O cinema do Brasil existe como exibição e entretenimento desde julho de 1896, e como realização e expressão desde 1897. Embora nunca tenha chegado a se estruturar plenamente como indústria, o cinema brasileiro, em seus mais de 120 anos de História, teve momentos de grande repercussão internacional, como na época do Cinema Novo, e de crescimento do mercado interno, como no período da Embrafilme.ALMEIDA, Paulo Sérgio e BUTCHER, Pedro: "Cinema: desenvolvimento e mercado", ed. Aeroplano, 2003. Na primeira década do século XXI, a atividade cinematográfica no Brasil envolve pouco mais de 2 mil salas, que vendem uma média de 100 milhões de ingressos anuais, dos quais entre 15 e 20% são para filmes brasileiros. A produção nacional tem mantido uma média de 90 a 100 filmes de longa-metragem por ano, sendo que nem todos conseguem lançamento comercial.

Segundo o crítico e historiador Jean-Claude Bernardet, "não é possível entender qualquer coisa que seja do cinema brasileiro se não se tiver em mente a presença maciça e agressiva, no mercado interno, do filme estrangeiro".BERNARDET, Jean-Claude: "Cinema brasileiro, propostas para uma história", ed. Paz e Terra, 1978

História O início (1896–1907) thumb|Alfonso Segreto, junto aos primeiros projetores da Empreza Paschoal Segreto: os irmãos italianos estiveram entre os precursores do cinema no Brasil.|297x297px

A primeira exibição de cinema no Brasil aconteceu em 8 de julho de 1896, no Rio de Janeiro, por iniciativa do exibidor itinerante belga Henri Paillie. Naquela noite, numa sala alugada do Jornal do Commercio, na Rua do Ouvidor, foram projetados oito filmetes de cerca de um minuto cada, com interrupções entre eles e retratando apenas cenas pitorescas do cotidiano de cidades da Europa. Só a elite carioca participou deste fato histórico para o Brasil, pois os ingressos não eram baratos.Primeira sessão de cinema do Brasil completa 115 anos Portal de Notícias Paraná-Online (através da Agência Estado) - acessado em 8 de julho de 2011 Um ano depois já existia no Rio uma sala fixa de cinema, o "Salão de Novidades Paris", de Pasquale Segreto.

Para a primeira projeção, utilizou-se de um cinematógrafo, mas por razões desconhecidas, os jornais da época anunciaram a novidade como sendo "aparelho que projeta sobre uma tela ... diversos espetáculos e cenas animadas...série enorme de fotografias" de um omniógrafo ou omniographo ("abrasileiramento" do cinematógrafo).

Os primeiros filmes brasileiros foram rodados entre 1897-1898. Hoje em dia, os pesquisadores consideram que os primeiros filmes realizados no Brasil são: "Ancoradouro de Pescadores na Baía de Guanabara" Ancoradouro de Pescadores na Baía de Guanabara Filmografia Brasileira - Cinemateca Brasileira - Ministério da CulturaO relato de uma descoberta histórica Portal ClicRBS (de José Roberto da Cunha Salles), "Chegada do Trem em Petrópolis",Chegada do Trem em Petrópolis Filmografia Brasileira - Cinemateca Brasileira - Ministério da Cultura "Bailado de Crianças no Colégio, no Andaraí"Bailado de Crianças no Colégio, no Andaraí Filmografia Brasileira - Cinemateca Brasileira - Ministério da Cultura, "Uma Artista Trabalhando no Trapézio do Politeama" Cinema, Tradição e Pioneirismo Instituto Histórico de PetrópolisUma Artista Trabalhando no Trapézio Filmografia Brasileira - Cinemateca Brasileira - Ministério da Cultura e "Ponto Terminal da Linha de Bondes de Botafogo, Vendo-se os Passageiros Subir e Descer, todos datados de 1897.

O filme "Vista da Baía de Guanabara" foi filmado pelo cinegrafista italiano Alfonso Segreto Cinema - topicos - O Estado de S. Paulo - Acervo Estadão (irmão de Paschoal) em 19 de junho de 1898, ao chegar da Europa a bordo do navio Brèsil - mas este filme nunca chegou a ser exibido. Ainda assim, desde os anos 1970, 19 de junho é considerado o Dia do Cinema Brasileiro.

Estruturação do mercado exibidor (1907–1910) A estruturação do mercado exibidor de cinema no país acontece entre 1907 e 1910, quando o fornecimento de energia elétrica no Rio e São Paulo passa a ser mais confiável (inauguração da Usina de Ribeirão das Lajes). Em 1908 já havia 20 salas de cinema no Rio, boa parte delas com suas próprias equipes de filmagem. Exibiam filmes de ficção das companhias Pathé e Gaumont (França), Nordisk (Dinamarca), Cines (Itália), Bioskop (Alemanha), Edison, Vitagraph e Biograph (EUA), complementados por "naturais" (documentários) realizados na cidade poucos dias antes (como "A chegada do Dr Campos Sales de Buenos Aires", "A parada de 15 de novembro" ou "Fluminense x Botafogo").

Primeiros filmes "posados" e "cantados" (1906–1911) Os primeiros filmes "posados" (isto é, de ficção) feitos no Brasil eram em geral realizados por pequenos proprietários de salas de cinema do Rio e São Paulo, sendo frequentemente reconstituições de crimes já explorados pela imprensa: o média Os Estranguladores, de Francisco Marzullo (1906), o primeiro sucesso, com mais de 800 exibições no Rio; O Crime da Mala, de Francisco Serrador (São Paulo, 1908) e Noivado de Sangue, de Antonnio Leal (Rio, 1909). Mas há também comédias, como o curta Nhô Anastácio Chegou de Viagem, de Julio Ferrez (1908).

Em 1909 surgem os filmes "cantados", com os atores dublando-se ao vivo, por trás da tela. O sucesso do sistema resulta na filmagem de revistas musicais, como Paz e amor, de 1910, com sátira ao presidente Nilo Peçanha, e trechos de óperas, como O Guarany, de 1911. Há forte concorrência entre as produções do Cinematógrafo Rio Branco (de Alberto Moreira) e da Rede Serrador, que se instala no Rio e produz o drama histórico A República Portuguesa (1911), outro sucesso. Hoje não existem sequer fragmentos desses filmes.

Adaptações literárias (1911–1926) thumb|direita|Revista A Cena Muda Nº 1, de março de 1921 trazendo Bebe Daniels na capa. Primeira revista brasileira especializada em cinema, e a que teve maior duração, publicada até 1955. A partir de 1911, chegam a São Paulo imigrantes italianos que acabariam tomando conta do mercado nos próximos 30 anos: Gilberto Rossi, João Stamato, Arturo Carrari. O ator italiano Vittorio Capellaro associa-se ao cinegrafista Antônio Campos e juntos filmam os longas Inocência (1915), a partir do romance de Taunay, e O Guarani (1916), baseado em José de Alencar. No Rio, Luiz de Barros, que viria a realizar mais de 60 longas-metragens até os anos 70, também começa por José de Alencar: A Viuvinha (1916), Iracema (1918) e Ubirajara (1919). Mais tarde, uma nova versão de O Guarani (1926), de Capellaro, será exceção na década: um filme brasileiro de sucesso.

Cavação (1916–1935) A partir de 1916, os "naturais" se organizam em cinejornais, produzidos e exibidos semanalmente, mantendo o pessoal de cinema em atividade com filmagens de futebol, carnaval, festas, estradas, inaugurações, fábricas, políticos, empresários, etc. Muitas pautas eram claramente encomendadas, misturando jornalismo e propaganda. Daí o termo pejorativo "cavação", ou picaretagem.

Até 1935, existiram 51 cinejornais no país, alguns de vida curta; mas o Rossi Atualidades teve 227 edições em 10 anos (1921-31), financiando a produção dos filmes de ficção dirigidos por José Medina e fotografados por Gilberto Rossi, como Exemplo regenerador (1919), Perversidade (1920) e a obra-prima do cinema mudo brasileiro Fragmentos da Vida (1929). O Canal 100 e os cine-jornais de Primo Carbonari e Jean Manzon são um prolongamento do período da cavação, sendo mostrados nos cinemas até o final dos anos 70, quando desistem de competir com a instantaneidade dos telejornais.

Invasão: (1915–1930) thumb|387x387px|Estúdios Kaiser de Cinema, em Ribeirão Preto. Já em 1911, empresários norte-americanos visitaram o Rio de Janeiro para sondar o mercado cinematográfico brasileiro, e logo abriram o Cinema Avenida para exibir exclusivamente filmes da Vitagraph. Com a Primeira Guerra Mundial, a produção europeia se enfraquece, e os EUA passam a dominar o mercado mundial. Francisco Serrador cria a primeira grande rede de exibição nacional (salas em São Paulo, Rio de Janeiro, Niterói, Belo Horizonte e Juiz de Fora), desiste de produzir e torna-se distribuidor de filmes estrangeiros.

Os filmes brasileiros passam a ter dificuldades de exibição, o que leva a uma queda de produção violenta. Surgem as revistas especializadas em cinema e começam a difundir-se os mitos e estrelas de Hollywood. A partir dos anos 1930, diversos acordos comerciais estabelecem que os filmes norte-americanos passam a entrar no Brasil isentos de taxas alfandegárias.

Ciclos regionais (1914–1929) Fora do eixo Rio-São Paulo, o cinema brasileiro produziu uma série de ciclos de pequena duração, todos com histórias parecidas: entusiasmo inicial, realizações precárias, algum sucesso local, dificuldades num mercado dominado pelo produto estrangeiro, final prematuro.

Em Pelotas, Francisco Santos realiza O Crime dos banhados (1914), provavelmente o primeiro longa brasileiro, e ainda o curta Os Óculos do Vovô (1913), do qual resta hoje o fragmento mais antigo de filme brasileiro de ficção.

O ciclo mais importante é o de Recife (1923-31), onde Edson Chagas, Gentil Roiz e outros realizam 12 longas e 25 curtas, inclusive Aitaré da Praia (1925), que chegou a ser exibido no Rio.

Em Porto Alegre (1925-33), Eduardo Abelin, José Picoral e outros realizam 6 filmes de ficção (3 curtas e 3 longas).

Do ciclo de Cataguases (Minas Gerais) destaca-se Humberto Mauro, autor de longas como Brasa Dormida (1928) e Sangue Mineiro (1929), que o colocam na vanguarda do cinema brasileiro de então.

Neste período, registram-se ciclos regionais também em Belo Horizonte, Campinas, João Pessoa, Manaus e Curitiba.

Surgimento do som (1929–1935) thumb|219x219px|direita|Cena de Acabaram-se os otários, de 1929. O primeiro filme sonoro brasileiro é a comédia Acabaram-se os otários (1929), de Luiz de Barros. Coisas nossas (1931), de Wallace Downey, é um musical cantado em português, com cantores brasileiros, e de grande sucesso. Na contramão, Mário Peixoto realiza Limite (1930), filme mudo de pouca aceitação popular, mas hoje considerado um marco da história do cinema brasileiro.

No começo dos anos 30, o cinema brasileiro passa por uma rápida fase otimista, já que os "talkies" (filmes falados) de Hollywood têm dificuldades de entrar no mercado brasileiro, por deficiência das salas e pelo problema da língua. Em 1930-1931 são produzidos quase 30 longas de ficção, mas, em função dos custos, a produção volta a se concentrar no Rio e em São Paulo. Surgem no Rio as produtoras Cinédia, de Adhemar Gonzaga, e Brasil Vita Filmes, de Carmen Santos. Humberto Mauro, já o maior diretor de cinema do país, realiza para a Cinédia sua obra-prima Ganga bruta (1933) e para a Brasil Vita Filmes o sucesso Favela dos meus amores (1935).

Domínio de Hollywood (1934–1942) thumb|309x309px|As irmãs Carmen Miranda e Aurora Miranda em cena do filme Alô, Alô, Carnaval. As distribuidoras de filmes norte-americanos no Brasil investem muito dinheiro em publicidade e na aparelhagem de som dos cinemas, e passam a vender seus filmes no sistema de "lote". Ao contrário do que se esperava, o público brasileiro rapidamente se acostuma a ler legendas. A revista Cinearte diz incentivar o cinema brasileiro, mas defende explicitamente a imitação dos filmes norte-americanos, sua "higiene", seu "ritmo moderno" e seu respeito pelos que têm "o direito de mandar".

Em 1932 Getúlio Vargas cria a primeira lei de apoio ao cinema brasileiro, mas obrigando apenas a exibição de cinejornais.AUTRAN, Arthur: "O pensamento industrial cinematográfico brasileiro", Hucitec Editora, São Paulo, 2013, p. 75 No ano de 1934, não é produzido nenhum longa no país. Edgar Roquette-Pinto cria então o Instituto Nacional de Cinema Educativo e chama o diretor Humberto Mauro que, em 1936, produz o filme épico O Descobrimento do Brasil. De 1936 a 1964 o diretor realizaria mais de 300 documentários curta-metragem.