Carlos Martel (; ; ; Settipani 1993, p. 165 – Quierzy-sur-Oise, Généalogie de Charles Martel [archive]sur le site Medieval Lands) foi Mordomo do Palácio (essa posição era comum na Dinastia Merovíngia, iniciada por Clóvis; pelo fato de os reis desta dinastia serem considerados "indolentes", preguiçosos, quem de fato governava era quem ocupava o posto de Mordomo do Palácio, chamado também de Prefeito do Palácio) de 717 a 741 e duque da Austrásia e o soberano de facto dos Francos. Filho ilegítimo de Pepino de Herstal, prefeito do palácio da Austrásia com sua concubina Alpaida, e nascido em Herstal, no que agora é a Valônia, na Bélgica, Martel expandiu seu domínio sobre os três reinos francos: Austrásia, Nêustria e Borgonha.

É mais lembrado por ter vencido a Batalha de Poitiers (ou batalha de Tours) em 732, tradicionalmente considerada a ação que salvou a Europa do expansionismo muçulmano que já havia conquistado a Península Ibérica; a partir de então não houve mais invasões muçulmanas nos territórios francos, e a vitória de Carlos é considerada decisiva para a história medieval na medida em que conteve a expansão islâmica nas fronteiras francas.Battle of Tours - Encyclopaedia Britannica

Embora inicialmente lembrado simplesmente como o líder do exército cristão que prevaleceu em Tours, Carlos Martel foi um verdadeiro gigante do início da Idade Média. Um general brilhante numa época privada desse talento, ele é considerado o pai da cavalaria pesada ocidental, das ordens de cavalaria e fundador do Império Carolíngio (Pepino o Breve, seu filho, daria o nome de Império Carolíngio devido a Carlos Martel e não devido a Carlos Magno, neto de Carlos Martel), e um catalisador para o sistema feudal que acompanharia a Europa através da Idade Média (embora descobertas acadêmicas recentes sugerem que ele era mais um dos beneficiários do sistema feudal que um agente causador das mudanças sociais).

Foi prefeito do palácio (ou seja, responsável pela administração sob o Rei) do Reino Franco do Oriente, a partir de 717. Em 731 tomou as rédeas da totalidade do Reino. Recebeu do Papa Gregório III o título de Herói da Cristandade.

Biografia

Conquista do poder difícil Em dezembro de 714, Pepino de Herstal morreu, e seu filho Carlos foi designado para retomar o cargo de prefeito do palácio que ocupava o defunto, estando os seus meios-irmãos Drogo de Champanhe e Grimoaldo II também mortos.

Mas aos olhos de Plectruda, a primeira esposa de Pepino de Herstal, Carlos era considerado como um filho ilegítimo porque este nasceu de Alpaida, uma outra esposa nobre e elegante que Pepino havia tomado apesar de já ser casado. Plectruda portanto, fez tudo para o descartar do poder e preservar o futuro de Teodoaldo, filho bastardo de seu filho legítimo Grimoaldo, herdeiro de todos seus domínios, que tinha apenas 6 anos. Rapidamente, Plectruda sequestrou Carlos MartelRiché 1983, p. 43-5., o filho sobrevivente mais velho de seu marido, um bastardo, e o aprisionou em Colônia, a cidade que estava destinada a ser sua capital. Isto evitou uma revolta a seu favor na Austrásia, mas não na Nêustria.

Em 715, a nobreza neustriana proclamou Ragenfrido prefeito do palácio em favor de - e aparentemente com seu apoio - Dagoberto III, o jovem rei, que de fato tinha a autoridade legal de escolher o prefeito, apesar de nessa época a dinastia merovíngia ter perdido a maioria de seus poderes régios.

Os austrasianos não suportariam uma mulher e seu jovem filho por muito tempo. Antes do final do ano, Carlos Martel havia escapado da prisão e foi aclamado prefeito pelos nobres austrasianos. Os neustrianos atacaram a Austrásia, e os nobres austrasianos esperavam por um homem forte que os liderasse contra os invasores. Naquele ano, Dagoberto morreu e os neustrianos proclamaram Quilperico II rei sem o apoio dos outros reinos francos.

Em 716, Quilperico e Ragenfrido comandaram um exército invasor na Austrásia. Os neustrianos se aliaram a uma outra força invasora liderada por Radbod, rei dos frísios e encontraram Carlos em batalha próximo a Colônia, ainda sob domínio de Plectruda. Carlos tinha pouco tempo para reunir um exército, ou prepará-lo, e o resultado foi a única derrota que ele sofreu na sua vida. De fato, ele fugiu do campo de batalha logo que ele percebeu que não tinha tempo nem homens para vencer, escapando para as montanhas do Eifel. O rei e seu prefeito então se voltaram para atacar seu outro rival na cidade, tomá-la e ao tesouro, e receber o reconhecimento de Quilperico como rei e Ragenfrido como prefeito. Plectruda então se rendeu em favor de Teodoaldo.

Nessa conjuntura, os eventos favoreceram Carlos. Tendo feito as preparações necessárias, Carlos atacou o exército triunfante próximo a Malmedy, quando este retornava ao seu reino, e em seguida, na batalha de Amblève, derrotou-o e afugentou-o. Várias coisas são notáveis nessa batalha, na qual Carlos estabeleceu os padrões para o resto de sua carreira militar: primeiro, ele surgiu onde seus inimigos menos esperavam, enquanto eles marchavam triunfalmente para casa e estavam em maior número do que ele. Ele também atacou quando menos se esperava, ao meio-dia, quando os exércitos daquela época tradicionalmente descansavam. Finalmente, ele os atacou como eles menos esperavam, fingindo uma retirada para atrair os seus inimigos a uma emboscada. A retirada dissimulada, quase desconhecida na Europa Ocidental na época - era tradicionalmente uma tática oriental, muito utilizada pelos hunos - exigia uma disciplina extraordinária das tropas e o comando preciso dos comandantes. Carlos, nessa batalha, começou a demonstrar a genialidade militar que marcaria seu governo, nunca atacando seus inimigos onde, quando e como eles esperavam, e o resultado foi um período de vitórias contínuo que só terminou com sua morte.

Na primavera de 717, Carlos retornou à Nêustria com seu exército e confirmou sua supremacia com uma vitória em Vincy, próximo a Cambrai. Ele perseguiu o rei fugitivo e o prefeito até Paris antes de voltar a negociar com Plectruce em Colônia. Ele tomou a cidade e dispersou os partidários dela. Ele deixou Plectruda e Teodoaldo vivos, tratando-os com bondade - comportamento incomum para a época, quando a piedade com um ex-inimigo, ou com um potencial rival, era rara.

Pacificação do reino franco Com seu sucesso, ele proclamou Clotário IV rei da Austrásia em oposição a Quilperico I e depôs o arcebispo de Reims, Rigoberto, substituindo-o por Milo, que o apoiou por toda a vida. Após subjugar toda a Austrásia, ele marchou contra Radbod que se tinha aliado com o duque Odão da Aquitânia e da Vascônia e o empurra de volta ao seu território, tendo-lhes imposto a primeira derrota a 14 de Outubro de 719 em Néry, entre Senlis e Soissons.Riché 1983, p. 45-9.

Ele se comprometeu ainda a empurrar a fronteira oriental do reino: de 720-738, e conquistou a Áustria e sul da Alemanha. Em 734, na Batalha do Boarn (Boorne), os frísios comandados pelo rei Poppo (674-734) foram derrotados pelos francos, que conquistaram a parte ocidental dos Países Baixos até Lauwers.Riché 1983, p. 49-53.

Ele também despachou os saxões para além do rio Weser e assim assegurou suas fronteiras - em nome do novo rei, naturalmente. Mais do que qualquer outro prefeito do palácio anterior, todavia, o poder absoluto estava com Carlos Martel. Embora ele nunca se preocupasse com títulos, seu filho Pepino se preocupava, e finalmente perguntou ao papa "quem deveria ser rei: quem possuía o título ou quem tivesse o poder?" O papa, altamente dependente dos exércitos francos para sua independência dos lombardos e do poder bizantino (o imperador bizantino ainda se considerava o único imperador "romano" legítimo, e assim, governante de todas as províncias do antigo império, reconhecidas ou não), declarou "que o rei era quem possuía o poder" e imediatamente coroou Pepino. Décadas depois, o filho de Pepino, Carlos Magno, foi coroado imperador pelo papa, estendendo mais ainda o princípio de "quem detinha o poder" revogando a autoridade nominal do imperador bizantino na península Itálica (a qual estava, então, reduzida a pouco mais que Puglia e Calábria na melhor das hipóteses) e na antiga Gália Romana, inclusive os postos avançados ibéricos (Carlos Magno havia se estabelecido na Marca Hispânica, além dos Pirenéus, no que hoje é a Catalunha). Em resumo, apesar do imperador bizantino reivindicar autoridade sobre todo o antigo Império Romano como legítimo imperador "romano", e isto era legalmente verdade, mas que simplesmente não era a realidade. A maior parte do Império Romano do Ocidente estava sob governo carolíngio, e o imperador bizantino quase não tinha mais autoridade no Ocidente desde o século VI. Mesmo assim Carlos Magno, um político completo, preferia evitar uma ruptura completa com Constantinopla. O que estava ocorrendo era o nascimento de uma instituição única na história: o Sacro Império Romano-Germânico. Apesar do mordaz Voltaire ridicularizar sua nomenclatura, dizendo que o Sacro Império não era "nem santo, nem romano, nem um império". Ele constituiu um enorme poder político, especialmente sob as dinastias saxã e saliana, e, em menor grau, por extensão, os Hohenstaufen. Ele durou até 1806, como uma entidade imaginária.

Apesar de seu neto ter sido o primeiro imperador, o "império" tal como era, foi formado durante o governo de Carlos Martel.

Em 718, Quilperico respondeu à nova superioridade de Carlos Martel firmando uma aliança com Odo, duque da Aquitânia, que havia se tornado independente durante a guerra civil de 715. Eles foram derrotados em Soissons por Carlos. O rei fugiu com seu aliado para as terras ao sul do Loire, enquanto Ragenfrido fugiu para Angers. Clotário morreu logo em seguida e Odo desistiu do apoio a Quilperico em troca do reconhecimento de seu ducado, entregando o rei a Carlos, que reconheceu sua majestade sobre todos os francos pela legítima afirmação real de sua maioridade, da mesma forma sobre todos os reinos (718).

Guerras externas de 718-732 Os anos seguintes foram repletos de disputas. Entre 718 e 723, Carlos manteve seu poder através de uma série de vitórias: ele conseguiu a lealdade de vários importantes bispos e abades (pela doação de terras e dinheiro para a fundação de abadias tais como Echternach), subjugou a Baviera e a Alamânia e derrotou os saxões pagãos.

Tendo unificado os francos sob sua bandeira, Carlos estava determinado a punir os saxões que haviam invadido a Austrásia. Então, em 718, ele devastou suas terras nas margens do Weser, em Lippe e no Ruhr. Ele os derrotou na Floresta de Teutoburgo. Em 719, Carlos tomou a Frísia Ocidental sem grande resistência por parte dos frísios, que já haviam sido súditos dos francos, mas tinham tomado o controle da região com a morte de Pepino. Embora Carlos não confiasse nos pagãos, seu governador, Aldegisel, aceitou o cristianismo, e Carlos enviou Vilibrordo, bispo de Utrecht, o famoso "Apóstolo dos Frísios" para converter a população. Carlos também ajudou bastante Vinfrido, depois Bonifácio, o "Apóstolo dos Alemães".

Quando Quilperico II morreu no ano seguinte (720), Carlos apostou como seu sucessor o filho de Dagoberto III, Teodorico IV, que ainda era uma criança, e que ocupou o trono de 720 a 737. Carlos estava então nomeando os reis a quem ele supostamente servia, rois fainéants que eram meros fantoches em suas mãos; no final de seus reinados eles eram tão imprestáveis que sequer se preocupavam em apontar seu sucessor. Nesse momento, Carlos novamente marchou contra os saxões. Então os neustrianos se rebelaram sob o comando de Ragenfrido, que havia sido deixado no condado de Anjou. Eles foram facilmente derrotados (724), mas Ragenfrido entregou seus filhos como reféns em troca da manutenção de seu condado. Este evento pôs fim às guerras civis no governo de Carlos Martel.