miniaturadaimagem|Piramidal 34, alumínio (Jardim da Luz, São Paulo) Ascânio Maria Martins Monteiro (Fão, Portugal, ) é um artista plástico cuja obra foi construída na interseção entre arquitetura e escultura. Expoente do construtivismo, é celebrado como um importante escultor brasileiro. Seus trabalhos de maior relevância e destaque são esculturas em espaços públicos, como na sede da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro e a Módulo Rio, no pátio do Edifício Argentina, na Praia de Botafogo, RJ. Atuante desde a década de 60, trabalha diariamente no seu ateliê e participa de diversas exposições no Brasil.

Esculturas em espaços públicos

Falar no nome de Ascânio MMM significa pensar em esculturas em espaços públicos. Até a década de 90, ele e Franz Weissmann foram os artistas com presença de esculturas construtivas em espaços públicos do Brasil. Em depoimento para Paulo Herkenhoff, é o próprio artista quem afirma que sua obra tornou-se mais conhecida através das oito esculturas em espaços públicos do que através de dezenas de exposições que ele participou em museus e galerias.

As obras públicas de Ascânio estão espalhadas por cidades como Rio de Janeiro, Lisboa, Fão (vila natal) e Tóquio. No Rio de Janeiro, cidade onde o artista reside, seus trabalhos já são referências na paisagem da cidade.

Módulo Rio foi instalada na Praia de Botafogo, no pátio do Edifício Argentina. Segundo o artista, foi pedido uma escultura que acompanhasse a verticalidade dos edifícios, mas ele ficou “ preocupado com a altura dos prédios. Não podia confrontá-los. Os arquitetos do prédio, quando me chamaram para apresentar o projeto, queriam que eu fizesse uma escultura com tendências para verticalidade acompanhando os prédios e as palmeiras. Consegui convencê-los a a colocar uma escultura mais horizontal que se esparramasse no chão, para evitar o confronto com a verticalidade dos prédios e e dialogar com o entorno. Falei da minha experiência com a Praça da Sé e eles concordaram. Essa escultura está montada no piso de granito comum aos pedestres. Parece que desceu do pedestal para dialogar com as pessoas que passam diariamente pelo local”.

Essa fala do artista explicita um traço marcante de sua obra: a preocupação com a relação com o espectador e a com o espaço no qual as obras são exibidas ou instaladas, evidenciando o nexo indissociável entre arte e arquitetura que acompanhou todo o seu percurso de criação.

Com essa escultura, o artista apresenta a teoria por detrás da sua obra, ao afirmar que ele sente “que há uma distância entre a obra exposta em museus – espaços fechados – e espaços abertos. A sensação que eu tenho  é que, no primeiro caso, a pessoa vai ao seu encontro, e no segundo a obra vai ao encontro da pessoa. As pessoas que circulam na cidade ganham intimidade com a obra.”

Essa relação com o social, com o outro, e com o potencial educativo da arte, que elabora nossa forma de ver o mundo, é um caráter essencial da poética de Ascânio MMM. 300px|thumb|"Integração dos Povos da América Latina", escultura de 1983.Localizada no Rio de JaneiroSua outra famosa escultura, datada de 1983, feita em alumínio, é a "Integração dos Povos da América Latina", que atualmente encontra-se instalada em frente à sede Prefeitura do Rio, um dos prédios mais importantes da cidade, em uma via por onde circulam todos os dias milhares de pessoas.

Anos de formação e início da carreira (1963-1977) O artista possui um duplo percurso de formação: a de arquiteto e a de escultor. Em 1963, ingressou na Escola Nacional de Belas Artes (ENBA) da Universidade do Brasil (atual EBA da UFRJ), tendo ficado até 1964. Em 1965, ele entra também na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da mesma universidade, onde conclui o curso em 1969.

Na ENBA, Ascânio se aproximou de uma geração de artistas que vieram a ser fundamentais para a arte brasileira. Frequentavam o círculo universitário Artur Barrio, Antonio Manuel e Raymundo Colares, para citar alguns dos nomes importantes.

Nessa época, há uma confluência e simultaneidade entre seus dois percursos. Na ENBA, ele se interessa por desenho já com o intuito de se tornar arquiteto; do lado da faculdade de arquitetura, o artista realiza uma vontade que vinha desde a infância. O artista, vindo de uma família de imigrantes, almeja uma profissão segura no novo país.

Entre 1965 e 1966, ele divide ateliê com Antonio Manuel e outros alunos da ENBA e recebe o convite de Ivan Serpa para frequentar seu ateliê aos domingos. também frequenta as casas de Raymundo Colares e de Vera Roitman. Junto com esses dois últimos e com as artistas Wanda Pimentel e Odila Ferraz formam um grupo cuja tradição é se encontrar todos os dias no final da tarde no bar do MAM, também frequentado por Mário Pedrosa e Frederico Morais.

O artista participa de salões e exposições, como o I Salão de Abril (MAM/1966), o XV Salão Nacional de Arte Moderna (MEC/1966) e a IX Bienal de São Paulo (1967), para citar alguns, mostrando obras que constrói antes mesmo de se formar, é rapidamente notado pela crítica, sobretudo por Frederico Morais e Francisco Bittencourt, e arremata diversos prêmios, como o Primeiro prêmio para pintura e primeiro prêmio para escultura no I Salão da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo UFRJ (1967), cujo júri foi composto por nomes como o de Mário Pedrosa, que era professor da FAU na altura; o Prêmio de Isenção de Júri (1968) e Prêmio de Aquisição no Salão da Bússola do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (1969), um dos  mais importantes salões da época.  

Em 1968, constrói a primeira escultura branca. Em 1969, ano de conclusão do curso de Arquitetura, ele realiza sua primeira individual, na Galeria Celina.  São dessa época seus múltiplos e suas Caixas Lúdicas de madeira, as quais o espectador pode movimentar quadrados de diferentes tamanhos, formando desenhos variados e, portanto, objetos manipuláveis que ele cria por referência ao conceito de participação do espectador, caro a uma artista como Lygia Clark, que cria seus Bichos entre os anos 1960 e 1964.

Por ocasião dessa primeira exposição, o crítico Francisco Bittencourt define o artista como “um dos nomes mais representativos da vanguarda visual brasileira”, justificando que ele “foi o escolhido para esta exposição de encerramento que tantos elogios recebeu da crítica e do público”. Já Frederico Morais, ao apresentar o artista, classifica a obra do artista como a “expressão pura entre a forma e a lei, uma obra de arte como realidade que pode ser controlada e observada".Catálogo da exposição na Galeria Celina, de 1969. (Documento pesquisado no ateliê do artista)

Em exposição na Galeria Banerj ao lado de outros artistas 20 anos depois, em 1986, a “Depoimento de uma geração (1969/1970)”  o próprio artista relembra esse período inicial dos anos de formação.  A exposição se chamava “Depoimento de uma geração (1969/1970)”, curada por Frederico Morais. Ascânio MMM participa ao lado de uma série de artistas como Antonio Manuel, Artur Barrio, Cildo Meireles, Wanda Pimentel e a proposta da coletiva era discutir o trágico período pós AI-5 no Brasil, apontando os caminhos que o grupo de artistas trilhou naquele momento político de endurecimento e ataque à cultura.

Em depoimento para a Galeria Banerj, o artista recorda como, em 1968, a situação chegava ao extremo. A geração anterior que foi a referência do artista estava fora do país e uma parte dos estudantes universitários havia sumido da universidade. Os militares fecharam a pré-Bienal de Paris no MAM, que havia escolhido a representação brasileira para a Bienal. Muitos artistas ficaram pressionados pela repressão e os que puderam saíram do país. Ascânio era diretamente envolvido na política estudantil, participou do velório de Edson Luís, estudante morto pela ditadura no Restaurante Calabouço, e pertencia ao grupo responsável pela parte gráfica do jornal do Diretório Acadêmico da FAU às vésperas do AI-5. Mesmo com esse cenário contraditório, o artista segue produzindo, participando de exposições e recebendo prêmios e ótimas resenhas.

Nos primeiros anos após conclusão do curso na FAU, o artista se mudou para Vitória-ES onde trabalhou como arquiteto em uma empresa terceirizada pela Companhia Vale do Rio Doce. Sua formação em arquitetura permitiu que ele se estruturasse 1977, quando decide o seu caminho definitivamente pela escultura e pelas artes visuais. Como recorda, foi uma decisão difícil porque ele tinha um salário mensal e fez a opção de abdicar dele, buscando outras vias para se estabelecer como artista.Fonte: Entrevista dada ao "Atelier: guia de artes plásticas", número 56, março 2002. Acervo do artista. No entanto, a relação entre o escultor e o arquiteto tem uma saudável parceria, como uma relação construtiva.Fonte: Jornal do Comércio, 4 de abril de 2005.

O desenvolvimento da carreira (1970-1979) Apesar de um curto percurso, os anos 70 marcam um período de maturidade para o artista. O pontapé inicial da década é o VII Resumo JB uma mostra coletiva promovida pelo Jornal do Brasil de ampla visibilidade, na qual 17 críticos escolheram as 15 melhores exposições individuais do ano Em 1971, é convidado por Walter Zanini para expor pela primeira vez fora do país, na 11ª Bienal de Antuérpia.

No ano seguinte, uma exposição sua em uma galeria do Rio, a Grupo B, ganha contornos históricos importantes: o catálogo tem textos de Antonio Manuel e de Lygia Pape, que, além de assinar o texto, também faz a programação visual e dirige uma série de fotografias do artista que atualmente pode ser considerada valiosa do ponto de vista cultural. A artista chamou o fotógrafo Sebastião Barbosa para fazer as fotografias e nas imagens, o artista empunha uma furadeira como se estivesse efetuando o mesmo gesto de apontar uma arma. No contexto político brasileiro, com artistas perseguidos e exilados, Lygia, ao fotografar Ascânio e tendo sido presa nos anos de chumbo, enviava uma mensagem clara: a obra do artista é a sua arma; e a arte jamais se dobraria ao autoritarismo vigente.

Ainda nessa conjuntura, entre 1975 e 1976, acontecem duas manifestações de artistas animam o cenário das artes brasileiras. Depois do boicote internacional à Bienal de São Paulo e o fechamento da Bienal da Bahia por parte da censura imposta pela ditadura, a classe artística se rebelou contra o prefácio do catálogo da XIII Bienal Internacional de São Paulo. Uma nova geração de artistas, dentre eles Ascânio MMM, Paulo Herkenhoff, Tunga, Antonio Manuel, Waltercio Caldas, Ana Maria Maiolino, Cildo Meireles, em protesto contra o novo Salão Agora I/Brasil 70/75 patrocinado pelo Jornal do Brasil e pela Light, em substituição ao Salão de Verão, a ser inaugurado no MAM, se recusou a participar.Fonte: Jornal do Brasil, 22 de fevereiro de 1976.

Em 1976, ao artista ganha sua primeira individual em uma instituição de peso, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM). Com texto do crítico Frederico Morais, os trabalhos de Ascânio MMM trazem a marca de “um construtivismo pobre e brasileiro”, tão bem notada por Morais. A expressão “construtivismo pobre” acabou sendo definitiva e foi citada por diversos críticos para se referir ao trabalho do artista posteriormente, como Francisco Bittencourt e Paulo Herkenhoff.

No texto de Morais, o crítico chama atenção para o uso da desprezada ripa de madeira, material fundamental usado pelo artista para construir suas esculturas. Esse material não-nobre evocaria um compromisso com a realidade social brasileira e a obra do artista transitaria entre a vontade construtiva e o barroco, oscilando entre o rigor da escultura e o fascínio dos movimentos de luz e sombra convocados pelo olhar. O crítico ainda o compara a Alfredo Volpi, afirmando que a têmpera está para Volpi como a ripa está para Ascânio. Vê no trabalho do artista um eco do concretismo de Volpi, um “comportamento algo proletário e artesanal”.