Amarildo Dias de Souza (Rio de Janeiro, 1965/1966 - Rio de Janeiro, 2013) foi um ajudante de pedreiro brasileiro que ficou conhecido nacionalmente por conta de seu desaparecimento, desde o dia 14 de julho de 2013, após ter sido detido por policiais militares e conduzido da porta de sua casa, na Favela da Rocinha, em direção à sede da Unidade de Polícia Pacificadora do bairro. Seu desaparecimento tornou-se símbolo de casos de abuso de autoridade e violência policial. Os principais suspeitos no desaparecimento de Amarildo eram da própria polícia.Ministra considera policiais principais suspeitos por desaparecimento de Amarildo - O Estado de S.Paulo, 02 de agosto de 2013Desafio de UPPs é garantir que policiais respeitem direitos humanos, diz conselheiro - Agência Brasil, 08 de agosto de 2013Em escutas captadas, suspeito diz que Amarildo foi morto pelo tráfico da Rocinha para "manchar" UPP - R7, 10 de agosto de 2013 Em 2016, 12 dos 25 policiais militares denunciados pelo desaparecimento e morte de Amarildo foram condenados em primeiro grau, e no segundo grau, oito condenações foram mantidas, enquanto quatro foram absolvidos.
Biografia Morador desde que nasceu na favela da Rocinha, na Zona Sul do Rio de Janeiro, Amarildo era o sétimo de 12 irmãos e filho de uma empregada doméstica e de um pescador.A Rocinha quer saber: onde está Amarildo? - O Globo, 24 de julho de 2013Amarildo Presente - Agência Pública, 29 de julho de 2013 Analfabeto, só escrevia o próprio nome e começou a trabalhar aos 12 anos vendendo limão.Família de Amarildo diz acreditar que pedreiro já está morto - Folha de S.Paulo, 02 de agosto de 2013 Casado com a dona de casa Elizabeth Gomes da Silva, Amarildo era pai de Romeu, e dividia um barraco de um único cômodo com toda a família. Conhecido como "Boi", trabalhava como pedreiro e fazia bicos na comunidade.Jorge Antonio Barros: Onde está Amarildo? Junte-se a nós em busca da resposta - Blog Repórter do Crime, 20 de julho de 2013William de Oliveira: Hoje a Rocinha grita Cadê o Amarildo?? - Viva Favela, 23 de julho de 2013
Desaparecimento Entre os dias 13 e 14 de julho de 2013, uma operação batizada de Paz Armada mobilizou 300 policiais na Rocinha e prendeu suspeitos sem passagem pela polícia, logo depois de um arrastão ocorrido nas proximidades da favela, e de acordo com a polícia, 30 pessoas foram presas, entre elas Amarildo. Ele havia acabado de voltar de uma pescaria e foi detido e conduzido por policiais militares da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha na noite do dia 14.Delegado faz reconstituição dos últimos passos de Amarildo - O Globo, 06 de agosto de 2013 Liberado após poucos minutos na delegacia após concluída a averiguação na UPP da Rocinha, desde então não se conhece o paradeiro do pedreiro. Dois dias depois, a família registrou o seu desaparecimento.
Investigação Segundo a versão da polícia, os PMs teriam confundido Amarildo com um traficante de drogas com mandado de prisão expedido pela Justiça. A própria polícia da comunidade é suspeita do desaparecimento de Amarildo.
Na noite em que foi detido, duas câmeras diante da UPP tiveram problemas e o GPS dos carros de polícia estavam desligados.GPS de carro que transportou Amarildo estava desligado, diz Polícia Civil - Agência Brasil, 08 de agosto de 2013Polícia tenta localizar corpo na Rocinha que pode ser de Amarildo - G1, 07 de agosto de 2013 Responsável pelas duas câmeras da UPP, a Emive constatou que elas estavam queimadas e alegou que falhas são frequentes em redes elétricas instáveis. No entanto, das 84 câmeras na Rocinha, apenas as da UPP apresentaram problemas naquela noite.Eliane Brum:Onde está Amarildo? - Época, 05 de agosto de 2013
A polícia civil foi informada de que um corpo tinha sido encontrado na comunidade da Rocinha e os agentes foram procurá-lo, mas constataram que não era de Amarildo.Suposto corpo de Amarildo não é encontrado e polícia encerra buscas - Correio Braziliense, 07 de agosto de 2013
Em uma Auditoria Militar para investigar o caso, foi confirmado que o ex-comandante da UPP da Rocinha, major Edson Santos, subornou uma moradora da comunidade, Lucia Helena da Silva Batista, para que a mesma mentisse em testemunho sobre o Caso Amarildo. Lucia, em sua primeira versão, incriminava o traficante Thiago da Silva Neris como autor do assassinato de Amarildo. Depois de voltar atrás em seu depoimento, Lucia disse ter sido orientada pelo major a dar falsas informações por temer represálias de policiais militares contra seu filho além de ter recebido um pagamento.
Em 2016, 12 dos 25 policiais militares denunciados pelo desaparecimento e morte de Amarildo foram condenados em primeiro grau. Em 2019, a 8ª Câmara Criminal da Justiça do Rio de Janeiro absolveu quatro dos 12 policiais acusados, enquanto a condenação dos oito restantes foi mantida.
Em 22 de agosto de 2023, a Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu aumentar as penas de policiais militares condenados pelo desaparecimento e morte de Amarildo.
Indenização
Em junho de 2016, a Justiça condenou o governo do estado do Rio a pagar uma indenização à família do pedreiro Amarildo de Souza. A viúva e os seis filhos deverão receber R$ 500 mil cada um. Na sentença, a juíza determinou que os filhos recebam a pensão até completarem 25 anos. O estado deve ainda pagar à viúva um salário mínimo por mês. Pela decisão, uma mãe de criação e dois irmãos de Amarildo devem receber R$ 100 mil cada um.http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/06/justica-concede-indenizacao-familia-do-pedreiro-amarildo.html
Passados cinco anos do assassinato de Amarildo, no entanto, a família ainda não havia sido indenizada, em razão do processo estar em fase de recursos da defesa. O montante a receber é de 3,5 milhões de reais. João Tancredo, advogado da família, afirmou: "O Estado desaparece, tortura e mata o Amarildo e depois aniquila a família não pagando, não fazendo o processo andar, não prestando justiça no tempo hábil. Isso também é uma grande perversidade."https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/caso-do-pedreiro-amarildo-completa-5-anos-e-familia-ainda-nao-foi-indenizada.ghtml
Repercussão O caso de Amarildo virou um símbolo de desaparecimentos não esclarecidos pela polícia.Sumiço de Amarildo no Rio vira símbolo de casos não esclarecidos - Zero Hora, 03 de agosto de 2013 A campanha “Onde está o Amarildo?” foi iniciada nas redes sociais, especialmente pelo Facebook, com o apoio de movimentos como o Rio de Paz, as Mães de Maio e da Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência.Campanha “Onde está o Amarildo?” Contra a violência policial nas favelas - GlobalVoices, 26 de julho de 2013 Foram organizados atos por moradores da Rocinha, contando com a participação da sociedade civil.Pedreiro aparece em carro da UPP - Meia Hora, 22 de julho de 2013RJ: moradores da Rocinha protestam contra desaparecimento de pedreiro - Bom Dia Brasil (G1), 02 de agosto de 2013Ato por Amarildo, desaparecido na Rocinha, reúne parentes e artistas - G1, 11 de agosto de 2013 A repercussão aumentou, artistas como MV Bill, Wagner MouraWagner Moura cobra esclarecimentos sobre Amarildo de Souza - UOL Cinema, 10 de agosto de 2013 e Caetano VelosoCaetano Veloso: Pai - O Globo, 11 de agosto de 2013 manifestaram-se publicamente, assim como a Comissão da Verdade fluminense[Comissão da Verdade cobra da PM desaparecimento de morador da Rocinha Comissão da Verdade cobra da PM desaparecimento de morador da Rocinha] - Jornal do Brasil, 22 de julho de 2013 O desaparecimento também passou a ser conhecido internacionalmente,Mistério: pedreiro desaparece no Rio e sumiço ganha repercussão mundial - Domingo Espetacular (R7), 04 de agosto de 2013 desde a Anistia InternacionalAnistia Internacional cobra das autoridades desfecho do caso Amarildo - Agência Brasil, 11 de agosto de 2013 ao Financial TimesFinancial Times também se pergunta "Onde está Amarildo" - Exame, 04 de agosto de 2013
O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, recebeu a família de Amarildo e prometeu “mobilizar todo o governo” para encontrá-lo.Cabral promete mobilizar governo para descobrir paradeiro de morador da Rocinha desaparecido - O Globo, 24 de julho de 2013
Na cultura popular
Em 14 de julho de 2023, dez anos depois do crime, o documentário Cadê o Amarildo? estreou no Globoplay. O longa, produzido pelo jornalismo da TV Globo, mostra depoimentos exclusivos de duas testemunhas que nunca foram ouvidas pela Justiça, além de material inédito sobre as investigações do caso.
O escritor e dramaturgo Marcelo Rubens Paiva, mencionou Amarildo e seu assassinato em seu livro biográfico "Ainda Estou Aqui". No livro, em que conta, principalmente sobre seus pais, inclusive da vida até a morte de seu pai na ditadura militar, o político e engenheiro Rubens Paiva, o autor fez uma analogia entre ambos os casos, não só pelas suas semelhanças, mas como uma crítica à violência estatal.
Ver também Violência policial no Brasil
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