é um conto de fadas clássico, cujas origens podem ser traçadas a fábulas europeias do século X. O nome do conto vem da protagonista, uma menina que usa um capuz vermelho. Publicada pela primeira vez pelo francês Charles Perrault, e depois pelos Irmãos Grimm (da versão mais conhecida), o conto sofreu inúmeras adaptações, mudanças e releituras da cultura popular mundial, sendo considerado o conto de fadas mais popular do mundo ocidental.

História clássica

A versão mais conhecida do conto é a dos Irmãos Grimm, publicada em 1857 em Kinder und Hausmärchen. Nesta narrativa, Chapeuzinho Vermelho é enviada por sua mãe para levar comida à avó doente que mora na floresta. No caminho, ela encontra um lobo que, após descobrir seu destino, corre para a casa da avó, devora a velhinha e se disfarça em seu lugar. Quando Chapeuzinho chega, o famoso diálogo se desenrola ("que orelhas grandes você tem!", "que olhos grandes!", culminando em "que boca grande você tem!"), momento em que o lobo a devora também.

Na versão dos Grimm, um caçador ouve os roncos do lobo, entra na casa e, percebendo o que aconteceu, corta a barriga do animal com tesouras, libertando vivas Chapeuzinho e sua avó. Eles então enchem a barriga do lobo com pedras pesadas, e quando ele acorda e tenta fugir, cai morto devido ao peso.

A versão original dos Grimm inclui ainda uma segunda história, na qual Chapeuzinho, agora mais experiente, encontra outro lobo, mas desta vez consegue enganá-lo com a ajuda de sua avó, fazendo-o cair em uma tina de água fervente onde se afoga.

Origem thumb|right|200px|Charles Perrault, o primeiro a registrar uma versão impressa de Chapeuzinho Vermelho

As origens de Chapeuzinho Vermelho podem ser rastreadas até por de vários países europeus e mais do que provavelmente anteriores ao século XVII, quando o conto adquiriu a forma conhecida atualmente, com a versão dos irmãos Grimm de inspiração. Chapeuzinho Vermelho era contada por camponeses na França, Itália e Alemanha, sempre com um caráter muito popular.

Charles Perrault

A versão impressa mais antiga é de Charles Perrault, Le Petit Chaperon Rouge, retirada do folclore francês foi inserida no livro Contos da Mamãe Gansa. A história de Perrault retrata uma "moça jovem, atraente e bem educada", que ao sair de sua aldeia é enganada pelo lobo, que come a velha e arma uma armadilha para a menina que termina sendo devorada, sem final feliz. Essa versão foi escrita para a corte do rei Luís XIV, no final do século XVII, destinada a um público, que o rei entretinha com festas extravagantes e prostitutas, que pretendia levar uma moral as mulheres para perceberem os avanços de maus pretendentes e sedutores. Um coloquialismo comum da época era dizer que uma menina que perdeu a virgindade tinha "visto o lobo". O autor explica a moral da história ao fim do conto nos seguintes termos:

Os Irmãos Grimm thumb|right|200px|Wilhelm (esquerda) e Jacob Grimm (direita), pintura de 1855 por Elisabeth Jerichau-Baumann

No século XIX duas versões da história foram contadas a Jacob Grimm e ao seu irmão Wilhelm Grimm: a primeira por Jeanette Hassenpflug (1791-1860) e a segunda por Marie Hassenpflug (1788-1856). Os irmãos registram a primeira versão para o corpo principal da história e a segunda em uma sequência do mesmo. A história com o título de Rotkäppchen foi incluído na primeira edição de sua coleção Kinder und Hausmärchen (contos infantis domésticos) (1812). Perrault é quase certamente a fonte do primeiro conto. No entanto, eles modificaram o final, introduzindo o caçador que abre a barriga do lobo e tira a menina e sua avó, colocando pedras no lugar; este final é idêntico ao que há no conto O lobo e os sete cabritinhos, que parece ter influenciado tal mudança. A segunda parte conta como a menina e sua avó prendem e matam um outro lobo, desta vez antecipando seus movimentos baseados em sua experiência anterior. A menina não deixou o caminho quando o lobo falou com ela, sua avó trancou a porta para mantê-lo fora, e quando o lobo se escondia, a avó manda Chapeuzinho colocar no fogo da lareira uma panela com água fervente. O cheiro que sai da chaminé atrai o lobo para baixo, e ele se afoga; O desfecho desta segunda parte também possui semelhança com o de outro conto, o dos Três Porquinhos. Os irmãos revisaram novamente a história em edições posteriores até alcançar a versão final, acima mencionada, e publicá-la na edição de 1857 de seu trabalho.

Outros autores e variantes

As versões contadas da história da Chapeuzinho Vermelho variam muito, com a adição ou a diminuição de elementos de acordo com cada autor. Em algumas versões, é acrescido o aviso da mãe de que Chapeuzinho pegue o caminho da vila para chegar à casa da avó e de não falar com estranhos, retratando a desobediência da garota em ir pelo bosque, que seria o caminho mais curto, e em falar com o Lobo-Mau na primeira oportunidade. Este fato atribui mais uma moral ao conto, que é o de dar atenção aos conselhos dos pais. Também em releituras mais leves e adaptadas à reação sensível de uma criança, a avó e a Chapeuzinho não chegam a serem devoradas pelo lobo, já que a avó é apenas escondida no armário pelo vilão, enquanto Chapeuzinho consegue fugir antes que ele a alcance. Com a chegada do politicamente correto, algumas versões nem mesmo incluem uma punição para o lobo, deixando no lugar a redenção do antagonista ou mesmo uma fuga sem volta.

Andrew Lang incluiu uma variante como "A Verdadeira História do Chapeuzinho Dourado" em O Livro Vermelho de fadas, derivado da obra de Charles Marelles, em Contos de Charles Marelles. Esta variante dizia explicitamente que a história havia sido mal contada. A menina foi salva, mas não pelo caçador, quando o lobo tentou comê-la, sua boca foi queimada pelo capuz de ouro que ela usava, que ficou encantado.

James N. Barker escreveu uma variação de Chapeuzinho Vermelho em 1827 como uma história de cerca de 1000 palavras. Mais tarde foi reimpresso em 1858 em um livro de histórias coletadas editada por William E Burton, chamado de Enciclopédia de Inteligência e Humor. A reimpressão também apresenta uma gravura em madeira de um lobo vestido de joelhos segurando a mão de Chapeuzinho Vermelho.

No século XX, a interpretação do conto foi muito popular, com muitas novas versões sendo escrito e traduzidas, especialmente na esteira da análise freudiana, desconstrução e teoria crítica feminista. Esta tendência também levou a uma série de textos acadêmicos sendo escrito que se concentram em Chapeuzinho Vermelho, incluindo obras de Alan Dundes e Zipes Jack.

No Brasil, é comum relacionar o conto a duas músicas de sucesso do cantor Braguinha feitas especialmente para a historinha contada para crianças: Pela Estrada a Fora e Lobo Mau.

Depois, quando a história já tinha um forte caráter infantil, o século XXI trouxe ainda novas versões: a irreverência e o deboche em Dalton Trevisan, os desenhos de Maurício de Sousa atraindo o público mais infantil, Neil Gaiman impressionando seus leitores ao expôr uma Capuchinho/Chapeuzinho indiferente a morte da vó pelo lobo, e Deu a louca na Chapeuzinho, filme de 2005 com paródia dos personagens.

Guimarães Rosa, em Fita verde no cabelo, traz uma versão para adolescentes. Ela vai desde o fluxo das fantasias de uma jovem até o momento em que se defronta com a morte de sua avó, sendo desta forma, obrigada a enfrentar seus medos, angústias e solidão. Chico Buarque faz uma paródia, Chapeuzinho Amarelo, para o público pré-adolescente.

Raphael Draccón, em sua série Dragões de Éter, apresenta novamente a fábula da Chapeuzinho Vermelho, mas dessa vez o lobo é um animal marcado por uma bruxa para matá-la, pois esta garota, que tem seu capuz marcado pelo sangue do lobo, é um jovem a ser iniciada na magia branca, da qual sua mãe e sua avó, que dessa vez não foi morta, também são.

Em 2005, Ivone Gomes de Assis publicou Bonezinho Vermelho e a Internet no século XXI, uma releitura parodiada, que traz as tendências da mídia virtual. Nesta obra ilustrada, a vovozinha é uma hacker, que se disfarça até nas preferências do cotidiano, afirmando não gostar de nada que é tecnologia. A figura "feia" da vovó tenta quebrar o mito que muitos carregam ao pensar que a voz e a escrita, suave e gostosa, dos participantes de chats, sempre pertencem a pessoas bonitas e cheias de boa intenção. É uma obra bilingue, para crianças e adultos.

Hilda Hilst, também contribui no estudo deste conto, com a divertida paródia A Chapéu, publicada na obra Bufólicas. A autora recria uma Chapeuzinho cafetina do Lobo.

Foi lançado em 1984 o filme de drama e fantasia The Company of Wolves (A Companhia dos Lobos), que retrata a maturidade da mulher e sua vida sexual numa metáfora do conto de Chapeuzinho Vermelho. No filme, Rosaleen é uma jovem e ingênua aldeã que ouve de sua avó histórias sobre os terríveis lobos que vivem na floresta e se disfarçam de homens para seduzir e devorar garotinhas.

Em março de 2011, a Warner Bros. lançou o filme Red Riding Hood (A Garota da Capa Vermelha no Brasil e A Rapariga do Capuz Vermelho em Portugal), com direção de Catherine Hardwicke e roteiro por David Leslie Johnson. Nesta versão sombria do conto, um lobisomem assombra um pequeno vilarejo no qual vive a garota Valerie (interpretada por Amanda Seyfried), que deve escolher entre o casamento prometido pela sua mãe e a fuga planejada com seu amor de infância, ao mesmo tempo que desconfia de quem possa ser o lobo.

No seriado americano Grimm, baseado nos contos dos Irmãos Grimm, os "blutbad" são criaturas semelhantes a lobisomens que vivem disfarçadas de humanos. Apesar de alguns serem pacíficos e civilizados, alimentam-se de carne humana por natureza e não resistem à cor vermelha, que libera seus instintos.

Já na série Once Upon a Time, que retrata releituras de contos de fadas clássicos, Chapeuzinho é uma jovem que mora com sua avó numa aldeia aterrorizada por um terrível lobo que ataca em noites de lua cheia. Mais tarde ela descobre que assume a forma do lobo sem se lembrar depois por causa de uma maldição em sua família, sendo que sua avó a protege dos caçadores fazendo-a vestir uma capa vermelha mágica que serve para repelir a maldição. Depois de matar seu próprio amado quando em forma de lobo, ela decide fugir para sempre.

A história também é um dos contos de fadas que aparece no filme musical Into the Woods, de 2014. Aqui, Chapeuzinho é uma menina gulosa, salva do Lobo Mau (interpretado por Johnny Depp) graças ao protagonista, que deve quebrar um feitiço. Em retribuição, ela lhe oferece sua capa vermelha como o sangue, um dos itens solicitados pela Bruxa Má (Meryl Streep) para desmanchar a maldição. Interpretações thumb|right|200px|A menina na cama, com o Lobo

Além da advertência ostensiva sobre falar com estranhos, há muitas interpretações do conto de fadas clássicos, muitos deles de cunho sexual.

Influência cultural e advertências sociais

O conto de Chapeuzinho Vermelho estabeleceu-se como um dos arquétipos culturais mais duradouros sobre perigo e predação na tradição oral europeia. Por séculos, a narrativa serviu como ferramenta pedagógica para advertir crianças, especialmente meninas, sobre os riscos de confiar em estranhos que aparentam ser inofensivos.

A metáfora do "lobo em pele de cordeiro" ou do "lobo disfarçado" tornou-se expressão comum em múltiplas culturas para descrever indivíduos que mascaram suas verdadeiras intenções maliciosas por trás de uma fachada amigável e confiável. Esta construção simbólica influenciou profundamente a percepção social sobre predadores sexuais e outros tipos de agressores que utilizam táticas de sedução e manipulação.