Martim Gil I de Soverosa, dito O Bom (c. 1200 - c. 1260), foi um importante rico-homem português dos meados do século XIII. Como vários seus homólogos, Martim envolveu-se na guerra que grassou em Portugal entre 1245-47 e que opunha e o seu irmão, o conde Afonso de Bolonha. Martim viria a ser uma das mais importantes figuras do período: o seu apoio e influência sobre marcaram-o, injustamente, como o principal responsável pela queda do monarca.

Primeiros anos Martim, nasceu por volta de 1200, e foi provavelmente o filho primogénito de Gil Vasques de Soverosa e da sua primeira esposa, Maria Aires de Fornelos, que se haviam unido em matrimónio pela mesma altura. Maria Aires fora barregã de Sancho I de Portugal, o que fazia de Martim meio-irmão dos infantes Martim Sanches e Urraca Sanches de Portugal, nascidos daquela união concubinária. Pertencia, assim, à importante linhagem de Soverosa, sendo meio-irmão do trovador Vasco Gil de Soverosa..

O testamento de Sancho I e o conflito sucessório, 1211-1218

Antecedentes: o testamento e a divergência nobiliárquica Embora ainda menor de idade, Martim deverá ter decerto ignorado o fulgor político da corte portuguesa dos inícios de 1211. Em 1209, Sancho I mandara lavrar testamento, segundo o qual dava às suas filhas, Mafalda, Teresa e Santa Sancha, respetivamente a posse dos castelos de Montemor-o-Velho, Seia e Alenquer, com as respectivas vilas, termos, alcaidarias e rendimentos. Pouco antes da sua morte em 1211, Sancho I nomeara seus testamenteiros Gonçalo Mendes II de Sousa, Lourenço Soares de Ribadouro, Gonçalo Soares, Pedro Afonso de Ribadouro, e Martim Fernandes de Riba de Vizela, para fazerem válido o seu testamento. Não tardaria a descobrir-se que se teriam de fazer valer os direitos do rei à força:o infante Afonso não concordou com o testamento deixado pelo pai e recusou cumpri-lo.

Desta forma, os primeiros anos do reinado do sucessor, Afonso II de Portugal, foram marcados por violentos conflitos internos entre o rei e as suas irmãs Mafalda, Teresa e Santa Sancha de Portugal, a quem Sancho legara em testamento, sob o título de rainhas, a posse dos castelos de Montemor-o-Velho, Seia e Alenquer, com as respectivas vilas, termos, alcaidarias e rendimentos. Ora, Afonso, tentando evitar a supremacia da influência dos nobres no seu governo, pretendia centralizar o seu poder, mas para isso incorria contra as irmãs e em último caso contra o testamento paterno, do qual Gonçalo ficara encarregue de defender. Este, como executor testamentário, e talvez por ter sido um grande companheiro do rei, foi o que mais agiu em defesa das últimas vontades de Sancho, empenhando-se em fazê-las cumprir e jurá-las solenemente. Assim é perfeitamente compreensível que Gonçalo tivesse defendido intensamente a posição das infantas, sobretudo nas terras onde dominava como tenente: Montemor-o-Novo, Sesimbra, Lisboa, Sintra, Torres Vedras, Abrantes e Óbidos, além das já referidas, inaugurando um período no qual os Sousas, firmes apoiantes da realeza portuguesa, se lhe opunham pela primeira vez.

Alguns dos cinco grandes nobres citados juntaram-se ao Sousão na defesa da posição das três rainhas de Portugal: Teresa, Sancha e Mafalda. Mas alguns permaneceram do lado do rei: sabe-se que Lourenço Soares de Ribadouro se terá mantido do lado do novo rei, sendo esta posição também compreensível dado o estreito vínculo que unia a Casa de Ribadouro à Casa Real: Afonso I de Portugal fora pupilo de Egas Moniz, o Aio; e mais tarde várias damas daquela família haviam educado infantes (como o caso de Urraca Viegas de Ribadouro, tia de Lourenço, que educara a Rainha Mafalda). O pai de Martim Gil, Gil Vasques de Soverosa, inicialmente apoiante do primo, Gonçalo Mendes II de Sousa, acaba por se desentender com ele e passar para a fação régia, atitude imitada por vários aristocratas contemporâneos.

A ocupação de Martim Sanches Martim Sanches, filho bastardo do defunto rei e meio-irmão de Martim Gil, encontrava-se nesse momento na Galiza. Desentendendo-se com Afonso II, refugiara-se, como outros irmãos, em outros reinos. Quando chegou a Leão, fora-lhe encomendado o governo da Galiza pelo então rei de Leão, Afonso IX. Tornara-se num dos magnates mais importantes da corte leonesa, exercendo a alferesia-mor entre 1218 e a sua morte em 1227. Muito provavelmente aproveitando as querelas políticas entre os irmãos e entre uma boa parte da nobreza, Martim reuniu uma hoste de soldados e invadiu o Minho, devastando tudo à sua passagem, incitado provavelmente pelo Arcebispo de Braga, Estêvão Soares da Silva. O monarca português acabaria por fazer retroceder o irmão rebelde para Leão.

Exílio em Leão Em 1218, derrotado, Martim Sanches abandona Portugal definitivamente, e dedica-se a servir os interesses da sua família materna, passando a residir na terra de Fornelos, provavelmente junto ao Castelo de Fornelos (Pontevedra). O infante leva consigo os seus dois meios-irmãos, Martim e Teresa Gil de Soverosa, através da qual se materializará a aliança tão desejada pelo exilado infante: Teresa tornar-se-ia na concubina de Afonso IX de Leão a partir desse mesmo ano de 1218 até à morte do monarca, em 1230.

É, no entanto, com a morte de Martim Sanches em 1227, que Martim Gil se passa a destacar no seio da família, assumindo o controlo de alguns núcleos patrimoniais, e também a nível político. De facto, é a ele que Afonso IX entrega, em 1229, as tenências dos castelos de San Martín de Ladrones, Baiona e Toronho. Em abril desse mesmo ano acompanha Afonso IX a Cáceres, bem como vários nobres leoneses com quem Martim fará por emparentar e criar uma rede de parentesco que lhe viria a ser muito útil no futuro.

Conflito sucessório leonês, 1230 Com a morte de Afonso IX, abre-se uma crise sucessória no Reino de Leão. A segunda esposa de Afonso, Berengária de Castela, de quem o monarca se havia separado em 1204, aproveitara o vazio de poder criado no Reino de Castela com a morte prematura do irmão, Henrique I de Castela, para colocar no trono o seu próprio filho com o rei leonês, o infante Fernando, na esperança que, após a morte de outro infante Fernando, filho da primeira esposa de Afonso, Teresa de Portugal, ocorrida em 1214, Afonso nomeasse o seu filho para o trono leonês e unificasse, assim as coroas leonesa e castelhana. Contudo, Afonso parece ter percebido o plano e nomeia, para evitar a união, para suas sucessoras, as filhas da sua esposa portuguesa, irmãs inteiras do falecido infante Fernando: as infantas Sancha e Dulce, o que supunha o afastamento do recém-coroado rei castelhano. Contudo, apoiado pela mãe, este resolve assumir o poder, renegando o testamento paterno.

Esta investida castelhana no trono leonês provocou o desagrado da maior parte da nobreza leonesa, que não queria ver o seu reino anexado a Castela. Esta questão parece ter-se gerado uns anos antes da morte do monarca, pois parece que já Martim Sanches e vários seus parentes portugueses em Leão haviam tomado o partido das infantas, contra o rei castelhano. Na verdade, não se conhece a posição do Soverosa nesta matéria. Pode ter regressado a Portugal em 1229, ter-se juntado à resistência galega dirigida por Rodrigo Gomes de Trava, ou então ter simplesmente optado pela neutralidade. O certo é que ainda em 1230 recebe a tenência de Toronho das mãos de Fernando III de Leão e Castela, vencedor da disputa sucessória. Isto indica que Martim, após uns primeiros meses de oposição, se possa ter juntado ao partido castelhano. Contudo, ainda nesse ano, Martim surge a ocupar cargos governativos em Portugal, o que indica que terá regressado ao reino natal.

Regresso a Portugal De facto, em 1230 surge à frente da tenência de Valadares, substituindo o seu primo Soeiro Pais de Valadares. Em março de 1232 regressa à corte portuguesa, que passará a frequentar de forma mais assídua.

Não se conhecem as razões específicas que levaram Martim a abandonar Leão. Provavelmente estaria relacionado com a ação de Fernando III na sua corte, na qual renegava para segundo plano a nobreza galego-leonesa e fazia ascender, em poder e influência, a nobreza castelhana. Associado aos galegos-leoneses, era muito pouco provável que naquele momento Martim conseguisse fazer algum tipo de carreira política eficaz no reino vizinho, pelo que procurou mudar a sua sorte regressando a Portugal, deixando a sua irmã junto dos filhos dela, em Leão.

A cúria portuguesa, tal como a leonesa-castelhana, passava nesse momento por uma reestruturação importante. Imitando o pai, Sancho II de Portugal voltará a afastar os Sousas do poder, após um breve período de auge no início do seu reinado, e prescinde do cargo de mordomo-mor, mantendo no entanto o fiel Martim Anes de Riba de Vizela no cargo de alferes-mor. Foram os primeiros grandes resultados da estratégia do seu pai, Gil Vasques, que pretendia afastar a família de Sousa do poder para a substituir em poder e influência. Este plano necessitava de muitos apoios, e o regresso de Martim pode também estar relacionado com esta urgência do seu pai.

Na fronteira: entre Portugal e Leão Martim parece, no entanto, não ter desistido completamente da carreira leonesa, pois ainda em 1233, possivelmente por uns meses, volta a receber Toronho das mãos de Fernando III de Leão e Castela, e novamente em 1234, agora mantendo-a até 1235. Neste ano atua também como tenente em substituição de Fernão Guterres de Castro, que por esta altura seria já seu sogro, pois desposa a sua filha, Inês Fernandes de Castro. Este casamento estaria planeado numa estratégia desenhada já pelo seu falecido meio-irmão, que envolveu o seu casamento com Eulália Peres de Castro, filha de Pedro Fernandes de Castro "o Castelhano" e o de Martim Gil com Inês, materializando a união a dois ramos distintos da família e ganhando ao mesmo tempo uma mais próxima relação com esta importante família galego-leonesa. A mãe de Inês, Emília Iñiguez de Mendoza, era irmã de Inês Iñiguez de Mendoza, que, como a irmã de Martim, também manteve uma relação de concubinato com o rei de Leão.

O próprio Gil Vasques, pai de Martim, casava por essa altura em terceiras núpcias com Maria Gonçalves Girão, viúva de Guilherme Peres de Gusmão, avó da futura rainha de Portugal, Beatriz de Castela, e também tia de Mécia Rodrigues Girão, que desposava André Fernandes de Castro, irmão de Inês. Os Soverosas estreitavam, desta maneira, relações com as família de Girão, Castro e Gusmão.

Auge de influência na corte portuguesa Em Portugal, a situação política agudizava-se desde os meados da década de 30: a aristocracia arrebatava violentamente ao clero e aos pequenos proprietários e ao próprio monarca tanto quanto podiam, perante a inação de Sancho II, motivo de queixa de diversos prelados, como os bispos de Braga e do Porto, ao Papa Inocêncio IV. Naquele momento, a proteger a posição do rei encontravam-se Gil Vasques de Soverosa, Martim Anes de Riba de Vizela e Soeiro Gomes de Tougues.

Em 1238, surgia pela primeira vez na corte o seu meio-irmão Vasco Gil de Soverosa, filho do segundo matrimónio do seu pai com Sancha Gonçalves de Orvaneja, e que a família não hesitaria em unir a Fruilhe Fernandes de Riba de Vizela, sobrinha de Martim Anes, como forma de solidificar os laços entre as poucas famílias que ainda defendiam o monarca.

A saída da corte do pai em 1240, e a sua morte, ocorrida possivelmente ainda nesse ano, deram a Martim Gil uma maior projeção social, uma vez que era agora o representante da família, aquele que mais ativamente lutaria pelos interesses do grupo familiar. Continuou junto de Sancho II, que lhe confia uma vez mais a tenência fronteiriça de Valadares, detendo-a ao final da guerra civil.