A partida entre Brasil e Alemanha nas semifinais da Copa do Mundo FIFA de 2014, por vezes referida como Mineiraço, foi disputada em 8 de julho de 2014 no Estádio Mineirão na cidade brasileira de Belo Horizonte, em Minas Gerais. As duas seleções chegaram às semifinais com campanhas invictas na competição e esperava-se uma partida equilibrada, já que ambas as equipes eram forças tradicionais da Copa do Mundo FIFA, dividindo oito torneios conquistados e tendo se enfrentado anteriormente na final da edição de 2002, ocasião em que o Brasil venceu. A partida, no entanto, terminou com uma vitória avassaladora de 7–1 para a Alemanha, que marcou quatro gols em um intervalo de seis minutos no primeiro tempo. O alemão Toni Kroos foi escolhido como o jogador da partida.
O jogo estabeleceu vários recordes da Copa do Mundo FIFA. Esta foi a maior margem de vitória alcançada em uma semifinal, assim como os alemães ultrapassaram o Brasil como a equipe com maior pontuação na história do torneio e se tornaram o primeiro time a chegar em oito finais. Miroslav Klose marcou seu 16.º gol durante o jogo e superou o brasileiro Ronaldo como maior artilheiro de todos os tempos. Além disso, a derrota do Brasil quebrou sua série de 62 jogos invictos em casa em partidas competitivas, que perdurava desde a Copa América de 1975, e igualou a maior goleada que havia sofrido em uma partida, ao lado de uma derrota por 6–0 para o Uruguai em 1920, sendo superada ainda a marca de maior diferença de gols sofridos em uma partida internacional.
O resultado foi descrito como uma "humilhação nacional" para o Brasil e o jogo foi posteriormente apelidado de "Mineiraço", evocando um "espírito de vergonha nacional" anterior, conhecido como "Maracanaço", no qual o país perdeu inesperadamente a Copa do Mundo de 1950 em casa, para o Uruguai. No Brasil, a expresão "7–1" (ou "7x1") tornou-se uma metáfora de uma derrota devastadora e esmagadora, sendo utilizado como motivo de chacota. Na continuação da Copa do Mundo de 2014, o Brasil perdeu por 3–0 para os Países Baixos na disputa do terceiro lugar, enquanto a Alemanha derrotou a Argentina por 1–0 na final para vencer a competição pela quarta vez. Por conta disso, eventualmente é mencionado, além do placar de 7–1, o placar 10–1, em alusão às derrotas de 7–1 para a Seleção Alemã e de 3–0 para a Seleção Holandesa.
Antecedentes thumb|direita|O capitão da seleção, Thiago Silva, foi suspenso na partida anterior. Antes desta partida, as seleções de Brasil e Alemanha haviam se enfrentado vinte e uma vezes, com doze vitórias para os brasileiros, quatro para os alemães e cinco empates. A única partida que disputaram em uma Copa do Mundo ocorreu na final da Copa do Mundo FIFA de 2002, realizada na Coreia do Sul e no Japão, onde os brasileiros foram campeões ao vencerem por 2–0, com ambos os gols marcados por Ronaldo. Naquela ocasião, a Seleção Brasileira também era dirigida por Luiz Felipe Scolari, e Miroslav Klose era um dos titulares da equipe alemã. A última partida oficial entre ambas as seleções aconteceu em 10 de agosto de 2011, em um amistoso internacional, onde a Alemanha venceu o Brasil por 3–2.
O Brasil era a seleção anfitriã da Copa do Mundo, sendo a segunda vez que organizava esta competição, tendo sido a primeira em 1950. Os brasileiros haviam conquistado cinco mundiais, enquanto os alemães venceram três. Era a quarta semifinal consecutiva jogada pela Alemanha, enquanto que o Brasil não havia chegado a esta fase desde a edição de 2002. Na ocasião em que a Copa do Mundo havia sido realizada no Brasil, a seleção chegou à fase final e perdeu a última partida do quadrangular final para o Uruguai, o que ficou conhecido como Maracanaço. Na preparação para a Copa, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) escolheu Luiz Felipe Scolari, o último treinador campeão mundial pelo Brasil.
O sorteio ditou que a primeira partida do Brasil na fase de grupos fosse diante da Croácia. O jogo começou desfavorável para o time brasileiro, com Marcelo marcando um gol contra no início da partida. No entanto, o Brasil viria a ganhar por 3–1, com dois gols de Neymar. A segunda rodada resultou num empate sem gols contra o México, enquanto que na última rodada da fase de grupos, o Brasil venceu a equipe de Camarões por 4–1. Em 28 de junho, o Brasil enfrentou o Chile pelas oitavas-de-final no Estádio Mineirão. Após um jogo equilibrado, a partida terminou empatada em 1–1, seguindo-se uma prorrogação. Após o chileno Mauricio Pinilla concluir uma finalização na trave de Júlio César no último minuto de jogo, a partida foi para a disputa por pênaltis, da qual o Brasil saiu vencedor por 3–2. Pelas quartas-de-final, o Brasil enfrentou a Colômbia, e abriu o placar logo aos sete minutos, com Thiago Silva; e aos 69 vencia por 2–0, com David Luiz tendo marcado em cobrança de falta. A Colômbia ainda diminuiu com James Rodríguez, convertendo pênalti sofrido por Bacca.
thumb|esquerda|O goleiro alemão Manuel Neuer treinando um dia antes do confronto diante do Brasil. A Alemanha estava no Grupo G na primeira fase, sendo que se classificou na primeira posição, com duas vitórias e um empate. Na primeira partida, diante de Portugal, uma expressiva vitória por 4–0, com três gols do atacante Thomas Müller fizeram a equipe despertar a atenção da imprensa mundial. Na partida seguinte, a Alemanha empatou em 2–2 com a Gana, e venceu os Estados Unidos por 1–0 no último jogo. Nas oitavas-de-final, a Alemanha viria a enfrentar a Argélia, que classificou-se de forma inédita às oitavas-de-final, ao avançar em segundo lugar no Grupo H, conseguindo a vitória na prorrogação por 2–1 com gols de Andre Schürrle e Mesut Özil. Nas quartas-de-final, eliminou a França com um gol do zagueiro Mats Hummels aos treze minutos da etapa inicial.
O zagueiro e capitão do Brasil Thiago Silva estava suspenso das semifinais devido ao acúmulo de cartões amarelos, apesar de um apelo contra a suspensão por parte da Confederação Brasileira de Futebol. O atacante Neymar também não estava disponível para a partida, após ter sofrido uma entrada do lateral colombiano Zúñiga nas quartas-de-final, acertando com o joelho direito na parte inferior das costas do atleta, ocasionando uma fratura na terceira vértebra lombar do atacante brasileiro, e o obrigando a estar ausente do restante da competição. Dante e Bernard foram escolhidos para substituírem Thiago Silva e Neymar, respectivamente, com Luiz Gustavo substituindo Paulinho no meio-campo defensivo. A Alemanha permaneceu inalterada em relação às quartas de final. O goleiro Júlio César e o capitão David Luiz prestaram homenagem a Neymar segurando sua camisa durante a cerimônia do hino nacional. Mesmo com as ausências, os analistas esperavam uma partida equilibrada, pontuando que a torcida do Brasil em casa poderia oferecer alguma vantagem.
Caminhos até a partida FaseOponenteResultadoFase de gruposOponenteResultado3–1Rodada 14–00–0Rodada 22–24–1Rodada 31–0Vencedor do Grupo AResultado finalVencedor do Grupo GOponenteResultadoFase finalOponenteResultado1–1 (3–2 pen)Oitavas-de-final2–1 (pro)2–1Quartas-de-final1–0
Partida Ambas as equipes chegaram às semifinais invictas em suas partidas anteriores da Copa. A arbitragem foi liderada pelo árbitro mexicano Marco Rodríguez, sendo a última partida de sua carreira.
Primeira etapa thumb|direita|O capitão da Seleção Brasileira para esta partida foi David Luiz (à direita, em segundo plano). Ambas as equipes iniciaram a partida atacando, com o brasileiro Marcelo finalizando aos três minutos e com o alemão Sami Khedira finalizando aos sete minutos, sendo bloqueado pelo próprio companheiro Toni Kroos. Aos onze minutos, os alemães marcaram seu primeiro gol. Após o escanteio cobrado por Kroos, Thomas Müller escapou da marcação de David Luiz na área adversária e concluiu para o gol com um chute de perna direita. Nos minutos seguintes, o Brasil tentou responder imediatamente, mas seus ataques foram sem sucesso, embora Philipp Lahm tenha precisado dar um brilhante carrinho para evitar uma chance de gol criada por Marcelo na grande área. Aos vinte e três minutos, a Alemanha marcou novamente, depois que Kroos e Müller fizeram o passe para Miroslav Klose, que marcou no rebote após seu primeiro chute ser defendido pelo goleiro Júlio César. Foi o décimo sexto gol de Klose em Copas do Mundo, superando Ronaldo como o maior artilheiro da história das Copas.
O gol de Klose deu início a uma sequência de gols alemães, fazendo com que a equipe brasileira perdesse o total controle da partida. Kroos marcou mais dois gols em uma rápida sequência: aos vinte e quatro minutos, marcou em um chute de perna esquerda após cruzamento de Lahm, e aos vinte e seis minutos, apenas alguns segundos após a saída de bola do Brasil, Kroos roubou a bola que Fernandinho acabava de receber, e em seguida tabelou com Khedira para fugir da defesa brasileira e marcou novamente, apenas 69 segundos após seu primeiro gol. Três minutos depois, o mesmo Khedira projetou-se ao ataque, tabelou com Mesut Özil, o qual estava em posição de impedimento (não marcado), e fez o quinto gol. Todos os cinco primeiros gols da Alemanha aconteceram na primeira meia hora de jogo, com quatro deles em um espaço de tempo de seis minutos. O Brasil não tinha dado nenhum chute a gol durante este espaço de tempo. Muitos torcedores do Brasil na arquibancada foram vistos às lágrimas e um estado de choque tomou conta dos torcedores brasileiros. O receio de possíveis represálias da torcida brasileira fez a Polícia Militar aumentar seu efetivo no estádio.
Intervalo De acordo com Marcelo, a atmosfera no vestiário da seleção brasileira era de aceitação de derrota: "O primeiro tempo estava cinco a zero. Eu lembro que o Thiago Silva estava suspenso, ele desceu e começou a gritar, e a gente falou: "Thiago, não adianta, vai fazer o quê? Vai gritar agora?". Júlio César afirmou que "o clima era de velório". O auxiliar técnico Carlos Alberto Parreira pediu "cautela" aos jogadores. Para Felipão, o jogo já estava definido; o técnico pediu aos jogadores que "assumissem posições defensivas de organização tática, com calma, porque não é possível virar um cinco a zero em um jogo internacional" e para tentar deixar o jogo "mais equilibrado".
Do lado alemão, a ideia principal era a equipe manter-se concentrada, respeitar a seleção brasileira e evitar qualquer princípio de humilhação ou arrogância. Segundo Khedira: "No intervalo, [o treinador da equipe] Joachim Löw disse que se alguém diminuísse seu desempenho ou fizesse piadas sobre estar vencendo por cinco a zero, ele o substituiria imediatamente e não jogaria na final. Ele nos disse para levar [a partida] a sério e respeitar a seleção brasileira. Mais do que isso, respeitar os torcedores e o país." Löw confirmou: "Durante o intervalo, falei com cada um dos jogadores, exigindo que evitassem uma arrogância para com os derrotados. Para mim, era importante não humilhar os brasileiros." Outros jogadores da equipe, como Lahm, Hummels e Müller, em entrevistas após a partida, corroboraram a opinião do treinador.
Segunda etapa thumb|esquerda|O centroavante Fred (à direita) foi duramente criticado pela imprensa brasileira.