Consuelo Nasser (Caiapônia, em Goiás, 28 de dezembro de 1938 — Goiânia, em Goiás, 20 de agosto de 2002) foi jornalista, advogada e feminista brasileira, fundadora do Centro de Valorização da Mulher (Cevam) e no início da década de 1980, comandou o maior semanário da imprensa goiana, o Cinco de Março (1959-1979), também dirigiu financeiramente os jornais Diário da Manhã (1982-1984) e Folha de Goyaz (1984), além de fundar e comandar, editorial e administrativamente, o jornal Edição Extra (1984-1985), e a Revista Presença (1986-1991).

Trajetória Família Consuelo Nasser é a mais nova das únicas duas filhas de Gabriel Nasser (1892-1944), um libanês da aldeia de Racur que se tornara advogado e fazendeiro em tempo integral no Brasil, e Oswalda dos Santos Nasser (1914-2000), uma jovem abastada, de família de fazendeiros em Caipônia e políticos. Nasceu na fazenda dos pais, a Campo Formoso, entre Caiapônia e Bom Jardim. Com cinco anos e na companhia da irmã Maria Stella (1936-hoje), Consuelo Nasser é levada para Uberlândia (MG), para morar com a irmã mais velha do seu pai, Anna, também nascida no Líbano. A transferência de lar das meninas, em 1943, se deu em virtude da doença do pai, que obrigou a família a levá-lo para o Rio de Janeiro, onde existiam recursos médicos mais avançados. Na capital federal, Gabriel Nasser foi diagnosticado com câncer na garganta. Em solo mineiro e apoiadas pelo primo Jarmund Nasser, as meninas receberam duas notícias no curso do ano de 1944, que provocariam novas mudanças em suas realidades: a morte do pai e o novo casamento da mãe. Desse último episódio, Consuelo e Maria Stella Nasser ganharam três outros irmãos: Eduardo, Paulo e Sônia Regina Santos Penteado. A última se tornou próxima de Consuelo Nasser, principalmente depois de se casar com o sócio e amigo de Batista Custódio, Telmo de Faria, e se tornar jornalista, acompanhando a irmã Consuelo Nasser. Os três últimos anos de vida de Consuelo Nasser foram marcados por profunda dor, em decorrência do suicídio do filho Fábio Nasser, em 17 de janeiro de 1999. A dor foi tão opressora que ela própria buscou a morte, ingerindo a todos os barbitúricos existentes em sua casa e perdendo o sepultamento do filho. No dia 20 de agosto de 2002, ela tomou todos os cuidados para que a situação não fosse revertida. Com um tiro, ela colocou fim a sua vida. Consuelo Nasser estava com 63 anos de idade.

Educação Durante os dois anos em que permaneceu na residência dos tios Elias Jorge-Anna Nasser, Consuelo Nasser e a irmã Maria Stella estudaram no Colégio Nossa Senhora das Lágrimas, uma escola de cunho confessional, fundada em Uberlândia em 1932, administrada pela Congregação das irmãs missionárias de Jesus Crucificado e constituído, exclusivamente, para a educação feminina. Em 1945, as duas novamente mudariam de endereço. A tia Maria, que residia no Rio de Janeiro e resgatando uma promessa feita ao irmão moribundo de que cuidaria das sobrinhas, busca as duas irmãs e as interna em outro colégio confessional para moças, o São Marcelo, no Bairro da Gávea. Consuelo Nasser tinha, então, sete anos de idade, enquanto a sua irmã Maria Stella, nove. Elas permaneceriam no internato até dezembro de 1945, quando regressariam a Goiás, para morar em Goiânia, com o senador Alfredo Nasser, o tio que Consuelo Nasser considerava o seu pai de criação. Ela, a irmã Maria Stella, a tia Maria e o tio Alfredo se instalaram em uma pequena casa, situada à rua 71, no antigo Bairro Popular. Enquanto o tio se dividia entre o Jornal do Povo (fundado por ele em 1946) e o Senado Federal (RJ), Consuelo Nasser e a irmã foram matriculadas no Colégio Estadual Lyceu de Goyaz, onde completaram os estudos regulares, em 1956. No final daquele ano, Consuelo Nasser retornou ao Rio de Janeiro, para prestar vestibular à Faculdade Nacional de Direito (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro), no Campus da Praia Vermelha, no Bairro da Urca. Consuelo Nasser é aprovada, aos 17 anos de idade, em sétimo lugar, depois de concorrer com mais de quatro mil candidatos. Em seguida, após avisar a família que não apenas passara no vestibular, como, também, tinha conseguido uma vaga no pensionato confessional para moças, Consuelo Nasser decide permanecer em solo federal até a formatura. A programação somente foi alterada depois ser informada do casamento da irmã Maria Stella, em 1957, com Jamil Issy Quinan (1923-2010). Na faculdade foi aluna de um dos criadores da Política Externa Independente da Era Jânio Quadros (1961), o advogado San Tiago Dantas. Em 1960, Consuelo Nasser se forma, em terceiro lugar, em uma classe eminentemente masculina.

Irreverência Excessivamente aplicada aos estudos, ela apenas se permitia afrouxar a rígida disciplina acadêmica, ou para participar das reuniões da União Estadual dos Estudantes (UEE), ou para conversar e passear com o tio Alfredo Nasser quando este se encontrava na capital fluminense, para os trabalhos legislativos, ou para comprar um livro. Aliás, um dos autores prediletos de Consuelo Nasser era o romancista russo Fiódor Dostoiévski, principalmente pelas retratações literárias sobre a autodestruição humana, o suicídio e outros estados patológicos. Mas, o final de 1950 para Consuelo Nasser ficou marcado por sua dedicação, quase obsessiva, pelas obras de outro russo, Vladimir Mayakovsky. As ideias revolucionárias defendidas pelo autor a encantaram profundamente. Mas a marca determinante em sua personalidade ficou a cargo dos escritos e ações da ícone feminista, escritora e filósofa Simone de Beauvoir. Consuelo Nasser tomou como verdade a assertiva beauvoirina de que ninguém nasce mulher, mas torna-se. Para se manter nos estudos, trabalhava em entidades particulares, dentre elas a União Brasileira de Escritores, seção Rio (UBE/RJ), onde conviveu com nomes ilustres das letras nacionais como Peregrino Júnior, Eneida, Jorge Amado, Homero Homem, Carlos Drummond de Andrade e outros. Sem contar que durante os estudos, Consuelo Nasser se consolidou como atuante líder estudantil. Na realidade, Consuelo Nasser sempre se considerou uma inconformada, uma pessoa que não perdia a indignação juvenil com relação à miséria e a violência. Sempre movida pela paixão, ela amava e odiava apaixonadamente.

Batista Custódio Diplomada, Consuelo Nasser permanece, ainda, mais dois anos na capital fluminense, para desembarcar, definitivamente, em Goiânia no final do ano de 1962. Ela estava às vésperas de completar 24 anos de idade. Antes, porém, nos dois últimos anos da década de 1950, Consuelo Nasser evidenciava ares de independente e muito questionadora. Durante as reuniões políticas, que ocorriam na sala de estar da casa do seu tio Alfredo Nasser, ela se destacava, entre a plateia predominantemente masculina. Um dos participantes aos colóquios não deixou de notá-la, passando a cortejá-la no final de 1959. Era Batista Custódio, primo em segundo grau de Oswalda Santos, mãe de Consuelo Nasser. Não demorou muito e os dois, em 1962, decidiram morar juntos. Batista Custódio era desquitado e não existia o instituto do divórcio no Brasil. Para os padrões da época, o episódio foi um escândalo. O casamento, com pompas e circunstância, aconteceria 19 anos mais tarde, durante uma noite de sábado (12 de setembro de 1981), na Paróquia São Nicolau, vinculada à Igreja Católica Apostólica Ortodoxa Antioquina. Consuelo Nasser foi mãe de nove filhos (Júlio Nasser (Atual presidente do Diário da Manhã), Fábio, Tanila Romana, Luciana, Mônica, Jorge, Sérgio, Camila e Vanessa). Tanila morreu aos quatro meses de vida (1966) e Fábio aos 32 anos (1999). Depois de 23 anos de vida comum, Consuelo Nasser e Batista Custódio se separam, em 1985. Ela costumava justificar o fato como uma maneira encontrada pelos dois para não se agredirem.

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