A eleição presidencial de 2014 no Brasil foi realizada em dois turnos. O primeiro aconteceu em 5 de outubro de 2014, e o segundo em 26 de outubro de 2014, ambos em domingos. Foi a 7ª eleição presidencial do país após a promulgação Constituição Federal de 1988. A presidente Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT), foi reeleita com mais de 54 milhões de votos. A candidata petista venceu o segundo turno com 51,64% dos votos válidos, fazendo com que esta fosse, até então, considerada a eleição mais acirrada no Brasil após a redemocratização, só superada em 2022 pela disputa em segundo turno entre Lula e Bolsonaro nas eleições presidenciais daquele ano, em que Lula venceu com 50,9% dos votos válidos.
Além de Dilma, outros dez candidatos disputaram o primeiro turno da eleição no dia 5 de outubro. Destes, três eram apoiados por coligações de partidos, enquanto os restantes tinham apoio apenas de seu próprio partido. Como nenhum dos candidatos atingiu maioria absoluta dos votos, um segundo turno foi convocado, entre os ambos economistas Dilma Rousseff e Aécio Neves, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB).
A eleição foi marcada pela morte do candidato Eduardo Campos, do Partido Socialista Brasileiro (PSB), em um acidente aéreo no dia 13 de agosto de 2014, enquanto fazia campanha eleitoral nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Cinco dias após, o PSB anunciou que Marina Silva substituiria Eduardo na disputa pela presidência. A eleição também foi marcada por uma instabilidade no Brasil, devido às manifestações de 2013 e à crise política e econômica que afetava o país e que se intensificaria mais tarde.
Contexto Polarização do Partido dos Trabalhadores thumb|direita|Luiz Inácio Lula da Silva durante sua posse para o primeiro mandato em 2003. Até a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002, o Partido dos Trabalhadores (PT) caracterizava-se como esquerda e oposicionista ao governo de Fernando Henrique Cardoso, filiado ao Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Esta situação foi evidenciada principalmente pela atitude do PSDB de abandonar a posição de centro-esquerda (predominante no partido na época), e aliar-se à ideologia da centro-direita. Conforme um estudo realizado pelo doutor em Ciências Políticas Yan de Souza Carreirão, ao analisar pesquisas do Datafolha, a preferência política do brasileiro oscilou bastante entre 1989 e 2002, sendo liderada pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), declaradamente de centro, com 19% de preferências em 1989, enquanto em 2002, pouco antes da eleição de Lula, o PT liderava com 21% da preferência dos brasileiros.
A partir daí, as políticas sociais aplicadas pelo Governo Lula, em especial o Bolsa Família e o Fome Zero, foram determinantes para o fortalecimento da opinião pública referente ao Partido dos Trabalhadores (PT). O impacto destes programas sociais vieram a influenciar nas regiões geográficas onde o PT recebia votos, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, as mais atingidas pelos impactos benéficos dos projetos do governo Lula, o que pôde ser comprovado em estudos de Sonia Luiza Terron, doutora em Ciência Política do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ).
Eleição de 2010 Em 31 de outubro de 2010, no segundo turno das eleições de 2010, Dilma Rousseff do Partido dos Trabalhadores (PT), ex-ministra chefe da Casa Civil do governo Lula, se tornou a primeira mulher eleita para a presidência da República do Brasil após derrotar José Serra, então candidato do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). A campanha foi dominada por temas morais e religiosos, sendo a candidata petista atacada por grupos religiosos conservadores onde era acusada de apoiar o terrorismo, o aborto e a corrupção.
A abstenção foi alta, superando a marca de 20 milhões de eleitores. No primeiro turno, a polarização entre PT e PSDB, presente na política nacional desde 1994, foi ameaçada pela votação expressiva em Marina Silva, ex-ministra do meio ambiente do governo Lula, então no Partido Verde, que obteve cerca de 19,6 milhões de votos, atingindo cerca de 19% dos votos válidos. O segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva foi encerrado, em dezembro de 2010, com uma aprovação de 87%.
Primeiros anos do governo Dilma Cerimônia de lançamento da Comissão Nacional da Verdade|thumb|direita O Governo Dilma herdou o pacote de medidas denominado "tripé macroeconômico", que consistia em política de câmbio flutuante, elaboração de metas fiscais e metas de inflação, elaborado ainda no governo de Fernando Henrique Cardoso em 1999. Segundo economistas, o cumprimento destas medidas resulta na estabilidade econômica necessária para que haja crescimento. Porém, durante parte do governo de Dilma, prevaleceu a ideia de que o crescimento é o que deveria ser buscado e, para que se chegasse ao objetivo, era aceitável o descumprimento de regras do tripé. Em seu lugar foi implementada a chamada nova matriz econômica, a partir de 2011. Nesse período o país acumulou déficits primários e inflação acima do teto da meta, o que rendeu críticas de políticos com viés liberal. Outro fator que dificultou o crescimento da economia nos dois primeiros anos do Governo Dilma foram os reflexos da crise mundial iniciada em 2008, com 2,7% de crescimento do Produto Interno Bruto em 2011 e 1% em 2012.
Em 2013, a economia brasileira cresceu 2,5%, índice influenciado principalmente pela agropecuária e pelo aumento da taxa de investimento. A inflação foi mantida dentro dos limites previstos, mas sempre acima do centro da meta, o que gerou novas críticas à política econômica da presidente. Neste período, a taxa de desemprego também foi reduzida, onde muitas capitais atingiram o status de pleno emprego. A taxa de desemprego em 2013 caiu a 5,4%, menor patamar histórico.
Apesar dos avanços no combate à miséria, com o lançamento do Plano Brasil Sem Miséria, e ao desmatamento, o governo Dilma encontrou dificuldades em áreas como reforma agrária, reforma política, reforma tributária, e no diálogo com as centrais sindicais, todas bandeiras históricas do Partido dos Trabalhadores, o que geraram críticas à presidente dentro do seu próprio partido. Na área educacional, apesar do ritmo lento de expansão de creches, institutos federais de tecnologia e universidades federais, o governo logrou êxito com os programas Ciência sem Fronteiras e Pronatec. Outros êxitos do governo incluem a aprovação do Vale Cultura e a ampliação do programa habitacional Minha Casa, Minha Vida e dos programas Farmácia Popular e Brasil Sorridente. Teve destaque ainda a implantação da Comissão Nacional da Verdade, que teve por finalidade apurar graves violações de direitos humanos ocorridas entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988, o que inclui o período da ditadura militar.
Protestos de junho de 2013
thumb|esquerda|Manifestantes no Congresso Nacional em 17 de junho de 2013. No final de junho de 2013, os governos municipais, estaduais e federal enfrentaram uma das maiores manifestações populares da história do Brasil. Inicialmente, os manifestantes foram motivados pelo aumento no valor da passagem de ônibus em diversas cidades brasileiras, atingindo inicialmente os meios de comunicação, posteriormente as discussões acadêmicas e finalmente as ruas brasileiras. O Movimento Passe Livre (MPL), que coordenou as manifestações, caracterizou-se como um movimento social clássico, ou seja, não institucionalizado e demandando ações do Estado sem comprometer com a apresentação de soluções, tendo como maior bandeira a defesa por passe livre, havendo nenhum pagamento de transporte público por parte da população e a garantia da mobilidade do cidadão como um dever do Estado. Outra razão das manifestações foi a Copa das Confederações FIFA de 2013 no Brasil, cuja realização coincidiu com as manifestações. Os protestos chegaram a reunir mais de um milhão de pessoas simultaneamente nas ruas de 80 cidades e se transformaram nas maiores manifestações de rua do país em mais de duas décadas. Segundo o pesquisador francês Frédéric Louault, o governo Dilma foi pego de surpresa pelos protestos, pois não percebeu o distanciamento que estava tomando dos movimentos sociais, tradicionais aliados do Partido dos Trabalhadores (PT). Um dos maiores símbolos das manifestações foi a hashtag "#nãovaitercopa", em alusão a realização da Copa do Mundo FIFA de 2014 no Brasil, permanecendo por grande parte dos meses de junho e julho de 2013 nos trending topics do Twitter.
thumb|Pronunciamento de Dilma Rousseff em 21 de junho de 2013, quando apresentou os cinco pactos À época, Dilma Rousseff possuía altos índices de popularidade, alcançando 79% de aprovação pessoal. Durante e após os protestos, a popularidade da presidente caiu acentuadamente, assim como a de boa parte dos governadores e prefeitos. Dilma chegou a empatar com Marina Silva em uma das simulações de segundo turno. No entanto, ao contrário de governadores e prefeitos, que preferiram manter distância das reivindicações para evitar maiores desgastes, Dilma apresentou na televisão um plano de cinco pactos em resposta às principais reivindicações das ruas – a defesa de uma maior responsabilidade fiscal para evitar o avanço da inflação, a proposta de criar uma assembleia constituinte para promover a reforma política, maiores investimentos em mobilidade urbana, a destinação de 100% dos royalties do pré-sal para a educação e ações voltadas para a melhoria da saúde pública.
Segundo avaliação do secretário-geral da presidência da República, Gilberto Carvalho, os protestos tiveram origem na insatisfação da população brasileira com os serviços públicos medianos que lhe são ofertados. Visão semelhante foi expressa pelo cientista político francês Olivier Dabène, pelo correspondente do El País Juan Arias e pelo ex-presidente Lula em sua coluna no New York Times. Segundo a AFP, os protestos também foram motivados pelo baixo crescimento econômico e inflação em alta no país, e de que foram organizados por jovens apolíticos de classe média, visão da qual tanto Lula quanto Arias discordam; segundo eles, os protestos ocorreram justamente devido ao fato de que as pessoas estão mais atentas à política nacional e não pela questão econômica. Para Louault, os protestos de junho deixaram claro que o Partido dos Trabalhadores se distanciou da juventude, o que poderia futuramente lhe trazer problemas de renovação interna do partido. Conforme as manifestações foram se tornando cada vez mais violentas a partir de julho, a participação popular nos protestos acabou se arrefecendo. Segundo Marcia Cavallari, diretora do Ibope Inteligência, o foco das manifestações se perdeu quando começaram a ação dos black blocs e do vandalismo, fazendo com que a grande maioria das pessoas queriam se manifestar por causas legítimas se inibissem.
Após os protestos thumb|esquerda|Dilma Rousseff recebe a Seleção Brasileira de Futebol com o troféu da Copa das Confederações FIFA de 2013.