Heráclio, o Velho (; ; m. ) foi um oficial militar bizantino do final do e começo do VII e pai do imperador Heráclio . De origem armênia, tornou-se notório nas guerras bizantino-sassânidas da década de 580. Cerca de 600, foi nomeado exarca da África. Em 608, se rebelou com seu filho contra o usurpador Focas . Utilizando-se da África como base, o jovem Heráclio conseguiu derrubar Focas e fundou a dinastia heracliana, que reinaria no Império Bizantino por um século. Heráclio, o Velho morreu logo depois de receber a notícia da ascensão do filho.
Família
A Historia syntomos do patriarca menciona um único irmão de Heráclio, o Velho, chamado Gregoras, e que era pai de Nicetas. menciona Epifânia como mãe de Heráclio e, assim, a esposa de Heráclio, o Velho. Heráclio, o Velho é mencionado como sendo o pai do imperador Heráclio em diversas fontes, incluindo Teofilato, João de Niciu, Nicéforo I, Teófanes, Agápio, o Historiador, o Suda, Jorge Cedreno, João Zonaras, Miguel, o Sírio, a Crônica de 1234 e Nicéforo Calisto Xantópulo.
O irmão de Heráclio, o Jovem melhor atestado nas fontes é Teodoro. Maria, sua irmã, é citada por Nicéforo e identificada como sendo a mãe de Martina, que se casaria com Heráclio, o Jovem. Deve-se notar, porém, que tanto Cedreno quanto Miguel, o Sírio consideram que Martina era filha de um irmão não nomeado de Heráclio, o Jovem, lançando dúvidas sobre a relação precisa entre eles. Finalmente, Teófanes menciona brevemente outro Gregoras como irmão de Heráclio, o Jovem, por ocasião da morte do primeiro em Heliópolis (atual Balbeque) 652–653. Este é a única menção deste irmão. Teófanes, porém, pode ter se confundido na relação entre Gregoras e o imperador.
Vida
Origem Heráclio era de origem armênia, o que pode ser deduzido por uma passagem na obra de Teofilato Simocata que o considera nativo da Armênia bizantina. A passagem é: "E assim Filípico soube durante sua viagem que Prisco tinha sido feito general pelo imperador Maurício; ao chegar em Tarso, enviou mensagens para Heráclio indicando que, após deixar o exército, deveria retornar para sua cidade natal quando viesse à Armênia, e lá deveria entregar o exército para Narses, o comandante da cidade de Constantina". A "cidade natal" de Heráclio não é mencionada especificamente. Maria e Michael Whitby sugerem que Heráclio era na época o mestre dos soldados da Armênia (magister militum per Armeniam). Se for o caso, "sua cidade" seria Teodosiópolis (atual Erzurum), o quartel-general das forças romanas na Armênia. Como principal fortaleza militar ao longo da fronteira noroeste do império, Teodosiópolis tinha uma grande importância estratégica e foi ferozmente disputada nas guerras entre os persas e os romanos. Os imperadores e refortificaram-na e construíram novas defesas durante os seus reinados.
Nada se sabe da ascendência específica de Heráclio, o Velho, o que não evitou que os historiadores modernos especulassem sobre o tema. Cyril Mango defende uma teoria que sugere que seria um descendente homônimo de Heráclio de Edessa, um general romano do . Uma passagem da História de Sebeos tem sido interpretada como sugerindo uma origem arsácida para Heráclio. Esta teoria tem sido defendida fortemente por Cyril Toumanoff e foi considerada plausível por Alexander Vasiliev e Irfan Shahîd. João de Niciu e Constantino Manasses parecem considerar seu filho, Heráclio, o Jovem, como sendo capadócio, o que pode ser apenas uma indicação do local de seu nascimento e não a origem de seus ascendentes propriamente.
Carreira Sob Filípico thumb|esquerda|Fronteira bizantino-sassânida em 565 thumb|esquerda|Soldo do imperador Maurício
Heráclio, o Velho foi mencionado pela primeira vez em 586 como general servindo sob Filípico durante a Guerra bizantino-sassânida de 572-591. Comandou o centro do exército na Batalha de Solacão na primavera de 586. Após a batalha, foi enviado numa missão exploratória para confirmar rumores da aproximação de reforços persas. A força bizantina então continuou a ação militar, invadiu Arzanena e Filípico cercou Clomaro, a principal cidade da área. Neste ponto, Jóvio e Maruta, dois líderes locais, desertaram para o lado bizantino. Prometeram ajudar a localizar posições ideais para construção de fortalezas inexpugnáveis que pudessem controlar a passagem pelos Montes Tauro e Hakkâri, permitindo o controle bizantino sobre as rotas comerciais que ligavam Arzanena com a Armênia e a Baixa Mesopotâmia. Filípico ordenou a Heráclio, que nesta época era o seu segundo no comando (hipoestratego), a seguir os pontos indicados pelos locais.
Vinte homens acompanharam Heráclio nesta missão e partiram sem suas armaduras. O grupo logo encontrou Cardarigano liderando um novo exército persa. Teofilato nota que "Cardarigano estava marchando contra os romanos, tendo alistado hordas que não eram soldados, mas homens inexperientes nas artes marciais; além disso, juntou uma caravana de animais de carga e camelos e estava avançando." Mesmo assim, Cardarigano tentou atacar o grupo mal armado de Heráclio que teve que escapar movendo-se de escarpa em escarpa. À noite, enviou um mensageiro para avisar Filípico da ameaça iminente. As forças de Filípico fugiram em desordem de volta para o território romano. Ele conseguiu alcançar Amida e então começou a restaurar as antigas fortalezas no monte Izalas. Lá, possivelmente por conta de uma enfermidade, entregou o comando do exército para Heráclio. Teofilato conta que: "Ele [Filípico] deu parte do exército para Heráclio, uma vez que estava tomado por dores e incapaz de lutar. Heráclio reuniu seus soldados e acampou do outro lado das colinas de Izalas ou nas margens do rio Tigre. Da mesma forma, Heráclio deixou Tâmano [um local na margem oriental do Tigre], avançou em direção à Média Meridional e arrasou toda a região. Chegou mesmo a atravessar o Tigre e impeliu o exército adiante, queimando tudo o que tinha alguma importância naquela parte da Média. Então reentrou no território romano, deu a volta em Teodosiópolis e novamente se juntou aos homens que estavam com Filípico." Teofilato indica que Filípico e Heráclio passaram o inverno juntos em Teodosiópolis.
Na primavera de 587, Filípico estava novamente doente e incapaz de liderar a campanha em pessoa. Entregou dois terços de seu exército para Heráclio, e o resto aos generais Teodoro e André, e os enviou em raides contra o território persa. Heráclio cercou um forte de nome desconhecido, utilizando de forma incansável suas máquinas de cerco, dia e noite, até que ele caiu. Após guarnecer o recém-capturado forte, Teófanes, o Confessor relata que seguiu adiante e se juntou ao general Teodoro no cerco de Biudes (Beioudes), o que parece ser um erro. Teófanes pode ter interpretado incorretamente uma passagem relevante de Teofilato que relata que Teodoro e André se juntando neste cerco.
No final de 587, Filípico planejava retornar para Constantinopla deixando Heráclio responsável pelo exército durante a temporada de inverno. Heráclio imediatamente adotou medidas para restaurar a disciplina entre as tropas. De acordo com Teofilato, "Heráclio decretou penas para deserção e vagabundagem nas forças romanas; e os que haviam se despedido do trabalho e que vagavam sem rumo de um lado para o outro retornaram ao bom senso por causa das punições". No início de 588, o imperador Maurício substituiu Filípico por Prisco. Filípico escreveu para Heráclio, ordenando que deixasse o exército na região a cargo de Narses e retornasse à Armênia. Mas estas mesmas cartas avisaram os soldados do decreto imperial que reduzia os seus pagamentos em um quarto A notícia provocou um motim entre as tropas, que se recusaram a obedecer as ordens de Prisco. O motim só terminou quando a ordem foi rescindida e Filípico foi novamente nomeado como comandante do exército do oriente.
Sob Comencíolo
Heráclio reapareceu um ano depois, sob o comando de Comencíolo, na Batalha de Sisarbano (outono de 589), nas redondezas de Nísibis. De acordo com o relato de Teofilato, Comencíolo supostamente fugiu para Teodosiópolis ainda durante a batalha. Heráclio tomou o comando das tropas restantes e as levou à vitória. O cronista, porém, viveu e escreveu durante o reinado de Heráclio, o Jovem, e era fortemente enviesado em favor do pai do imperador. Seu relato é, por isso, suspeito ao exagerar (ou mesmo inventar) um ato de covardia de Comencíolo com o objetivo de engrandecer a memória de Heráclio. O contemporâneo Evágrio Escolástico, por exemplo, atesta que Comencíolo estava no meio do campo de batalha e sequer menciona Heráclio.
Revolta armênia Heráclio é mencionado novamente por volta de 595 como mestre dos soldados da Armênia, provavelmente sucedendo a João Mistacão. A História de Sebeos é a principal fonte para este período. Ele foi enviado à região pelo imperador para enfrentar os rebeldes armênios liderados por Samuel Vanúnio e Atato Corcorúnio e contou com a ajuda de .
Heráclio parece ter sido posteriormente substituído por Surena. Seu período de serviço na Armênia foi breve, porém serviu para reforçar seus laços com a região.
Exarca da África
Heráclio é mencionado novamente em 608 como patrício e exarca da África. De acordo com o patriarca de Constantinopla , foi nomeado à posição por Maurício, o que ocorreu antes da deposição e morte do imperador em 602. Pode ter substituído Inocêncio, um exarca temporário nomeado para o período de 598 até 600. A nomeação sugere que Heráclio estava nas graças de Maurício e tinha motivos para se manter fiel a ele. Assim, Heráclio e sua corte lamentaram a morte e a execução de Maurício, celebrando honras póstumas ao falecido. Os exarcas da África eram de fato os governadores-gerais da região, com poderes civis e militares. Sua capital era Cartago. Historiadores do final do e início do XX atribuíram muita importância a esta nomeação, chegando a sugerir que ela requereria laços fortes entre Heráclio e a África ou com o mais amplo Império Romano do Ocidente. Historiadores posteriores notaram, porém, que esta nomeação era parte de um padrão mais amplo. No , diversos comandantes militares bizantinos iniciaram suas carreiras nas regiões orientais do império, geralmente nas redondezas da Alta Mesopotâmia. Após o seu período de serviço, eram transferidos para o Norte da África e não há indícios de que esta rotação entre as províncias orientais e ocidentais tenha sido pouco usual.
Revolta contra Focas
thumb|esquerda|upright=1.2|Soldo do imperador Focas thumb|esquerda|upright=1.2|Dinar de ouro de
Em 608, o Exarcado da África sob Heráclio, o Velho se revoltou contra Focas . A campanha subsequente contra ele foi relatada pelos historiadores bizantinos como sendo uma vingança contra a morte de Maurício, o que pode de fato ter sido um dos motivadores da revolta. A outra parte, porém, seria o que Walter Emil Kaegi chamou de "frios cálculos políticos": Cartago estava a uma distância segura de Constantinopla e Focas não poderia facilmente atacar a cidade. A relativa riqueza do Exarcado da África era suficiente para financiar a revolta. O regime de Focas precisava dos grãos e das receitas da África, enquanto que o Exarcado se sustentava com relativa facilidade. Enquanto isso, o xá havia assegurado o controle de Dara e estava mobilizando suas tropas para uma invasão em larga escala ao Império Bizantino. Notícias desta campanha podem muito bem ter chegado até os ouvidos de Heráclio. Com Focas tendo que enfrentar inimigos em duas frentes, seria incapaz de concentrar suas forças em qualquer uma delas, o que encorajou Heráclio ao aumentar suas chances de sucesso.