Isabel de Parma (em espanhol: Isabel María Luisa Antonieta Fernanda Josefa Javiera Doménica Juana de Borbón; Madrid, – Viena, ) foi a primeira esposa do arquiduque José da Áustria, futuro Sacro Imperador Romano José II. Era filha de Filipe, Duque de Parma e Luísa Isabel da França. Ela ficou conhecida por seu relacionamento lésbico com a cunhada Maria Cristina, Duquesa de Teschen.Simon Sebag Montefiore,Catherine the Great and Potemkin: The Imperial Love Affair, London, 2010Justin C. Vovk,In Destiny's Hands: Five Tragic Rulers, Children of Maria Theresa, USA, 2010

Nascida uma infanta da Espanha, tornou-se princesa de Parma quando da ascensão de seu pai como Duque de Parma, na sequência do Tratado de Aix-la-Chapelle de 1748. Era neta paterna do rei Filipe V da Espanha e materna do rei Luís XV da França, ambos da Casa de Bourbon. Seu pai foi o fundador da Casa de Bourbon-Parma, um ramo cadete dos Bourbons espanhóis. Na Espanha era conhecida como Isabel, na França como Isabelle e, depois, na Itália e Áustria, passou a ser conhecida como Isabella.

Uma pensadora do Iluminismo, ela foi uma escritora prolífica e dezenove obras escritas durante os três anos de seu casamento, algumas delas inacabadas, foram preservadas. Nelas, ela discutiu filosofia, religião, ética, política, diplomacia, teoria militar, comércio mundial, educação e criação de filhos, cultura e sociedades humanas e a posição das mulheres. Em seus escritos, mantidos em segredo, ela defendeu a igualdade intelectual das mulheres. Nenhum de seus escritos foi publicado em sua vida; suas Méditations chrétiennes (Meditações Cristãs) foram publicadas em 1764, um ano após sua morte. Algumas de suas correspondências pessoais e outras obras foram publicadas por biógrafos e historiadores.

Embora seu marido a amasse, ela não correspondia totalmente aos sentimentos dele e encontrou mais realização em seu relacionamento, possivelmente sexual, com sua cunhada, a arquiduquesa Maria Cristina. Apesar de sua popularidade na corte vienense, a vergonha e a culpa inspiradas por sua incapacidade de retribuir os sentimentos de seu marido, agravadas pela atração pelo mesmo sexo que ela considerava pecaminosa, a deixaram infeliz. Uma infância solitária com educadores exigentes e pouco afetuosos, a perda repentina de sua mãe, um parto difícil e dois abortos espontâneos no intervalo de dez meses e, mais tarde, uma quarta gravidez afetaram negativamente sua saúde física e mental. Ela foi descrita como melancólica e experimentou ideação suicida. Biógrafos sugeriram que ela sofria de depressão ou transtorno bipolar, aos quais ela provavelmente era geneticamente predisposta. Ela morreu aos vinte e um anos de varíola.

Início de vida Nascimento e família miniaturadaimagem|esquerda|200px|Isabel, quando bebê, em estudo para a pintura A família de Filipe V (1743), por Louis-Michel van Loo. Nascida em 31 de dezembro de 1741, no Palácio do Bom Retiro, em Madrid, Isabel Maria Luísa Antonieta era a primeira filha do infante Filipe da Espanha e sua esposa Luísa Isabel da França, conhecida na corte espanhola como Madame Infante. Isabel era uma infanta da Espanha por nascimento e detinha o direito ao estilo de tratamento de "Sua Alteza Real".

Seus pais eram primos de primeiro grau, uma vez removidos, com uma diferença de idade de seis anos; sua mãe tinha doze e seu pai dezoito anos quando se casaram. Ao passo que Filipe era apenas o terceiro filho de Filipe V da Espanha, a orgulhosa Madame Infante, como primogênita de Luís XV da França, considerou inadequada a decisão do pai em casá-la com um alguém que não fosse um monarca reinante ou herdeiro de um trono. Madame Infante era ambiciosa e obstinada, ao contrário de seu marido, e logo assumiu um papel de liderança no casamento, trabalhando para garantir uma posição mais elevada para si e mais poder para a Casa de Bourbon. Ela mantinha um relacionamento tenso com sua sogra Isabel Farnésio, a governante de fato da Espanha, a quem ela ameaçava em influência sobre Filipe, ainda que ambas trabalhassem juntas para promover os interesses dele.

Madame Infante tinha apenas quatorze anos quando deu à luz Isabel após um parto difícil que durou dois dias. Dois meses depois, Filipe partiu para lutar na Guerra da Sucessão Austríaca e não viu sua família novamente até que sua filha tivesse oito anos. Sua mãe demonstrou pouca afeição por Isabel e supostamente achou o bebê um fardo.

Vida na Espanha miniaturadaimagem|Duquesa de Parma com sua filha Isabel, por Jean-Marc Nattier, 1750. Durante os primeiros sete anos de sua vida, Isabel foi criada na corte de seus avós paternos em Madrid. Sua avó, a rainha Isabel Farnésio, a amava, relatando regularmente sobre seu bem-estar, desenvolvimento e comportamento ao filho ausente. Em contraste, a mãe de Isabel nunca demonstrou demasiada afeição para com a filha e era impaciente com ela; quando a criança não comportava-se, ela a castigava tão severamente que sua avó chegou a intervir. Madame Infante supostamente achava Isabel teimosa e insuportável. Isabel foi confiada a uma governanta de origem francesa, a marquesa Marie-Catherine de Bassecourt-Grigny. A marquesa mantinha um forte senso de etiqueta e hierarquia desde sua posição anterior como dama de honra da rainha Maria Bárbara de Bragança, consorte de Fernando VI da Espanha. Isabela desenvolveu um estreito vínculo com sua governanta, o que inspirou o ciúme de sua mãe.

Na Espanha, Isabel recebeu uma educação típica para as princesas da época. O uso de castigos corporais foi ordenado por seu pai e endossado por sua mãe. De acordo com sua autobiografia, ela era uma criança enérgica e travessa, sempre barulhenta, pulando, escalando, caindo, quebrando móveis e enfeites. Seus passatempos favoritos eram perseguir borboletas, andar a cavalo e fazer acrobacias com uma corda, e ela gostava de escrever, cantar e desenhar. Tentando melhorar seu comportamento, sua governanta tirou cordas, cavalos e balanços dela. "O que fazer nesta situação triste? [...] Mas eu finalmente aprendi a ser razoável", comentou Isabela quando adulta. Ela começou a se entreter silenciosamente, mais tarde lembrando que sua cabeça "estava sempre nas nuvens, ocupando-se com cem mil ideias ao mesmo tempo". Em 1746, um embaixador francês elogiou sua 'dignidade', dizendo que, aos quatro anos, ela já sabia "quem ela é, a quem ela pertence e o que ela deve ser um dia". Ele também comentou sobre a frieza de sua mãe em relação a Isabel. Crescendo como filha única até os dez anos de idade, sem companheiros de brincadeira e sob controle estrito, sua infância foi caracterizada como solitária e austera.

Visita a França miniaturadaimagem|esquerda|Isabel em 1749, aos sete anos, em retrato de Jean-Marc Nattier pintado durante sua estadia em Versalhes. Entre 6 de janeiro e 7 de outubro de 1749, Isabel viveu em Versalhes, visitando sua família materna a caminho de Parma. Como a única neta de Luís XV da França e Maria Leszczyńska, ela recebeu mais atenção e carinho do que nunca. O luxo e a alegria da corte francesa foram um choque para ela depois dos costumes cortesãos espanhóis mais rígidos. Aos oito anos, ela foi autorizada a participar de funções da corte e atender ao teatro, à ópera, aos bailes e aos concertos. Paul d'Albert de Luynes registrou que ela não parecia gostar dessas apresentações e era considerada tímida. Nessa época, Isabel sentia-se mais confortável falando espanhol, que aprendera com sua governanta, do que francês, usado com sua mãe e avó paterna.

Gradualmente, Isabel começou a gostar de sua estadia na França. Ela passou a acompanhar a avó materna em óperas, peças e concertos, e ficava encantada quando era tratada como uma "Filha da França": a guarda real a saudava como tal e ela detinha o direito de sentar-se na presença do rei, assim como a mãe e as tias. Ela chegou a apresentar-se no apartamento da Delfina com aclamação real. Após sua estadia em Versalhes, ela correspondia com sua família materna com frequência e sua língua principal tornou-se o francês.

Vida em Parma miniaturadaimagem|240px|A Família de Filipe, Duque de Parma (1757). Por Giuseppe Baldrighi, Galeria Nacional de Parma, Parma, Itália. Na sequência do Tratado de Aix-la-Chapelle de 1748, o pai de Isabel tornou-se o novo "Duque de Parma", um título que pertencia anteriormente à família de sua mãe. Isabel e sua mãe chegaram a Parma em 20 de novembro de 1749. O ducado estava empobrecido, seus palácios em ruínas. Enquanto Isabel tinha uma grande consideração pelos espanhóis e franceses, ela considerava os italianos "ignorantes da arte de pensar" e queria deixar o país imediatamente. Sua mãe, ressentida com seu baixo status e relativa pobreza, concentrou-se em arranjar casamentos vantajosos para seus filhos. Ela visitou Versalhes duas vezes mais para negociar um casamento para Isabel, entre agosto de 1752 e outubro de 1753 e, depois, no verão de 1757 até dezembro de 1759, quando ela morreu. Ambas as vezes, seu marido e filhos ficaram em Parma.

miniaturadaimagem|esquerda|200px|Isabel, por Anton Raphael Mengs. Em Parma, os pais de Isabel tiveram mais dois filhos em 1751: Fernando em 20 de janeiro de 1751 e Maria Luísa em 9 de dezembro do mesmo ano, a quem sua mãe demonstrou mais afeição. Isabel parece não ter tido ciúmes e gostou de ter companhia. Durante as ausências de Madame Infante, Isabel relatou o bem-estar de seus irmãos ao pai e à avó materna. O duque vivia separado de seus filhos por sete meses todos os anos no Palácio Ducal de Colorno para estar mais perto dos melhores campos de caça. Isabel enviou-lhe notas curtas sobre os hábitos de sono e a dentição dos dois bebês. Entre novembro e abril, Filipe viveu com seus filhos mais novos no Palazzo della Pilotta, enquanto Isabel ficou com sua governanta no Palazzo del Giardino.

Embora Isabel certamente tenha trocado cartas com sua mãe, estas foram perdidas. Nessa época, seus amigos questionaram Madame Infante sobre sua frieza em relação à filha mais velha, ao que ela respondeu que seu "caráter era muito sério para fazer amizade com [sua] filha". Madame Infante acreditava que a filha era ciente de sua natureza fria e estava satisfeita com o trato demonstrado. Ela foi oficialmente instada pelo Marechal da França, Adrien-Maurice de Noailles, a mostrar mais amor a Isabel, pois temia-se que os rumores sobre seu tratamento frio pudessem diminuir as chances de um casamento politicamente vantajoso. O embaixador francês em Parma garantiu a Noailles que mais atenção estava sendo dada a Isabel, enquanto Madame Infante protestou seu amor maternal: "todo o mundo deve ver [...] o quanto eu a amo. Para aqueles que me conhecem, é certo".

No verão de 1749, os pais de Isabel contrataram Pierre Cerou, um educado escritor de comédia francês com experiência como tutor para administrar sua propriedade e instruir Isabella em história, literatura e francês. Em 1754, a pedido da corte de Madrid (preocupada com a religiosidade de Cerou), ele foi substituído por um jesuíta francês, Thomas Fumeron. Fumeron, no entanto, foi designado para Fernando, não Isabel, que a partir de então não teve um professor. Em 1757 e 1758, respectivamente, um governador e um tutor foram contratados para Fernando: Auguste de Keralio, um soldado e cientista, e o abade Étienne Bonnot de Condillac, um filósofo e amigo próximo de Rousseau, Diderot e d'Alembert. Isabel foi instruída por seus confessores, Padres Fumeron e Belgrado, na vida dos santos, e continuou a praticar desenho, pintura e música com sua governanta; ela se destacou em cantar e tocar violino e cravo. Embora não haja provas de que ela tenha atendido às aulas de Keralion e Condillac, Badinter argumenta que seu conhecimento posterior de teoria militar, história e ideais do Iluminismo atestam que ela provavelmente o fez.