Homem de Neandertal (Homo neanderthalensis) é uma espécie irmã de Homo sapiens, com a qual o homem moderno conviveu. Surgiu durante o Pleistoceno Médio na Europa e no Médio Oriente há cerca de 400 mil anos e extinguiu-se há 28 mil anos, na Península Ibérica. As razões para a extinção dos neandertais ainda são debatidas, com diversas possíveis causas levantadas para este fenômeno. As teorias mais aceitas apontam para fatores demográficos como pequeno tamanho populacional e endocruzamento, cruzamento e assimilação por humanos modernos, mudanças climáticas, doenças e a combinação desses.
O fóssil mais antigo possivelmente pertencente à espécie data de há 430 mil anos. Evidências genéticas indicam que o último ancestral comum (LCA do inglês "Last common ancestor") entre H. neanderthalensis e H. sapiens viveu entre entre 550 e 765 mil anos atrás na África, e seria um representante de Homo heidelbergensis. Ambas as espécies conviveram após à migração de H. sapiens para a Eurásia, com o primeiro encontro das duas espécies tendo ocorrido há cerca de 80 mil anos no oriente médio, onde hoje se encontra Israel.
H. neandertalensis possui grandes porções de seu DNA similares às sequências dos humanos modernos. Além disso, o sequenciamento de DNA nuclear neandertal realizado desde 2006 e publicado a partir de 2010 mostrou um antigo “fluxo gênico” entre os homens neandertais e os homens modernos da Eurásia. Os humanos não africanos atuais têm entre 1,8 e 2,6% dos genes neandertais, adquiridos por hibridação há cerca de 50 mil anos, logo após sua saída da África, e mais de 30% do genoma neandertal sobrevive em toda a população atual em diferentes locais do nosso genoma. Acredita-se também que uma pequena parte desses genes adquiridos por hibridização que estão amplamente presentes em humanos tenham sido selecionados na nossa espécie por trazerem vantagens adaptativas.
Apesar da similaridade genética entre as duas espécies, e da ocorrência de hibridização entre elas, H. neanderthalensis e H. sapiens são espécies distintas que apresentavam diferenças morfológicas significativas. Quando comparados com humanos modernos, os neandertais apresentavam corpos mais robustos com mais reservas de gordura e maiores narizes para o aquecimento do ar, ambas características associadas a adaptação ao clima frio(a fixação dessas características, no entanto, poderia ter sido resultado de deriva genética). A capacidade craniana de homens e mulheres neandertais era em média de 1600 cm3 e 1300 cm3 respectivamente, o que é consideravelmente maior do que a média de 1400 e 1200 cm3 de humanos modernos. Além disso, o crânio de neandertais era mais alongado e o cérebro possuía lobos parietais e um cerebelo menor, mas com regiões temporais, occipitais e orbitofrontais maiores. Progressos relativos da arqueologia pré-histórica e da paleoantropologia, posteriores à década de 1960, descrevem-no como um ser de considerável cultura, mas eventualmente subestimada por alguns autores.Os neandertais poderão ter sido os primeiros artistas das cavernas – artigo de Ana Gershenfeld (Arte Paleolítica) no jornal Público, Ciência, de 15 de junho de 2012
A cultura material e tecnológica dos neandertais era sofisticada em vários aspectos. Os neandertais produziam artefatos de pedra-lascada pertencentes a cultura musteriense, por meio da técnica de levallois. Além de ferramentas, também usavam o fogo, eram caçadores de topo e já cuidariam dos doentes. Há inclusive, quem neles reconheça capacidades estéticas e espirituais semelhantes às do homem atual, como as sugeridas por pingentes, pinturas, gravuras e possíveis sepulturas.
Histórico Descoberta
Os primeiros achados de restos do homem de Neanderthal ocorreram nas grutas de Engis, na atual Bélgica (1829), por Philippe-Charles Schmerling, e depois na pedreira de Forbes, em Gibraltar (1848)GROENEN, M. Pour une histoire de la préhistoire, Éd. J. Millon, (1994) - ambos anteriores à descoberta do espécime tipo, em uma mina de calcário situada no Neanderthal (em português, 'vale de Neander'), que fica entre as cidades de Erkrath e Mettmann, nas proximidades de Düsseldorf e Wuppertal, na Alemanha. A descoberta do espécime de Neanderthal ocorreu em agosto de 1856, três anos antes da publicação de A origem das espécies, de Charles Darwin.
O fóssil de Forbes foi descoberto na pequena gruta de uma pedreira. Esta descoberta é hoje considerada como o marco fundador da paleoantropologia. Pouco tempo depois, foram aí encontrados vestígios antropológicos de cerca de 500 indivíduos, sobretudo ossos, alguns dos quais bastante incompletos. O espécime de Forbes, classificado como Neandertal 1, era constituído por uma calota craniana, dois fémures, três ossos do braço direito, dois do esquerdo, parte do ilíaco esquerdo e fragmentos de uma omoplata e costelas. O achado foi atribuído pelos operários da pedreira a despojos de ursos e entregue ao naturalista amador Johann Carl Fuhlrott,Johann Carl Fuhlrott, Google books professor em Elberfeld. Impressionado pelo crânio baixo e espesso, pelas arcadas supraciliares proeminentes, membros arqueados e curtos, Fuhlrott deduziu que deveriam ter pertencido a um ser humano muito primitivo. Levou os fósseis ao anatomista Hermann SchaaffhausenHermann Schaaffhausen (1816-1893) – biografia (en) por Matthew R. Goodrum em Online Biographical Dictionary of the History of PaleoanthropologyO PÉ DO NEANDERTAL – artigo de Leonardo de Castro Farah e, em 1857, a descoberta foi anunciada por ambos. Em 1858, Schaaffhausen descrevia-o como tendo pertencido "às raças humanas mais antigas", que datou em cerca de alguns milénios antes, o que daria origem a intensa polémica, já que a Teoria da Evolução ainda estava longe de ser aceita nos meios académicos.
Nome e classificação
O topónimo Neandertal, na denominação da espécie (ou subespécie), é alusivo a Joachim Neander (1650-1680), teólogo pietista que tinha por hábito fazer pregações entre as cidades de Erkrath e Mettmann, nas proximidades de Düsseldorf e Wuppertal, na atual Alemanha.
A expressão "homem de Neandertal" foi cunhada em 1863 pelo anatomista irlandês William King. Durante vários anos, houve um intenso debate científico quanto à denominação mais adequada, Homo neanderthalensis ou Homo sapiens neanderthalensis. Enquanto a primeira coloca os neandertais como uma espécie separada de H. sapiens dentro do gênero Homo, a segunda designação implicava os neandertais como uma subespécie do Homo sapiens (junto com Homo sapiens sapiens) ambos pertencendo à linhagem humana. Os estudos genéticos sobre o cruzamento entre H. sapiens e H. neanderthalensis levaram à discussão da possibilidade desse como uma subespécie sob a perspectiva do conceito biológico de espécie. Esse, no entanto, é um conceito limitado que ignora as diversas evidências de diferenciação morfológica e genética entre neandertais e humanos modernos.
Ambiente No que diz respeito ao ambiente em que o homem de Neandertal viveu, tem-se que, durante o período de existência nas regiões da Europa e Ásia ocidental, os neandertais ocuparam ambientes periglaciais severos, os quais os levaram a experienciar condições climáticas inéditas, marcadas por temperaturas baixíssimas.
Tais condições, inclusive, podem ser vistas como o cenário adaptativo que deu origem a muitas de suas características físicas como membros mais curtos e cérebro maior, favorecendo uma estrutura corpórea adaptada para reter calor e, portanto, fundamental para a sobrevivência no frio.
Durante o Pleistoceno Superior, há cerca de 50 mil a 30 mil anos, iniciaram-se algumas mudanças abruptas e severas no clima da Europa. Bank e colaboradores apontam que as diminuições nas temperaturas da superfície do Atlântico Norte levaram a mudanças bruscas na composição e estrutura da vegetação.
No geral, pode-se dizer que tais mudanças abruptas foram responsáveis por transformar o que antes eram ambientes de floresta em ambientes abertos, em sua maioria dominados por vegetação herbácea. Entre os principais cenários hipotéticos nessas condições, tem-se o Mediterrâneo ocidental tomado por condições extremamente frias e secas, apresentando vegetação semi-desértica há entre 40 mil e 38 mil anos. Já entre 38 mil e 36 mil anos antes do presente, condições suaves e úmidas se instalaram ao longo das margens do Atlântico, resultando no desenvolvimento de florestas decíduas; enquanto que nas regiões do Mediterrâneo ocidental os verões quentes e secos, em conjunto aos invernos úmidos, criaram uma floresta aberta.
As rápidas transições entre clima e distribuição da vegetação afetaram também a distribuição e adaptação de mamíferos, incluindo as populações de hominídeos.
Fósseis mostram que, no fim, os poucos que restavam sobreviviam em lugares como Gibraltar. Dentro da caverna de Gorham, existem muitos metros de camadas de sedimentos. Cada camada representa um momento diferente no tempo geológico. Restos fósseis descobertos nessas camadas sugerem que os neandertais de Gibraltar ocuparam a caverna por mais de 100 mil anos. Os neandertais podem ter vivido na região até há cerca de 24 mil a 33 mil anos, de acordo com a datação de uma das camadas. Isso indica essa área como um dos últimos lugares conhecidos habitados por neandertais. A caverna de Gorham era de certa maneira uma cidade dos neandertais. Este era o lugar com a maior concentração de neandertais da Europa.
Coexistência com o Homo sapiens
thumb|upright|esquerda|Comparação dos crânios do Homo sapiens (esquerda) e do Homo neanderthalensis (direita). Existem dúvidas quanto à forma como decorreu a coexistência dos Homo sapiens com os Homo neanderthalensis em locais como no sul da Península Ibérica ou na Dalmácia. Há quem defenda que a baixa densidade populacional da época ou mesmo um certo tipo de segregação social pudesse ter garantido que as duas espécies não tivessem nem mesmo estabelecido contato. No entanto, ao longo dos últimos anos, muitos outros pesquisadores começaram a apontar indícios de que esses dois grupos não só teriam coexistido por certos períodos de tempo em alguns locais, mas também que os mesmos teriam se reproduzido sexualmente.
Dados arqueológicos sugerem que os neandertais e os primeiros humanos anatomicamente modernos podem ter se sobreposto inicialmente no Oriente Médio, e mais tarde pela Europa. Tendo em vista que apenas evidências de coexistência não seriam suficientes para elucidar muitas questões sobre as relações entre H. neanderthalensis e H. sapiens, a partir de resquícios de sequências genéticas encontradas em fósseis pertencentes aos ancestrais dos seres humanos modernos, pesquisadores concluíram que denisovanos, neandertais e os seres humanos modernos passaram por uma miscigenação genética durante a era glacial na Europa e na Ásia. Os genes de ambas as espécies humanas arcaicas estão presentes em muitas pessoas hoje em dia.thumb|direita|250px|Distribuição geográfica e temporal do género Homo, sugerindo um cruzamento entre as espécies sapiens e neanderthalensis.Revista Época - Há um neandertal dentro de nós. Acessado em 26 de Abril de 2011.Através de análises genéticas é possível encontrar resquícios de sequências de DNA, que seriam correspondentes a de neandertais, presentes em seres humanos vivos nos dias de hoje. Esses resquícios podem compreender até 2% do genoma de uma pessoa, e estima-se que a junção de todos esses resquícios de DNA poderia corresponder a até 70% do que seria o genoma dos neandertais em sua totalidade.
Estudos publicados em março de 2016 indicam que o Homem Moderno se cruzou de fato com outros hominídeos, incluindo neandertais, em várias ocasiões. Um trabalho publicado em 2018 revelou que um pedaço de osso desenterrado de uma caverna em Denisova, na Rússia, pertencia a uma adolescente morta há mais de 50 mil anos. Evidências por similaridade genética indicam que sua mãe era neandertal, e seu pai era denisovano.