Asser (também João Asser, Asserius Menevensis; morto em 908/909) foi um monge galês de St Davids, Dyfed, que se tornou Bispo de Sherborne na década de 890. Por volta de 885, foi convidado por Alfredo, o Grande para deixar St Davids e juntar-se ao círculo de homens instruídos que Alfredo estava recrutando para sua corte. Depois de passar um ano em Caerwent por motivo de doença, Asser aceitou o convite.
Em 893 Asser escreveu uma biografia de Alfredo, chamada A vida do rei Alfredo. O manuscrito sobreviveu aos tempos modernos em um só exemplar, que fazia parte da biblioteca Cotton. Essa cópia foi destruída em um incêndio em 1731, mas as transcrições que foram feitas anteriormente, junto com o material do trabalho de Asser que foi incluído por outros antigos escritores, permitiram que o trabalho fosse reconstruído. A biografia é a principal fonte de informações sobre a vida de Alfredo e fornece muito mais informações sobre Alfredo do que se sabe sobre qualquer um dos primeiros governantes ingleses. Asser auxiliou Alfredo em sua tradução da Regra Pastoral do Papa Gregório I, e possivelmente em outros trabalhos.
Asser às vezes é citado como fonte para a lenda de Alfredo ter fundado a Universidade de Oxford, o que é agora conhecido ser falsa. A curta passagem fazendo esta reivindicação foi interpolada por William Camden em sua edição de 1603 da Vida de Asser. Dúvidas também têm sido levantadas de tempos em tempos sobre se toda a Vida é uma falsificação, escrita por um autor um pouco mais tarde, mas é agora quase universalmente aceita como genuína.
Nome e juventude Asser (conhecido também como João Asser ou Asserius Menevensis)A'Becket, John Joseph (1913). "John Asser". Enciclopédia Católica. Nova York: Robert Appleton Company. foi um monge galês que viveu no final do século IX. Quase nada se sabe do início da vida de Asser. O nome Asser é provável que tenha sido tirado de Aser, o oitavo filho de Jacó no Gênesis. Nomes do Antigo Testamento eram comuns no País de Gales, naqueles tempos, mas foi sugerido que este nome talvez possa ter sido adotado no momento em que Asser entrou para a Igreja. Asser podia estar familiarizado com a obra de São Jerônimo sobre o significado dos nomes hebreus ("Asser" significando "abençoado"), por isso é possível que o nome de nascimento de Asser tenha sido "Gwyn" (ou "Guinn"), correspondente em galês para "bem-aventurado" (ou "bem-aventurança").
De acordo com sua Vida do rei Alfredo, Asser era um monge em St Davids no que era então o reino de Dyfed, no sudoeste do País de Gales. Ele também deixa claro que foi criado na região, e foi tonsurado, treinado e ordenado lá. Menciona também Nobis, bispo de St Davids, que morreu cerca de 873 ou 874, como sendo seu parente.Simon Keynes e Michael Lapidge, Alfred the Great, pp. 48–58, 93–96.
Recrutamento por Alfredo e período na corte Muito do que se sabe sobre Asser vem de sua biografia de Alfredo, em particular, uma pequena seção na qual Asser conta como Alfredo o recrutou para ser um estudioso em sua corte. Alfredo dava muita importância ao valor da aprendizagem e recrutou homens de toda a Grã-Bretanha e da Europa continental para fundar um centro acadêmico em sua corte. Não se sabe como Alfredo ouviu falar de Asser, mas certamente está relacionado à soberania de Alfredo sobre o sul do País de Gales. Vários reis, incluindo Hywel ap Rhys de Glywysing e Hyfaidd de Dyfed (onde o mosteiro de Asser se localizava), eram subordinados a Alfredo em 885. Asser dá um relato bastante detalhado desses fatos. Há uma carta de Hywel datada de aproximadamente 885 afirmando essa submissão; entre as testemunhas está um "Asser", que pode ser a mesma pessoa do monge galês. Por isso, é possível que a relação de Alfredo com os reis do sul do País de Gales tenha levado o nome de Asser até Alfredo.
Asser relata que encontrou Alfredo pela primeira vez na propriedade real de Dean, Sussex (atual East Dean e West Dean, West Sussex).John McNeil Dodgson. Place-Names in Sussex em Brandons. South Saxons. Ch. IV. p. 71 Asser fornece apenas um evento datável em sua história: a Festa de São Martinho, em 11 de novembro de 887, quando Alfredo decidiu aprender a ler latim. Já algum tempo trabalhando para Alfredo, parece mais provável que Asser tenha sido então recrutado no início de 885.
A resposta de Asser para o pedido de Alfredo foi a de pedir algum tempo para considerar a oferta, pois sentia que seria injusto abandonar seu cargo atual em favor do reconhecimento mundano. Alfredo concordou, mas também sugeriu que ele deveria passar metade do seu tempo em St Davids e metade com Alfredo. Asser novamente pediu tempo para pensar, mas finalmente decidiu retornar a Alfredo com uma resposta em seis meses. Em seu retorno ao País de Gales, no entanto, Asser adoeceu em decorrência de uma febre e ficou confinado ao mosteiro de Caerwent por doze meses e uma semana. Alfredo lhe escreveu para saber da causa do atraso, e Asser respondeu que iria manter a sua promessa quando estivesse totalmente recuperado. Em 886, já restabelecido da doença, Asser concordou em dividir o seu tempo entre o País de Gales e a corte de Alfredo, como Alfredo havia sugerido. Os companheiros em St Davids apoiaram sua decisão, pois consideravam que a influência de Asser para com Alfredo evitaria "aflições prejudiciais e lesões nas mãos do rei Hyfaidd (que frequentemente atacava o mosteiro e a jurisdição de St Davids)". Asser conta a história de seu recrutamento, no capítulo 79 de sua Vida do rei Alfredo (Keynes & Lapidge, Alfred the Great, pp. 93–94).
Asser se juntou a vários outros estudiosos notáveis na corte de Alfredo, incluindo Grimbaldo e João, o Antigo saxão; todos os três, provavelmente, chegaram à corte de Alfredo com a diferença de um ano de um para outro.Keynes and Lapidge, Alfred the Great, pp. 26–27. A sua primeira permanência prolongada com Alfredo foi na propriedade real em Leonaford, provavelmente de abril a dezembro de 886. Não se sabe qual a real localização de Leonaford; presume-se que seja Landford, em Wiltshire. Asser registra que leu em voz alta para o rei os livros que estavam disponíveis. Na véspera do Natal de 886, após ter negado a Asser por diversas vezes permissão para retornar ao País de Gales, Alfredo doou-lhe os mosteiros de Congresbury e Banwell, juntamente com um manto de seda e uma quantidade de incenso "tão pesado quanto um homem corpulento". Ele permitiu que Asser visitasse suas novas propriedades e dali retornasse para St Davids. A história da primeira visita de Asser à corte de Alfredo é retirada do capítulo 81 da sua Vida (Keynes & Lapidge, Alfred the Great, p. 96).
Posteriormente Asser parece ter dividido o seu tempo entre o País de Gales e a corte de Alfredo. Asser não dá qualquer informação sobre seu tempo passado no País de Gales, mas menciona vários lugares que visitou na Inglaterra, incluindo o campo de batalha em Ashdown, Countisbury (que ele chama de Cynuit) e Athelney. Fica evidente, a partir dos relatos de Asser, que ele passou boa parte do tempo com Alfredo: ele narra o encontro com a sogra de Alfredo, Eadburh (que não é a mesma Eadburh que morreu na pobreza em Pavia), em muitas ocasiões; e diz ter visto frequentemente Alfredo praticando caça.
Bispo de Sherborne Em algum momento entre 887 e 892, Alfredo doou a Asser o mosteiro de Exeter. Asser posteriormente se tornou bispo de Sherborne,Fryde, et al. Handbook of British Chronology, p. 22 apesar do ano da sucessão ser desconhecido. O antecessor de Asser como bispo de Sherborne, Vulfsige, é conhecido por ter atestado um documento em algum momento entre 890 e 896. O primeiro registro de Asser nesse cargo foi em 900, quando surge como testemunha de uma carta de concessão; portanto, a sucessão só pode ser datada entre os anos 890 e 900. Em todo caso, Asser já tinha sido um bispo antes da sua nomeação para a sé de Sherborne, uma vez que se sabe que Wulfsige recebeu uma cópia da Regra Pastoral traduzida por Alfredo na qual Asser é descrito como um bispo.
É possível que Asser tenha sido um bispo sufragâneo dentro da sé de Sherborne, mas em vez disso pode ter sido um bispo de St Davids. Ele está listado como tal no Itinerarium Cambriae de Giraldus Cambrensis, embora este tenha sido escrito três séculos mais tarde, em 1191 e, portanto, pode não ser confiável. Uma pista contemporânea é encontrada nos próprios escritos de Asser: ele menciona que os bispos de St Davids às vezes eram expulsos pelo rei Hyfaidd e acrescenta que "ele até me expulsou algumas vezes". Isso pode indicar que Asser foi um bispo de St Davids.
A vida do Rei Alfredo Em 893 Asser escreveu uma biografia de Alfredo intitulada A Vida do Rei Alfredo; no original em latim, o título é Vita Ælfredi regis Angul Saxonum. A data é conhecida a partir de menção da idade do rei no texto de Asser. O trabalho, que conta com menos de vinte mil palavras, é uma das mais importantes fontes de informação sobre Alfredo, o Grande.
Asser se baseou em uma variedade de textos para escrever sua Vida. O estilo é semelhante ao de duas biografias de Luís I, o Piedoso: Vita Hludovici Imperatoris, escrita 840 por um autor desconhecido geralmente chamado de "o Astrônomo", e Vita Hludowici Imperatoris por Thegan de Trier. É possível que Asser tenha conhecido essas obras. Ele também já havia lido a Historia ecclesiastica gentis Anglorum de Beda; a Historia Brittonum, uma fonte galesa; a Vida de Alcuíno; e a Crônica Anglo-Saxônica. Fica também claro no texto que Asser estava familiarizado com a Eneida de Virgílio, com o poema "Carmen Paschale" de Célio Sedúlio, De Virginitate de Adelmo, e Vita Caroli Magni ("A vida de Carlos Magno") de Eginhardo. Ele cita a Regra Pastoral de Gregório Magno, um trabalho que ele e Alfredo posteriormente colaboraram na tradução, e o Enchiridion de Agostinho de Hipona. Cerca da metade da Vida é pouco mais que uma tradução de parte da Crônica Anglo-Saxônica para os anos 851-887, embora Asser acrescente opiniões pessoais e interpole informações sobre a vida de Alfredo. Asser também adiciona material relativo aos anos posteriores a 887 e opiniões gerais sobre o caráter e o reinado de Alfredo.Abels, Alfred the Great, pp. 13–14.
O estilo prosa de Asser tem sido criticado por possuir sintaxe fraca, pretensões estilísticas, e exposição ilegível. Seu uso frequente de palavras arcaicas e incomuns dá a sua prosa um sabor barroco que é comum em autores latinos insulares do período. Utiliza várias palavras que são peculiares de fontes franco-latinas. Isso levou a especulações de que foi educado, pelo menos em parte, na Frância, mas também é possível que tenha adquirido esse vocabulário de estudiosos francos a ele associados na corte, como Grimbald.
A Vida termina abruptamente, sem considerações finais e é considerado que o manuscrito foi provavelmente um projeto incompleto. Asser viveu mais quinze ou dezesseis anos e Alfredo mais seis, mas nenhum eventos após 893 foi registrado.
É possível que a obra tenha sido escrita com a intenção de atingir principalmente o público galês. Asser se esforçou para explicar a geografia local, uma vez que considerava os leitores não familiarizados com as áreas que ele descreveu. Mais especificamente, em vários pontos ele dá um nome inglês e segue com o equivalente em galês, mesmo no caso de Nottingham, o que parece improvável de ter tido um nome galês nativo. Em consequência, e dado que a soberania de Alfredo sobre o sul do País de Gales era recente, pode ser que Asser buscou com seu trabalho familiarizar o leitor galês com as qualidades pessoais de Alfredo e reconciliá-los com seu governante. Porém, é também possível que a inclusão de nomes de lugares galeses por Asser simplesmente reflita um interesse na etimologia ou na existência de um público galês na corte do rei, em vez de no País de Gales. Há também seções, como o apoio ao programa de fortificação de Alfredo que dão a impressão de estarem no livro destinadas ao público inglês.Campbell, The Anglo-Saxon State, p. 142.