A Guerra na Donbass (ou Donbas), também referida como Guerra no leste da Ucrânia ou Rebelião pró-russa na Ucrânia, e oficialmente pelo governo ucraniano como a Operação Anti-Terrorista (ATO) foi um conflito armado na região da Bacia do Donets (abreviadamente, Donbas ou Donbass), na Ucrânia. Desde o início de março de 2014 até fevereiro de 2022, manifestações de grupos pró-russos e antigoverno ocorreram nos oblasts de Donetsk e Luhansk, que integram a região da Bacia do Rio Donets, na sequência da Revolução Ucraniana de 2014 e do movimento Euromaidan. Esse conflito armado ocorreu em parte do território ucraniano que foi objeto de diversos protestos pró-russos em todo sul e leste da Ucrânia. Trata-se de um conflito armado opondo as forças separatistas das autodeclaradas Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk contra o governo ucraniano. Os separatistas são amplamente liderados por cidadãos russos. Os paramilitares voluntários russos são relatados por compor entre 10% Девяносто процентов ополченцев являются местными жителями - комендант ГорловкиИгорь Стрелков: в народное ополчение входят исключительно добровольцы e mais de 50% dos combatentes.РОССИЙСКИЙ НАЕМНИК: "ПОЛОВИНА ОПОЛЧЕНЦЕВ - ИЗ РОССИИ. МНЕ ПОМОГАЮТ СПОНСОРЫ. МЫ ВОЗЬМЕМ ЛЬВОВ"
Após o colapso da União Soviética em 1991, a Ucrânia se firmou como uma nação independente. Contudo, no leste, especialmente nos oblasts de Donetsk e Luhansk (na região de Donbas), as minorias russas começaram a reivindicar mais autonomia política, algo que o governo central em Kiev resistia. No final da década de 2000, o governo ucraniano passou a buscar uma maior aproximação com a Europa Ocidental, algo que a Rússia via com maus olhos. Em 2013, em meio a uma crise econômica, o presidente Víktor Yanukóvytch rejeitou um acordo com a União Europeia e iniciou uma reaproximação com o governo russo. A população ucraniana, principalmente aquelas concentradas nas grandes cidades do oeste, iniciaram enormes protestos (conhecidos como Euromaidan) e forçaram o presidente Yanukóvytch a renunciar em fevereiro de 2014. Aproveitando-se do caos político que se seguiu na Ucrânia, a Rússia anexou, em março, a região da Crimeia. No mês seguinte, protestos pró-Rússia se intensificaram na região de Donbass, no leste, exigindo autonomia política. O governo ucraniano afirmou que essas manifestações eram orquestradas por Moscou para desestabilizar o país. Em abril de 2014, a revolução no leste da Ucrânia virou uma revolta armada, com militantes pró-Rússia pleiteando ser uma nação independente, fundando as repúblicas autônomas de Donetsk e de Luhansk, que receberam apoio militar e econômico da Rússia.
Como resposta a insurreição no leste, o governo ucraniano iniciou a chamada "Operação Anti-terrorista", lançando uma série de ofensivas e reavendo várias cidades e regiões ocupadas pelos separatistas. Em agosto de 2014, as forças rebeldes já haviam sido empurradas para o território próximo a fronteira. Frente a esses reveses, a Rússia optou por modificar sua estratégia de guerra híbrida e apostou em táticas mais convencionias, com reforços cruzando a fronteira com suprimentos e armas, sendo que em alguns casos, o exército russo chegou a combater os ucranianos diretamente. Em 22 de agosto, o governo ucraniano definiu a situação naquele momento como "uma invasão russa", gerando protestos do Ocidente. A Rússia assumiu uma posição ambígua, negando a presença de seus militares em solo ucraniano, mas reconhecendo a presença de "especialistas" e utilizando outros eufemismos, ao mesmo tempo que confirmava que protegeria a população de origem russa no leste da Ucrânia. Em fevereiro de 2015, seguindo protocolos de paz e outras negociações, ambos os lados firmaram um acordo chamado de Minsk II. Após uma grande batalha em Debaltseve, a guerra diminuiu de intensidade, os dois lados começaram a construir extensas redes de trincheiras, casamatas e túneis na linha de frente, se transformando em uma guerra de trincheiras, com poucos ataques direitos mas esporádicos tiroteios e bombardeios. A guerra passou a ser caracterizada como um "conflito congelado", embora combates continuassem, de forma esporádica, matando soldados e civis. Entre 2015 e 2020, houve mais de vinte e nove acordos de cessar-fogo, com a maioria sendo violados por ambos os lados.
Em outubro de 2019, a OSCE, a liderança separatistas e o governo ucraniano concordaram em um "mapa para paz", porém ao final de 2020 a situação voltou a um impasse, com ambos os lados acusando um ao outro de violar acordos de cessar-fogo. Ao final de 2021, o governo russo começou a mover uma enorme quantidade de tropas e equipamentos para a fronteira Rússia-Ucrânia. O presidente russo Vladimir Putin afirmou que via com maus olhos a reaproximação da Ucrânia com o Ocidente e rechaçava a ideia do país vizinho de ingressar na OTAN. Putin via o território ucraniano, assim como outros países da Europa oriental, como parte central da zona de influência russa, afirmando que a presença militar da OTAN no leste da Europa colocava a Rússia em perigo. Em fevereiro de 2022, o governo russo reconheceu formalmente a independência das zonas separatistas das auto-proclamadas repúblicas populares de Lugansk e Donetsk. Tropas russas então cruzaram a fronteira, levando a uma enorme crise diplomática internacional e reatiçando os combates no leste.
Antecedentes
A Bacia do Donets (; ; também chamada de Donbass) é composto pelos oblasts de Donetsk e Lugansk, com uma população pré-guerra de aproximadamente 4,5 milhões. Segundo um censo de 2001, sua composição étnica era de aproximadamente 57% dessa população de origem ucraniana, 38% eram etnicamente russos e outros 4,3% eram de outras origens. Contudo, 72% da população afirmava ter o russo como língua nativa, em contraste com 26% da população que tinha o ucraniano como língua mãe.
Até o século XVIII, a região era controlada pelo Canato da Crimeia, quando foi tomada pelo Império Russo. Os russos chamaram a região de Новоро́ссия ("Novorossiya", ou "Nova Rússia"). No século XIX, com a revolução industrial, a região se tornou importante para o império devido a sua produção de carvão. A população na região sempre foi etnicamente diversa, com um censo 1897 reportou que mais da metade dos habitantes de Donets eram ucranianos, enquanto russos eram 28%. Outras minorias incluíam gregos, alemães, judeus e tártaros.
No decorrer de boa parte do século XX, a Ucrânia se tornou uma República soviética. Durante o regime de Josef Stalin, a região passou por um processo de "russificação". Os ucranianos foram duramente afetados pelas políticas de Stalin, como o Holodomor, que matou mais de 2,5 milhões de pessoas. A russificação se expandiu, com as escolas ensinando primordialmente o russo, além da repressão cultural da Ucrânia. Russos étnicos começaram a chegar em peso no leste do país e ao fim da década de 1950, eles já eram 2,5 milhões. Já no final dos anos 80, o percentual de russos vivendo em Donets já havia chegado a 45% da população.
Com a dissolução da União Soviética em 1991, boa parte da população do leste da Ucrânia eram favoráveis a relações mais próximas com a Rússia. Já o resto do país, principalmente nas áreas mais a oeste, defendiam uma maior integração com o Ocidente. Em 1993, greves de mineiros pediam a redução do poder do governo federal e mais autonomia para a região de Donets. Apesar da maioria da população do leste favorecer a federalização, o governo em Kiev favoreceu uma política de centralização do poder e estado unitário, assim Donets não ganhou qualquer autonomia. No período de 2004-05 ocorreu a chamada Revolução Laranja, com a população do oeste da Ucrânia protestando contra primeiro-ministro Víktor Yanukóvytch. A população de Donets apoiou Yanukóvytch (que era nativo da região). Aproveitando a situação de caos político da nação, o povo de Donets começou a pedir por um referendo popular para tentar estabelecer uma República autônoma no leste ou até mesmo uma secessão completa da Ucrânia. Nenhuma das ideias foi adiante. Em 2006, contudo, Yanukóvytch voltou ao cenário político e seu partido passou a ser um dos maiores no Parlamento. Em 2010, ele foi eleito presidente em um apertado pleito. Neste mesmo ano, seu governo passou uma controversa lei de línguas, permitindo a região de Donets a adotar o russo como língua semi-oficial, usando na administração pública e até em cortes. miniaturadaimagem|esquerda|Evolução do controle territorial do Donbas de Junho até Setembro de 2014 Então, entre novembro de 2013 e fevereiro de 2014, manifestações tomaram conta da capital ucraniana de Kiev. Os protestos se espalharam e ganharam força, ficando a ser conhecidos como Euromaidan. Uma das principais queixas era a política cada vez mais amigável de Yanukóvytch com Vladimir Putin, o presidente russo. A população etnicamente ucraniana (77%, no geral), especialmente no oeste, preferia uma maior aproximação com a União Europeia. A 22 de fevereiro de 2014, Viktor Yanukovych renuncia e foge para Moscou. Um governo de transição assume e busca se distanciar da Rússia e buscar melhores relações com o Ocidente, especialmente para aliviar a crise econômica que atravessava a nação. No meio deste caos, outra região ucraniana onde a maioria da população é de origem russa, a Crimeia, pediu para se separar da Ucrânia. Protestos russofílicos começaram e uma crise se instaurou. A Rússia respondeu desembarcando tropas na região e, com apoio da classe política local, formalmente anexou a Crimeia (via referendo, embora este foi duramente questionado dentro e fora da Ucrânia)."Russian news report: Putin approved Ukraine invasion before Kiev government collapsed". Página acessada em 2 de setembro de 2015.
Tentando algo similar ao que aconteceu na Crimeia, onde o governo central em Kiev foi fraco em responder, a população de origem russa no leste do país começou a protestar em massa pedindo a secessão das regiões de Donets da Ucrânia. Manifestantes pró-Rússia tomaram prédios públicos e começaram a controlar ruas e bairros inteiros em Donetsk e Lugansk, onde os protestos foram mais intensos.
Em Donetsk, o povo de maioria russa começou a pedir por mais autonomia e por um governo regional que atendesse as necessidades do povo. Como as exigências dos manifestantes foram ignoradas, a liderança do movimento pró-Rússia se reuniu e em 7 de abril de 2014 proclamaram a criação da República Popular de Donetsk."Ukraine crisis: Protesters declare Donetsk 'republic'", BBC News (7 de abril de 2014) Vinte dias depois, foi a vez de Lugansk declarar sua independência e proclamar a República na sua região.
Perdendo o controle da situação, ainda em abril, o governo em Kiev reagiu, e ordenou que suas forças armadas lançassem operações "anti-terrorismo" no leste, visando reverter o processo de independência em Donets. Mesmo assim, a situação continuava a se deteriorar com milícias pró-Rússia fortemente armadas tomando controle de várias cidades e edifícios públicos. O governo ucraniano passou a acusar a Rússia de instigar os separatistas e até arma-los. Várias unidades do exército da Ucrânia baseadas em Donets ou se renderam ou espontaneamente mudaram de lado e passaram a apoiar os rebeldes. O leste do país caminhava então para uma guerra civil aberta.
Referendo e governo popular miniaturadaimagem|esquerda|Referendos em Donetsk e Lugansk de 2014