Língua protoindo-europeia (PIE) é o ancestral comum hipotético das línguas indo-europeias, tal como era falado há cerca de 5000 anos, pelos indo-europeus, provavelmente nas proximidades do mar Negro, cuja denominação original era Ponto Euxino.

A postulação de uma descrição plausível dos contornos desta protolíngua, através da observação das similaridades e diferenças sistemáticas das línguas indo-europeias entre si, foi uma das grandes realizações dos linguistas a partir do início do .

A aquisição da capacidade de fala pela humanidade deu-se milhares de anos antes do período da protolíngua indo-europeia. A denominação da língua reconstruída como "protolíngua indo-europeia" não implica portanto, de forma alguma, que a língua tenha sido em qualquer sentido "arcaica" ou "primitiva". Da mesma forma, sua reconstrução tampouco se trata de uma tentativa de encontrar a chamada língua primordial da humanidade.

Descoberta e reconstrução Periodização Há várias hipóteses concorrentes sobre quando e onde o PIE era falado. A única coisa conhecida com certeza é que a língua deve ter se diferenciado em dialetos não conectados na metade do

Estimativas de tendência predominante do tempo entre o PIE e os mais antigos textos atestados (c. ; ver textos de Cultepe) estão entre 1500 e 2500 anos, com as propostas extremas divergindo 100% para cada lado: No (excluindo-se o ramo anatólio) na Armênia, de acordo com a hipótese armênia (proposta no contexto da teoria glotal); No (quarto, excluindo-se o ramo anatólio) nas estepes pôntico-cáspias, de acordo com a tendência predominante da hipótese Kurgan; No no subcontinente indiano, de acordo com a hipótese indiana de Koenraad Elst; No na Anatólia (no quinto, nos Bálcãs, excluindo se o ramo anatólio), de acordo com a hipótese anatólia de Colin Renfrew; No (sexto, excluindo-se o ramo anatólio), de acordo com um estudo glotocronológico de 2003;

Antes do , segundo a teoria da continuidade paleolítica

Três estudos genéticos recentes, de 2015, deram apoio à teoria de Marija Gimbutas de que a difusão das línguas indo-europeias teria se dado a partir das estepes russas (hipótese Kurgan). De acordo com esses estudos, o Haplogrupo R1b (ADN-Y) e o Haplogrupo R1a (ADN-Y) - hoje os mais comuns na Europa e sendo o R1a frequente também no subcontinente indiano - teriam se difundido, a partir das estepes russas, junto com as línguas indo-europeias; tendo sido detectado, também, um componente autossômico presente nos europeus de hoje que não era presente nos europeus do Neolítico, e que teria sido introduzido a partir das estepes, junto com as linhagens paternas (haplogrupo paterno) R1b e R1a, assim como com as línguas indo-europeias.

Assim como Marija Gimbutas, David Anthony associa a domesticação do cavalo a essa expansão.O cavalo, a roda e a linguagem Como cavaleiros das estepes euroasiáticas, da Idade do Bronze, contribuíram para a formação do mundo moderno, por David W. Anthony, Editora Universidade de Princeton, "The Horse, the Wheel and Language, How Bronze-Age Riders from the Eurasian Steppes shaped the Modern World", 2007

História

A fase clássica da linguística comparativa indo-europeia engloba o período entre o lançamento da Comparative Grammar ("Gramática Comparativa) (1833) de Franz Bopp e do Compendium ("Compêndio") (1861) de August Schleicher até o lançamento do Grundriss ("Esboço da Gramática Comparativa das Línguas Indo-europeias") de Karl Brugmann e Berthold Delbrück, publicado na década de 1880. A reavaliação do campo da nova gramática e o desenvolvimento da teoria laríngea de Ferdinand de Saussure devem ser consideradas como o início dos estudos indo-europeus modernos.

O PIE como descrito no começo do ainda é geralmente aceito atualmente; os trabalhos subsequentes são majoritariamente de refinamento e sistematização, assim como a incorporação de novas informações, especialmente nos ramos anatólio e tocariano, desconhecidos no .

Notavelmente a teoria laríngea, em suas formas iniciais discutidas desde a década de 1880, tornou-se a tendência predominante após a descoberta em 1927 por Jerzy Kuryłowicz da sobrevivência de pelo menos alguns daqueles fonemas hipotéticos em anatólio. O Indogermanisches Etymologisches Wörterbuch ("Dicionário Etimológico Indo-europeu") (1959) de Julius Pokorny forneceu uma visão geral do conhecimento léxico acumulado até o começo do , mas desprezou tendências contemporâneas de morfologia e fonologia, e ignorou amplamente o anatólio e o tocariano.

A geração de indo-europeanistas ativos no último terço do (como Calvert Watkins, Jochem Schindler e Helmut Rix) desenvolveu uma melhor compreensão da morfologia e, seguindo a Apophonie ("Apofonia") (1956) de Kuryłowicz, a compreensão da apofonia. A partir da década de 1960, o conhecimento do anatólio tornou-se exato o bastante para se estabelecer sua relação com o PIE.

Método Não há evidência direta do PIE porque ele nunca foi escrito. Todos os sons e palavras do PIE são reconstruídos a partir das línguas indo-europeias posteriores usando o método comparativo e o método de reconstrução interna. O asterisco é usado para sinalizar as palavras reconstruídas do PIE, como em *wódr̥ "água", *ḱwṓn "cão" ou *tréyes "três" (masculino). Muitas das palavras nas línguas indo-europeias modernas parecem ter derivado de tais "protopalavras" através de mudanças sonoras regulares (tal como a lei de Grimm).

Como a língua protoindo-europeia se dividiu, seu sistema sonoro também divergiu, de acordo com várias leis sonoras nas línguas descendentes. São notáveis entre estas leis a lei de Grimm e a lei de Verner no protogermânico, a perda da pré-vocálica *p- no protocéltico, redução para h da pré-vocálica *s- no protogrego, a lei de Brugmann e a lei de Bartholomae no protoindo-iraniano e a lei de Grassmann independentemente no protogrego e no protoindo-iraniano.

Relação com outras famílias de línguas Muitas relações de alto nível entre o PIE e outras famílias de línguas têm sido propostas. Mas estas conexões especulativas são altamente controversas. Talvez a proposta mais amplamente aceita é a de uma família indo-urálica, abrangendo o PIE e o urálico. As evidências usualmente citadas em favor disto é a proximidade dos Urheimaten destas duas famílias, a similaridade tipológica entre as duas línguas e vários morfemas aparentes compartilhados. Frederik Kortland, mesmo defendendo uma conexão, afirma que "a lacuna entre o urálico e o indo-europeu é enorme", enquanto Lyle Campbell, uma autoridade em urálico, nega que a relação exista.

Outras propostas, voltando muito no tempo (e por isso menos aceitas), colocam o PIE como um ramo do indo-urálico com um substrato caucasiano; ligam o PIE e o urálico com o altaico e com outras famílias asiáticas, como o coreano, o japonês, as línguas chukotko-kamchatkanas e as línguas esquimo-aleutianas (são propostas representativas o nostrático e o eurasiático de Joseph Greenberg); ou ligam algumas de todas estas ao afro-asiático, ao dravídico, etc., e, em último caso a uma única protolíngua (hoje em dia muito associada a Merritt Ruhlen). Várias propostas, com vários níveis de cepticismo, também existem e juntam alguns subsistemas das supostas famílias de línguas eurasiáticas e/ou algumas das famílias de línguas caucasianas, tais como as línguas uralo-siberianas, uralo-altaicas (que foi amplamente aceita mas agora é desacreditada), protopôntico e assim por diante.

Tipologia

O protoindo-europeu era uma língua flexionada. Há vários indícios de que sua flexão decorreu somente ao longo da história da língua. Nas línguas descendentes, mais uma vez a flexão degradou-se fortemente de forma independente (com exceção das línguas balto-eslávicas, em que mais se conservou). Os exemplos mais claros são o inglês, o persa moderno e o africâner, que moveram-se intensamente em direção das línguas analíticas ou aglutinativas no caso do persa.

Segundo W. Lehmann, a tipologia era SOV (isto é, o predicado de orações declarativas ocorria no final da oração) com suas propriedades tipicamente a ela relacionadas (posposições, anteposição de atributos e de subordinadas relativas etc.). Nas línguas descendentes desenvolveram-se outras tipologias, VSO nas célticas, SVO nas românicas.

Em termos da chamada tipologia relacional, o protoindo-europeu (assim como a maioria das línguas faladas atualmente) era uma língua nominativo-acusativa. Lehman supõe que um estágio mais antigo da língua possuía um caráter de língua ativa. Muitas da línguas indo-arianas modernas (por exemplo o hindi) assumiram a tipologia ergativa.

Fonologia

São reconstruídos os fonemas apresentados abaixo para a língua protoindo-europeia.Meier-Brügger, Cap. II; Fortson Cap. III Remetendo-se a Karl Brugmann, são empregadas variantes de um sistema baseado no alfabeto latino, com sobrescritos e subscritos, assim como sinais diacríticos.

Consoantes   labial coronal palato-velar velar labio-velar laríngea oclusiva surda p t k̑ k kʷ   oclusiva expressa b d g̑ g gʷ   oclusiva aspirada bʰ dʰ g̑ʰ gʰ gʷʰ   nasal m n         fricativa   s       h₁, h₂, h₃ aproximante w r, l y      

Nasais, fricativas e aproximantes são classificadas como sonantes.

O y era (presumivelmente) pronunciado como em português pai, o w pronunciado como em quadro; também em ditongos ey, aw (, leite, pauta). Palato-velares: k̑ pronunciado como em inglês britânico cube. Labio-velares: kʷ pronunciado (k pronunciado com arredondamento dos lábios). As oclusivas sonoras aspiradas do protoindo-europeu não foram herdadas pelas línguas europeias modernas; em línguas indianas, como o hindi, ainda são mantidas.

O termo "laríngeo" para os sons representados por h₁, h₂ e h₃ foram escolhidos historicamente sem uma base na reconstrução. Trata-se de três sons desconhecidos (muitos pesquisadores também sugerem outras quantidades). Há diferentes suposições sobre possíveis pronúncias destes sons (veja por exemplo em Lehman ou Meier-Brügger). A teoria laríngea, postulada por Ferdinand de Saussure nos estudos indo-europeus em 1878, levou no entanto cerca de 100 anos para ser geralmente aceita.

O s era surdo mas antes de consoantes sonoras possuía um alófono sonoro, por exemplo *nisdos (ninho), foneticamente *nizdos.

A chamada teoria glótica revisa este sistema clássico de reconstrução tendo em consideração as consoantes oclusivas em alto grau. Esta revisão está atualmente relacionada à fonética, e consequentemente à suposta pronúncia dos sons. O sistema fonológico (a relação dos sons entre si) como um todo permanece quase inalterado.Lehmann 1966, 5.2.2 último parágrafo Razões para a teoria glótica são a rara ocorrência do fonema /b/ e a disposição incomum de oclusivas aspiradas sonoras diante da ausência de oclusivas aspiradas surdas. Entretanto esta teoria, ainda hoje discutida, não é opinião majoritária dentre especialistas.

As formas reconstruídas são em sua maioria apresentadas fonologicamente. Os encontros consonantais que aparentam ser parcialmente impronunciáveis permitem presumir que a fonética da língua continha vogais epentéticas (por exemplo o chamado schwa secundum), assimilações e fenômenos similares.

Ocorrência das consoantes   labial coronal palato-velar velar labio-velar laríngea oclusiva surda *ped-, *pod- (pé, podólogo) *ters- (seco, p.ex. terra) *k̑erd (coração, conf. cardíaco) *lewk (luzir) *kʷi-, *kʷo- (quem?, quê?)   oclusiva sonora *bel- (força, debilitado = "sem vigor") *dek̑m̥ (decimal) *g̑onu, *g̑enu (joelho, conf. genuflexão) *gāu- (regozijar) *negʷ-, *nogʷ- (noite, conf. noctívago)   oclusiva aspirada *bʰer- (portar, p.ex. transferir) *medʰyo- (médio) *g̑ʰans- (ganso) *gʰend- (agarrar, conf. apreender) *ewegʷʰ- (advocar)   nasal *men (mente) *nas- (nasal)         fricativa   *sed- (sentar)       *h₂weh₁ (conf. alemão wehen), *deh₃ (dar), aproximante *newo- (novo) *pro (adiante, conf. pró), *lewk (luzir) *hzeyes- (metal, conf. inglês ore)      

Desenvolvimento das consoantes em línguas descendentes