A abside de Sant Climent de Taüll é uma pintura românica pertencente ao conjunto da decoração mural da Igreja de Sant Climent de Taüll no Vale de Bohí, onde se encontra a maior concentração de arte românica de toda a Europa, com uma igreja por casa 25 km². Atualmente está exposta no Museu Nacional de Arte da Catalunha.La mitad invisible. El Pantocrátor de Sant Climent de Taüll. RTVE (2012)

Esta é uma das obras mestras do românico europeu. A sua genialidade reside na combinação de elementos diferentes de visões bíblicas – as do Apocalipse, Isaías e Ezequiel – na apresentação de Cristo no Juízo Final. Este aparece em fundo provocando um movimento centrifugo na composição, na que domina o sentido ornamental dos perfis e na habilidade da utilização da cor para dar volume. Pela sua excepcionalidade e força pictórica, a obra do Mestre de Taüll projetou-se na modernidade e fascinou artistas da vanguarda do , como Picasso ou Francis Picabia.

História thumb|Igreja de Sant Climent de Taüll. A Igreja de Sant Climent de Taüll foi consagrada por Ramon de Roda, o bispo de Rodaen no ano de 1123, na altura pintada numa das colunas da nave na qual se associa a criação da pintura mural da abside central.

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Segundo Joan Ainaud de Lasarte, associa-se a consagração da igreja com a reconquista definitiva de Barbastro e Zaragoza, e outros núcleos como Tudela, Daroca e Calatayud. Segundo esta teoria, o rei de Aragão, Afonso o Batalhador, recompensou economicamente os exércitos não aragoneses que participaram na reconquista de estes territórios, entre os quais se encontravam personagens catalãs como o conde de Pallars e a família Erill, sob o domínio feudal da que esteve o Vale de bohí e família com que o bispo Ramón de Roda mantinha uma estreita relação. Deste modo, as pinturas murais de Sant Climent de Taüll poderão ter sido conseqüência destes favores.

Com o passar do tempo, as pinturas românicas estiveram escondidas atrás de retablos, foram caiadas ou perdidas para sempre, até que em princípios do , com o regresso sobre o conhecimento do obscurantismo por um lado, e pela vontade de recuperação da cultura catalã com o renascimento pelo outro, recuperou-se a sua importância.

Redescobrimento Em 1907, o Instituto de Estudos Catalães levou a cabo uma expedição a Sant Climent de Taüll, que acabou com a publicação do trabalho resultante, com o objetivo de dar a conhecer a obra. Anos depois, em 1915, alertou-se sobre o interesse em comprar pintura mural dos Pirenéus catalães que os colecionadores americanos mostravam – como exemplo Hearst ou John Davison Rockefeller – e da usurpação a que estavam submetidas as obras. Além disso, há que ter em conta que alguns párocos tiveram por hábito vender algumas peças para colecionadores e museus.Estamariu «7. L'art exiliat del Pirineu»

Transladação e Exposição Perante esta situação e atendendo aos princípios de difusão e preservação do patrimônio catalão criou-se a Junta de Museus da Catalunha e realizou-se, entre 1919 e 1923, a primeira campanha de arranque e transporte da pintura mural dos Pirenéus, entre as quais se encontrava o conjunto de Sant Climent de Taüll. A abside central encontrava-se coberta em grande parte por um retablo gótico, como o demonstra a primeira fotografia realizada em 1904 por Domènech i Montaner.

A técnica de arrancar as pinturas, chamada de strappo, foi introduzida na Catalunha pelo restaurador italiano Franco Steffanoni, contratado para a campanha de salvamento das pinturas murais de Taüll. Consiste no desprendimento da capa pictórica sem argamassa. Sobre a superfície pictórica limpa aplicam-se duas capas de telas de algodão com uma cola orgânica a quente. Uma vez seca, a cola agarra a superfície, arrancando a capa pictórica da pintura.

Uma vez arrancadas as telas enrolam-se e embalam-se em caixas de madeira. As pinturas murais de Taüll foram transportadas com mulas até Puebla de Segur, para depois serem transportadas por comboio e camioneta até Barcelona onde ficaram sob a custódia pelo então Museu de Arte da Catalunha, com sede no parque da Cidadela. Posteriormente, em 1934 foram transladadas para o Palácio nacional, atual sede do Museu Nacional de Arte da Catalunha.

Guerra Civil Devido à guerra civil espanhola e perante o perigo de sofrer um bombardeamento, as obras foram de novo transladadas juntamente com algumas absides românicas para Olot e para outras pequenas povoações como, por exemplo, Dàrnius.

Como motivo da Exposição Internacional de 1937 em Paris, organizou-se uma exposição para denunciar a situação política do país. Sob o título L’art catalan Du Xe au XVe siécle, expuseram-se muitas das obras do museu e entre elas a abside de Sant Climent, desde 18 de Março a 10 de Abril de 1937, no Jeu de Paume de Paris. Posteriormente também se expuseram em Maisons-Laffitte até 20 de Maio. Joaquim M. Folch i Torres, então diretor do museu, fez uma nova proposta de exposição das absides românicas, que então já constituíam uma parte muito importante das obras do museu. Criaram-se uns falsos marcos arquitetônicos que evocavam o original das igrejas. Uma vez terminada a guerra, a coleção voltou ao Palácio em 1940, e reinauguraram-se as salas de arte românica em 12 de junho de 1942, sob a direção de Xavier de Salas.

Reprodução no seu lugar de origem

Inicialmente, não se implementou a reprodução da pintura mural de Sant Climent de Taüll na igreja de origem. Contudo, devido ao crescente reconhecimento de que foi alvo a igreja e pelas numerosas visitas que recebia desde a recuperação das pinturas, em 1959 encarregou-se a sua réplica a Ramon Millet. O artista, que trabalhou durante dois anos, criou uma réplica de inferior dimensão em relação ao original. Durante os anos de 2000 e 2001 foram descobertos alguns novos fragmentos de pinturas murais, que se conservam in situ, dentro da igreja de Sant Climent de Taüll.

Autor thumb|Visão geral da abside, no Museu Nacional de Arte da Catalunha. Conhecido como o Mestre de Taüll, no mundo da História da Arte, pouco se sabe a seu respeito. Durante a Idade Média, os hoje considerados artistas eram artesãos que punham ao serviço de abades, bispos e senhores as suas capacidades artísticas, sem desfrutar o seu ofício de renome. Duas teorias sobre a procedência do autor apontam para direções diferentes. Por um lado, tratava-se de um mestre estrangeiro, de proveniência italiana, que contava com a ajuda de colaboradores de menor valia (como mostram as figuras dos serafins) e tinha adquirido e empregue técnicas hispânicas; por outro lado crê-se que se tratava de um artesão local. Contudo, há que ter presente a dificuldade em estabelecer delimitações artísticas com respeito à pintura românica européia, uma vez que muitos artistas trabalhavam para múltiplas cortes e abadias com o qual contribuíam e adquiriam elementos de outros estilos. A forte expansão de manuscritos medievais e a falta de novas ideias proporcionaram também o trespasse estilístico dos livros para a pintura mural.VVAA. El románico(1996), p.406 O Mestre de Taüll é, segundo os especialistas, uma prova da convergência de difusão de novas correntes, de conhecimento de outros mestres e da capacidade de se adaptar com uma técnica e personalidade própria.VVAA, Visualart. «Les pintures de l'absis de Sant Climent de Taüll»(2002), p. 155

Descrição A pintura mural da abside central da igreja de Sant Climent de Taüll faz parte do conjunto pictórico que compreende também a decoração dos arcos triunfais, da abside lateral, da inscrição da consagração e de uma janela anterior. Há mais pintura “in situ”. A cronologia das pinturas tem como referência a inscrição pintada que se conservou sobre uma coluna no lado do Evangelho, a mencionada inscrição faz referência à consagração da igreja no ano de 1123 e apresenta o mesmo tipo de caracteres que estão nas diferentes inscrições das pinturas da abside.

A obra da abside ao serviço do tema religioso e seu significado, está representada através de meios antinaturalistas e de abstração, com rasgos simplificados e mudanças que fazem a modelação geométrica das formas humanas naturais, foi esta também uma das características comuns na arte românica. Trata-se de uma Maiestas Domini (Cristo em Majestade) o Pantocrátor, a epifania do Deus legislador, todo poderoso, que vem julgar o povo.

A abside de Sant Climent de Taüll apresenta uma coloração ampla de tonalidades e umas linhas com cor negra que configuram os contornos das imagens representadas com um sentido monumental, assim como uma composição estruturada em vários registros.

Registro Superior: representa “o Céu”, encontra-se o Pantocrátor entronizado dentro de uma elipse, com os pés sobre o globo do mundo e a sua mao direita bendiz com os dedos na maneira grega, na mao esquerda segura um livro aberto com a inscrição EGO SUM LUX MUNDI (eu sou a luz do mundo), o seu rosto largo com um olhar profundo está feito com linhas marcadas, as sobrancelhas arqueadas, olhos, boca, barba e cabelo de maneira simétrica e com uma aplicação de cor com pintura plana, mas com duas tonalidades uma clara e outra mais escura para conseguir uma certa modelagem, que o pintor remarca nas amplas pregas do vestuário, o tetramorfo, está representado mediante anjos que levam os símbolos dos evangelistas. São Mateus, o anjo ou o homem; São Marcos, o leão; São João, a águia; São Lucas, o touro, e duas figuras simétricas flanqueando a composição representam um serafim e um querubim cada um com três pares de asas. A bacia da abside apresenta um fundo dividido em três partes de diferentes cores, preto, ocre e azul.

thumb|Agnus Dei. Registro intermédio: vêem-se cinco apóstolos da esquerda para a direita, provavelmente santo Tomás, São Bartolomeu, são João Evangelista, Santiago e uma última figura muito mutilada associada a São Filipe e à Virgem Maria, colocados um ao lado do outro ainda que de forma independente graças à representação pictórica de elementos arquitetônicos, neste caso uma arcada, com colunas e capitéis, em cima deles têm uma inscrição que os identifica. Simboliza a Igreja Universal dando fé de Cristo. Registro inferior: Geralmente observam-se elementos que pertencem ao mundo terrestre, assim como ornamentos do tipo vegetalista ou geométrico, que representam a Terra. Não se conservam muitos restos pictóricos do registro inferior: intuem-se elementos decorativos em zig-zag, próprios de estes registros, e que seguramente determinavam uns espaços com figuras de animais e por debaixo deles devia estar decorado com cortinados, desta parte não se conserva nada. Outra parte para além da abside: fora da bacia da abside, mas relacionada compositivamente com esta, a decoração pictórica dos arcos pré-absidiais completam a representação trinitária da divindade na coroação dos arcos. Deus como Cristo Majestoso (Majestas Domini) na bacia da abside. A mao direita de Deus (Dextera Domini) que representa o poder do pai, no arco mais próximo da abside. O Cordeiro de Deus (Agnus Dei) que representa Cristo sacrificado vencedor da morte, no segundo arco.

As três representações formam um feixe na direção dos fieis. A mao de Deus representa-se dentro de um círculo branco vazio mas com os dois dedos que atravessam o seu perímetro, no arco mais próximo da bacia. O cordeiro com sete olhos segue a narração do Apocalipse São João, que representa os seus atributos. Poder, riqueza, sabedoria, força, honra, glória e bendição. Está dentro de um círculo e ligeiramente arqueado, com as patas dianteiras sobre o Livro dos sete selos. A sua cabeça está rodeada por um halo cruciforme – um halo com uma cruz inscrita.

Em ambos os lados do arco onde está a Dextera Domini, representam-se as figuras de Caín e Abel. De cada um dos lados dos arcos decorre uma cena em que um cão lambe as feridas de Lázaro o leproso, diante da porta do rico Epulón, esta parábola aparece no Evangelho segundo São Lucas e esta presente na decoração de outras igrejas românicas com a igreja de São João de Boí.