As relações entre França e Reino Unido são as relações diplomáticas estabelecidas entre a República Francesa e o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte. Os laços históricos entres os dois países são complexos e extensos, incluindo conquistas, conflitos militares, alianças ocasionais e toma de pontos de vista inversos ao longo da história. Ambas as sociedades foram germinadas durante a Era Romana, que alcançou e influenciou grande parte de seus respectivos territórios (com exceção da Escócia e Irlanda, no Reino Unido), desenvolvendo seu perfil militar, porém sem impedir a barreira linguística que perdura até os dias atuais.
Durante a Idade Média, as relações entre os dois países deteriorou-se por conta das reivindicações sobre o trono francês, culminando na extensa Guerra dos Cem Anos, que perdurou de 1337 a 1453, finalizando-se com a vitória francesa. Posteriormente, nos séculos seguintes, as duas nações voltaram a polarizar em questões diplomáticas internacionais, como o apoio francês à Independência dos Estados Unidos, e o bem-sucedido combate britânico ao Império Napoleônico. Reino Unido e França voltariam a cooperar somente no século XX através da formação da Entente Cordiale e de alianças durante as Guerras Mundiais, esta última quando ambas as nações combateram contra a Alemanha. Ambos os países se opuseram à política da União Soviética ao longo de toda a Guerra Fria, cooperando comumente com os interesses dos Estados Unidos. Atualmente, porém, estas relações são fortificadas pela cooperação entre ambos os países e pelo interesse mútuo em questões como desarmamento nuclear e combate ao terrorismo.
A França e o Reino Unido são dois, dos três, únicos países europeus em posse de armas nucleares e são membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Ambos têm ambições internacionais e os instrumentos políticos e militares combinados, muitas vezes compartilhando estratégias semelhantes no âmbito das organizações internacionais, como a ONU.Relações entre França e Reino Unido
Quadro comparativo República Francesa Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do NortePopulação67 087 000 64 800 000 Área674 843 km²243 610 km²Densidade populacional118 hab/km²268 hab/km²Fusos horários129CapitalParisLondresMaiores cidadesParis Londres GovernoRepública constitucional unitária semipresidencialistaMonarquia constitucional parlamentaristaIdioma oficialFrancêsInglêsPIB (nominal)2.782.905 (Em milhões de dólares)3 070 667 (Em milhões de dólares)Chefe de EstadoEmmanuel MacronCarlos III
História Era Medieval Durante o reinado da dinastia Plantageneta, sediada em seu Império Angevino, metade da França caiu sob controle dos angevinos, assim como toda a Inglaterra. Contudo, quase todas conquistas dos angevinos foram perdidas para Filipe II de França durante o reinado de Ricardo I, João e Henrique III de Inglaterra. Tal fato concedeu aos ingleses uma identidade única anglo-saxônica sob uma coroa francófona (ainda que não francesa de fato).
Enquanto franceses e ingleses permaneceram contrapostos durante toda a Idade Média, ambos os povos sempre partilharam de uma cultura comum com poucas divergências fundamentais na identidade. O sentimento nacionalista decresceu grandemente durante as rivalidades entre os senhores feudais de ambos os países, afetando o caráter beligerante de ambas as nações. A última tentativa de unificar os dois povos sob uma mesma bandeira foi provavelmente uma rebelião para depor Eduardo II de Inglaterra. A Era Medieval testemunhou também o nascer de uma aliança entre franceses e escoceses, denominada Auld Alliance (ou "A Velha Aliança") e firmada pelos reis João da Escócia e Felipe IV de França.
Guerra dos Cem Anos
thumb|right|220px|Joana d'Arc no Cerco de Orleães, por Jules Eugène Lenepveu.
Com o passar dos anos, os monarcas ingleses conquistavam cada vez mais a identidade de seus súditos e eventualmente elevaram o domínio inglês ao ponto máximo, desencadeando a Guerra dos Cem Anos, que se desenrolou entre 1337 e 1453, esgotando ambas as nações beligerantes. Apesar de sua origem estar relacionada à questões territoriais, o conflito acarretou severas transformações em ambos os países. Os ingleses, pela primeira vez em séculos de trajetória política, encontraram-se unidos sob uma mesma identidade, enquanto os franceses uniram-se politicamente.
Diversos dos mais emblemáticos conflitos entre franceses e ingleses ocorreram no desenrolar da Guerra dos Cem Anos; nomeadamente as batalhas de Crécy, Poitiers, Azincourt e o notório Cerco de Orleães. Acredita-se que grande parte do nacionalismo francês desenvolvido nos séculos seguintes originou-se, na realidade, na liderança francesa durante as batalhas contra a Inglaterra. Bertrand du Guesclin, por exemplo, sagrou-se como brilhante estrategista ao expulsar os ingleses das terras previamente adquiridas através do polêmico Tratado de Brétigny. Não menos creditada, Joana d'Arc foi uma controversa guerreira francesa, atualmente tida como símbolo do patriotismo francês, tendo também inspirado centenas de obras artísticas. Após sua vitória em Orleães e do que pode-se considerar seu martírio pelos borgonheses, Jean de Dunois foi outra grande figura destacada que expulsou as forças inglesas de Calais. Além dos alcances nacionais para ambos os países, a Guerra dos Cem deixou um grande rastro de rivalidade entre os dois povos.
Era Moderna Ingleses e franceses envolvera-se em diversos conflitos bélicos ao longo dos séculos seguintes à Guerra dos Cem Anos. As duas nações, como já esperava-se, assumiram lados opostos nas Guerras Italianas, igualmente originadas por disputas territoriais - desta vez sobre o Reino de Nápoles.
Uma desavença ainda mais profunda teve início com a Reforma Inglesa, quando a maioria da Inglaterra adotou o Protestantismo enquanto a França permaneceu aliada à Igreja Romana. A Reforma Inglesa acrescentou aspectos religiosos à um embate essencialmente político e já então longevo. Como resultado das reformas religiosas em ocorrência no continente europeu, França e Inglaterra viram-se mergulhadas em guerras religiosas por quase todo o século XVI. Por conta da opressão do rei Luís XIII, católico, a Inglaterra recebeu um grande número de protestantes franceses, denominados huguenotes. De igual modo, muitos católicos deixaram a Inglaterra passando a habitar em território francês.
Eventualmente, Henrique VIII de Inglaterra buscou forjar uma aliança com a corte de Francisco I em um encontro singular no Campo do Pano de Ouro.
Monarquia universal thumb|right|220px|Diplomatas ingleses temiam que Luís XIV, o Rei Sol, desenvolvesse uma "monarquia universal" e concentrara seus esforços em frustar a influência dos franceses no continente.
Durante os séculos XVI e XVII, Inglaterra e França foram frequentes contrapesos à condição da Espanha como como potência mundial dominante. Esta série de alianças e tratados entre os três países foi uma fórmula de assegurar o equilíbrio de poder no continente e evitar um futuro conflito de maiores proporções. Para os diplomatas ingleses, havia uma ameaça de que uma "monarquia universal" tomasse controle também das Ilhas Britânicas.
Com a vigência da Paz de Vestfália a partir de 1648, o poder do Império Espanhol entrou em declínio. Eventualmente, França passou a arquitetar um papel de maior destaque no cenário internacional, especialmente durante o reinado de Luís XIV, cuja política expansionista visionava não somente a Europa como áreas estratégicas ao redor do globo. À esta época, a política externa inglesa esteve voltada a prevenir supremacia de um país sobre outro no continente e o eventual estabelecimento de uma monarquia universal. Para os franceses, o país vizinho não passava de uma ilha pirática e isolada totalmente dependente de sua força naval.
O início da Era moderna foi palco de uma maior divergência filosófica entre os dois povos. Na Inglaterra, Carlos I havia sido executado pelos líderes da Guerra Civil Inglesa por exceder seus poderes reais; após este, Jaime II foi deposto na Revolução Gloriosa e a monarquia dinástica perdeu o trono. Na França, pelo contrário, o poder e figura do monarca experimentavam uma era de intenso florescer.
O principal conflito bélico entre os dois países foi a Guerra dos Nove Anos, que perdurou e 1688 a 1697. O conflito, também conhecido como Guerra da Liga de Augsburgo, é apontada por historiadores como o divisor de águas da política externa de França e Grã-Bretanha.
Formação da Grã-Bretanha
thumb|left|220px|O Ato de União de 1707 teve como fator principal a crescente ameaça política francesa.
Basicamente por conta de uma prevenção à intervenção continental, o Parlamento inglês aprovou o Ato de União de 1707, estabelecendo oficialmente o Reino da Grã-Bretanha, unificando os reinos de Escócia e Inglaterra (e posteriormente Gales) sob uma única autoridade monárquica. O novo reino adotou o regime parlamentarista, enquanto a França deu continuidade ao seu característico absolutismo monárquico.
A recém-oficializada Grã-Bretanha lutou contra a França primeiramente na Guerra de Sucessão Espanhola, de 1702 a 1713, e na Guerra de Sucessão Austríaca, de 1740 a 1748, com a finalidade de equilibrar os poderes regionais na Europa. Os britânicos tinham à sua disposição uma poderosa força naval, porém careciam de forças terrestres mais estruturadas. A solução foi estabelecer tratados de cooperação bélica com Prússia e Áustria, que por sua vez também não tinham condições de confrontar os exércitos franceses. Por outro lado, a França - sem uma marinha de guerra eficiente - não foi capaz de invadir ou mesmo alcançar as Ilhas Britânicas.
thumb|right|220px|A Guerra de Sucessão Austríaca, uma das diversas guerras por equilíbrio de poder no continente europeu.
No campo político, os franceses apoiaram pretendentes Jacobitas ao trono britânico, na expectativa de que uma monarquia jacobita poderia favorecer seus interesses continentais. Eventualmente, contudo, os jacobitas falharam em depor a monarquia Hanoveriana na Grã-Bretanha.
Ao findar do século, França e Grã-Bretanha perderam espaço no cenário global para outras potências regionais, como Portugal, Espanha e Países Baixos. Alguns estudiosos creem que os conflitos entre ambos os países ao longo de todo o século XVIII como uma disputa pela supremacia no continente europeu, apesar de que a grande maioria de tais conflitos não tenha resultado em uma vitória conclusiva à nenhuma das partes beligerantes. A França obteve influência política no continente enquanto a Grã-Bretanha estabeleceu seu domínio marítimo e comercial, acabando por influenciar as colônias francesas no restante do mundo.
Expansão marítima
A partir da década de 1650, o Novo Mundo tornou-se um campo de batalhas entre as duas potências. O governo de Oliver Cromwell estabeleceu uma crescente presença britânica na América do Norte, tendo início em 1652 com a aquisição da Jamaica (antes pertencente ao Império Espanhol). Jamestown, a primeira colônia inglesa em terras americanas, foi fundada em 1607. Nos idos de 1730, a toda a região já se encontrava estruturada em treze colônias distintas.
por sua vez, os franceses estabeleceram uma província no Canadá e dominaram Santo Domingo, no Caribe, considerada a mais bem-sucedida colônia em todo o mundo. Ambos os países, reconhecendo o potencial comercial do Sudeste Asiático, estabeleceram entrepostos comerciais na Índia, o que gerou eventuais conflitos pela supremacia colonial.
Revolução Americana
thumb|left|230px|A derrota britânica em Yorktown tornou-se possível através de uma cooperação entre as forças navais franceses e os exércitos comandados por George Washington.