que a vasta produção romanesca de Macedo, embora tradicionalmente lida apenas por seu valor de registro de costumes da Corte, revela também um "projeto civilizatório" do autor, identificável a partir dos padrões de civilidade que emergem de suas narrativas, e que dialogam com aspirações da elite política do Segundo Reinado. Nesse quadro, o contraste entre o padre Martin, corrompido pela avareza e pela prática clandestina da usura, vícios que a narrativa liga explicitamente a uma "civilização mal dirigida", e o jovem Millo, apresentado como homem do campo sincero e honesto, incontaminado pelas máscaras sociais da vida urbana, ilustra bem o tipo de contraste moral que, segundo Bosisio, estrutura boa parte da ficção macediana.

O próprio texto de Macedo reforça essa leitura moralizante: o narrador insere reflexões diretas sobre os deveres de caridade que deveriam acompanhar o sacerdócio, contrapondo a avareza do padre Martin, que "pregava no deserto" contra a caridade da própria filha, à natureza pura e generosa de Luizinha, cuja bondade quase consegue vencer, mas não elimina de todo, os vícios do pai. Essa tensão entre a corrupção provocada pelo apego ao dinheiro e a virtude natural, presente tanto em Luizinha quanto em Millo, ecoa preocupações que atravessam outras obras do autor voltadas para a formação moral do leitor, e ajuda a situar O Rio do Quarto dentro do projeto mais amplo de moralização e "civilização" que Bosisio identifica no conjunto da obra de Macedo.

Ligações externas Rosa. O Rio do Quarto. Uma paixão romântica. O veneno das flores. Fac-símile do volume publicado em 1945 pela editora Martins Fontes com quatro romances de Macedo.

Categoria:Romances do Brasil Categoria:Obras de Joaquim Manuel de Macedo