Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe Senhora, Oxum Muiuá, (Salvador, 31 de março de 1890 - Salvador, 22 de fevereiro de 1967) foi a terceira Ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá em Salvador, Bahia.

Origem e vida pessoal Maria Bibiana do Espírito Santo nasceu no dia 31 de março de 1890Vivaldo da Costa Lima entregou a Mãe Stella a certidão de batismo de Mãe Senhora, onde consta a data de nascimento de Maria Bibiana do Espírito Santo como 31 de Março de 1890. O documento faz parte do acervo do museu Ilê Ohun Lailai, do Ilê Axé Opô Afonjá., filha de Félix do Espírito Santo e Claudiana do Espírito Santo, na Ladeira da Praça em Salvador, Bahia. Tinha uma irmã chamada Felícia do Espírito Santo.

Mãe Senhora é descendente da nobre família africana Assipá, originária de Oió na Nigéria e Queto no Benim. Sua mãe, Claudiana do Espírito Santo era filha de Madalena. Madalena era filha da Sra. Marcelina da Silva, Obá Tossi, uma das fundadoras da primeira casa de candomblé no Brasil: o Ilê Axé Airá Intilé, ou Candomblé da Barroquinha, depois Casa Branca do Engenho Velho, em Salvador.

Foi iniciada na nação Queto em 4 de novembro de 1907, pela ialorixá Eugênia Ana dos Santos, Mãe Aninha, em sua casa na Ladeira da praça, no Pelourinho, centro histórico de Salvador. Mãe Aninha lhe entregou a cuia (contendo a faca, a tesoura e a navalha) no ritual de iniciação.A entrega simbólica da navalha às ebomis (filhas de santo confirmadas nas cerimônias de três e sete anos) tem hoje o nome de "cerimônia do decá." A navalha fora de sua avó, Marcelina da Silva, Obá Tossi. A linhagem familiar é que permitiu a Mãe Senhora, ainda criança, a receber os símbolos do direito ao mais alto posto do candomblé. Mãe Aninha não queria iniciar Mãe Senhora tão jovem - pois sabia como é pesada a disciplina do sacerdócio - mas teve uma visão na qual Marcelina da Silva, Obá Tossi, ordenava-lhe o contrário. Segundo consta, os primeiros banhos rituais de Mãe Senhora, ainda menina, foram tomados no Ilê Axé Airá Intilé, em Salvador.Santos, Deoscóredes Maximiliano dos. História de Um Terreiro Nagô. 1988. Ver seção Bibliografia.

Casou-se com Arsênio dos Santos. No dia 2 de dezembro de 1917, nasceu seu filho único, Deoscóredes Maximiniano dos Santos, Mestre Didi.

Foi Ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá em Salvador no período de 1942 a 1967, consolidou-se uma das maiores líderes religiosas da história do Brasil.

Morreu na madrugada do dia 22 de janeiro de 1967, na casa de Oxalá do Ilê Axé Opô Afonjá em Salvador, Bahia, vítima de um súbito AVC (acidente vascular cerebral).

Comerciante no Mercado Modelo e na festa do Ribeira Mãe Senhora tinha uma barraca na rampa do antigo Mercado Modelo que chamava de "A Vencedora", mais como forma de entretenimento do que de subsistência. Tinha o hábito de chegar ao mercado entre 8 e 9 horas da manhã para vender frutas que o pessoal do Opô Afonjá apanhava na roça: manga, araçá, tamarindo, mangabada etc. Quem ajudava era Celina de Jesus, Cosme, Valdeck. Sua neta, Inaicyra, filha de Mestre Didi, lembra com saudade que gostava muito de comer os bolinhos manauês e das bolachinhas de goma que ela fazia e as vezes vendia por lá. Entre 2 e 3 horas da tarde, já estava de volta em casa, com suas compras: rabada, fígado, o que mais tivesse bonito e fresco na ocasião. Foi também no Mercado Modelo que Camafeu de Oxóssi fez a aproximação de Jorge Amado com Mãe Senhora. Jorge Amado costumava frequentar muito a barraca de Camafeu.SANTOS, José Félix dos, e Cida Nóbrega. Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe Senhora: saudade e memória. Salvador, BA: Corrupio, 2000. Ver seção Bibliografia.

Mãe Senhora costumava vender na festa do Ribeira, no bairro de mesmo nome, em um ponto que era dela (e não uma barraca como no Mercado Modelo), quando vendia cocada e doces diversos. Esse ponto ela passou depois para uma senhora de nome Epifânia, sua filha de santo. Quando estava por lá, Mãe Senhora tinha o hábito de ir a Missa da Igreja de Nossa Senhora da Penha.

Segundo relato de sua neta, Nídia Maria do Santos, filha mais velha de mestre Didi, Mãe Senhora não tinha o hábito de estar com suas contas e roupas de obrigação fora do Opô Afonjá, quando dessas visitas ao antigo Mercado Modelo e na festa do Ribeira.

Ialorixá no Ilê Axé Opô Afonjá No dia 25 de Dezembro de 1937, Mãe Stella conta que conheceu Mãe Aninha e Mãe Senhora (Ossi Dagã), numa visita com seus familiares ao Ilê Axé Opô Afonjá: "Esse espaço era uma fazenda com pouquíssimas casas, muita vegetação, muitas árvores e muito mistério - sem água corrente nem luz elétrica, mas era tudo lindo! No decorrer da visita, escutei muitas vezes mãe Aninha, a quem eu chamava de tia, solicitar a presença da ossidagã para as funções as mais variadas. Dava pra notar que era um pessoa de extrema confiança e que se dedicava carinhosamente, com respeito e sem medo, às funções que lhe eram impostas. A ossidagã era uma figura que emanava simpatia e segurança. Corpo rechonchudo, seios fartos, olhos grandes, lindo riso, pouca estatura, pernas curtas - fazia tudo com a mão esquerda. Era uma deusa de ébano! Voltei para casa com a imagem de tia Aninha, imponente e misteriosa, que com um gesto meio mágico tirou uma fruta - uma maçã vermelha - de uma grande gamela que estava no altar de Xangô, e me entregou. Achei ótimo, esnobei meus irmãos, ainda mais quando me disseram: - Só você ganhou a fruta do pé do Santo... Não me saía da cabeça a imagem da ossidagã. Só falava nela e, então, fui informada de que ossidagã era o cargo que ela ocupava no Axé. Um ano depois, voltei com minha tia Arcanjá, a Sobaloju do Opô Afonjá, e Joaninha, companheira de todas as horas. Tia Aninha já tinha falecido e a ossidagã reinava como Ialorixá do Axé Opô Afonjá. Desse tempo em diante, o destino do Candomblé de São Gonçalo ficou a cargo de mãe Senhora, o que ocorreu após o afastamento de mãe Bada, a sucessora imediata de mãe Aninha."

Como Vivaldo da Costa Lima explica, na época do falecimento de Mãe Aninha, a direção do Ilê Axé Opô Afonjá foi dividida entre a antiga dagã da casa e a ossidagã (Mãe Senhora), que passou a usar o título de ialaxé. Com o falecimento de Mãe Badá, Olufã Deii, em 1941, a ialaxé continuou à frente do terreiro até que, em 1945, após sete anos da morte de Mãe Aninha, foi realizada a cerimônia de Acu e Mãe Senhora passou a ser chamada de ialorixá, a ser de fato e direito, a mãe-de-santo do terreiro.A família de santo nos candomblés jejes-nagôs da Bahia: um estudo de relações intragrupais. Português. ed.2a. Salvador. Corrupio. 2003. Ver seção Bibliografia.

Mãe Stella lembra que o período de Mãe Badá "foi curto, pois a idade avançada e a doença abreviaram seu tempo no Aiê. Partiu para o Orum levando consigo muita força misteriosa e valiosos conhecimentos. Passado o tempo regulamentar, o destino do Axé ficou sob a orientação de Mãe Senhora. Com pulso forte e doçura de Oloçum, por mais de trinta anos se dedicou ao Opô Afonjá. Mãe Senhora tinha total dedicação a Xangô e o consultava para as mínimas coisas. Ele era seu orientador e confidente. Vibrava nas festividades dedicadas ao senhor Afonjá."

Mestre Didi conta que "com o título de Ialaxé Opô Afonjá (mãe da força espiritual que mantém o Axé Opô Afonjá), dirigindo os destinos do terreiro, ao lado de uma senhora filha de africanos, muito amiga de Iá Obá Bii, de nome Maria da Purificação Lopes, ou Babá Olufã Deii. As duas puseram o Axé a funcionar, e no dia 26 de junho de 1939 deu-se a inauguração da nova casa de veneração aos mortos, construída para as obrigações da finada Aninha, junto ao cruzeiro. Fizeram a iniciação das seguintes pessoas: Honorina, filha de Oçânhim; José e Hilda, ambos de Xangô; Senhorazinha e Dacruz, ambas de Oxum; e Isabel, de Iansã. Três dias depois, Fortunata e Antonieta, ambas de Obaluaiê; Dulcinha e Benzinha, ambas de Iemanjá. Entrou também, mais três dias após, Stela, de Oxóssi. No mesmo ano, foi feita uma casa para Ogum, e reiniciaram-se obras do novo barracão e a construção da casa de Xangô."

Segundo o Sr. Agenor Miranda, Mãe Senhora "foi a verdadeira continuadora de mãe Aninha (...) Quando a conheci, Senhora já era uma mocinha, era uma verdadeira rainha. Sabia ser dócil e meiga mas, também, sabia impor respeito, quando necessário fosse. Todos respeitavam muito Senhora. Eu era muito amigo dela e ela minha amiga, mas eu sempre a respeitei muito porque os antigos sempre tinham em mente a hierarquia e ela era mais velha do que eu. Ela era minha irmã, porque fomos feitos por Aninha, mas quando eu a conheci, ela já era feita e já tinha um cargo dado por minha mãe Aninha, dentro do Axé."

Mãe Stella ainda conta que Mãe Senhora "falava muito sobre hierarquia, dando ênfase à autoridade de Mãe Aninha. Segundo minha mãe, aquela falava pouco no dia-a-dia com os Filhos-de-Santo, deixando a tarefa para a Dagã do Ibé, dona Fortunata de Odé, que por sinal fora Ojuboná de minha mãe. Era assim responsável pelos Aburôs da Casa. Ao assumir o posto de Ialorixá, além de outras inovações que serviram para o engrandecimento da Casa, Mãe Senhora criou os subcargos de Otum e Ossi para o Corpo de Obá. Cada Obá passou a ter, então, seus auxiliares - um Otum e um Ossi. Obá Odofim teria, por exemplo, um Otum-Obá Odofim e um Ossi-Obá Odofim. A formação do Corpo de Obá passou assim, de doze para trinta e seis componentes, ela colocou no lugar de Dagã (pois Dona Fortunata falecera), a sua Omo-Orixá Antonieta. E como Otum e ossidagã, respectivamente, Georgete e Didi. Outros oiés foram preenchidos. Eu era Colabá, sucedendo Matilde. Além disso, Mãe Senhora confirmou muitos Ogã e Obá. A vaidade de minha mãe incentivava as Filhas a se arrumarem com esmero. E como a velha era exigente com coisas de Barracão! Não tinha esta de saia mal passada; anágua murcha... Eu (Teté, como carinhosamente era chamada por ela), Haydée e Moacir éramos os acompanhantes de Mãe Senhora à Ilha de Itaparica, para o Ilê Aboulá."SANTOS, Maria Stella de Azevedo. Meu Tempo É Agora. 2a Edição. 2010. Ver seção Bibliografia.

Conforme relato de Sinval da Costa Lima, Mãe Senhora "era uma mulher muito rigorosa com as coisas da seita, ela não abria mão de nada que não fosse determinado, ela não fazia nada sem "ir ao pé de Xangô", isto é sem que ele autorizasse e confirmasse. Ela era uma mulher assim, de maneira que todos a respeitavam e ela se dedicava muito."

Nídia Maria Santos, filha mais velha de mestre Didi e neta de Mãe Senhora, lembra que "durante as festas do Axé, quando era a festa de Oxum, ela ficava 16 dias na casa de Oxum. As pessoas mais chegadas ficavam também lá com ela: eu, Ditinha, Filhazinha, Vanjur. Tinha ano que ela mandava cozinhar na casa de Xangô e tinha ano que ela mandava construir uma palhoça, ao lado da casa de Oxum, e aí cozinhava, lavava, fazia toda a obrigação lá em baixo. Tinha época que ela ficava mais nervosa e mandava todo mundo pra casa de Xangô e aí ficava cobrando: "Meu almoço, cadê essas meninas?" Ela almoçava às 10 horas da manhã. Quando passava desse horário, ela dizia: "Querem me matar de fome?". Quando era festa de Oxalá, ela também ficava hospedada 16 dias na casa de Oxalá. Depois ela retornava para casa de Xangô e lá ela ficava para outras festas. Na festa de Oxum, ela fazia o bori dela também na casa de Oxum. O presente de Iemanjá que ela fazia era muito simples. Ia ela, Georgete, Didi Tololá, Ditinha, ela não deixava ir muita gente não."

Segundo Moacyr Barreto Nobre, a festa de Oxum de Mãe Senhora "era uma maravilha. Primeiro, ela se mudava por 16 dias para a casa de Oxum. Todas as tardes ela subia para acender Xangô e depois descia, e todas as quartas-feiras ela subia e passava o dia com Xangô, à tardinha ela descia. Eram 16 dias de obrigação para Oxum. Ela vibrava e dançava muito. A Oxum dela era leve, linda. Eu não sei o que ela dançava mais bonito, se era a cantiga corrida, se era Ijexá. Não sei, é até suspeito eu dizer."