David Oliver Selznick (Pittsburgh, Pensilvânia, 10 de maio de 1902 — Los Angeles, Califórnia, 22 de junho de 1965) foi um produtor cinematográfico norte-americano.
Primeiros anos Protótipo do produtor independente e criativo de Hollywood,KATZ, Ephraim, The Film Encyclopedia, sexta edição, Nova Iorque: HarperCollins, 2008 aos quinze anos, Selznick já trabalhava como avaliador de histórias, e depois na condução do departamento de publicidade, da Selznick Pictures, de seu pai, Lewis J. Selznick. Com 18 anos, chegou a publicar um semanário de distribuição interna, chamado The Brain Exchange.SCHATZ, Thomas, O Gênio do Sistema - A Era dos Estúdios em Hollywood, tradução de Marcelo Dias Almada, São Paulo: Companhia das Letras, 1991 Com a falência da empresa, passou a produzir cinejornais em Nova Iorque, com algum sucesso. Produziu também dois documentários, um sobre pugilismo e outro que mostrava Rodolfo Valentino como jurado de um concurso de beleza no Madison Square Garden.
Quando se cansou de tudo isso, mudou-se para a Meca do Cinema e decidiu que seu lugar era na MGM. Apesar da hostilidade entre Louis B. Mayer e seu pai, acabou contratado em 1926.
Selznick na MGM A ascensão de Selznick na Metro foi meteórica: de leitor de roteiros, logo tornou-se chefe daquele departamento e, em seguida, supervisor. Em 1927, já era o executivo mais promissor da equipe de Irving G. Thalberg. Nesse ano, tornou-se assistente e, em seguida, editor de roteiros. Conseguiu aumentar a produtividade do departamento ao diminuir o número de profissionais e instituir a dead line date, isto é, prazos finais para cada fase dos trabalhos.
Ainda em 1927, Selznick foi escalado para supervisionar os faroestes B estrelados por Tim McCoy. Geralmente rodados em duas semanas, esses filmes custavam em torno de 75 000 dólares cada, mas Selznick e o diretor W. S. Van Dyke concluíram dois deles por meros 80 000 dólares, dentro do mesmo prazo.
Assim, foram alçados a um plano superior e encarregados por Thalberg de dar um jeito em White Shadows in the South Seas, projeto que se arrastava por vários meses. Thalberg, entretanto, deixou claro que Selznick estaria subordinado ao supervisor Hunt Stromberg e que Van Dyke dirigiria apenas algumas partes do filme. Frustrado em suas ambições, Selznick questionou Thalberg duramente, à vista de seus boquiabertos assistentes. Com a autoridade posta em xeque, nada restou ao menino prodígio senão despedi-lo. Ele ainda disse que cancelaria a demissão desde que Selznick pedisse desculpas formalmente. Orgulhoso e arrogante, Selznick recusou-se e deixou o estúdio. Era novembro de 1927 e ele já tinha destino certo: a Paramount Pictures.
Selznick na Paramount Selznick permaneceu na Paramount durante dois momentos importantes para a indústria cinematográfica: o advento do som, com The Jazz Singer, da Warner Bros., e a chegada da Grande Depressão.
Desde o início da década de 1920, a procura por produtores executivos só fazia aumentar. A revolução representada por The Jazz Singer consolidou essa tendência, e Selznick, ex-subordinado de Thalberg e ex-chefe do departamento de roteiristas da MGM, era um profissional muito valorizado. A Paramount, uma das majors de Hollywood (junto com MGM, Warner Bros. e 20th Century-Fox), planejava concluir a transição para o sistema sonoro até o final daquela década. Para isso, ela via em Selznick um facilitador, o elemento capaz de racionalizar o desenvolvimento de roteiros e permitir uma leva completa de filmes falados na temporada 1929-1930.
Contratado em dezembro de 1927 como assistente do diretor de produção Ben Schulberg para supervisionar o departamento de roteiros, Selznick levou sangue novo para o estúdio. Entre suas contratações, estavam Joseph L. Mankiewicz, os diretores de teatro George Cukor e John Cromwell e também roteiristas famosos em Nova Iorque. thumb|300px|left|Aniversário de Adolph Zukor, 1936. Zukor é o quarto a partir da esquerda. O outro chefão da Paramount, Jesse Lasky, está na extrema direita, tendo Louis B. Mayer a seu lado. Em pé, Darryl Zanuck, lendário chefe de estúdio da 20th Century Fox. Ao contrário de outras companhias de Hollywood, a Paramount era gerida de Nova Iorque, por Adolph Zukor e Jesse Lasky. Não havia, assim, a convivência entre chefe de estúdio e chefe de produção que Selznick conhecera na MGM, com Louis B. Mayer e Irving Thalberg, ou na Warner, com Jack Warner e Darryl Zanuck. As ordens vinham sempre de cima e Schulberg e Selznick tinham autoridade somente sobre os filmes de qualidade inferior. Colocado atrás de uma mesa, restava a Selznick escrever memorandos (pelos quais ficaria famoso em Hollywood—chegava a enviar centenas no decurso de cada filme) sobre elencos e roteiros de longas-metragens sob sua responsabilidade. Passou 1930 imerso nesse trabalho administrativo.
No ano seguinte, ficou decidido que Selznick supervisionaria cinco produções de linha da temporada 1931-1932. Entretanto, a Grande Depressão finalmente bateu às portas da Paramount e o programa de lançamentos não saiu do papel. Um comitê externo foi contratado e recomendou várias medidas para evitar que o estúdio soçobrasse, entre elas a redução em um terço do orçamento de produção e cortes salariais para todo o pessoal. Selznick não aceitou essas condições, pois achava que merecia o recente aumento que tivera, de 1 500 para 2 000 dólares semanais. Em 15 de julho, enviou uma carta de demissão a Jesse Lasky, alegando diferenças irreconciliáveis.
Selznick tinha em mente a criação de uma companhia independente de produção. A inspiração viera da unidade que vira Josef von Sternberg criar dentro da própria Paramount, junto com Marlene Dietrich e o roteirista Jules Furthman. Essa combinação estrela-roteirista-diretor foi responsável por diversos sucessos no estúdio, como Morocco, Dishonored, Blonde Venus e Shanghai Express.
Selznick na RKO Selznick imaginara sua unidade independente sendo composta por várias equipes de produção, cada uma delas chefiada por um diretor importante, do porte de Lewis Milestone e William Wellman. Ao final de cada ano, pensava ele, dez películas seriam produzidas. Animado, foi para Nova York captar recursos para materializar seu sonho. Nessa época, porém, os executivos dos estúdios ainda viam as unidades de produção como uma ameaça a seu poder. Sem apoio, Selznick, em outubro de 1931, bateu às portas da RKO Pictures, estúdio de médio porte criado em 1928. Sua proposta foi recusada, mas lhe ofereceram emprego. Sem alternativas, Selznick aceitou e, aos 29 anos, tornou-se o "vice-presidente encarregado da produção" da RKO, com salário de 2 500 dólares por semana. thumb|250px|right|Dolores del Rio, um dos contratados de pouca expressão da RKO na época em que Selznick lá trabalhou. A RKO começara lucrativa, mas a Grande Depressão já começara a fazer seus estragos e a empresa estava com problemas de caixa. Selznick foi contratado, basicamente, para diminuir os custos e aumentar o valor de mercado dos lançamentos. Reuniu junto a si sete supervisores, entre eles o talentoso Pandro S. Berman e Merian C. Cooper, que pouco depois produziria e dirigiria o clássico King Kong. Os três demitiram ou afastaram funcionários.
O estúdio nem de longe contava com artistas, técnicos e recursos do nível dos concorrentes. A única estrela era Irene Dunne, a quem se juntavam atores do segundo time, como Richard Dix e Dolores Del Rio e também jovens promessas, como Joel McCrea. Selznick contratou alguns freelancers para um ou outro filme, bem como promoveu futuros astros, como Lucille Ball. A maioria dos diretores da casa também era fraca e Selznick promoveu uma limpeza, ficando apenas com Wesley Ruggles, Gregory La Cava e George Cukor.
Os resultados logo apareceram, apesar da falta de recursos. Selznick deu-se a si o título de "Produtor Executivo" (segundo ele, uma criação sua), porém concentrou-se na administração do estúdio. Supervisionava apenas os longas-metragens mais importantes, mas, curiosamente, não se envolveu com King Kong, a produção mais ambiciosa da RKO no período em que lá esteve. Como produtor executivo, trabalhou principalmente com George Cukor e Gregory La Cava. Seus melhores filmes com Cukor foram A Bill of Divorcement, Little Women e What Price Hollywood?. Uma de suas descobertas, Katharine Hepburn, estava nos dois primeiros.
Em um ano, Selznick conseguiu reduzir em um terço as despesas da RKO, sem sacrificar a quantidade e a qualidade da produção. Mas nada podia fazer contra a crise da indústria cinematográfica, vitimada pela Depressão, que levou à queda de público e fechamento de salas exibidoras. Apesar de seu desempenho, um novo executivo baseado em Nova York, Merlin Deac Aylesworth, tentou diminuir sua autoridade, transformando-o em mero gerente. O conflito foi inevitável e se estendeu por todo o segundo semestre de 1932. Finalmente, em 2 de fevereiro de 1933, Selznick demitiu-se por carta, não sem antes aprovar um teste para Fred Astaire, bailarino da Broadway magro, meio calvo e já meio velho, que ainda não tivera chance em Hollywood.
Na MGM, de novo Apesar do boicote que suas sonhadas unidades de produção sofreram na MGM, Selznick aceitou a oferta de Louis B. Mayer para retornar ao estúdio. Mayer, seu sogro desde 1930, quando se casara com sua filha Irene, oferecera-lhe a vaga logo que Irving Thalberg ficara doente em janeiro, pois adivinhava-se que sua convalescença seria demorada. Foi assim que Selznick adentrou mais uma vez o estúdio do leão, agora como chefe de sua própria unidade.
Dinner at Eight foi sua prova de fogo e uma forma de lutar contra a sombra de Thalberg, que retornou em julho. Apesar de seus receios, Thalberg tratou-o bem e parecera aceitar sem ressentimentos a nova realidade do estúdio. Dinner at Eight foi um grande sucesso e calou a boca daqueles que viam em sua contratação um mero exemplo de nepotismo. thumb|300px|left|Cena de David Copperfield, grande sucesso da MGM em 1935 Ainda em 1933, Selznick produziu dois novos triunfos, ambos estrelados por Clark Gable -- Night Flight e Dancing Lady. Já no ano seguinte, ampliou seu campo de experiências com duas películas importantes, tanto para a Metro quanto para si mesmo. A primeira foi Manhattan Melodrama, saga sobre gângsteres de baixo orçamento que rendeu mais de um milhão de dólares e reviveu a carreira em baixa de William Powell. A outra, David Copperfield, a primeira adaptação cinematográfica do romance clássico de Charles Dickens. Último e talvez melhor lançamento do estúdio no ano, David Copperfield mostrou um cada vez mais autoconfiante Selznick, que brigava contra os executivos de Nova York, contrários a adaptações de obras intelectualizadas e dramas de época. O filme foi um enorme sucesso, tendo faturado quase três milhões de dólares durante as 86 semanas em que ficou em cartaz nos EUA, sem contar um rendimento excepcional no exterior.
Entretanto, apesar da consolidação de seu prestígio na MGM, Selznick estava incomodado com o conservadorismo e a crescente preocupação com os custos demonstrados pelo estúdio. Ele desejava mais produções de primeira linha e desejava, sobretudo, sua própria companhia, sem ter que dar satisfações a ninguém. Anunciou, então, que criaria uma produtora independente, que produziria poucos filmes de prestígio anualmente, com distribuição da United Artists. Demitiu-se oficialmente em julho de 1935, mas permaneceu até dezembro, de forma a concluir seus dois últimos projetos: Anna Karenina e A Tale of Two Cities, dois triunfos que faturaram, cada um, mais de dois milhões de dólares.
Selznick International Pictures
O início thumb|250px|right|Cena de Little Lord Fauntleroy, primeiro filme produzido pela Selznick International Pictures