Em 11 de janeiro de 2007, a China realizou um teste de míssil antissatélite. Um satélite meteorológico chinês — o FY-1C (COSPAR 1999-025A), satélite em órbita polar da série Fengyun, a uma altitude de , com massa de — foi destruído por um veículo de destruição cinética que se deslocava a uma velocidade de em sentido oposto (ver engajamento frontal). O projétil foi lançado por meio de um míssil de múltiplos estágios a combustível sólido a partir do Centro de Lançamento de Satélites de Xichang ou de suas imediações.

A revista Aviation Week & Space Technology noticiou o teste pela primeira vez em 17 de janeiro de 2007. A informação foi confirmada em 18 de janeiro de 2007 por um porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSC).BBC News (2007). Concern over China's missile test. Acessado em 20 de janeiro de 2007. O governo chinês não reconheceu publicamente a realização do teste até 23 de janeiro de 2007, quando o Ministério das Relações Exteriores emitiu um comunicado oficial confirmando o ensaio. A China afirmou ter notificado formalmente os Estados Unidos, o Japão e outros países com antecedência sobre o teste.

Foi o primeiro teste bem-sucedido de interceptação de um satélite desde setembro de 1985, quando os Estados Unidos destruíram o satélite Solwind P78-1 com um míssil antissatélite ASM-135 ASAT lançado por um caça F-15 Eagle a uma velocidade de Mach 0,934 e altitude de 38.100 pés (11,6 km), enquanto o satélite orbitava a 555 km (345 milhas) de altitude.The Death of a Satellite : Edwards Air Force Base

O jornal The New York Times, o The Washington Times e a revista Jane's Intelligence Review informaram que o teste de 2007 sucedeu pelo menos dois ensaios de ascensão direta que intencionalmente não resultaram em colisão, realizados em 7 de julho de 2005 e 6 de fevereiro de 2006.Joan Johnson-Freese. Heavenly Ambitions: America's Quest to Dominate Space. p. 12

Um telegrama diplomático confidencial vazado indicou que o mesmo sistema foi testado contra um alvo balístico em janeiro de 2010, evento que o governo chinês descreveu publicamente como um teste de "tecnologia terrestre de interceptação de mísseis em curso intermediário". Essa terminologia também coincidiu com a descrição oficial de outro teste realizado em janeiro de 2013, levando analistas a concluir que se tratava de ensaios do mesmo vetor ASAT contra alvos balísticos, e não contra satélites em órbita.

Contexto histórico Durante o bombardeio da Iugoslávia pela OTAN em 1999, os Estados Unidos bombardearam a embaixada da China em Belgrado. O governo norte-americano sustentou que o bombardeio fora um acidente. A liderança chinesa, por sua vez, considerou que o ataque fora deliberado e concluiu que o país enfrentava uma grave assimetria de poder militar e dissuasão em relação aos Estados Unidos. Como parte dos esforços para reduzir essa disparidade estratégica, ao lado do desenvolvimento de meios de guerra cibernética, a China iniciou a estruturação de suas capacidades contraespaciais.

Em janeiro de 2001, uma comissão espacial do Congresso dos EUA chefiada por Donald Rumsfeld recomendou que "o governo dos EUA buscasse ativamente as capacidades previstas na Política Espacial Nacional para garantir que o presidente tivesse a opção de desdobrar armas no espaço para dissuadir ameaças e, se necessário, defender os interesses norte-americanos contra ataques". Além disso, a subsequente retirada dos Estados Unidos do Tratado sobre Mísseis Antibalísticos (ABM) em 2002 permitiu a Washington desenvolver sistemas de defesa antimísseis, incluindo vetores baseados no espaço.

Em resposta às iniciativas norte-americanas de potencial militarização espacial, a China acelerou o desenvolvimento de seus próprios mísseis antissatélite. O teste de 2007 inseriu-se em uma doutrina de substituição estratégica destinada a obter poder dissuasório por meio de "armas da era da informação" como contraponto a arsenais nucleares.

Armamento O sistema antissatélite chinês foi designado pelo tenente-general Michael D. Maples (então diretor da Agência de Inteligência de Defesa dos EUA) como SC-19 durante audiência na Comissão de Forças Armadas do Senado. O SC-19 foi descrito como sendo baseado em um míssil balístico DF-21 modificado, equipado com um veículo de destruição cinética terminal (KKV). A ogiva cinética utiliza um sensor formador de imagem por infravermelho e também foi associada a adaptações do míssil antiaéreo HQ-19 com o foguete propulsor KT-1. O programa teria sido financiado, ao menos em parte, pelo Programa 863 da China (especificamente sob a linha de pesquisa 863-409).Ian Easton, The Great Game in Space: China's Evolving ASAT Weapons Programs and Their Implications for Future U.S. Strategy, Project 2049 Occasional Paper, 24 de junho de 2009, p. 2.,

A velocidade relativa de aproximação no momento da interceptação foi de aproximadamente 8 km/s (17.900 mph), parâmetro comparável ao do sistema norte-americano Defesa Nacional de Mísseis.

Desdobramentos e consequências thumb|250px|Planos orbitais conhecidos dos detritos do satélite Fengyun-1C um mês após a destruição pelo míssil ASAT chinês (órbitas ampliadas para melhor visualização).

Reações políticas Diversas nações criticaram o teste e advertiram para as consequências da militarização do espaço sideral. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Liu Jianchao, declarou que "não há motivos para que outros países se sintam ameaçados" e garantiu que "a China não participará de nenhuma corrida armamentista no espaço sideral".The New York Times (2007). China Shows Assertiveness in Weapons Test . Acessado em 21 de janeiro de 2007. Diplomaticamente, a China defendia a aprovação de um tratado internacional para banir armas no espaço, proposta rejeitada pelo governo norte-americano de George W. Bush sob o argumento de que o texto continha lacunas técnicas e de verificação.

Os Estados Unidos não realizavam testes com armas antissatélite desde 1985. Em fevereiro de 2008, no âmbito da Operação Burnt Frost, a Marinha dos EUA destruiu o satélite de reconhecimento inoperante USA-193 utilizando um míssil SM-3, demonstrando capacidade de interceptação orbital, embora em altitude consideravelmente inferior à do teste chinês. O Pentágono sustentou que a operação fora uma missão de segurança para neutralizar o risco decorrente da reentrada atmosférica do satélite, carregado com propelente tóxico de hidrazina.

No início de 2013, o satélite científico russo BLITS colidiu com o que se acredita ter sido um fragmento do Fengyun-1C, sofrendo alteração em seus parâmetros orbitais e interrupção na coleta de dados.

Rastreamento de detritos espaciais

Ensaios de mísseis antissatélite baseados em impacto cinético geram grandes nuvens de lixo espacial que permanecem em órbita por décadas, aumentando os riscos para voos espaciais tripulados e satélites operacionais (Síndrome de Kessler). O teste chinês de 2007 gerou o maior evento de fragmentação e dispersão de detritos espaciais da história, com mais de 3.000 fragmentos de tamanho rastreável catalogados oficialmente logo após o impacto e um total estimado de 150.000 partículas menores. Em outubro de 2016, 3.438 fragmentos haviam sido identificados formalmente, dos quais 571 haviam reentrado na atmosfera e 2.867 permaneciam em órbita.

Mais da metade dos detritos rastreados orbita a Terra em altitudes superiores a , prevendo-se sua permanência orbital por décadas ou séculos. Modelos da NASA estimaram que cerca de 30% dos fragmentos maiores que continuarão em órbita no ano de 2035.

Em abril de 2011, detritos gerados pelo teste chinês passaram a 6 km de distância da Estação Espacial Internacional (ISS).

Em abril de 2019, cerca de 3.000 dos 10.000 detritos espaciais monitorados pelas forças militares dos EUA como ameaças potenciais à Estação Espacial Internacional eram remanescentes da destruição do FY-1C.

Reações internacionais

Manifestações governamentais – O ministro das Relações Exteriores, Alexander Downer, declarou que o país não desejava a "expansão de uma corrida armamentista para o espaço sideral". – O primeiro-ministro Shinzo Abe afirmou que as nações "devem utilizar o espaço estritamente para fins pacíficos". – O ministro da Defesa, Serguei Ivanov, considerou as notícias iniciais sobre a interceptação "exageradas e abstratas", reiterando, todavia, que a Rússia sempre se posicionou contra a militarização do espaço. – Um porta-voz do primeiro-ministro Tony Blair afirmou que autoridades britânicas manifestaram apreensão junto a Pequim: "Estamos preocupados com o impacto da proliferação de detritos espaciais e expressamos essa preocupação", ressaltando, no entanto, que o ato não violava diretamente leis internacionais em vigor. – O porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, Gordon Johndroe, declarou que Washington considerava o desenvolvimento e ensaio desse tipo de arma "incompatível com o espírito de cooperação almejado por ambos os países no setor espacial civil".

Análises estratégicas O especialista em segurança Desmond Ball, da Universidade Nacional da Austrália, observou à época: "O teste ASAT chinês de 11 de janeiro envolveu um sistema relativamente primitivo, limitado a satélites em órbita terrestre baixa (LEO) de alta inclinação. É uma capacidade ao alcance de países que disponham de mísseis balísticos de alcance intermediário ou veículos de lançamento de satélites associados a radares de longo alcance. No entanto, a cobertura LEO abrange ativos de alto valor estratégico, como satélites de imageamento e de inteligência eletrônica (ELINT), o que motivará reavaliações doutrinárias em diversas nações".

Tratados internacionais O Tratado do Espaço Sideral de 1967 proibiu a instalação de armas de destruição em massa na órbita terrestre e no espaço cósmico, mas não estabeleceu a proibição expressa de armas convencionais ou sistemas cinéticos em órbita. O tratado foi ratificado por quase uma centena de países, incluindo a China e os Estados Unidos.Outer Space Treaty . Gabinete das Nações Unidas para Assuntos do Espaço Sideral (UNOOSA).

Ver também Arma antissatélite Detrito espacial Síndrome de Kessler Kosmos 1408

Referências

Ligações externas Analyzing the Capabilities and Development of Foreign Space Programs Space Programs Action/Reaction: U.S. Space Weaponization and China Arms Control Association Gráficos e análises técnicas sobre programas espaciais (em inglês) Ação/Reação: A militarização espacial dos EUA e a China | Arms Control Association (em inglês) Relatório do Congressional Research Service sobre o teste ASAT chinês (em inglês)

Categoria:Satélites artificiais destruídos intencionalmente Categoria:2007 na China Categoria:Forças armadas da República Popular da China Categoria:2007 na exploração espacial Categoria:Satélites de observação da Terra Categoria:Programa espacial chinês