A Universidade Pluriétnica Indígena Aldeia Marakanã (abreviado: UPIAM), ou simplesmente Aldeia Marakanã (do tupi marakaná), é uma aldeia urbana, universidade autônoma e, movimento social indígena localizada no prédio antigo do Museu do Índio, no bairro Maracanã, na cidade brasileira do Rio de Janeiro.Xavante, Júlia Muniz, and Mayara de Sá Pinto. "O ensino de cultura e arte indígenas e a resistência Aldeia Maracanã." Abatirá-Revista de Ciências Humanas e Linguagens 1.2 (2020): 649-680. A ocupação indígena do prédio histórico ocorre intermitentemente desde o ano de 2006, por conta de sua ligação com a história indígena.Barreto, Marcos Rodrigues. 2014. Vultos na Névoa: do discurso histórico do preconceito à resistência do índio urbano no cenário fluminense. Rio de Janeiro, Unirio, 2014. Dissertação-(Mestrado em Memória Social). PPG em Memória Social. Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.

O prédio antigo do Museu do Índio situa-se próximo ao Estádio Maracanã e corre risco de demolição por parte do Governo do Estado do Rio de Janeiro. A aldeia/universidade foi despejada do prédio e reocupada diversas vezes. O movimento social em torno da aldeia visa a reocupação daquele território e manuntenção do prédio.Werneck, M. (2015). Patrimônio digital e ciberativismo: a defesa da Aldeia Maracanã no Facebook. Dissertação (Mestrado em Memória Social) Programa de Pós-Graduação em Memória Social, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.Santos, Vinicius Pereira dos. 2016. A Resistência da Aldeia Maracanã: um ponto de oxidação pela “revolução ferrugem”. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Programade Pós-Graduação em Ciências Sociais. Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Nesse contexto de despejo e resistência, a expressão "Aldeia resiste" é utilizado por apoiadores da causa.Pinto, Vinícius da Cruz. “Aldeia Resiste”: uma etnografia das estratégias políticas da“Aldeia Maracanã” no Rio de Janeiro, 2014. 110f. Tese (mestrado em Antropologia) −Universidade Federal Fluminense, Niterói. Durante as Jornadas de Junho e ao longo dos protestos contra a Copa da FIFA, a polêmica em torno da manutenção da aldeia, considerada uma referência para esses movimentos políticos, mobilizou diversos setores da esquerda, sendo a aldeia considerada um símbolo de resistência e oposição ao governo de Sérgio Cabral Filho.Werneck, M., & Dodebei, V. A ocupação digital e presencial da Aldeia Maracanã: resistência indígena pelo direito à cidade e o direito à memória. Lugar Comum–Estudos de mídia, cultura e democracia, (46), 18-29.miniaturadaimagem|385x385px|Graffiti na Aldeia Marak'anà No ano de 2022, a polêmica foi reacendida pelo deputado Rodrigo Amorim, explicitamente contrário a esse movimento indígena, que convocou uma motociata com ponto final na Aldeia Marakanã para o dia 6 de agosto de 2022.

História A história da Aldeia Marak'anà pode ser dividida entre a história do prédio histórico que ela ocupa (anteriormente chamado de Museu do Índio) e a história do movimento indígena estabelecido no ano de 2006 neste mesmo prédio.

thumb|251x251px|Painel com os vereadores que votaram a favor, contra, ou se abstiveram da votação em relação ao tombamento do prédio da Aldeia Maracanã.

O Museu do Índio

Características arquitetônicas O prédio tem a aparência de um castelo, que de acordo com o parecer do Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural, o edifício é um "...imponente exemplar da arquitetura eclética do início do século XX.", e após manifestações o governo estadual reconheceu como um marco histórico e cultural relevante para a história dos indígenas no Brasil.

História do prédio O prédio onde funcionava o Museu do Índio foi construído pelo Duque de Saxe em 1862 e doado em 1910 ao Serviço de Proteção aos Índios, órgão estatal comandado pelo Marechal Rondon, quando de sua criação, em 1910. O objetivo é que o espaço fosse uma área de preservação da cultura indígena brasileira. Inicialmente, o prédio abrigou a sede do órgão federal, e posteriormente, entre 1953 e 1977, abrigou o Museu do Índio, criado por Darcy Ribeiro. Após essa data, o museu foi transferido para Botafogo e o prédio ficou abandonado. esquerda|miniaturadaimagem|300x300px|Movimentação policial e civil na desocupação da Aldeia Marak'anà, em 2013. esquerda|miniaturadaimagem|300x300px|Indígenas e pessoas apoiadoras resistem a desocupação em 2013. Em 2006, o local foi ocupado por um grupo de cerca de 20 indígenas de diversas etnias (entre elas guarani, guajajara, pataxó, tukano), e chamaram a ocupação de Aldeia Maracanã. Este movimento iniciou na manifestação Acampamento Terra Livre (ocupação do Planalto em Brasília no governo Lula), que em 2006 realizaram o "1º Congresso Tamoio dos Povos Originários" na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) junto ao movimento indígena dos Tamoios, com representantes de várias etnias indígenas, com também os sindicatos e os movimentos sociais, que resultou na retomada do "território sagrado Aldeia Maracanã", local do antigo Museu do Índio ao lado do estádio Maracanã.

Mais tarde, o local foi comprado do Governo Federal em agosto de 2012 pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro, que anunciou que devido às obras para a Copa do Mundo de 2014, o Antigo Museu do Índio seria demolido para facilitar a saída de torcedores do Estádio do Maracanã. Também teriam o mesmo destino, a Escola Municipal Friendenreich e o Estádio de Atletismo Célio de Barros. As três propostas de demolição causaram comoção em uma parcela da sociedade civil, e setores mais ligados à esquerda, principalmente o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e parte do Partido dos Trablhadores (PT), passaram a fazer forte oposição às três propostas de demolição, demonstrando solidariedade aos grupos que sentiram-se prejudicados pelas decisões.

Inicialmente, o governo alegou que a demolição do prédio antigo do museu seria necessária para atender às exigências da FIFA, o que foi negado pela entidade máxima do futebol, a nível mundial. O governo argumentou também que o imóvel não teria qualquer valor histórico. Como reação, os vereadores Reimont Otoni (PT), Eliomar Coelho e Leonel Brizola Neto apresentaram em 2013 o projeto de lei 1536, prevendo o tombamento do prédio.

A proposta de demolição foi muito criticada por especialistas, que alegaram que com os 60 milhões pagos pelo governo estadual ao governo federal pela compra do imóvel, somados ao 568 mil reais que seriam pagos por sua demolição, haveria dinheiro suficiente para recuperá-lo. Também foi especulada a possível intenção de utilizar o terreno para a construção de um grande estacionamento. A então Ministra da Cultura, Marta Suplicy, chegou a pedir ao governador em exercício do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, que o prédio fosse mantido. Ainda em janeiro de 2013, o Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural deu parecer unânime pela manutenção do prédio, mas pela primeira vez um parecer do órgão não foi seguido pelo prefeito Eduardo Paes, aliado de Sérgio Cabral. Cabral, na ocasião, disse que chamar a comunidade que habitava o terreno de aldeia indígena "é um deboche", por ser aquela "uma ocupação recente", qualificada ainda pelo governador como de cunho político.

Após uma polêmica que já durava cinco meses, ainda em janeiro, após os indígenas obterem uma liminar na justiça impedindo a demolição, o Governo do Estado voltou atrás e admitiu não mais demolir o prédio, mediante a saída dos indígenas do local, que seria reformado e mantido intacto com suas características originais. No entanto, não houve a definição de um cronograma para a reforma, nem foi informado o destino do prédio. A proposta de acordo foi rechaçada pelos líderes da aldeia, por esse motivo.

O projeto de tombamento do antigo museu foi derrotado na Câmara do Rio, com apoio da base governista, em março por 17 votos a 13, com 20 abstenções.

Em 22 de março de 2013, a Aldeia Maracanã foi finalmente ocupada por forças policiais que retiraram os indígenas. Na ocasião, houve protestos de diversos segmentos sociais e políticos, tais como o deputado estadual Marcelo Freixo, que saiu com os olhos lacrimejantes após o uso de gás lacrimogêneo e criticou duramente e ação policial. Ainda na ocasião, uma ativista do grupo Femen foi detida após mostrar os seios, como forma de protesto.Aldeia Maracanã – A resistência pacífica e cultural contra as políticas de remoções esquerda|miniaturadaimagem|300x300px|Exposição fotográfica na Aldeia Marak'anà, 2013 A ONG Justiça Global denunciou às Nações Unidas o suposto abuso de poder praticado pelo estado na ocasião. No momento da reintegração de posse, o número de indígenas morando na aldeia já era 60, sendo 40 adultos e 20 crianças.

Após a remoção, uma parte dos moradores da aldeia foram levados para um terreno em Jacarepaguá oferecido pelo Governo. Os reassentados, no entanto, reclamaram da falta de infraestrutura, localização e das restrições a que passaram a sofrer, como o controle dos horários de entrada e saída, bem como a impossibilidade de receberem visitantes livremente.

Em abril de 2017, uma parte dos indígenas voltou a ocupar o prédio.

Cacique José Urutau Guajajara José Urutau Guajajara é uma liderança indígena do povo Guajajara e uma das principais figuras associadas à formação e à trajetória da Aldeia Maraka'ná. Nascido na aldeia Lagoa Comprida no estado do Maranhão, em 22 de outubro de 1959, estabeleu-se posteriormente no Rio de Janeiro, onde atua na defesa dos direitos indígenas e na valorização das línguas, culturas e tradições dos povos originários. Urutau recebeu uma oferta de bolsa para estudar pedagogia na Universidade Estácio de Sá (UNESA), além de ter feito uma pós-graduação em línguas indígenas na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Sua história está diretamente ligada à essa ocupação do antigo Museu do Índio no Maracanã em 2006. Tendo a primeira ocupação sido feita após o Primeiro Encontro Tamoios dos Povos Originários, realizado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), quando foi discutida a proposta de assumir o local e transformá-lo em um espaço de convivência, cultura e articulação dos povos indígenas na cidade.

Como uma das lideranças da comunidade, Urutau participou das mobilizações novamente pela permanência dos indígenas no local ocupado do antigo Museu do Índio e também pela preservação do imóvel dada a importância para a memória indígena. Durante o processo de desocupação ocorrido em 2013, tornou-se uma das figuras públicas mais associadas à resistência da Aldeia Marak'anà, que passou a ser apresentada como referência da luta indígena no contexto urbano. Ele permaneceu por aproximadamente 26 horas no topo de uma árvore como forma de resistência à remoção.

Além de sua atuação na Aldeia Maracanã, o cacique desenvolveu atividades relacionadas à educação e à preservação de línguas indígenas. Sua trajetória acadêmica esteve ligada ao estudo da língua ze'egté, pertencente ao povo Guajajara, além de ser uma voz relacionada também à defesa da importância da manutenção das línguas indígenas como forma de preservação da identidade e dos conhecimentos da cultura. Ele destacou a língua como um elemento fundamental parta a resistência dos povos indígenas e ressaltou a necessidade de sua valorização também para com indígenas que vivem em centros urbanos.

Sua trajetória está, portanto, relacionada à atuação do movimento indígena no contexto urbano especialmente nas áreas de educação, preservação linguística, transmissão de conhecimentos tradicionais e reivindicação de espaços de representação e convivência, tornando-se parte da história recente das disputas em torno da presença indígena e da utilização de espaços públicos na cidade do Rio de Janeiro.

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