A Guerra das Laranjas foi um conflito militar entre Portugal e Espanha ocorrido entre 20 de maio e 6 de junho de 1801. Esta guerra ocorreu no contexto de alianças militares europeias que opunham a Segunda Coligação, da qual faziam parte Portugal e a Inglaterra, à França de Napoleão, da qual Espanha era aliada.
Durante a Campanha do Rossilhão, Portugal tinha apoiado Espanha contra a França Revolucionária. Em 1795, Espanha e França assinaram o Tratado de Basileia, que pôs fim às hostilidades entre os dois países. Este tratado foi assinado sem o conhecimento de Portugal, que se manteve em estado de guerra com França. Para obter a paz, França exigia a Portugal que abandonasse a aliança militar com Inglaterra para se aliar à França e que proibisse os navios ingleses de entrar nos portos portugueses. No entanto, se Portugal se aliasse à França as suas colónias seriam de imediato atacadas pelos ingleses, pelo que procurou manter uma posição de neutralidade. Em 1796, Espanha e França assinaram o Tratado de Santo Ildefonso, pelo qual se tornavam aliadas contra Inglaterra. Em 1797, no sentido de pressionar Portugal a ceder às exigências francesas, Espanha começou a posicionar tropas junto à fronteira com Portugal.
No dia 6 de fevereiro de 1801, Espanha fez um ultimato a Portugal em que ameaçava invadir o país. Face à recusa do governo de João VI de Portugal em ceder ao ultimato e pressionado pela França, no dia 27 de fevereiro Carlos IV de Espanha declarou guerra a Portugal. No dia 20 de maio de 1801 e sob o comando de Manuel de Godoy, o exército espanhol invadiu Portugal pelo Alentejo. As fortificações portuguesas encontravam-se em mau estado e o exército português desmobilizado. Foram conquistadas as praças de Olivença, Juromenha, Arronches e Campo Maior, tendo também sido cercada a cidade de Elvas. Houve também algumas ações militares na fronteira em Trás-os-Montes e no Algarve. A campanha militar durou apenas 18 dias e terminou em 6 de junho de 1801, quando as negociações entre Portugal e Espanha que decorriam em paralelo foram bem sucedidas.
A paz entre as potências beligerantes foi estabelecida nos termos do Tratado de Badajoz, assinado entre Portugal e Espanha, e do Tratado de Madrid, assinado entre Portugal e França.
Antecedentes
No último quartel do , a Guerra de Independência dos Estados Unidos em 1776, e mais tarde a Revolução Francesa em 1789, polarizam a vida política da Europa entre partidários da França e partidários da Inglaterra. Em Portugal, o governo de Maria I procurou manter uma política de neutralidade no conflito aberto que Inglaterra mantinha com a sua antiga colónia. Em 1782, Portugal aderiu à Liga dos Neutros, o que lhe permitiu manter a liberdade de circulação no comércio marítimo.
Este período foi também caracterizado por uma reaproximação e época de paz entre Portugal e Espanha. Em 1778, as duas nações assinaram o Tratado de El Pardo, que pôs fim às disputas territoriais nas colónias da América do Sul. Em 1785 foi celebrado um duplo casamento entre os infantes portugueses João e Mariana Vitória e os infantes espanhóis Gabriel e Carlota Joaquina.
A conjuntura de guerra
O receio da expansão das ideias revolucionárias e do período de terror que se seguiu à Revolução Francesa colocou as monarquias europeias em estado de alerta. Face à probabilidade de uma incursão militar do exército revolucionário francês na Península Ibérica, Portugal reforçou os meios de defesa, apresou vários navios franceses e impediu o desembarque de tropas republicanas. Em 1792 teve início a Guerra da Primeira Coligação, que opôs os revolucionários franceses a diversas potências europeias. A neutralidade Ibérica tornou-se insustentável. Em 15 de julho de 1793 Portugal e Espanha assinam um tratado de auxílio mútuo contra os franceses. Em 26 de setembro, é assinado um tratado idêntico com Inglaterra.
Em 1793, Portugal enviou para Espanha uma força militar de 6000 soldados para apoiar o exército espanhol a repelir as forças francesas na Campanha do Rossilhão. Quando a Espanha e a França puseram fim às hostilidades e assinaram o Tratado de Basileia, em 22 de julho de 1795, sem conhecimento do governo português, Portugal ficou numa posição difícil. Ficou em estado de guerra com a França de quem a Espanha se tornara aliada. A França apresentou as suas condições: para obter a paz, Portugal devia abandonar a sua aliança com a Inglaterra. Isto significava para Portugal fazer parte de uma liga ofensiva e defensiva que a Espanha e a França tinham estabelecido contra a Inglaterra. Mas eram feitas mais exigências: proibir os navios ingleses de entrarem nos portos portugueses, estabelecer facilidades comerciais ao comércio francês tanto em Portugal como no Brasil, pagar uma indemnização de guerra à França e regulamentar as fronteiras entre as Guianas. Neste último caso, o que a França pretendia era ampliar a Guiana Francesa à custa do Norte do Brasil. A corte de Lisboa tomou conhecimento, supõe-se que por intermédio do embaixador na corte de Turim, Rodrigo de Sousa Coutinho, de notícias sobre um possível acordo secreto entre a França e a Espanha para a conquista de Portugal. A hostilidade entre a França e Portugal era sentida no mar: uma esquadra francesa, entre o Cabo da Roca e a Berlenga, afundou doze navios portugueses e apresou outro, carregado com produtos vindos do Brasil. Verificaram-se muitas outras ações deste tipo. O facto de o governo português não ter assumido uma posição clara como aliado da Inglaterra na guerra contra a França levava aquela potência naval a evitar envolver-se nestes assuntos.
Ao governo português, que pretendia preservar as suas colónias, convinha manter a ligação com a Inglaterra que detinha a capacidade de dominar as rotas marítimas. Se Portugal se aliasse à França, as suas colónias seriam de imediato atacadas pelos ingleses e o país estaria mais desprotegido perante as ambições territoriais de Espanha. Portugal procurou manter uma situação de neutralidade para a qual não dispunha de recursos.
Logo em 1797, os Espanhóis começaram a concentrar tropas junto à fronteira. Com esta medida, pretendiam pressionar Portugal a ceder às exigências francesas. Em 1800 já se conheciam os nomes dos comandantes das unidades espanholas que iriam invadir Portugal, já tinham sido constituídos depósitos de víveres e já tinham sido instalados hospitais de campanha na Estremadura e na Galiza. O General Berthier esteve presente em alguns dos locais de concentração de tropas. Perante esta ameaça, foi enviado ao General Ralph John Abercromby, em Gibraltar, um pedido de apoio de 12.000 homens. No dia 8 de novembro de 1800 chegaram a Lisboa, vindos de Gibraltar, 1.500 militares britânicos e, no dia 14, chegaram mais 722. Em Espanha, uma epidemia que surgiu em vários pontos da Andaluzia obrigou a desviar para ali cerca de 12.000 homens para isolar a região. Isto reduziu significativamente o potencial do exército espanhol da Estremadura.
Tratado de Santo Ildefonso
thumb|direita|Carlos IV de Espanha e a sua família. Quadro a óleo de Francisco Goya, pintado entre 1800 e 1801, portanto, na época dos acontecimentos que conduziram à Guerra das Laranjas. A Espanha e a França eram aliadas nos termos do Tratado de Santo Ildefonso assinado em 18 de agosto de 1796. A 1 de outubro de 1800, aquelas potências celebraram o segundo Tratado de Santo Ildefonso em que eram citadas questões relativas a Itália e à entrega da Luisiana à França. No seu artigo 7º reafirmava-se a adesão ao estabelecido no Tratado de 1796. No dia 29 de janeiro de 1801, em Madrid, foi assinado um acordo entre a França e a Espanha, ratificado a 1 de fevereiro.
De acordo com esse documento, estava prevista a invasão de Portugal no caso de este País não aceitar as seguintes condições:
Abandono da aliança com a Inglaterra; Encerramento dos portos portugueses aos navios britânicos e abertura aos navios espanhóis e franceses; Ocupar uma ou mais províncias portuguesas, com um quarto da população do Reino, a fim de constituírem penhor da restituição pela Inglaterra de Maó (na ilha de Minorca) e Malta; Pagar uma indemnização à Espanha e outra à França como compensação por alegados prejuízos causados; Proceder a uma revisão das fronteiras.
Ultimato e declaração de guerra thumb|João VI de Portugal era, na altura destes acontecimentos, o Príncipe Regente de Portugal atendendo à incapacidade da Rainha Maria I de Portugal, sua mãe. No dia 6 de fevereiro, D. José Maria de Sousa Botelho partiu de Lisboa para Madrid a fim de conferenciar com as autoridades espanholas e francesas e tentar evitar a guerra. No entanto, nesse mesmo dia, o embaixador espanhol em Lisboa entregou a Luís Pinto de Sousa Coutinho um ofício da corte espanhola com um ultimato: ou o governo português respondia favoravelmente no prazo de 15 dias à exigência de abandonar a aliança com a Inglaterra ou o embaixador espanhol deixaria Lisboa e seria declarada a guerra. As conversações arrastaram-se até final de fevereiro mas sem obterem o resultado que o governo português desejava.
No dia 27 de fevereiro de 1801, Carlos IV de Espanha assinou a declaração de guerra a Portugal. Após a notificação do corpo diplomático, a declaração de guerra foi proclamada em Madrid no dia 2 de março. Só dez dias depois do início da invasão é que foi publicada em Portugal.
Portugal, perante as duas alternativas possíveis — manter a aliança com a Inglaterra e conservar os territórios ultramarinos mas sujeitar-se à guerra com a França e a Espanha ou romper a aliança com a Inglaterra e evitar a invasão mas perder, no mínimo, o acesso ao ultramar — foi empurrado para a primeira das hipóteses. A Espanha, por seu lado, não podia retardar mais a invasão pois a alternativa era ver as tropas francesas adquirirem posições preponderantes no seu território com a finalidade de serem elas a efetuarem a invasão de Portugal. A neutralidade era impossível na conjetura da época. Mais tarde, a respeito destes acontecimentos, Talleyrand afirmava que Portugal se encontrava entre duas ameaças e, destas, as esquadras inglesas não eram certamente a menor delas.
Operações militares
As forças espanholas thumb|200px|esquerda|Manuel de Godoy comandou pessoalmente as operações na Estremadura (Espanha) e Alentejo (Portugal). Quadro de Francisco Bayeu. Os Espanhóis utilizaram três exércitos que foram posicionados junto à fronteira portuguesa em três regiões: Galiza, Estremadura e Andaluzia. Os exércitos posicionados na Galiza e na Andaluzia eram constituídos, cada um, apenas por uma divisão. O exército posicionado na Estremadura era o mais numeroso, constituído por cinco divisões e sob o comando de Manuel de Godoy. Embora tenha havido ações militares noutros pontos da fronteira, foi este o exército (o da Estremadura) que invadiu Portugal e, por isso, é este que importa ver mais em pormenor:
A divisão de Vanguarda, sob comando do Marechal de campo Francisco Maria Solano Ortiz de Rosas, dispunha de 13.200 homens; A 1.ª Divisão, sob comando do Tenente-general Diego de Godoy, com 7200 homens; A 2.ª Divisão, sob comando do Tenente-general Ignácio Lancaster, com 9600 homens; A 3.ª Divisão, sob o comando do Tenente-general Marquês de Castelar, com 12 000 homens; A 4.ª Divisão, sob o comando do Tenente-general Francisco Xavier de Negrete, com 4761 homens.
As forças portuguesas