Richard Cobden (Dunford, Sussex, 3 de junho de 1804 – Londres, 2 de abril de 1865) foi um industrial, economista e político britânico, membro radical do Partido Liberal, aliado a John Bright na oposição organizada contra as Corn Laws e negociador do Tratado Cobden–Chevalier.

Primeiros anos

Cobden nasceu na fazenda Dunford, em Heyshott, próxima de Midhurst em West Sussex na Inglaterra. A família dele vivera nas cercanias por muitas gerações, trabalhando no comércio e na agricultura. Seu avô (Richard Cobden, falecido em 1809) foi dono do Moinho Bex em Heyshott e produtor de malte, um próspero e enérgico homem que serviu como oficial de custódia e chefe da magistratura local, atuando em muitos assuntos legais do condado. O pai, William Cobden, saiu do negócio do malte, foi agricultor e vendeu Dunford. Era um negociante pobre quando morreu, enquanto Richard ainda era criança. A mãe era Millicient Cobden (antes Amber). Cobden foi o quarto de onze irmãos.John Morley, The Life of Richard Cobden (Londres: T. Fisher Unwin, 1905), p. 2. Em 1814 a fazenda foi vendida e eles se tornaram colonos em West Meon, próximo de Alton em Hampshire.Morley, p. 3.

Cobden se matriculou numa escola particular (dame school) e depois na Bowes Hall School em Teesdale, Yorkshire. Aos quinze anos de idade ele foi para Londres trabalhar nos armazens do tio Richard Ware Cole e se tornou um vendedor ambulante de musselina e chita. Seus primos, percebendo sua paixão pelos livros, avisaram que isso poderia prejudicar os negócios.Morley, p. 5. Cobden não lhes deu atenção e usou bastante a biblioteca da London Institution. Quando o tio faliu, ele se associou a Partridge & Price, em Eastcheap, um dos ex-sócios de seu tio.

Em 1828, Cobden fundou seu próprio negócio com Sheriff e Gillet, usando parte do capital de John Lewis. Ele atuou como o representante londrino para Fort Brothers de Manchester, tecelagem de chita. Em 1831, os sócios tentaram alugar uma fábrica da Fort em Sabden, próximo de Clitheroe. Faltou capital, contudo. Cobden e e os parceiros pressionaram Fort até que consentissem que retivessem parte substancial dos lucros. A nova firma prosperou e mais tarde inaugurou três novos estabelecimentos — uma tecelagem em Sabden e escritórios de vendas em Londres e Manchester. O escritório de Manchester mais tarde se tornou a sede dos negócios de Cobden que ali se mudou em 1832, iniciando uma longa associação com aquela cidade. Ele morou numa casa em Quay Street, atualmente conhecida como "Cobden House". Uma placa comemorativa foi colocada na residência. Seu sucesso empresarial foi rápido e duradouro e a Tecelagem Cobden ficou muito conhecida pela qualidade dos produtos.

Cobden devotou todas as suas energias aos negócios e ficou muito rico. Nos primeiros anos ele ganhava de 8 000 a 10 000 libras anuais. Contudo, manteve o hábito de estudar e pesquisar. Escrevendo sob o pseudônimo de Libra, publicou muitas cartas no jornal Manchester Times, discutindo questões comerciais e econômicas.

Primeiras publicações

Em 1835, ele publicou seu primeiro panfleto chamado England, Ireland and America, by a Manchester Manufacturer. Cobden advogou os princípios da paz, não-intervenção, contenção e livre comércio, ideia que ele permanecia fiel. Viajou às suas custas aos Estados Unidos, chegando em Nova Iorque em 7 de junho de 1835. Dedicou três meses à viagem, visitando rapidamente os estados litorâneos e porções adjacentes do Canadá, quando coletou muitas informações a respeito das condições, recursos e perspectivas da nação. Outro escrito apareceu no fim de 1836, com o título de Rússia. Ele combateu a chamada "Russofobia" difundida por David Urquhart. Incluia também ousadas opiniões em relação a política externa britânica baseada no "Equilíbrio de poder" e que causava a necessidade de maiores armamentos para proteção do comércio.

Problemas de saúde o obrigaram a deixar a Inglaterra por muitos meses e no fim de 1836 e início de 1837 viajou para a Espanha, Turquia e Egito. Durante a visita a nação egípcia ele conversou com Mehemet Ali, que se dizia um monarca reformista e que não lhe causou boa impressão. Voltou para a Inglaterra em abril de 1837.

Primeiros passos na Política

200px|miniatura|direita|Estátua de Richard Cobden na frente da Igreja de Santa Ana em Manchester

Cobden aos poucos se tornaria uma figura influente na política e no círculo intelectual de Manchester. Ele liderou a fundação do Ateneu de Manchester e discursou na inauguração. Foi membro da Câmara de Comércio e participou da campanha para a autonomia política da cidade, acabando sendo eleito um dos primeiros vereadores. Outro interesse inicial foi a causa da educação popular. Algumas de suas primeiras palestras públicas foram em reuniões organizadas por ele em Manchester, Salford, Bolton, Rochdale e outros locais próximos, ocasiões em que defendia a fundação de mais escolas. Nessa época ele conheceu pessoalmente John Bright. Em 1837, morreu Guilherme IV do Reino Unido e ascendeu ao trono a Rainha Vitória que organizou eleições gerais. Cobden foi candidato por Stockport mas foi derrotado.

Leis dos Grãos

Em 1838, uma associação foi fundada em Manchester para se opor às Corn Laws, que, por sugestão de Cobden, transformou-se mais tarde em associação nacional com o título de Liga Anti-Lei dos Grãos. Durante sete anos, Cobden foi o líder dos discursos e maior entusiasta. Não tinha receio de desafiar os interesses dos grandes fazendeiros ou confrontar os Cartistas, liderados por Feargus O'Connor.

Em 1841, com Sir Robert Peel tendo derrotado William Lamb (2º Visconde de Melbourne) na Câmara dos Comuns e se tornado o novo Primeiro-Ministro, Cobden ganhou as eleições gerais e entrou para o Parlamento como representante de Stockport. Seus adversários esperavam que fracassasse mas quando da assembleia inciada em 19 de agosto com os debates sobre o Fala do trono, Cobden destacou-se logo em seu primeiro discurso, no dia 24 do mesmo mês. "Ficou claro", narrou Harriet Martineau no livro History of the Peace, "que ele não obteve tratamento de cortesia habitual dado aos novos membros e que não precisava disso". Implacável, ele expôs de modo simples e enérgico suas opiniões sobre as Corn Laws. Foi o início da sua reputação como um mestre polemicista. miniatura|esquerda|200px|Reunião da Liga Anti-Leis do Milho no Exeter Hall em 1846. Em 17 de fevereiro de 1843 Cobden atacou Peel, colocando-o como o responsável pelo estado miserável dos trabalhadores ingleses. Peel não respondeu mas o discurso foi feito numa época em que os sentimentos políticos estavam exaltados. Edward Drummond, secretário particular de Peel, havia sido assassinado recentemente, confundido com o Primeiro-Ministro por um lunático que o alvejou na rua. No final da tarde, Peel deixou claro e em bom tom que considerava a fala como incitação à violência contra sua pessoa. O partido do Primeiro-Ministro disseminou o estado geral de agitação e quando Cobden tentou explicar que a responsabilidade que se referia era oficial e não pessoal, foi abafado.

Peel ficou com a reputação de ter perdido os debates e mais tarde, acatou argumentos de Cobden, a custo de dividir seu próprio Partido. A revogação das Leis dos Grãos foi aprovada pela Câmara dos Comuns em 1846 por 98 votos. No mês seguinte Peel foi forçado a renunciar ao cargo e em seu discurso de renúncia ele deu crédito a Cobden e outros mais pelas revogações daquelas leis.Morley, pp. 388–389.

Homenagens e viagens

Cobden sacrificou seus negócios, confortos domésticos e por algum tempo a saúde em sua campanha política. Seus amigos sentiam que a nação lhe era devedora e conseguiram levantar por meio de subscrição pública 80 000 libras para ele. Tivesse ambições políticas maiores, poderia ter disputado os mais importantes cargos políticos do país. Lorde John Russell que, logo após a rejeição das Leis dos Grãos, sucedera Peel como Primeiro-Ministro, convidou Cobden para seu governo mas ele declinou.

Cobden esperava encontrar um pouco de paz e privacidade mas sua fama se espalhara pela Europa e agora era visto como uma figura proeminente do movimento radical. Em julho de 1846, ele escreveu a um amigo (em tradução livre):

"Eu escrevo para lhe contar sobre um novo projeto que nasceu em minha mente. Desisti da ideia de me enterrar em algum lugar do Egito ou Itália. Vou partir numa agitada viagem pelo continente europeu".

Ele referia-se aos convites que recebera da França, Prússia, Áustria, Rússia e Espanha e acrescentou:

"Bem, com a ajuda de Deus durante os próximos doze meses, visitarei todos os grandes Estados da Europa para ver os potentados e estadistas, e esforçar-me para difundir as verdades que se tornaram irresistíveis em nossa lar. Por que deixar-me enferrujar com a inatividade? Se o espírito público de meus compatriotas me propiciaram viajar como missionário, eu serei o primeiro embaixador do povo deste pais nas nações do continente. Eu estou impelido por uma emoção instintiva que nunca me enganou. Sinto que poderei ser bem sucedido na tarefa de levar um caso marcante às nações protecionistas da Europa e compeli-las a adotar um sistema mais livre do que eu tinha aqui para superar nossa política protecionista".

A viagem seguiu para França, Espanha, Itália, Alemanha e Rússia, com homenagens em todos os lugares que passou. Ele não apareceu apenas em público mas também em muitas audiências privadas com líderes estadistas. Durante sua ausência houve uma eleição geral e ele voltou em 1847 para Stockport e para o distrito eleitoral de West Riding de Yorkshire. Ele assumiu ali uma cadeira.

Em 1848, Richard Cobden mudou com a família de Manchester para Londres, numa casa em Paddington, 103 Westbourne Terrace.

Campanha pacifista

Quando Cobden voltou para o gabinete, direcionou-se para um complemento lógico do livre comércio, a promoção da paz e a redução armamentista naval e militar. Sua aversão a guerra era coerente com a campanha contra as Leis do Milho, pois acreditava que o livre comércio era uma força poderosa para paz e uma defesa contra a guerra. Ele sabia que se exporia ao risco do ridículo e do opróbrio do utopianismo. Em 1849, ele levou ao parlamento uma proposta de arbitragem internacional, e, em 1851, uma moção para redução mútua de armamentos. Não foi bem sucedido em nenhum dos casos e nem esperava isso. Em busca dos mesmos objetivos, ele se identificou com uma série de congressos pacifistas de 1848 a 1851 ocorridos em Bruxelas, Paris, Frankfurt, Londres, Manchester e Edinburgo.

Com o Segundo Império Francês em 1851–1852, um violento pânico, alimentado pela imprensa, assustou o público. Luis Napoleão foi pintado como patrocinador de um súbito aumento da pirataria na costa inglesa, sem pretexto ou provocação. Diante de uma série de discursos e panfletagem, dentro e fora do parlamento, Cobden tentava acalmar os ânimos de seus compatriotas. Com isso sacrificou a grande popularidade que angariara ao defender o livre comércio e se tornou o homem mais atacado da Inglaterra.

Contudo, em meio a controvérsias sobre os lugares religiosos da Palestina, que agitava o Leste Europeu, a opinião pública rapidamente mudou e todas suspeitas e ódios dirigidas antes ao imperador francês agora tinham como alvo o Imperador da Rússia. Luis Napoleão apoiou a Inglaterra e ambas as nações acabaram sendo arrastadas para a Guerra da Crimeia.