Os Gonçalves da Câmara são uma família de origem madeirense que desde o século XV até à extinção do regime das donatarias manteve o lugar hereditário de capitão do donatário na ilha de São Miguel, Açores.

Esta família recebeu o título de Condes de Vila Franca (1583), substituído pelo de Condes da Ribeira Grande (1662), quando o 3.º conde de Vila Franca foi condenado por sodomia a prisão perpétua e confisco dos seus bens.

Os Gonçalves da Câmara são descendentes directos de João Gonçalves Zarco, um dos pioneiros do povoamento da Madeira.

As origens A 4 de Julho de 1460, o rei D. Afonso V concedeu a João Gonçalves Zarco, um dos povoadores iniciais da ilha da Madeira e aí primeiro capitão do donatário, o título de cavaleiro da Casa Real, com direito a brasão, e mudou o seu nome para João Gonçalves da Câmara de Lobos, numa alusão ao nome do local onde tomara assento. Contudo, o nome de família "Gonçalves da Câmara de Lobos" não durou como tal. Os filhos de Zarco usaram variantes tais como "Gonçalves da Câmara" ou "Rodrigues da Câmara", sendo "Rodrigues" (filho de Rui ou Rodrigo) o patronímico derivado da descendência de seu filho Rui Gonçalves da Câmara.

Enquanto João Gonçalves Zarco se instalou na sua capitania, o primeiro capitão do donatário dos Açores, frei Gonçalo Velho, nunca chegou a residir nas ilhas. Foi sucedido, nas ilhas de Santa Maria e de São Miguel, então escassamente povoadas, por seu sobrinho João Soares de Albergaria, o qual se fixou na primeira. Contudo, por volta de 1473-1474, face à doença de sua esposa, deslocou-se para a Madeira à procura de melhores condições de vida. Aí foi recebido pela família de João Gonçalves da Câmara, que havia sucedido a seu pai na capitania madeirense.

Dessa estadia na Madeira resultou a decisão de vender a capitania da ilha de São Miguel, que detinha em conjunto com a de Santa Maria, a Rui Gonçalves da Câmara, irmão do capitão madeirense, que já antes tinha manifestado interesse em descobrir e povoar novas terras (tinha obtido alvará real para tal no ano anterior). A venda terá rendido dois mil cruzados em dinheiro de contado e quatro mil arrobas de açúcar.

Por carta de 10 de Março de 1474, a Infanta D. Beatriz, como curadora do donatário, o Infante D. Diogo, Duque de Viseu, seu filho menor, confirmou a venda e fixou, naquele que é o primeiro regime jurídico conhecido para a administração das ilhas açorianas, as regras a seguir no governo da capitania.

A partir deste ano de 1474 o cargo de capitão do donatário da capitania da ilha São Miguel ficou a cargo da família Gonçalves da Câmara.

Os capitães do donatário da família Gonçalves da Câmara A partir da confirmação da capitania feita a Rui Gonçalves da Câmara, a família passou a exercer o cargo, mantendo, ao contrário do que aconteceu noutras ilhas (a Terceira foi dividida em duas capitanias), indiviso o seu domínio sobre a maior ilha do arquipélago, a de São Miguel. A sucessão de capitães do donatário até à elevação da família à dignidade de conde foi a seguinte: Rui Gonçalves da Câmara — Confirmado na capitania por carta de 10 de Março de 1474, foi o 3.º capitão do donatário na ilha São Miguel e o 1.º da família Gonçalves da Câmara. Exerceu as funções até ao seu falecimento, em Vila Franca do Campo, a 27 de Novembro de 1497. Nos seus 21 anos de mandato a ilha povoou-se consideravelmente e as povoações principais receberam foral de vila; João Rodrigues da Câmara — Sucedeu a seu pai na capitania, sendo o seu 4.º capitão do donatário. Era casado com D. Inês da Câmara, dama ao serviço da Infanta D. Beatriz, e tinha bom relacionamento na corte portuguesa. Prosseguiu a política de atracção de povoadores para as ilhas. Faleceu precocemente em Lisboa no ano de 1502, deixando a viúva na ilha de São Miguel com quatro filhos menores. O filho primogénito estava e Lisboa a completar a sua educação, e o filho segundo era noviço em Alcobaça, o que mostra o crescente entrosamento da família com a corte portuguesa. O governo da capitania foi assumido interinamente (até 1504) por Pedro Rodrigues da Câmara, irmão do capitão falecido. Em 1503, o rei D. Manuel I nomeou um corregedor para os Açores, com competências judiciais, fiscais e de inspecção sobre as autarquias, acabando assim com o poder quase absoluto dos capitães do donatário; Rui Gonçalves da Câmara — Atingida a maioridade (1504), sucedeu a seu pai na capitania, como 5.º capitão do donatário, o filho primogénito que se encontrava na corte. Era casado com D. Filipa Coutinho, da família dos condes de Marialva. Pouco depois do novo capitão chegar a São Miguel, a sua mãe e irmãos desaparecem no mar durante uma viagem para Lisboa (o navio perdeu-se sem deixar rasto). A presença do corregedor, novo cargo criado no ano anterior à sua posse, veio desencadear um grave conflito de competências, envolvendo o capitão, o contador da fazenda real e o ouvidor eclesiástico, tendo-se este último arrogado competências que excediam em muito a tutela sobre o clero, já que conhecia de matérias civis e se considerava isento de obediência às restantes autoridades. Este conflito, e outros mais, chegaram ao conhecimento real, tendo o rei chamado o capitão à corte para que se explicasse (1510), despachando-o depois para as praças do Norte de África. Julgado o caso, foi o capitão destituído, ficando em grave situação financeira. A questão só foi resolvida, 5 anos depois, pelo empenho de D. Jorge de Melo, monteiro-mor, que em troca da promessa de casamento do filho primogénito do capitão com uma sua filha, moveu influências junto do rei. Por carta régia de 22 de Agosto de 1515 foi o capitão reconduzido, regressando a São Miguel. A situação económica da capitania estava em franco progresso quando, a 22 de Outubro de 1522, um forte terramoto destruiu boa parte das povoações da ilha. Vila Franca do Campo, a capital da ilha, foi soterrada, nela perecendo o filho primogénito e a maior parte da família do capitão. Por estar na Lagoa, o capitão, a esposa e um seu filho sobreviveram. Ao terramoto seguiu-se a peste, causando devastação geral na ilha. Morto o filho primogénito, cabia agora ao filho sobrevivente, Manuel da Câmara, cumprir a promessa de casamento feita pelo pai a D. Joana de Melo, filha do monteiro-mor. Ora a ideia não agradava o moço, tendo este aproveitado um galeão, que estava preparado para o levar a Lisboa, para fugir para a Madeira e, dali, para o Norte de África. O pai mandou-o buscar, mas só por intimação do rei foi obrigado a comparecer na corte, sendo aí obrigado a casar. O capitão, com graves problemas financeiros e desgostos pessoais, faleceu em Ponta Delgada a 20 de Outubro de 1535; Manuel da Câmara — Foi o 6.º capitão do donatário. Depois de obrigado a casar em Lisboa, ao receber notícia da morte do pai, parte para São Miguel (1535), deixando a esposa na Corte. Permanece na ilha até 1540, regressando nesse ano a Lisboa, de onde parte novamente para o Norte de África. Ali distingue-se em combate com os mouros, sendo feito prisioneiro. Depois de 2 anos de cativeiro, pagou o seu próprio resgate, regressando a Lisboa e sendo compensado com o aumento dos seus privilégios na capitania. Permaneceu na corte até 1552, ano em que, face à ameaça constante dos corsários franceses, as câmaras da ilha exigem a presença do capitão. Por ordem do rei, parte para São Miguel, onde permanece até 1554, procedendo a trabalhos de fortificação (é da época o início da construção do Castelo de São Brás, em Ponta Delgada). Na sequência das erupções vulcânicas de 1563, volta a São Miguel em 1565, ali permanecendo até 1573. Ao regressar, deixa no governo da capitania o seu filho Rui Gonçalves da Câmara, o qual pouco depois também parte para Lisboa com o fim de acompanhar o rei D. Sebastião na sua fatídica expedição a África, onde não chega a participar. Permanecendo o capitão em Lisboa, o filho é obrigado, novamente por ordem real, a regressar a São Miguel em 1576. O capitão falece em Lisboa a 13 de Março de 1578; Rui Gonçalves da Câmara — Foi o 7.º capitão do donatário e o 1.º Conde de Vila Franca. Falecido seu pai, e feitas em Ponta Delgada exéquias quase reais, o novo capitão parte para Lisboa. Ao chegar à corte recebe a notícia do desastre de Alcácer Quibir, ocorrido a 4 de Agosto de 1578, e da perda do rei. Desencadeada a crise, o capitão pretende permanecer na corte. Contudo, recebe ordem do cardeal-rei D. Henrique de Portugal para partir para a sua capitania, embarcando-se em Setembro de 1579. Mas, percorridas algumas léguas, resolve regressar a Lisboa, alegando problemas de saúde da esposa, obtendo permissão real para adiar a viagem até Abril seguinte. Morto o rei, (a 31 de Janeiro de 1580), Rui Gonçalves da Câmara consegue mais uma vez evitar a vinda para os Açores. Desencadeada a crise sucessória, o capitão permanece em Lisboa, tomando o partido de Filipe II de Espanha. Enquanto na Terceira e nas outras ilhas o Prior do Crato é entusiasticamente aclamado, em São Miguel a aclamação é feita tibiamente, sendo clara a inclinação da nobreza a favor do pretendente castelhano. A vinda para os Açores (1582) do rei D. António I altera temporariamente esta situação, mas a derrota que as forças luso-francesas comandadas por Filippo Strozzi sofrem na Batalha Naval de Vila Franca, no dia 26 de Julho de 1582, coloca São Miguel definitivamente na posse de Filipe II. Por ordem real, o capitão do donatário Rui Gonçalves da Câmara embarca na esquadra castelhana encarregada de proceder à ocupação dos Açores, que zarpou de Lisboa a 23 de Junho de 1583, não sem que antes, por carta régia de 17 de Junho de 1583, fosse feito conde de Vila Franca em prémio da sua colaboração com o partido filipino.

Os condes de Vila Franca A partir da elevação à dignidade de conde de Vila Franca, só por uma vida, e da sua vinda para São Miguel com a armada que vinha proceder à conquista da Terceira, o 7.º capitão do donatário reiniciou a sua governação da capitania, fixando-se agora na cidade de Ponta Delgada e mantendo estreita colaboração com as forças de ocupação castelhanas. Para melhor se compreender a evolução da família, retoma-se o resumo cronológico dos acontecimentos e da sucessão na capitania: D. Rui Gonçalves da Câmara — Continuando o seu governo como 7.º capitão do donatário, o agora 1.º Conde de Vila Franca, teve um envolvimento profundo na preparação da defesa da ilha no período conturbado que se seguiu à queda da Terceira. Depois de 5 anos de ausência, a 7 de Julho de 1583, o novel conde desembarcava em Vila Franca do Campo, sendo recebido com as devidas honras. Contudo, a sua ligação a Castela e a recente elevação a conde não o faziam popular entre o povo: a câmara de Vila Franca foi ao ponto de opor embargos à concessão do título, alegando que violava os seus antigos privilégios. Os embargos foram rejeitados, mas demonstram o sentimento entre o povo. Reassumindo as suas funções, instalou-se em Ponta Delgada, dedicando o seu tempo à defesa da ilha. De facto, no período em que esteve em São Miguel a ilha foi ameaçada por Francis Drake e por múltiplos corsários ingleses e franceses. A 12 de Agosto de 1590 partiu para Lisboa, deixando como ouvidor na ilha Gonçalo Vaz Coutinho. Durante o governo de Coutinho, a ilha voltou a ser atacada, desta vez pela esquadra do Conde de Essex, que desembarcou em vários pontos e causou grandes danos. Em 1598 o capitão reassume as suas funções, falecendo por volta de 1601.