thumb|Texto ilustrado do tratado gravado numa parede no interior do complexo religioso de Carnaque, em Luxor, Egito
O Tratado Egípcio-Hitita, usualmente designado por Tratado de Cades ou de Cadexe, foi um tratado de paz celebrado entre o faraó egípcio e o rei hitita , que marcou o fim oficial das guerras entre as duas grandes potências do Médio Oriente, que se seguiram aos conflitos armados de grandes proporções que culminaram na célebre batalha de Cades, travada 16 anos antes. O acordo tinha como objetivo o estabelecimento de relações pacíficas entre as duas partes.
É o acordo diplomático e tratado de paz mais antigo que se conhece no Médio Oriente e é frequentemente apontado como o mais antigo do mundo, embora isso não corresponda à realidade concreta. Porém, é o tratado mais antigo do mundo que sobreviveu até aos nossos dias. A designação muito comum de Tratado de Cades está relacionada com a batalha homónima, mas os historiadores modernos consideram que aquela batalha não foi o catalisador da tentativa de paz, pois as relações entre os hititas e os egípcios continuaram a ser de inimigos durante muitos anos após aquele confronto.
Os termos do tratado foram escritos numa tabuleta de prata que foi oferecida a Ramessés II por diplomatas hititas e que foi perdida. O texto conhece-se pelas cópias contemporâneas existentes em paredes de templos egípcios em escrita hieroglífica e em tabuletas de barro no Império Hitita (atualmente território da Turquia). Um exemplar completo do tratado, atualmente em exposição no Museu Arqueológico de Istambul, foi descoberto em escavações arqueológicas nos grandes arquivos do palácio real da capital hitita, Hatusa. Os escribas que escreveram a versão egípcia do tratado que se encontra gravada nas paredes do templo mortuário de Ramessés II em Tebas, no Egito (atual Luxor), incluíram descrições de figuras e selos que constavam da tabuleta de prata hitita.
Contexto O tratado foi assinado para pôr termo a uma longa guerra entre os hititas e os egípcios, que lutaram durante mais de dois séculos pelo domínio dos territórios do Mediterrâneo Oriental. O conflito culminou com a tentativa de invasão egípcia em , que foi travada pelos hititas na cidade de Cades, nas margens do rio Orontes, a pouca distância da atual cidade síria de Homs. A batalha resultou em pesadas baixas em ambos os lados, apesar de não ter resultado numa derrota ou vitória clara para qualquer dos lados, quer na batalha quer na guerra, pelo que o conflito continuou inconclusivo durante cerca de quinze anos, até que o tratado foi assinado.
Apesar do nome comum de "Tratado de Cades", ele foi assinado muito depois da batalha e Cades, que nem sequer é mencionada no texto. Pensa-se que terá sido negociado por intermediários, sem que os dois monarcas tivessem chegado a encontrar-se pessoalmente. Ambos os lados tinham interesses comuns na paz — o Egito sofria da ameaça crescente dos "Povos do Mar", ao passo que os hititas estavam preocupados com o aumento do poder da Assíria, a leste. O tratado foi ratificado no 21º ano do reinado de Ramessés II () e continuou em vigor até ao colapso do Império Hitita 80 anos depois.
Antes de Ramessés II As relações entre os egípcios e os hititas foram oficialmente iniciadas quando os últimos substituíram o reino de Mitani como potência governante no centro da Síria no , o que criou tensões com os egípcios que se mantiveram elevadas até à conclusão do tratado quase cem anos depois. Durante a invasão e subsequente derrota de Mitani, os exércitos hititas penetraram na Síria e começaram a impor o seu domínio sobre os vassalos dos egípcios de Cades e Amurru. A perda desses territórios no norte da Síria nunca seria esquecida pelos faraós egípcios e as suas ações posteriores demonstraram que nunca reconheceram essa perda para o Império Hitita.
As tentativas do Egito para reconquistar os territórios perdidos durante o reinado de Aquenáton, comandadas por , o pai de Ramessés II, apesar de não terem sido muito bem sucedidas, resultaram em ganhos significativos. Já como faraó, Seti I derrotou os hititas numa batalha perto de Cades, numa campanha naquela cidade e em Amurru. No entanto, esses ganhos foram de curta duração, pois num tratado acordado pouco tempo depois Cades foi devolvida aos hititas por Seti. Essa breve reconquista de Seti marcaria o início duma guerra entre as duas potências que se arrastaria pelas duas décadas seguintes.
Batalha de Cades thumb|upright|left|Representação em Abul-Simbel de Ramessés II combatendo na batalha de Cades
O que se sabe desta batalha deriva principalmente dos relatos literários egípcios conhecidos como o Boletim ou o Registo e o Poema, além de relevos pictóricos existentes no Ramesseum (o templo funerário de Ramessés II em Tebas). Infelizmente para os historiadores e outros estudiosos da batalha de Cades, os detalhes fornecidos por essas fontes são interpretações fortemente parciais dos eventos. Dado que Ramessés II tinha controlo total sobre os projetos de construção, estes eram usados com objetivos propagandísticos pelo faraó, que os usava para se vangloriar sobre a sua alegada vitória em Cades.
Apesar das incertezas, sabe-se que Ramessés marchou através da Síria com quatro divisões de tropas, tendo como objetivo acabar com a presença hitita na região e restaurar a «posição proeminente que ela tinha gozado sob ». O rei hitita reuniu um exército com os seus aliados para evitar a invasão do seu território. No sítio de Cades, Ramessés distanciou-se insensatamente do resto das suas forças e acampou junto à cidade, confiando em informações de espionagem pouco fiáveis, relativas à posição das forças hititas, fornecidas por um par de prisioneiros capturados. Os exércitos hititas, escondidos atrás da cidade, lançaram um ataque surpresa contra a divisão egípcia Amun, que rapidamente se dispersou. Apesar de Ramessés ter tentado reunir as suas tropas contra a carnificina provocada pelas bigas hititas, só a chegada de reforços de tropas de Amurru permitiu repelir o ataque hitita.
Apesar de os egípcios terem sobrevivido aos terríveis apuros em que se viram envolvidos em Cades, a batalha esteve longe de ser a esplêndida vitória apresentada por Ramessés, e o seu resultado foi um impasse no qual ambos os lados sofreram pesadas baixas. Depois de uma tentativa infrutífera de ganhar mais terreno no dia seguinte, Ramessés retirou para sul, para o Baixo Egito, vangloriando-se dos seus feitos pessoais durante a batalha de Cades. Apesar de tecnicamente ter ganho a batalha, Ramessés acabou por perder a guerra quando Muatal e o seu exército reconquistaram Amurru e ampliaram a zona tampão com o Egito em direção ao sul.
thumb|upright|Representação e descrição do numa parede do Ramesseum
Campanhas subsequentes de Ramessés II na Síria Não obstante as derrotas sofridas durante a sua campanha de invasão da Síria, três anos depois, no quinto ano do seu reinado, Ramessés lançou outra campanha, desta vez com grande sucesso. Em vez de atacar a posição fortemente fortificada de Cades ou passar por Amurru, Ramessés tomou a cidade de com o objetivo de usar a cidade como cabeça de ponte para futuras campanhas. Depois dessa conquista, o exército egípcio voltou para o Egito e os territórios ganhos voltaram rapidamente ao controlo dos hititas.
No décimo ano do seu reinado, Ramessés lançou outro ataque às possessões hititas na Síria central e, mais uma vez, os territórios conquistados durante essa campanha voltaram rapidamente às mãos dos hititas após a retirada das forças egípcias. Esta campanha levou o faraó a reconhecer a impossibilidade de manter a Síria pelas armas e, por isso, entre o 11º e 17º anos do seu reinado não houve mais ações militares de grande envergadura contra os hititas. Este período é notável nas relações entre os hititas e os egípcios porque apesar das hostilidades entre as duas nações e das conquistas na Síria, Cades foi o último confronto militar direto oficial entre as duas potências. Alguns historiadores consideram que este período pode por isso ser considerado uma "guerra fria" entre Hati e o Egito.
Descoberta dos exemplares do tratado A versão egípcia do tratado de paz foi preservada numa estela no templo de Amon, em Carnaque e em cópias existentes nos templos de Luxor e Abidos. Jean-François Champollion copiou uma parte do texto em 1828 e publicou as suas descobertas em 1844. O texto egípcio descreve uma grande batalha contra o "Grande Rei de Hati", então uma figura desconhecida, cuja identificação posterior com o monarca hitita Muatal II foi confirmada por outras provas arqueológicas.
Em 1906–1908, o arqueólogo alemão Hugo Winckler escavou o sítio da capital hitita, Hatusa, situada no município atual de Boğazkale (antigamente Boğazköy), na , no centro-norte da Turquia, em conjunto com Theodore Makridi, o segundo diretor do Museu Arqueológico de Istambul. A equipa turco-alemã descobriu as ruínas dos arquivos reais onde encontraram tabuletas de barro documentando as atividades diplomáticas dos hititas., entre as quais se encontravam três com o texto do tratado escrito em acádio, a língua franca desse tempo. Winckler percebeu imediatamente a importância da descoberta:
Duas das tabuletas estão atualmente em exposição na secção do Oriente dos Museus Arqueológicos de Istambul. A terceira está exposta nos Museus Estatais de Berlim. Uma cópia do tratado está exposta em posição de destaque numa parede da Sede das Nações Unidas em Nova Iorque.
Texto A primeira tradução da versão do tratado em acádio foi publicada em 1916 por E.F. Weidner. É o único tratado antigo do Próximo Oriente do qual sobreviveram as versões de ambos os signatários, o que permite a sua comparação direta. Foi estruturado de forma a ser um tratado quase inteiramente simétrico, tratando igualitariamente ambos os lados e requerendo obrigações mútuas. Há algumas diferenças entre as duas versões — por exemplo, a versão hitita adota um preâmbulo algo evasivo, declarando que «no que se refere ao relacionamento entre a terra do Egito e a terra de Hati, desde a eternidade que o deus não permite a realização de hostilidade entre eles devido a um tratado válido para sempre»; em contraste com a versão egípcia que afirma de forma direta que os dois estados tinham estado em guerra.
O tratado proclama que no futuro ambos os lados ficariam em paz para sempre, comprometendo os filhos e netos de ambas as partes. Não cometeriam atos de agressão entre eles, repatriariam os refugiados políticos e criminosos e apoiar-se-iam mutuamente na supressão de rebeliões. Cada uma das partes acorreria em auxílio da outra em caso de ameaça externa: « E se outro inimigo viesse [contra] a terra de Hati [...] o grande rei do Egito enviará as suas tropas e as suas bigas e chacinará o seu inimigo e restaurará confiança na terra de Hati.»
O texto acaba com um juramento solene perante «mil deuses, deuses masculinos e deuses femininos» das terras do Egito e de Hati, testemunhado pelas «montanhas e rios das terras do Egito, o céu; a terra; o grande mar; os ventos; as nuvens.» Se o tratado fosse violado, aquele que quebrasse juramento seria amaldiçoado pelos deuses que «destruirão a sua casa, a sua terra e os seus servos.» De forma recíproca, aquele que mantivesse os seus votos seria recompensado pelos deuses, que «que o tornarão saudável e o farão viver.»
Conteúdo O tratado é considerado um dos tratado de paz entre duas grandes potências mais importantes do antigo Próximo Oriente porque o seu texto exato é conhecido. Dividido em secções, ambas as partes fazem promessas de fraternidade e paz uma à outra em termos dos objetivos. Pode ser visto como um compromisso de paz e aliança, pois ambas as potências dão garantias mútuas de que nenhuma delas invadirá os territórios da outra. Esta provisão assegura que ambas as partes atuarão em harmonia em relação às possessões disputadas na Síria e estabelece de modo efetivo os limites para as pretensões conflituantes.