A língua islandesa, ou simplesmente islandês () é uma língua nórdica falada por cerca de 300 mil pessoas na Islândia, onde é a única língua oficial.
A língua se originou do nórdico antigo falado pelos exploradores noruegueses na época da colonização da Islândia, sendo que textos antigos como o Landnámabók podem ser compreendidos por islandeses atualmente. O islandês tem um conservadorismo linguístico maior em relação a outras línguas próximas, como o norueguês bokmål, além de um movimento purista forte no país.
Uma característica notável é a ausência total de plosivas vozeadas e a presença de pré-aspiração e soantes surdas, como , , e . Além disso, o islandês é escrito com o alfabeto latino com adição das letras ð (eth), þ (thorn) e æ e uso das vogais com diacríticos ⟨Áá⟩, ⟨Éé⟩, ⟨Íí⟩, ⟨Óó⟩, ⟨Úú⟩, ⟨Ýý⟩ e ⟨Öö⟩. Devido à homogeneidade étnica e isolamento geográfico da Islândia, o islandês tem pouca variação dialetal.
Na gramática, o islandês manteve do nórdico antigo um sistema de três gêneros (masculino, feminino e neutro), quatro casos (nominativo, acusativo, dativo e genitivo), metafonia, artigo definido sufixado, além de um complexo sistema de distinção de tempo, modo, pessoa e número na morfologia dos verbos.
Etimologia O exônimo "islandês" é o gentílico do país "Islândia", adaptação do endônimo . Da mesma forma, o endônimo é o gentílico do país em sua forma feminina definida ("a língua islandesa", em islandês, íslenska tungan). O nome do país, por sua vez, vem de "gelo" + "terra, país", significando literalmente "terra do gelo". O Landnámabók conta que, durante um inverno frio, Hrafna-Flóki Vilgerðarson, que chegou à ilha antes do início da colonização, subiu uma alta montanha, viu ao norte um fiorde coberto de gelo e, por isso, batizou a ilha da forma como é chamada até hoje.
Distribuição O islandês é a única língua oficial da Islândia, nativa da maior parte da população e utilizada nos meios de comunicação oficiais. O país tem uma população estimada em 389 444 pessoas e uma composição étnica predominantemente homogênea, com cerca de 94% dos habitantes sendo de origem islandesa. Além da homogeneidade étnica no país, o islandês não tem variações dialetais notáveis, apenas diferenças pontuais na pronúncia. A alta taxa de alfabetização histórica no país, a baixa imigração e alta mobilidade interna, ou até mesmo o fato de que, durante séculos, o país teve poucas escolas funcionando, são fatores decisivos para essa padronização da língua.
Diáspora thumb|300x300px|Mapa da diáspora islandesa. A principal comunidade de islandeses fora da Islândia está no Canadá, principalmente na província de Manitoba, com cerca de 101 795 cidadãos islandeses e descendentes registrados em 2016, sendo a cidade de Gimli chamada de Nova Islândia. A imigração se deu principalmente por causa de dificuldades resultantes de desastres naturais e epidemias no final do século XIX.
Há também cidadãos islandeses em países como a Dinamarca (cerca de 12 000), Noruega e Suécia (cerca de 9 000 cada), Estados Unidos (6 500), Reino Unido (2 500), Alemanha (1 800), entre outros países mundo afora.
Línguas relacionadas
O islandês é pertencente ao ramo nórdico ocidental das línguas germânicas:
Apesar da proximidade em sua origem, o norueguês, principalmente nas proximidades de Oslo, se distanciou muito do islandês e do feroês por influência das línguas nórdicas orientais, em especial o dinamarquês, enquanto dialetos rurais do norueguês e as línguas insulares se mantiveram mais conservadoras. Isso motivou a divisão dessas línguas entre insulares, com o islandês, o feroês e o norueguês nynorsk, e continentais, com o dinamarquês, o sueco e o norueguês bokmål:
História alt=Página de título envelhecida com tipografia ornamental medieval e moldura ilustrada, com o mapa da Islândia, navios e seres marítimos mitológicos desenhados no topo |miniaturadaimagem|Página de título do Landnámabók, que conta a história dos assentamentos islandeses O início da história da língua islandesa data da chegada de Ingólfur Arnarson, tido como o primeiro habitante fixo da Islândia, e seu irmão Hjörleifr, em 874. Após eles, outros noruegueses chegaram à ilha fugindo do reino de Haroldo I. O nórdico antigo ocidental era a língua que os colonizadores falavam à época, na qual foram escritas a Edda e as sagas islandesas, e é de onde a língua islandesa se originou. A história da Islândia foi bem registrada de forma escrita no Landnámabók.
Durante os primeiros 200 anos do assentamento, não havia diferenças tão marcantes entre o norueguês e o islandês, e os dois países tinham fortes laços culturais até o século XIV. No entanto, a União de Kalmar, que uniu politicamente a Dinamarca, a Suécia e a Noruega, fez com que as duas línguas se separassem. Enquanto a Noruega estabeleceu o dinamarquês como língua da Igreja, a Islândia traduziu a Bíblia e outras literaturas religiosas para sua língua nativa.
Os primeiros registros escritos conhecidos em islandês datam do século XII, quando o norueguês ainda não era uma língua tão distante. Nessa época, foi escrito o Primeiro Tratado Gramatical, que visava descrever a língua e criar uma primeira ortografia unificada. Além disso, um objetivo do livro era criar no povo islandês a noção de uma identidade linguística própria, distinta daquela dos povos da Escandinávia.
Apesar da continuidade linguística, mudanças no sistema fonológico permitem separar a língua islandesa em islandês antigo (até 1350), islandês médio (entre 1350 e 1550) e islandês moderno (a partir de 1550).
Conservadorismo linguístico O islandês é considerado a mais conservadora das línguas escandinavas, sendo uma continuação direta da língua falada pelos primeiros colonizadores. O isolamento geográfico, somado a altas taxas de alfabetização desde o século XIII contribuíram para a estabilidade do idioma. O islandês reteve o sistema de casos do nórdico antigo, herdado do indo-europeu, e um vocabulário relativamente inalterado. Dessa forma, falantes do islandês moderno não têm grandes dificuldades em ler textos clássicos escritos em nórdico antigo.
O islandês reteve as principais características morfológicas do nórdico antigo, enquanto as línguas próximas passaram por uma redução maior de seu sistema flexional. O que mais se modificou no islandês moderno com relação ao nórdico antigo foi o sistema fonológico, especialmente no que se refere a seu sistema vocálico. No Primeiro Tratado Gramatical, consta que no islandês do século XII havia 9 unidades vocálicas qualitativas, sendo um total 27 fonemas vocálicos, pois as vogais poderiam ser curtas, longas ou nasais.
Desde o século XVI, houve uma certa tendência de preservação da língua dos textos clássicos, o que, à época, se refletiu na forma como hinos luteranos foram traduzidos, por exemplo. Entre os séculos XVIII e XIX, durante o governo da Dinamarca sobre a Islândia, essa tendência se intensificou, com o purismo linguístico se tornando uma arma política contra o governo dinamarquês. Após a independência, durante a Segunda Guerra Mundial, a presença britânica na Islândia fez com que o purismo se voltasse contra a língua inglesa. No entanto, a globalização faz com que boa parte dos islandeses tenham o inglês como segunda língua. Mesmo assim, o movimento purista continua forte no país.
Nos dias de hoje, o Instituto Árni Magnússon, mais especificamente seu Departamento de Planejamento Linguístico, é legalmente responsável por preservar a língua. Quando um objeto novo é descoberto ou um novo conceito é criado, o departamento se incumbe de criar um novo termo a partir do léxico já existente por meio da reutilização de palavras antigas, composição com raízes pré-existentes ou até mesmo decalque:
"clima" + "ciência" → "meteorologia "carro" + "cabana" → "garagem" "números" + "profetisa" → "computador"
Fonologia Consoantes O inventário de consoantes do islandês é extenso e único, conhecido por não ter oclusivas vozeadas e contar com soantes desvozeadas: Consoantes Labiais Coronais Palatais Velares Glotal Plosivas Fricativas () Sibilante Nasais () () () () Aproximantes Vibrante O islandês não tem plosivas vozeadas, a distinção de fortis e lenis é feita entre consoantes aspiradas e não aspiradas, respectivamente. No entanto, essa distinção clara só ocorre no começo das palavras e, algumas vezes, antes de vogais, sendo a forma não aspirada beneficiada em outros contextos. Essa diferenciação, no entanto, é marcada em alguns contextos. Onde a consoante é geminada ou quando vem antes de ou , a consoante fortis sofre pré-aspiração enquanto a lenis não: e , e . Consoantes nasais também explicitam essa distinção, mesmo ela não estando nas plosivas em si. Antes das lenis, as consoantes nasais são sonoras, enquanto são surdas antes das fortis, diferenciando alguns pares mínimos: e e Nasais palatais e velares ocorrem como alofones de ou antes de consoantes palatais e velares, respectivamente, como em ou . Antes de , algumas plosivas se tornam fricativas: → , . O mesmo pode ocorrer antes de , mas não obrigatoriamente: → . Na contramão desses processos, e podem se tornar plosivas desvozeadas antes de ou : → , → . Além disso, um é adicionado entre os encontros consonantais , , e , ou em certos contextos onde e eram historicamente longos: → . Após e antes de uma vogal, e são suprimidos: , .
Vogais A língua islandesa conta com um total de oito vogais, que podem ser curtas ou longas. A tabela de vogais do islandês é a seguinte:
Vogais FrontaisPosteriores Fechadas Quase fechadas Semiabertas Abertas
O islandês tem cinco ditongos "verdadeiros", ou seja, ditongos formados pela simples concatenação de dois fonemas vocálicos: ai au / ɛi ɔu œi* * O ditongo é fonemicamente , mas é pronunciado , pois o se torna por assimilação fonética.
Transformações O u-umlaut é uma metafonia que afeta a vogal na adição de uma vogal . Quando a primeira vogal seguinte é , a vogal é arredondada para se tornar . Isso acontece principalmente em palavras compostas e desinências, mas nem sempre dentro de raízes isoladas, e ainda pode ocorrer quando o é apenas histórico, o que abre discussão sobre se a natureza do fenômeno é fonológica ou apenas morfológica. Exemplos:
"bolo" → "bolo" (acusativo, dativo, genitivo); "saga" → "saga" (acusativo, dativo, genitivo); "criança" → "crianças".
Ao mesmo tempo, há um fenômeno de enfraquecimento, que pode fazer com que vogais se tornem em posições átonas. Esses dois fenômenos podem ocorrer progressivamente, gerando transformações como + → → → → .
O i-umlaut é um fenômeno que pode afetar todas as vogais com a adição de ou :
→ , → , → *, → *, → *, → , → *; "filho" → "filhos"; "alto" → "mais alto". * são representados ⟨y, ý⟩, respectivamente, quando resultam de vogais arredondadas
Como o fenômeno não é mais ativo, nem todas as palavras são afetadas, e algumas podem manifestar uma forma irregular dessa metafonia.
Em raízes terminadas por mais uma consoante, ocorre uma síncope na presença de uma desinência começada em vogal. Exemplos: "triste" → (dativo); "algum" → (acusativo) "lareira" → (dativo).
As vogais são pronunciadas, respectivamente, como antes das nasais velares e palatais . Exemplos:
Prosódia