A língua nez perce (endônimo: nimiːpuːtímt; ) é um idioma da família penutiana, do sub-grupo do platô, do ramo sahaptiano, tradicionalmente falado pelo povo nez perce no noroeste dos Estados Unidos, especificamente no norte de Idaho (principalmente na Reserva Nez Perce, situada na parte nordeste do estado), em partes do leste de Oregon, notadamente na região do vale Wallowa, e em áreas adjacentes do extremo sudeste de Washington.

Atualmente, o nez perce encontra-se em situação crítica, com um número estimado de cerca de 100 falantes, sendo 20 falantes fluentes, a maioria dos quais são idosos.https://www.ethnologue.com/language/nez/ Em comparação, a população étnica nez perce é estimada em aproximadamente 3.500 pessoas, o que significa que menos de 3% do grupo domina efetivamente o idioma. O declínio acentuado ocorreu a partir do século XIX, intensificado pelas políticas de assimilação cultural por parte do governo estadunidense como a aplicação do lei Dawes (1887), que fragmentou as terras dos nativos e acelerou o processo de marginalização das línguas indígenas, além do envio forçado de crianças para internatos fora da reserva, onde eram proibidas de falar a própria língua. Em resposta, a partir do final da década de 1970, o autogoverno do povo nez perce, reconhecido oficialmente pelo governo dos Estados Unidos, Nez Perce Tribe, passou a implementar programas de revitalização do idioma, como escolas de imersão e a elaboração de materiais didáticos, buscando reverter o processo de extinção e promover a transmissão intergeracional do nez perce. Esse esforço culminou na criação do Nez Perce Language Program (NPLP), um departamento responsável pela coordenação das iniciativas de ensino e pelo desenvolvimento de recursos pedagógicos.

No campo linguístico, a língua apresenta um sistema de escrita baseado no alfabeto latino adaptado, que busca representar com fidelidade os sons próprios do idioma. A gramática do nez perce é notável por seu sistema tripartite de marcação de caso (ergativo, absolutivo e, em alguns contextos, objetivo) e uma morfologia verbal na qual sufixos indicam tempo, aspecto e modalidade. Além disso, a fonologia do nez perce conta com a particularidade do fenômeno da harmonia vocálica em máximo contraste, um tipo muito raro de harmonia em que as vogais são organizadas em dois conjuntos de modo a manter diferenças perceptivas claras.

Etimologia

O termo nez perce é tradicionalmente utilizado para designar a língua, surgindo no contexto dos primeiros contatos entre europeus e indígenas, sendo assim o exônimo. Esse nome foi cunhado por franco-canadenses no início do século XIX e deriva do francês, em que nez significa “nariz” e percé é o particípio passado do verbo percer, significando “perfurado”, ou seja, “nariz furado”. Originalmente, o exônimo era escrito como "nez percé", com o acento agudo no "é", refletindo a ortografia em francês. No entanto, ao ser adotado e transcrito para o inglês e outras línguas, o acento foi gradualmente eliminado, resultando na grafia "nez perce", que se tornou a forma oficial e mais comum em publicações e referências modernas.

O nome surgiu a partir da observação, por parte dos europeus, de um costume de alguns indivíduos usarem uma concha dentalium no septo nasal. No entanto, autores posteriores passaram a argumentar que os nez perce nunca praticaram a perfuração nasal de forma significativa e que os primeiros exploradores podem ter exagerado ou interpretado erroneamente o uso ocasional da concha dentalium. Existem registros etnográficos de uma outra comunidade indígena do Rio Columbia que utiliza a concha dentalium no septo nasal, os Wishram ou Tlakluit. Essa revisão levou à conclusão de que "nez perce" pode ser uma nomenclatura errônea, um nome baseado em uma suposição equivocada.miniaturadaimagem|187x187px|Mulher Wishram com concha dentalium no septo nasal.|esquerdaO termo adotado pelos próprios falantes, ou seja, o endônimo, é nimiːpuːtímt. Esse termo é composto por dois elementos morfológicos: nimiːpuː, que significa "nós, o povo", e o sufixo -tímt, que designa "língua" ou "fala". Dessa forma, nimiːpuːtímt pode ser traduzido literalmente como “a língua do povo”. A raiz nimiːpuː apresenta algumas variações históricas em sua forma. Registros antigos também mencionam variantes como numipu e nimapu, que aparecem em diferentes fontes do século XIX. Algumas interpretações indicam que nimi pode estar relacionado a um pronome inclusivo que significa "nós", enquanto puː se refere especificamente a "povo" ou "pessoas". Em algumas análises, a tradução de nimiːpuː também aparece como "o povo verdadeiro".

Distribuição miniaturadaimagem|333x333px|Território de ocupação do povo nez perce (em verde). A Reserva Nez Perce é a área marrom delimitada dentro da área verde.A língua nez perce é tradicionalmente falada nos Estados Unidos, concentrando-se no território ancestral dos nez perce, que se estende aproximadamente entre as latitudes 45° e 47°. Essa área abrange, principalmente, o norte de Idaho, onde está situada as Reserva Nez Perce. Há ocupação de falantes também no leste de Oregon, em especial a região do Vale de Wallowa, e o sudeste de Washington. Os limites naturais desse território são bem definidos: a leste, as Montanhas Bitteroot; a oeste, as Blue Mountains; e, em parte, o rio Columbia atua como uma barreira geográfica que contribuiu para a delimitação dos grupos falantes.

Atualmente, o uso da língua concentra-se majoritariamente na Reserva Nez Perce, localizada no norte de Idaho, que abrange porções de condados como Idaho County e Nez Perce County. Essa reserva é o principal núcleo de transmissão e revitalização do idioma, reunindo a maioria dos falantes fluentes, estimados em cerca de 20 indivíduos. Fora da reserva, a presença de falantes é residual e geralmente associada a pequenos grupos familiares ou indivíduos isolados que mantêm o idioma.

Dialetos Quase um século após a relocação dos nez perce para reservas, a situação dialetal da língua não está completamente esclarecida. Informantes residentes nas regiões do ramo médio e sul do Rio Clearwater (em localidades como Stites, Kamiah, East Kamiah e Kooskia) relatam a existência de uma variante distinta, denominada de dialeto da parte baixa ou baixo-rio (lower nez perce ou downriver dialect). Estudos linguísticos realizados indicam que essa variante e o dialeto predominante, chamado de dialeto da parte alta ou alto-rio (upper nez perce ou upriver dialect), são mutuamente inteligíveis. esquerda|miniaturadaimagem|314x314px|Placa de delimitação da Reserva Nez Perce perto de Cottonwood, Idaho + Comparação entre os dialetos nez perceDialeto alto-rioDialeto baixo-rioTraduçãotukéytettukʷéytetcaçandopetkúhtuʔpetkʷéhtuʔnós vamos estar atirandocélmencénmenchinêslíːckawníːckawtampa da cestapeʔénpeʔysepeʔénpeʔnseele leva algo de alguém

O dialeto baixo apresenta pelo menos um fonema adicional /kʷ/, o que o caracteriza como mais conservador em comparação ao dialeto alto, conforme sugerido pelo inventário fonêmico proposto para o proto-sahaptiano. Nos dialetos, determinadas consoantes apresentam alternância, aparecendo como /l/ no dialeto alto e como /n/ no dialeto baixo, um fenômeno sistemático conhecido como simbolismo consonantal n-l. Essa variação não gera contrastes fonológicos ou semânticos significativos e, portanto, não afeta a inteligibilidade entre as variantes. No entanto, a dupla consonantal <y> no dialeto alto e <n> no dialeto baixo pode causar confusão nos falantes.

Línguas relacionadas O nez perce pertence à família sahaptiana, um subgrupo das línguas penutianas do platô, que, por sua vez, fazem parte do amplo e controverso agrupamento penutiano. A hipótese penutiana propõe uma relação genética entre diversas línguas indígenas da América do Norte, abrangendo famílias linguísticas dispersas pelo oeste dos Estados Unidos, incluindo línguas da Califórnia, Oregon, do Platô do Columbia e do México.

Penutianas Penutiana da Califórnia Penutiana do Oregon Chinookan Tsimshianic Penutiana do México Penutiana do Platô Klamath–modoc (Lutuami) Waiilatpuan Sahaptiana Sahaptiana Nez perce O ramo penutiano do platô agrupa línguas faladas na região do Platô do Columbia, uma vasta área que abrange partes dos atuais estados de Oregon, Washington e Idaho. Este subgrupo inclui:

(Lutuami) † – Uma língua extinta que era falada pelos povos klamath e modoc, no sul do Oregon e norte da Califórnia. Waillatpuan † – Outra família extinta que compreendia as línguas cayuse e , ambas faladas na região do Platô. Sahaptiana – O único grupo sobrevivente, que inclui o nez perce e outras línguas sahaptianas.

A inclusão das línguas sahaptianas no tronco penutiano do Platô ainda é debatida, pois a hipótese penutiana não é universalmente aceita por linguistas. No entanto, evidências lexicais e gramaticais sugerem relações históricas entre essas línguas, indicando um possível ancestral comum remoto.

Influência do salish O nez perce recebeu influências significativas da língua salish (principalmente a variante do interior sul) devido ao contato prolongado entre os falantes dessas línguas. Essa influência se manifesta principalmente na adoção de vocabulário em diversas áreas, incluindo elementos da natureza, nomes de animais e plantas. Muitos desses empréstimos ocorreram antes da palatalização das consoantes velares no salish, fenômeno linguístico que alterou a pronúncia dessas consoantes há cerca de 150 anos. +Empréstimos do salish para o nez perceTraduçãoSalish do interior sulNez perceNeve no chãomakʷme:qelDesfiladeirotoqʷtoqoCebola selvagemsehcse:xChocalhocʔalʔcʔalʔa:kstinSaco de palha de milhoqqepeʔlqeqepeʔl

História A língua nez perce sempre foi um elemento central na identidade cultural do povo nez perce. Tradicionalmente transmitida de forma oral, a língua incorporava uma vasta gama de conhecimentos, desde os nomes de lugares, que descreviam características físicas do ambiente ou eventos significativos, até canções e narrativas que preservavam a história e a mitologia do grupo. Essa transmissão oral permitia que as sutilezas dos relatos originais fossem compreendidas integralmente dentro do contexto cultural, embora, quando traduzidos para o inglês, muitos desses elementos simbólicos fossem perdidos.

Origem A mitologia e os mitos de fundação dos nez perce fazem parte de um vasto sistema de crenças que conecta o povo à sua terra ancestral. Um dos mitos mais conhecidos é o da origem do povo, em que se diz que os nez perce descendem de uma união sagrada com a terra (em algumas versões, os ancestrais surgem diretamente da terra). O Coyote (ʔiceyéːye), frequentemente descrito como um herói cultural, é uma figura central, responsável por moldar o mundo e ensinar aos humanos as leis da natureza e da sociedade. Outras figuras mitológicas, como o Monstro (ʔicwéːwɬcix), que Coyote foi desafiado a vencer em uma das histórias tradicionais, têm grande importância na cosmologia nez perce. O Monstro representa forças naturais caóticas que precisam ser enfrentadas para garantir o equilíbrio do mundo. A luta de Coyote contra ele e outras criaturas demoníacas serve como instrução sobre o comportamento ético e o domínio sobre os aspectos físicos e espirituais do mundo. A narrativa mitológica além de explicar o começo do mundo também influencia práticas e rituais que permanecem vivos nas cerimônias e na vida cotidiana dos nez perce.