Artemidoro de Daldis, também Artemidoro de Éfeso (, ) foi um interpretador de sonhos e adivinho profissional grego, que viveu na primeira metade do É conhecido por ter escrito uma obra em grego, composta de cinco livros, intitulada Oneirocritica ou Oneirokritikon (em grego, Interpretação dos Sonhos), único trabalho seu a sobreviver."Artemidorus Daldianus" em The New Encyclopædia Britannica. Chicago: Encyclopædia Britannica, Inc., 15.ª edição, 1992, Vol. 1, p. 599.
Vida e obra Embora Artemidoro fosse natural da cidade grega de Éfeso, na Ásia Menor Ocidental, ele adotou o nome da cidade natal de sua mãe, Daldis, na Lídia, para se diferenciar dos inúmeros outros intérpretes de sonhos em Éfeso. A pesquisa moderna o distingue, assim, do geógrafo Artemidoro de Éfeso. Sua vida se situa provavelmente no período entre a morte de Domiciano (96 d.C.) e o reinado de Antonino Pio (138 a 161), que, assim como Adriano, é mencionado nominalmente na obra. A suposição frequentemente encontrada de que Artemidoro teria falecido por volta de 180, no final do reinado de Marco Aurélio ou no início do de Cômodo, é, no entanto, mera especulação, já que nenhum dos dois imperadores é mencionado na obra. Devido a certas figuras de pensamento e referências em sua Interpretação dos Sonhos — como, por exemplo, a ideia da pronoia (pressentimento) e as personificações de estrelas, ventos e nuvens —, supõe-se, por vezes, que Artemidoro fosse um estoico.
Segundo suas próprias palavras, Artemidoro realizou várias viagens de formação pela Ásia Menor e pelas grandes ilhas do Mar Egeu; ele visitou a Grécia continental e a Itália. Ele exercia profissionalmente a interpretação de sonhos e a adivinhação, uma atividade comum em sua época. Durante suas viagens, Artemidoro também consultou adivinhos que interpretavam os sonhos das pessoas nos mercados, a fim de aprender mais sobre antigas visões oníricas e suas realizações. Ele teve um filho que, assim como ele, tornou-se intérprete de sonhos. Cultivado e versado na literatura grega clássica, Artemidoro se orgulha, no prefácio do primeiro livro de sua obra sobre a interpretação dos sonhos, de que não há livro sobre o tema que ele não tenha adquirido e estudado.Artemidoro: O Livro dos Sonhos. Traduzido por Karl Brackertz. dtv, Munique 1979, p. 8. Por um lado, Artemidoro tinha o objetivo de desenvolver a interpretação dos sonhos sob a influência da Escola EmpíricaA Escola Empírica era uma escola médica grega existente desde meados do século III a.C., que surgiu do ceticismo de Pirro de Élis e pretendia basear a medicina exclusivamente na experiência; cf. Karl Brackertz (trad.): Artemidoro de Daldis: O Livro dos Sonhos. Artemis, Zurique e Munique 1979, p. 356. com base em um método empírico (observação, tradição, inferência por analogia); por outro lado, ele afirma que o próprio deus Apolo o inspirou, em sonhos, a escrever seu livro sobre sonhos. Além da interpretação dos sonhos, Artemidoro também escreveu um manual sobre a interpretação dos sinais das aves, que, porém, se perdeu por completo.
Obra Sua Interpretação dos Sonhos é composta por cinco livros. Os três primeiros livros são dedicados a um certo Cassius Maximus (provavelmente Máximo de Tiro). Originalmente, a obra teria sido concebida como uma coletânea de exemplos em dois livros. Os livros 1 a 3 foram publicados primeiro e destinavam-se a um público mais amplo. Os livros 4 e 5, por outro lado, Artemidoro teria escrito exclusivamente para seu filho, que também era intérprete de sonhos: este deveria, segundo a afirmação confiante do texto, guardar essa parte da obra para si mesmo, a fim de se tornar superior a todos os outros intérpretes de sonhos. O quarto livro é, nesse contexto, uma defesa da interpretação dos sonhos contra os críticos e contém, além disso, conselhos práticos para o intérprete de sonhos e discussões sobre problemas teóricos da interpretação dos sonhos.Artemidoro: O Livro dos Sonhos. Traduzido por Karl Brackertz. dtv, Munique 1979, p. 349 e seguintes. No quinto livro, Artemidoro tenta explicar 95 sonhos concretos e seu significado para a vida real. Sonhos e símbolos oníricos são interpretados como presságios com significado favorável ou desfavorável para o sonhador.
Um exemplo:
A obra de Artemidoro é considerada hoje um exemplo interessante da superstição antiga. Ao mesmo tempo, é uma tentativa precoce de sistematizar o que nos parece caótico, sem sentido e enigmático nos sonhos e, a partir disso, desenvolver uma técnica de interpretação que se apoia, por assim dizer, em dados empíricos.
Além disso, o Livro dos Sonhos é uma valiosa fonte histórica para compreender o modo de vida da época, a história social e o mundo imaginário do homem antigo no Alto Império. O interesse dos clientes de um intérprete de sonhos grego, como se pode deduzir das interpretações de Artemidoro, não era, de forma alguma, um ganho de autoconhecimento, uma terapia ou uma interpretação existencial, mas exclusivamente o vislumbre do futuro, que na maioria das vezes era determinado por questões materiais: pobreza ou riqueza, doença ou saúde, sucesso ou fracasso na vida profissional, em competições, na vida pública, casamento e filhos, clima e colheita, viagens perigosas ou felizes etc. são os temas em torno dos quais o texto gira.
Recepção Até bem adiante no século XVIII, o Livro dos Sonhos, que foi traduzido para o latim durante o Humanismo renascentista, era uma obra muito popular e frequentemente citada; no Iluminismo, perdeu popularidade e caiu praticamente no esquecimento. Foi somente Sigmund Freud (1856–1939) quem o redescobriu e o citou em sua obra A Interpretação dos Sonhos (1899/1900).
Para a recepção moderna de Artemidoro, além de Freud, foi particularmente importante o filósofo francês Michel Foucault, que abordou sobretudo os aspectos (sexuais) históricos da obra em sua publicação História da Sexualidade.Michel Foucault: A preocupação consigo mesmo (= História da Sexualidade. Volume 3). Suhrkamp, Frankfurt am Main 1986 (em francês: Le souci de soi. Gallimard, Paris 1984. Traduzido por Ulrich Raulff e Walter Seitter). Em Sexuality and Solitude, Foucault, ao comparar com textos do cristão Agostinho, chamou a atenção para a interpretação dos sonhos sexuais feita por Artemidoro, contrária à de Freud:
Edições e traduções Edição do século XVI Janus Cornarius. Artemidori Daldiani philosophi excellentissimi, De somniorum interpretatione, Libri V. Froben, Basileia, 1539 (versão digitalizada), 1544 (versão digitalizada); Gryphius, Lyon 1546 (versão digitalizada)
Edição crítica Roger A. Pack (ed.): Artemidori Daldiani Onirocriticon libri V. Teubner, Leipzig 1963.
Traduções e comentários Karl Brackertz (tradutor): Artemidoro de Daldis: O Livro dos Sonhos. Traduzido pela Artemis, Zurique e Munique 1979, ISBN 3-7608-3661-5 (também como livro de bolso da dtv; com notas e aparato crítico). Friedrich Salomon Krauss (tradutor): A Arte dos Sonhos. Revisão e posfácio de Gerhard Löwe. Introdução de Fritz Jürß. Reclam, Leipzig 1991, ISBN 3-379-00712-9. Versão digitalizada da edição de 1881 Daniel E. Harris-McCoy: Artemidorus, Oneirocritica. Texto, tradução e comentário. Oxford University Press, Oxford 2012, ISBN 978-0-19-959347-7. Artemidorus, A interpretação dos sonhos. Tradução de Martin Hammond, introdução e notas de Peter Thonemann (Oxford world’s classics). Oxford University Press, Oxford 2020, ISBN 978-0-19-879795-1.
Bibliografia
Jean-Marie Flamand: Artémidore de Daldis. Em: Richard Goulet (ed.): Dictionnaire des philosophes antiques. volume 1, CNRS, Paris 1989, ISBN 2-222-04042-6, pp. 605–614. Ludger Grenzmann: Traumbuch Artemidori: Zur Tradition der ersten Übersetzung ins Deutsche durch Walther Hermann Ryff (= Saecula spiritalia. volume 2). Baden-Baden 1980. István Hahn: Traumdeutung und gesellschaftliche Wirklichkeit. Artemidorus Daldianus als sozialgeschichtliche Quelle. Universitätsverlag Konstanz, Konstanz 1992, ISBN 3-87940-395-3. Wolfram Kurth: Das Traumbuch des Artemidoros im Lichte der Freudschen Traumlehre. Em: Psyche. volume 4, 1951, pp. 488–512. Elisabeth Schmitt: Lexikalische Untersuchungen zur arabischen Übersetzung von Artemidors Traumbuch. Steiner, Wiesbaden 1970. Peter Thonemann: An ancient dream manual. Artemidorus’ The interpretation of dreams. Oxford University Press, Oxford 2020, ISBN 978-0-19-884382-5. Christine Walde: Antike Traumdeutung und moderne Traumforschung. Artemis & Winkler, Düsseldorf 2001, ISBN 3-538-07117-9.
Gregor Weber (ed.): Artemidor von Daldis und die antike Traumdeutung. Texte – Kontexte – Lektüren (= Colloquia Augustana. volume 33). de Gruyter, Berlim u. a. 2015, ISBN 978-3-11-040740-2.
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