thumb|253px|Flores de Amaryllis belladonna, a espécie que deu o nome à família. thumb|253px|Perigónio (de cor creme) e paraperigónio (amarelo) de Narcissus. thumb|253px|Estigma trífido de Hippeastrum. thumb|253px|Umbela de Scadoxus. thumb|253px|Cápsula loculicida de Hippeastrum. thumb|253px|Agapanthus, detalhe de uma flor. thumb|253px|Agapanthus inapertus, inflorescências. thumb|253px|Allium aflatunense. thumb|253px|Allium moly. thumb|253px|Allium narcissiflorum. thumb|253px|Inflorêscencia de Agapanthus africanus (com flores brancas). thumb|253px| Inflorescência de Tulbaghia violacea. thumb|253px|Flor de Muilla coronata. thumb|253px|Inflorescência de uma espécie de Cyrtanthus. thumb|253px|Inflorescência de Lycoris aurea. thumb|253px| Numerosas espécies de amarilidáceas são apreciadas como plantas ornamentais. Na imagem observa-se um campo de produção de flores de narciso. Amaryllidaceae Burnett, frequentemente aportuguesado para amarilidáceas, é uma família de plantas herbáceas, perenes, bulbosas ou rizomatosas, pertencentes à ordem Asparagales das monocotiledóneas. As espécies incluídas nesta família são facilmente reconhecidas pelas suas flores trímeras dispostas em inflorescências similares a umbelas, rodeadas por duas brácteas e inseridas na extremidade de um escapo. A família agrupa cerca de 73 géneros e aproximadamente 1 600 espécies, com distribuição natural cosmopolita. A família está taxonomicamente subdividida em três subfamílias, às quais até recentemente se reconhecia a categoria de família: Amaryllidoideae, Allioideae e Agapanthoideae. Salvo nesta última, que apresenta um só género, as duas restantes dividem-se em várias tribos.
As amarilidáceas apresentam uma considerável importância económica e cultural, pois muitas das suas espécies são utilizadas como condimentos, plantas ornamentais, hortícolas e medicinais.Dimitri, M. 1987. Enciclopedia Argentina de Agricultura y Jardinería. Tomo I. Descripción de plantas cultivadas. Editorial ACME S.A.C.I., Buenos Aires.
Enquadramento taxonómico As Amaryllidaceae são uma família de plantas bulbosas perenes desde há muito integradas na ordem de monocotiledóneas das Asparagales. O nome da família deriva do género Amaryllis, razão pela qual a família é tradicionalmente designada por família das Amaryllis. Por essa mesma razão, muitas das espécies da família são colocadas no mercado internacional de flores sob o nome comercial de amarílis, mesmo quando morfologicamente muito diferentes das espécies do género Amaryllis.
Os limites desta família têm variado muito ao longo das últimas décadas, tendo o conjunto de géneros que a integram sido objecto de aceso debate entre taxonomistas, tendo emergido dessa discussão pontos de vista muito diferenciados. A classificação APG mais recente (a APG III) estabeleceu um considerável alargamento da família Amaryllidaceae, na qual estabeleceu três subfamílias: (1) as Agapanthoideae, que inclui os géneros que anteriormente constituíam a família Agapanthaceae; (2) as Allioideae, anteriormente a família Alliaceae; e (3) as Amaryllidoideae, correspondente ao conjunto de géneros anteriormente incluídos na família Amaryllidaceae. Com esta definição, a família inclui cerca de 75 géneros e mais de 1 600 espécies.
Com esta arrumação taxonómica, a família ficou constituída por plantas em geral com folhas carnudas, agrupadas em duas filas opostas e grandes flores campaniformes tipicamente dispostas em umbelas inseridas no ápice de escapos, isto é de longas hastes florais desprovidas de folhas. A subfamília Agapanthoideae tem ovários superiores, tal como a Allioideae (que inclui a cebola), mas esta distingue-se por produzir os compostos de sulfeto de alilo que lhe dão o cheiro característico. A subfamília Amaryllidoideae tem ovários inferiores.Mary Jane McGary. 2001. Bulbs of North America. Timber Press, pp. 251. ISBN 0-88192-511-X Descrição Morfologia As amarilidáceas são plantas terrestres, raramente aquáticas ou epífitas, herbáceas ou suculentas e, excepto quatro espécies, perenes. Apresentam bolbos ou, mais raramente, rizomas (como por exemplo em Clivia, Scadoxus e Agapanthus). Os bolbos são recobertos pelas bases membranosas das folhas, formando uma estrutura que se denomina «túnica». A raiz primária é bem desenvolvida.
As folhas são simples, paralelinérveas, de bordo inteiro, lineares, oblongas, elípticas, lanceoladas ou filiformes, sésseis ou pecioladas, geralmente arrosetadas, espiraladas ou dísticas. Apresentam um meristema basal persistente e desenvolvimento basípeto.
As flores são hermafroditas, actinomórficas (quer dizer, de simetria radial) ou ligeiramente zigomórficas, pediceladas ou sésseis, vistosas, cada uma associada a uma bráctea filiforme. O perigónio é composto por seis tépalas dispostos em dois verticilos de 3 peças cada, as quais apresentam aproximadamente a mesma forma e o mesmo tamanho. As tépalas são em geral livres entre si, mas podem estar soldadas na base formando um tubo perigonial ou hipanto, o qual é prolongado em alguns casos numa «coroa»(também chamada paraperigónio ou falsa corola), como por exemplo em Narcissus. Por vezes as tépalas estão reduzidas a escamas ou dentes pouco conspícuos.
O androceu apresenta seis estames dispostos em dois verticilos de três peças cada, embora em alguns casos raros apresentem só três estames, como em Zephyra, ou de 9 a 18 estames, como em Gethyllis. Os estames são opostos às tépalas, inseridos sobre o tubo do perigónio ou a base das tépalas. Os filetes são delgados, filiformes ou alargadas na base, podendo ser livres (como em Hippeastrum) ou estar unidos entre si por uma membrana que rodeia todo o ovário (o «cálice estaminal»), como por exemplo em Hymenocallis. As anteras são oblongas ou lineares. Os estames por vezes apresenta, apêndices que formam um cálice estaminal, como por exemplo em Hymenocallis.
O gineceu é de ovário ínfero no caso das amarilioideas e de ovário súpero nas agapantoideas e alioideas. É formado por três carpelos unidos entre si, que delimitam três cavidades ou lóculos, os quais contêm desde dois a três até múltiplos óvulos anátropos de placentação axilar. O ovário prolonga-se por um estilete e por um estigma diminuto, capitado a profundamente trífido. Apresentam usualmente nectários florais, sendo que a secreção de néctar provém do perigónio ou do gineceu, usualmente dos septos do ovário.Amaryllidaceae. In: L. Watson & M.J. Dallwitz (1992 e anos seguintes). The families of flowering plants: descriptions, illustrations, identification, information retrieval. Version: 27th April 2006. http://delta-intkey.com. Data de acesso: 10 de agosto de 2007
As flores são dispostas em inflorescências determinadas, cimosas, inseridas na extremidade de um escapo, por vezes compactas e similares a umbelas (pelo que recebem a designação de «pseudoumbelas»), raramente reduzidas a flores solitárias. As brácteas involucrais, aquelas que encerram os botões das flores, podem estar presentes ou ausentes.
O fruto é uma cápsula indeiscente ou uma cápsula loculicida, ocasionalmente podendo ser uma baga, como por exemplo no género Clivia.
As sementes são secas a carnudas, aplanadas a globosas, aladas ou sem asas. Apresentam endosperma cuja reserva é constituída por lípidos (óleos) e não por amido. O ápice está geralmente incrustada com fitomelaninas (com algumas excepções, como Amaryllis ou Hymenocallis). A cor das sementes é usualmente negro, mas ocorrem algumas espécies com sementes de coloração verde ou avermelhada.
Os cromossomas das amarilidoideas são em geral longos, de 3 a 28 µm. Os números cromossómicos básicos são x = 6, 8, 9, 10, 11 e 26, sendo diferentes entre as tribos. No caso das alioideas, os números cromossómicos básicos são x = 4, 5, 6, 7, 8 e 9, podendo os cromossomas ser desde relativamente pequenos a grandes (de 2 a 20 µm). Por seu lado, as agapantoideas apresentam um número cromossómico básico x = 15, embora se tenham detectado espécies com x = 14 e x = 16,tendo os cromossomas um comprimento de 4 a 9 µm.
Fitoquímica As alioideas e amarilidoideas apresentam moléculas relacionadas com a defesa contra a herbivoria, denominadas lectinas, com características muito próprias, que se ligam especificamente à manose.Van Damme EJM, Allen AK, Peumans WJ (1987) Isolation and characterization of a lectin with exclusive specificity towards mannose from snowdrop (Galanthus nivalis) bulbs. FEBS Lett 215: 140-144Van Damme EJM, Allen AK, Peumans WJ (1988) Related mannose-specific lectins from different species of the family Amaryllidaceae. Physiol Plant 73: 52-57 As alioideas apresentam saponinas esteróides, entre as quais compostos com odor a cebola ou alho (o denominado odor aliáceo), como o sulfeto de alilo, propanaldeido, propiontiol e o dissulfeto de vinilo, bem como flavonóides e compostos sulfurados derivados da cisteína.
A fitoquímica da subfamília das agapantoideas também oferece particularidades. Todas as espécies de Agapanthus produzem fitoecdisteróides, compostos que estão relacionados com a defesa das plantas ao ataque de insectos que se alimentam das suas folhas. Comprovou-se que os extractos das folhas das espécies deste género exibem propriedades antifúngicas, com uma acção efectiva contra patógenos das plantas.
Tendo em conta que a coloração azul das flores dos agapantos é única na família Amaryllidaceae, foram determinadas as estruturas químicas de duas das principais antocianinas que conferem aquela coloração, as quais revelaram os únicos exemplos conhecidos de pigmentos em que o grupo acilo aromático e o flavonóide estão unidos por uma ligação covalente à antocianina.
As amarilidoideas apresentam um tipo único de alcalóides derivados da tirosina chamados norbeladinas. Tais alcalóides são responsáveis pelas propriedades tóxicas de um grande número de espécies da subfamília. Existem mais de 200 estruturas químicas diferentes, dos quais 79 foram identificados apenas no género Narcissus. As amarilidoideas não apresentam sulfeto de alilo, o que é característico das alioideas, antocianidinas, ácido elágico, saponinas nem inulina. Os flavonóis podem estar ou não presentes. Sistemática e biodiversidade História taxonómica As amarilidáceas, como circunscritas actualmente, constituem um grande grupo de monocotiledóneas petalóides que inclui: (1) as amarilidáceas propriamente ditas (constituídas como a subfamília Amarilidoideae); (2) os alhos e espécies aparentadas (a subfamília Allioideae); e (3) as espécies de agapanto (subfamília Agapanthoideae).Chase, M.; Reveal, J.; Fay M. 2009. A subfamilial classification for the expanded asparagalean families Amaryllidaceae, Asparagaceae and Xanthorrhoeaceae. Botanical Journal of the Linnean Society 161: 132-136. Esta grande diversidade reflecte a história taxonómica desta família, extensa e caracterizada por diversas interpretações e definições.
As amarilidoideas representam um dos elementos do grupo lineano Hexandra monogyniaLinneaus, C. 1764. Species Plantarum, 3rd ed. Stockholm. e desde 1764 os géneros desta subfamília têm sido classificados ou dentro do agrupamento das liliáceas ou como uma família separada (as amarilidáceas).