thumb|240px|right|O Papa Francisco celebrando a Missa do Vaticano II na Basílica de Nossa Senhora de Guadalupe.

A Missa do Vaticano II, também conhecida como Forma Ordinária ou Novus Ordo, é a liturgia da Missa do Rito Romano contida no Missal Romano pós-Vaticano II promulgado pelo Papa Paulo VI em 1969 e revisado por Papa João Paulo II em 2002, a única forma da liturgia eucarística do rito romano.Traditionis custodes, artigo 1

É a sucessora da Missa Tridentina, contida no Missal Romano promulgado pelo Papa Pio V em 1570 a pedido do Concílio Tridentino e revisado várias vezes, ultimamente pelo Papa João XXIII em 1962.

A celebração da missa no rito romano rege-se actualmente pelo Missal Romano ex decreto sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum, quer dizer revisado em 1970 de acordo com os decretos do Concílio Vaticano II, e revisto em 1975 e em 2002; mas cada bispo diocesano tem autoridade de decidir se e quando pode ser oportuno conceder a título de exceção o uso da forma anterior às reformas litúrgicas do Concílio Vaticano II.Traditionis custodes, artigos 1 e 2 São revogadas as normas, instruções, concessões e costumes anteriores que se verifique não estarem conformes a quanto disposto no Motu Proprio Traditionis custodes do 16 de julho de 2021.Traditionis custodes, artigo 8

Grupos tradicionalistas, como a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, geralmente rejeitam a alteração do rito, condenam a participação nele e celebram exclusivamente a Missa Tridentina.

Texto O texto oficial atual da missa do rito romano é a da terceira edição típica (aquela à qual, a partir de então, as outras impressões do Missal devem se conformar) do Missal Romano revisto, publicada em 2002. Duas anteriores edições típicas do Missal revisadas foram emitidas em 1970 (promulgada em 1969) e 1975.

Concílio Vaticano II e suas consequências imediatas A liturgia foi um dos primeiros assuntos considerados pelo Concílio Vaticano II de 1962-1965. Em 4 de dezembro de 1963, o Concílio emitiu uma Constituição sobre a Sagrada Liturgia chamada de Sacrosanctum Concilium. A seção 50 afirmava:

O Ordinário da missa deve ser revisto, de modo que se manifeste mais claramente a estrutura de cada uma das suas partes bem como a sua mútua conexão, para facilitar uma participação piedosa e activa dos fiéis. Que os ritos se simplifiquem, bem respeitados na sua estrutura essencial; sejam omitidos todos os que, com o andar do tempo, se duplicaram ou menos utilmente se acrescentaram; restaurem-se, porém, se parecer oportuno ou necessário e segundo a antiga tradição dos Santos Padres, alguns que desapareceram com o tempo.

A Sacrosanctum Concilium também sugeriu (entre outras coisas) um maior uso das Escrituras na missa, e que as línguas vernáculas podiam ser também empregadas.

Em 1964, o Papa Paulo VI, que sucedeu a João XXIII no ano anterior, estabeleceu o Consilium ad exsequendam Constitutionem de Sacra Liturgia, a "Comissão para a Implementação da Constituição sobre a Liturgia". A instrução Inter Oecumenici de 26 de setembro de 1964, emitida pela Sagrada Congregação dos Ritos, enquanto o Concílio ainda estava em sessão, entrando em vigor em 7 de março de 1965 fez mudanças significativas na liturgia existente, embora a forma do rito foi substancialmente preservado. Algumas fontes falam de um "Missal de 1965", mas isso geralmente se refere ao Ordinário da Missa que foi publicado com a aprovação das Conferências Episcopais, por exemplo, nos Estados Unidos e Canadá, ao invés de uma edição typica do Missal Romano em si. As mudanças incluíam: o uso da língua vernácula em algumas partes, o sacerdote foi autorizado a virar para a congregação, se quisesse, toda a missa, houve algumas mudanças textuais, como a omissão do Salmo Iudica, no início, do Último Evangelho no fim, e as Orações leoninas depois da Missa. O documento de 1967 Tres abhinc annos, a segunda instrução sobre a implementação da Constituição preparada pelo Consilium, fez apenas alterações mínimas no texto, mas retirou algumas rubricas e paramentos. A concelebração e a Comunhão sob as duas espécies foram permitidas, e, em 1968, outras três Orações Eucarísticas foram autorizadas, ao lado do Canon tradicional.

Em outubro de 1967, o Consilium tinha produzido um projeto de revisão completo da liturgia da Missa, e essa revisão foi apresentada ao Sínodo dos Bispos que se reuniu em Roma naquele mês. Os bispos participaram da primeira celebração pública do rito revisto na Capela Sistina. Quando solicitado o voto sobre a nova liturgia, 71 bispos votaram placet (aprovado), 43 votaram non placet (não aprovado) e 62 votaram placet iuxta modum (aprovado com reservas).

Em 25 de setembro de 1969, dois cardeais aposentados, Alfredo Ottaviani e Antonio Bacci, escreveram uma carta pessoal ao Papa Paulo VI denominada "Estudo Breve e Crítica sobre o Novo Ordinário da Missa", que havia sido preparado em junho do ano anterior por um grupo de 12 teólogos, sob a direção do arcebispo Marcel Lefebvre."Archbishop Lefebvre gathered together a group of 12 theologians who wrote under his direction, A Short Critical Study of the Novus Ordo Missae often called the Ottaviani Intervention." A Short History of the SSPX Os cardeais advertiram que o Nova Ordinário da Missa "representa, tanto no todo como nos seus detalhes, uma afastamento marcante da teologia católica da Missa tal como foi formulada na Sessão XXII do Concílio de Trento". O estudo disse que em muitos pontos da Missa Nova aproximavam-se do protestantismo modernista. Paulo VI pediu à Congregação para a Doutrina da Fé, o próprio departamento da Cúria Romana que já havia sido dirigido por Ottaviani, para analisar o Estudo Breve e Crítico. A resposta foi emanada em 12 de Novembro de 1969, muitas afirmações do documento foram taxadas de "superficiais, exageradas, inexatas, emocionais e falsas".Christophe Geffroy and Philippe Maxence, Enquête sur la messe traditionnelle (with preface by Cardinal Alfons Maria Stickler), p. 21).

Missal de 1970 O Papa Paulo VI promulgou o rito revisto da Missa com a sua Constituição Apostólica Missale Romanum de 3 de abril de 1969, definindo o primeiro domingo do Advento, no final do mesmo ano, como a data em que deveria entrar em vigor. No entanto, o Missal revisto em si não foi publicado até o ano seguinte.

Missale Romanum faz menção especial das seguintes alterações significativas a partir da edição anterior do Missal Romano: Além do Cânon da edição anterior (que, com pequenas alterações, foi preservada como a "Primeira Oração Eucarística ou Cânon Romano") foram adicionados três alternativas Orações Eucarísticas, e o número de Prefácios foi aumentada. Os ritos do Ordinário da Missa (em latim, Ordo Missae) - que é, em grande parte invariável na liturgia - foram "cuidadosamente simplificados, para preservar os seus bens". "Elementos que, com o passar do tempo, vieram a ser duplicados ou foram adicionados com pouca vantagem" foram eliminados, especialmente nos ritos para a apresentação do pão e do vinho, a fração do pão e a comunhão. São restaurados outros elementos que perderam importância com o tempo (SC n 50), por exemplo, a homilia (SC n. 52), a oração universal ou oração do fiéis (SC n. 53), e o rito penitencial ou ato de reconciliação com Deus e com a comunidade no início da Missa. Um dos mais antigos ritos de reconciliação, o beijo da paz, que antes se limitava aos clérigos e somente na Missa Solene, é restaurado para todos os fiéis, que, "segundo as determinações da Conferência Episcopal, se saúdam uns aos outros em sinal de mútua paz, comunhão e caridade". A proporção da Bíblia lida na missa foi grandemente aumentada. Antes das reformas de Pio XII (que reduziu ainda mais as proporções), 1% do Antigo Testamento e 16,5% do Novo Testamento haviam sido lidos na missa. Desde 1970, as proporções equivalentes para os domingos e dias de semana (deixando de lado as grandes festas) foram 13,5% do Antigo Testamento e 71,5% do Novo Testamento. Isto foi possível através de um aumento no número de leituras na missa e da introdução de um ciclo de três anos de leituras aos domingos e um ciclo de dois anos aos dias de semana.

Além dessas mudanças, Missale Romanum observou que a revisão consideravelmente alterou outras seções do Missal, como o Próprio do Tempo, o Próprio dos Santos, o Comum dos Santos, e as missas e os rituais votivos, acrescentando que "[o] número [das orações] foi aumentada”.

Outras mudanças Língua vernácula Em sua constituição apostólica de 1962 Veterum sapientia, publicado pouco antes da abertura do Vaticano II, sobre o ensino de latim, o Papa João XXIII destacou a importância do latim na linguagem que a Igreja usa: "[A] Igreja Católica tem uma dignidade que ultrapassou de longe toda a sociedade meramente humana, porque é fundada por Cristo, o Senhor. É totalmente apropriado, portanto, que a linguagem usada deve ser nobre, majestoso, e não vulgar".

O Concílio Vaticano II afirmou na Sacrosanctum Concilium, 36:

36. § 1. Deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos, salvo o direito particular. § 2. Dado, porém, que não raramente o uso da língua vulgar pode revestir-se de grande utilidade para o povo, quer na administração dos sacramentos, quer em outras partes da Liturgia, poderá conceder-se à língua vernácula lugar mais amplo, especialmente nas leituras e admonições, em algumas orações e cantos, segundo as normas estabelecidas para cada caso nos capítulos seguintes. § 3. Observando estas normas, pertence à competente autoridade eclesiástica territorial, a que se refere o artigo 22 § 2, consultados, se for o caso, os Bispos das regiões limítrofes da mesma língua, decidir acerca do uso e extensão da língua vernácula. Tais decisões deverão ser aprovadas ou confirmadas pela Sé Apostólica. § 4. A tradução do texto latino em língua vulgar para uso na Liturgia, deve ser aprovada pela autoridade eclesiástica territorial competente, acima mencionada.

O Concílio previu um uso limitado da língua vernácula, e confiou a decisão sobre sua extensão à "autoridade eclesiástica territorial competente" (a conferência episcopal).

As Conferências Episcopais de todo o mundo em breve votaram para expandir o uso do vernáculo, e solicitaram a confirmação desta escolha de Roma. Em resposta, a partir de 1964, uma série de documentos a partir de Roma concederam autorização para proporções cada vez maiores da missa a ser dito em vernáculo. Quando o Missal revisto foi publicado em 1970, os sacerdotes já não eram obrigados a usar latim em qualquer parte da missa. Atualmente o latim ainda é usado apenas ocasionalmente ou, em alguns lugares, numa base regular. A regra sobre a linguagem a ser utilizada é a seguinte: "A Missa é celebrada, quer em latim ou em outra língua, desde que se usem textos litúrgicos que tenham sido aprovados de acordo com a norma da lei, exceto no caso de celebrações da Missa que estão programadas pelas autoridades eclesiásticas a ter lugar na língua do povo, os sacerdotes tem sempre e em todo lugar permissão para celebrar a Missa em latim."Redemptionis Sacramentum, 112.

Mudanças no Ordinário da Missa O Ordinário da Missa foi anteriormente considerado como consistindo de duas partes: a Missa dos catecúmenos e a Missa dos Fiéis. Na liturgia revista, ela é dividida em quatro seções: os Ritos iniciais, a Liturgia da Palavra, a Liturgia da Eucaristia, e os Ritos de conclusão. Houve algumas mudanças notáveis textuais nas duas primeiras seções, e a fórmula de demissão nos Ritos de conclusão (Ite, missa est) passou a ser o final da missa: anteriormente, era seguida por uma oração inaudível pessoal do sacerdote, e a bênção das pessoas (que foi mantida), e a leitura do "Último Evangelho" (João 1:1-14).