O Yaguareté-abá ou Jaguaretê-avá (do guarani jaguarete'áva, "homem-jaguar") é um ser da mitologia e do folclore dos povos guaranis, especialmente registrado nas tradições orais do Paraguai, do nordeste da Argentina e da região Sul do Brasil. A lenda descreve um indivíduo capaz de transformar-se em um jaguar durante a noite, geralmente com o propósito de caçar seres humanos ou exercer vingança.

A crença no Yaguareté-abá foi documentada desde o século XIX por viajantes e etnólogos, sendo o estudo mais conhecido o ensaio La leyenda del yaguareté-abá (1896), do antropólogo argentino Juan Bautista Ambrosetti. O autor comparou essa tradição com outras narrativas sul-americanas sobre metamorfose entre seres humanos e grandes felinos, como o Runa Uturuncu dos Andes e o Jaguar Capiango do noroeste argentino.

Etimologia O nome Yaguareté-abá deriva do guarani:

jaguarete — “jaguar” (Panthera onca); avá (abá na ortografia antiga) — “homem”, “pessoa” ou “ser humano”.

A expressão significa literalmente "homem-jaguar" ou "pessoa-jaguar".

A grafia Yaguareté-abá foi amplamente utilizada nas obras do século XIX e início do século XX, enquanto a ortografia guarani moderna prefere formas como Jaguarete avá ou Jaguarete'áva.

A lenda Segundo a tradição registrada na Argentina (Misiones e Corrientes) e Paraguai, o Yaguareté-abá é geralmente descrito como um homem indígena idoso batizado que, durante a noite, abandona secretamente sua comunidade para transformar-se em jaguar.AMBROSETTI (1896), p. 324.

Nessa versão, a metamorfose ocorre em um local isolado da mata. O indivíduo rola repetidamente sobre o solo enquanto recita orações de forma invertida, passando gradualmente a assumir a forma do animal. Para retornar à condição humana, realiza o mesmo procedimento em sentido contrário.

O detalhe de ser batizado e da oração invertida é amplamente considerado resultado da influência da evangelização cristã, uma vez que as versões mais antigas não continham esse elemento.

O Yaguareté-abá utiliza sua transformação para atacar pessoas, principalmente viajantes ou membros da própria comunidade, permanecendo despercebido durante o dia.

No estado brasileiro de Mato Grosso do Sul, o Jaguaretê Ava tem o hábito de aparecer nas carreteiras à noite, por onde trafegam viajantes e carreteiros. De acordo com os informantes indígenas do pesquisador kaiowá João Machado, o homem-onça era um indígena de má índole que vivia junto à sua família, mas o “demônio” Aña instigou-lhe a matar sua mãe, pai e os irmãos. Sem nenhum parente, passou a viver solitário nas florestas e morrarias, amaldiçoado e condenado a comer carne humana.SOUSA, Neimar Machado de. Jaguaretê Ava, o mito do homem-onça. Conselho Indigenista Missionário (Cimi), 10 ago. 2015.

Características Nas narrativas tradicionais, o Yaguareté-abá apresenta algumas características físicas que o distinguem de um jaguar comum. Entre as mais frequentemente mencionadas estão:

cauda excepcionalmente curta; testa sem pelos; grande resistência aos ferimentos; inteligência superior à de um animal comum.

Em ao menos uma versão conta-se que somente a decapitação seria capaz de matá-lo definitivamente.AMBROSETTI (1896), p. 325.

Essa invulnerabilidade parcial constitui um motivo recorrente em narrativas sul-americanas sobre homens transformados em animais ou seres híbridos, como nas histórias do Capelobo, de Cobra Norato, do Ururau e do Lobisomem local, podendo ser feridos ou mortos apenas de modos bastante específicos.

Narrativas tradicionais Ambrosetti registrou uma narrativa proveniente da região de Yuty, no Paraguai, segundo a qual um Yaguareté-abá havia causado numerosas mortes nas matas próximas ao povoado.

Um jovem decidiu enfrentá-lo após cumprir promessas religiosas. Depois de localizar o animal, travou uma longa luta, durante a qual conseguiu golpeá-lo repetidas vezes com uma faca. Apesar dos numerosos ferimentos, o jaguar continuou combatendo até que o caçador se recordou do conselho recebido anteriormente: somente separando completamente a cabeça do corpo seria possível destruí-lo. Seguindo essa orientação, o rapaz conseguiu decapitá-lo e pôs fim às mortes atribuídas ao Yaguareté-abá.

Narrativas semelhantes continuam sendo registradas em diferentes localidades do Paraguai e da antiga região missioneira.

Interpretações antropológicas O estudo de Ambrosetti O primeiro estudo sistemático sobre o Yaguareté-abá foi publicado por Juan Bautista Ambrosetti em 1896.

O autor reuniu relatos provenientes do Paraguai, da Argentina e do sul do Brasil, propondo que todos representariam variantes de uma mesma tradição sobre a transformação entre homem e jaguar.AMBROSETTI (1896), p. 323.

Segundo Ambrosetti, essa crença refletiria antigas concepções indígenas acerca da continuidade entre o mundo humano e o mundo animal, nas quais determinados indivíduos seriam capazes de assumir temporariamente a forma de grandes felinos.

Além disso, o antropólogo sugeriu que a difusão dessa lenda poderia estar relacionada às migrações pré-coloniais dos povos guaranis para regiões andinas. Essa hipótese foi posteriormente debatida, mas não constitui consenso entre os especialistas.

Influência do cristianismo Ambrosetti observou que vários elementos presentes nas versões modernas da lenda parecem resultar da influência cristã. Entre eles destacam-se:

a necessidade de o personagem ser batizado; a recitação do Credo ao contrário; a associação da metamorfose a práticas consideradas demoníacas pelos missionários.

Esses aspectos provavelmente foram incorporados durante os séculos de contato entre indígenas e colonizadores europeus.

Parentescos com outras tradições Diversos pesquisadores observaram semelhanças entre o Yaguareté-abá e outras figuras da América do Sul relacionadas à metamorfose em grandes felinos.

O missionário austríaco Martin Dobrizhoffer (1717 – 1791) anotou que os abipones (que não são guaranis) do Paraguai acreditavam que seus xamãs podiam se transformar em jaguares (ou “tigres”, até o século XIX costumava-se chamar o jaguar de “tigre americano”).DOBRIZHOFFER, Martin. An account of the Abipones, an equestrian people of Paraguay. Tradução de Sara Coleridge. London: John Murray, 1822. v. 2, pp. 67, 77, 78.

O historiador britânico Robert Southey (1774 – 1843) relatou que os mbaias (também não guaranis), da região do rio Paraguai, acreditam que certas mulheres idosas podem transformar-se em jaguares, depois de mortas. Ele também informou a mesma crença entre os abipones registrada por Dobrizhoffer, com o adicional do poder da invisibilidade.DONATO, Hernâni. Dicionário das mitologias americanas. São Paulo: Cultrix, 1973, p. 151.

Segundo a antropóloga francesa Hélène Clastres, os chiriguanos (guaranis) acreditam que seus caraís têm o poder de metamorfosear a si próprios em jaguar,CLASTRES (1978), p. 42. enquanto os mbyás creem que comer carne crua pode levar à transformação nesse felino e chamam a esse “castigo” de tupichua.CLASTRES (1978), pp. 93-94.

O próprio Ambrosetti menciona que os cainguás (guaranis) do Alto Paraná, quando veem um jaguar perto de um túmulo, pensam que é a alma do morto que reencarnou como o animal, e cita também um caso próximo a ele, pois os guaianás (não guaranis) de Villa Azara (Paraguai) acreditavam que seu amigo Don Pedro Anzoategui, a quem respeitavam com um terror supersticioso, podia se transformar em jaguar. Ele também conta que, na província de Entre Ríos, antigamente habitada pelos minuanos (não guaranis), existia também uma lenda sobre a reencarnação da alma de um homem em um jaguar negro.AMBROSETTI (1896), p. 323.

Runa Uturuncu Nas regiões andinas do noroeste argentino, especialmente em Catamarca e Salta, existe a crença no Uturuncu (ou, mais precisamente, Runa Uturuncu[es], “Homem Jaguar” em quíchua), um homem capaz de transformar-se em puma ou jaguar por meio de práticas mágicas.AMBROSETTI (1896), pp. 322-323.

Assim como o Yaguareté-abá, o Runa Uturuncu costuma ser descrito como um indivíduo que vive normalmente durante o dia e assume forma animal durante a noite.

Jaguar Capiango No norte de Córdoba, Tucumán e Santiago del Estero, Ambrosetti registrou a lenda do Jaguar Capiango — ou, no vocabulário da época, “Tigre Capiango”.AMBROSETTI (1896), p. 332.

"Capiango", na Argentina, é usado para descrever uma pessoa astuta, ardilosa ou ladra.CAPIANGO. In: ASOCIACIÓN DE ACADEMIAS DE LA LENGUA ESPAÑOLA. Diccionario de americanismos. Madrid: Asociación de Academias de la Lengua Española, 2010. Em países como o Brasil e Angola, também está associado a um ladrão esperto ou a alguém desonesto. A palavra vem do quicongo (língua da região angolana na África central) kapiangu, "pessoa desonesta".CAPIANGO. In: PORTO EDITORA. Infopédia: dicionário da língua portuguesa. Porto: Porto Editora, [s.d.].

Segundo essa narrativa do noroeste argentino, um homem utilizava uma pele de jaguar e um ritual envolvendo sal para transformar-se no animal (estendia a pele de jaguar no chão, comia três grãos de sal e, rolando sobre a pele, transformava-se na fera). Após a destruição da pele por seu irmão, adoeceu gravemente, recuperando-se apenas quando recebeu um fragmento dela, momento em que voltou definitivamente à forma de jaguar.

Ambrosetti interpretou essa história como um elo intermediário entre o Yaguareté-abá das tradições guaranis e as crenças andinas sobre os Runa Uturuncu.

Relações com o xamanismo A associação entre seres humanos e grandes felinos é amplamente documentada em diversas culturas indígenas das Américas.FAUSTO, Carlos. Se Deus fosse jaguar: canibalismo e cristianismo entre os Guarani (séculos XVI–XX). Mana, Rio de Janeiro, v. 11, n. 2, p. 385–418, out. 2005.

Entre diferentes povos amazônicos e do Brasil Central, o jaguar ocupa posição de destaque como símbolo de poder, coragem e capacidade xamânica.PISSOLATO, Elizabeth de Paula. Relações jamais esquecidas: presença e modos de agir de xivi (onça). In: REUNIÃO EQUATORIAL DE ANTROPOLOGIA, 5.; REUNIÃO DE ANTROPÓLOGOS DO NORTE E NORDESTE, 14., 2015, Maceió. Anais... Maceió: Universidade Federal de Alagoas, 2015. A metamorfose do homem em jaguar simboliza conexão e respeito pela natureza e pelo sagrado, uma ponte entre o humano, o natural e o divino; os xamãs que podem se transformar em jaguares são vistos como protetores, curandeiros e guerreiros.EL JAGUAR. Es la pieza del mes de julio en el MUUA. Universidad de Antioquia – Museo Universitario (MUUA), Medellín, jul. 2024.

Ambrosetti chamou atenção para cerimônias descritas entre os bororos nas quais um participante vestia pele de jaguar e representava espiritualmente o animal durante danças rituais.AMBROSETTI (1896), pp. 328-330. O autor também comparou essas práticas a descrições feitas por cronistas coloniais sobre cerimônias religiosas dos guaranis.AMBROSETTI (1896), p. 331.

Significado simbólico Na literatura antropológica contemporânea, o Yaguareté-abá costuma ser interpretado como uma expressão da permeabilidade entre humanidade e animalidade presente em muitas cosmologias indígenas sul-americanas.

Em vez de representar apenas um "lobisomem americano", a figura do homem-jaguar está inserida em concepções segundo as quais seres humanos, animais e espíritos compartilham capacidades de transformação e diferentes perspectivas sobre o mundo.PANSICA, Rafael Rocha. Sobre o perspectivismo ameríndio e vice-versa. 2008. 132 f. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2008. Orientador: Márnio Teixeira-Pinto.

Essa interpretação aproxima o Yaguareté-abá de outras figuras xamânicas documentadas entre povos amazônicos, embora cada tradição possua características próprias.

Influência cultural O Yaguareté-abá permanece presente no imaginário popular do Paraguai, da província argentina de Misiones e de áreas fronteiriças do Brasil.