thumb|direita|300px|Estação ferroviária da EFCBH em São Félix. A Estrada de Ferro Central da Bahia (EFCBH) foi uma ferrovia que conectou o Recôncavo baiano ao sertão e a Chapada Diamantina. A ferrovia foi idealizada por políticos e comerciantes das cidades baianas de Cachoeira e São Félix.
Antecedentes a concessão
+ Condições técnicas do projeto originalJUNIOR, Cyro Diocleciano Ribeiro Pessoa. Estudo descriptivo das Estradas de Ferro do Brazil. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1886, p. 186. Bitola Declividade máxima 3% Relação da extensão em nível % Relação da extensão em declive % Relação dos alinhamentos retos % Relação dos alinhamentos em curvas % Raio mínimo das curvas Altura máxima dos cortes Altura máxima dos aterros
A Estrada de Ferro Central da Bahia foi a segunda ferrovia construída na Bahia e a oitava no Brasil. As secas prolongadas, péssimas condições das estradas de rodagem e a descoberta de minerais de alto valor comercial na Chapada Diamantina foram fatores essenciais para a implantação na segunda metade do século XIX desse sistema modal conectando o sertão e o agreste ao recôncavo baiano. Com o crescimento populacional em varias localidades do sertão devido a mineração, foi necessário repensar os modais de transporte de carga e passageiros. As vias de acesso para as localidades eram poucas e sem infraestrutura o que afetava o custo de transporte e por consequência o preço final de produtos e serviços.
A descoberta de diamantes em Mucugê em setembro de 1844 transformou aquela região da Chapada Diamantina, anteriormente pouco povoada, em uma das áreas mais prósperas da província da Bahia. As cidades de Mucugê, Andaraí, Lençóis e Rio de Contas foram ocupadas por garimpeiros de áreas vizinhas e da Província das Minas Gerais além de “muitos libertos que vegetavam a margem do sistema em Salvador, no Recôncavo ou mesmo no alto do sertão, viram a riqueza do diamante como uma possibilidade de integração e também de ascensão social”.SILVA, Eduardo. Dom Obá d’ África, o príncipe do povo: vida, tempo e pensamento de um homem livre de cor. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 32. Com a finalidade de fiscalizar e cobrar tributos dos que exploravam as lavras foi sancionado Dom Pedro II o Decreto nº 465, de 17 de agosto de 1846 no qual estabelece que "Art. 40. Fica tambem creada na Provincia da Bahia huma Administração diamantina, como a de Minas Geraes, sendo a residencia dos seus Empregados onde o Governo designar, quando os nomear.".
Uma seca severa devasta o sertão baiano o que motiva a Câmara do Rio de Contas enviar um ofício ao Presidente da Província Herculano Ferreira Pena, pedindo medidas urgentes para socorrer a população da região das lavras. Empossado em 28 de setembro de 1859, teve que se ocupar desde logo com tão grave assunto, tratou de socorrer a parte mais indigente da população com alimentos enviados a partir de Salvador. Dom Pedro II dignou-se não só a aprovar a deliberação da Presidência da Bahia, mais ainda ordenou que fossem entregues 5:000$000 (Cinco contos de réis) para serem igualmente aplicados em benefício dos pobres distribuídos pela maneira seguinte: 1:800$000 (Um conto e oitocentos mil réis) para Lençóis, 1:600$000 (Um conto e seiscentos mil réis) para Mucugê, 800$000 (Oitocentos mil réis) para Rio de Contas e 800$000 (Oitocentos mil réis) para Andaraí. As condições da estrada do paraguassú (Estrada das Minas) fez elevar o valor do frete não permitindo que fosse mais ampla a distribuição dos mantimentos. Apesar de se situar fora da região das lavras, a Villa da Tapera, atual Santa Teresinha, padecia com a falta de alimentos. Tal fato motivou a Câmara local a enviar um ofício, em 10 de fevereiro de 1860 e lido por Ferreira Pena na sessão de 10 de abril de 1860 requerendo a construção de uma estrada de ferro, que facilitasse a comunicação com as estradas reais do sertão, com a de Caetité e a do Rio São Francisco.FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL. Relatório dos Trabalhos do Conselho Interino de Governo. Falla recitada na abertura da Assemblea Legislativa Provincial da Bahia pelo Presidente da Provincia o Conselheiro e Senador do Imperio Herculano Ferreira Penna em 10 de abril de 1860. Bahia: Typographia de Antonio Olavo da França Guerra, 1860, p. 27, 28, 116 e 117.
No ano seguinte a falta de chuvas persiste e a fome se alastra por toda a Chapada Diamantina. Na sessão de 1º de setembro de 1861 o Vice-presidente da Província da Bahia José Augusto Chaves em seu discurso de abertura dos trabalhos na Assembleia Legislativa da Bahia e em atenção aos ofícios do Rio de Contas e Santa Teresinha recitou "ha muito que por elles clamam, não só os habitantes do interior, como os grandes interesses do commercio, que alli entretem as mais vastas e importantes transacções. Estes motivos já eram mais que sufficientes, para não serem retardados, si os não viesse por relevo, e com a maior instancia, a mão de ferro da calamidade, que pesou sobre aquellas populações. A charidade publica recuava ante a impossibilidade de alli chegarem os seus donativos á vista das despezas excessivas dos transportes: por ellas chegaram tambem já muito enfraquecidos os soccorros do Governo.". E asseverou "por todas estas considerações, reconhecendo as grandes vantagens que d'essa obra devem resultar á Provincia, resolvi, por Acto de 19 de Julho, nomear uma Commissão composta dos Engenheiros Major Manoel da Silva Pereira, Drs. João José de Sepulveda e Vasconcellos e Trajano da Silva Rego, afim de percorrerem a dita estrada e proporem os melhoramentos de que ella precisa".FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL. Relatório dos Trabalhos do Conselho Interino de Governo. Falla que, recitou na abertura da Assembléa Legislativa da Bahia, o Vice-presidente da Provincia Dr. José Augusto Chaves, no dia 1º de setembro de 1861. Bahia: Typographia de Antonio Olavo da França Guerra, 1861, p. 75-76.
No relatório apresentado por José Augusto Chaves em 1862 para o Presidente da Província da Bahia Joaquim Antão Fernandes Leão sobre o Ato de 19 de julho exaltou "quando mesmo fossem d'ordem secundaria as reflexões expendidas, lá estavam ainda na dolorosa reminiscencia das populações do centro o quadrado luctuoso dos horrores porque passaram, no longo periodo de tres annos, em que uma seca tanto as flagellou, reclamando com toda a instancia o melhoramento das estradas, visto como pela longitude e pessimo estado das que existem, em que mais vasta escala permaneceo a dura calamidade, que alli reinou, tornando ora impossiveis, e era mui difficultosos os auxilios, quer da caridade publica, e quer do Governo." E concluiu ressaltando "foi especialmente por este motivo, que o Acto de 19 de Julho proximo passado nomeei uma Commissão de Engenheiros , composta do Major Manuel da Silva Pereira, Dr. João José de Sepulveda Vasconcellos e Dr. Trajano da Silva Rego, incumbida de tirar a planta e orçamento d'essa obra."FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL. Relatório dos Trabalhos do Conselho Interino de Governo. Relatorio apresentando ao Excellentissimo Senhor Conselheiro Joaquim Antão Fernandes Leão, Presidente da Provincia da Bahia, pelo 4º Vice-presidente o Excellentissimo Senhor Doutor José Augusto Chaves, no acto de passar-lhe a administração provincial. Bahia: Typographia de Antonio Olavo da França Guerra, 1862, p. 13.
A comissão de engenheiros que seguiu para explorar a estrada do paraguassú (Estrada das Minas) entre São Félix e Mucugê apresentou para o Governo a exposição de toda sua viagem, acompanhada das plantas e orçamentos das obras que julgou mais urgentes, em vista não só da utilidade que podem prestar, mas também da capacidade financeira da província. Joaquim Antão Fernandes Leão julgou incompletos os estudos apresentados não empreendendo obra alguma até que novos estudos fossem realizados. Na sessão de 1º de março de 1862 Fernandes Leão recitou que “o Chefe da comissão e de parecer que não se empreenda esta construção, porque julga que só uma estrada com carris de ferro e locomotivas poderá satisfazer as necessidades das povoações que estão situadas n’aquellas paragens. Com quanto reconheça que as estradas de ferro são preferiveis as de rodagem, e principalmente quando são feitas por um systema mais economico do que as que temos tido até o presente, não penso que seja perdido o tempo e despeza que se fizer em estudos mais regulares parar determinar o melhor traço d’aquella estrada: em quanto não chegarem as estradas de ferro, podemos ter estradas de rodagem com decliveis apropriados e que no futuro alimentarão as próprias estradas de ferro.”.FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL. Relatório dos Trabalhos do Conselho Interino de Governo. Falla recitada na abertura D'Assemblea Legislativa da Bahia, pelo Presidente da Provincia o Conselheiro Joaquim Antão Fernandes Leão no dia 1º de março de 1862. Bahia: Typographia de Antonio Olavo da França Guerra, 1862, p.33.
Pressionado para que construa a estrada de ferro e adote medidas urgentes no que se refere a situação da estrada do paraguassú o Presidente da Província da Bahia Conselheiro Antônio Coelho de Sá e Albuquerque na sessão de 1º de março de 1863 da Assembleia Legislativa da Bahia foi enfático ao recitar “se se calcular sobre os dados que temos colhido sobre todas as estradas de ferro concebidas até agora no nosso paiz, e sobre as outras emprezas de grandes dimensões, não errará quem disser que a estrada de ferro projectada sem garantia do capital é uma obra audaz e de resultados duvidosos”. O engenheiro Manoel da Silva Pereira membro da comissão enviado em 1861 para fazer os estudos sobre os melhoramentos da estrada do paraguassú e a viabilidade da construção de uma estrada de ferro em seu relatório apresentado para o Governo da Província informou ser inviável investir numa estrada para Mucugê que está em completa decadência, sem comércio e indústria. Que tal estrada deveria dirigir-se para Lençóis, que aumenta e floresce de maneira extraordinária. Frisa Antônio Coelho de Sá e Albuquerque “como sabeis, há projecto já discutido para a construcção de uma estrada de ferro entre esta capital e a referida villa dos Lençoes”. E finaliza “ainda hoje nos paizes em que o vapor nos caminhos de terra tem feito progressos admiraveis, as comunicações por agua são aproveitadas e desenvolvidas como as mais economicas. Quer nos Estados Unidos da America do Norte, quer na Europa os canaes são julgados necessários e muitas vezes abertos ao lado das estradas de ferro.”FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL. Relatório dos Trabalhos do Conselho Interino de Governo. Falla que recitou na abertura da Assembléa Legislativa da Bahia o Presidente da Provincia o Conselheiro Antonio Coelho de Sá e Albuquerque no dia 1º de março de 1863. Bahia: Typographia Poggetti de Tourinho, Dias e Companhia, 1863, p. 64.
No mesmo ano escreveu o "Inspector Diamantino" Gustavo Adolpho de Menezes para Governo Imperial "me parece ser de indispensável necessidade a creação de uma estrada, pelo menos, de rodagem sob carris de ferro ou de madeira, como as dos Estados-Unidos, visto como o nosso paiz, a braços com dificuldades financeiras, apenas me parece poder supportar uma empresa de estrada de ferro a vapor; e esta estrada de rodagem ter por fim ligar o nosso sertão ao littoral, partindo do ponto mais conveniente em que possam aportar os transportes por agua, e vá finalizar em direcção Oeste no alto rio de S. Francisco."MENEZES. Gustavo Adolpho de. Memoria descriptiva e estatística da riqueza mineral da província da Bahia. 1863. In: FERREIRA, Francisco Ignacio. Diccionario geográfico das minas do Brazil. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional. 1885, p. 242.