Henrique VIII ( – ) foi rei da Inglaterra e da Irlanda de 1509 até sua morte, em 1547. É amplamente conhecido por seus seis casamentos e por seus esforços para obter a anulação de seu primeiro matrimônio, com Catarina de Aragão.
O desacordo de Henrique VIII com o Papa Clemente VII acerca dessa anulação levou-o a iniciar a Reforma Inglesa, processo que resultou na separação da Igreja da Inglaterra da autoridade papal. O monarca proclamou-se Chefe Supremo da Igreja da Inglaterra e promoveu a dissolução de conventos e mosteiros, medidas que culminaram em sua excomunhão pelo papa.
Henrique é conhecido como o fundador da Igreja Anglicana. As suas lutas contra Roma conduziram à recusa da autoridade papal da igreja inglesa, à Dissolução dos Mosteiros e à sua autoproclamação como Chefe Supremo da Igreja de Inglaterra. Ainda assim, continuou a acreditar nos principais ensinamentos católicos mesmo após sua excomunhão. Henrique realizou a união legal da Inglaterra e Gales e os Atos das Leis em Gales de 1535 e 1542.
Em 1513, Henrique invadiu a França com um exército numeroso e bem equipado em aliança com Maximiliano I do Sacro Império Romano-Germânico. Porém, apesar do enorme custo financeiro esta operação foi um fracasso. Por outro lado, Maximiliano usou a invasão inglesa para seu próprio benefício, prejudicando a capacidade da Inglaterra de derrotar os franceses. Esse incidente marcou o início de uma obsessão de Henrique, que invadiu o país novamente em 1544. Desta vez, suas forças capturaram a importante cidade de Bolonha do Mar, porém o imperador Carlos V apoiou Henrique até onde julgava necessário e a Inglaterra, esgotada pelos custos da guerra, entregou a cidade de volta após pagamento de resgate.
Os seus contemporâneos, durante seu auge, consideraram-no atraente e cultivado, tendo sido já descrito como "um dos mais carismáticos reis a ocupar o trono de Inglaterra". Além de reinar com autoridade, Henrique também escrevia e compunha. O seu desejo de ter um herdeiro varão – para consolidar a dinastia Tudor na frágil paz que se seguiu à Guerra das Rosas – levou aos dois mais memoráveis aspectos do seu reinado: os seus seis casamentos e a Reforma Inglesa. Ele tornou-se obeso mórbido e com saúde fraca, o que contribuiu para sua morte em 1547. Ele é frequentemente caracterizado ao final de sua vida como concupiscente, egoísta, severo e inseguro. Henrique VIII foi sucedido por seu filho Eduardo VI, fruto de seu casamento com Joana Seymour.
Biografia Início de vida
Henrique nasceu no Palácio de Placentia, terceiro filho de Henrique VII e Isabel de Iorque. Dos seus seis irmãos, apenas três – Artur, Margarida e Maria – sobreviveram à infância. Foi batizado por Ricardo Foxe, Bispo de Exeter, numa igreja franciscana próxima do palácio. Em 1493, aos dois anos de idade, Henrique foi nomeado Condestável do Castelo de Dover e Lorde Guardião dos Cinco Portos. Ele depois foi nomeado Conde Marechal da Inglaterra e Lorde-Tenente da Irlanda com três anos, entrando para a Ordem do Banho em seguida. No dia da cerimônia ele foi criado Duque de Iorque e um mês depois Lorde Guardião das Marchas Escocesas. Em maio de 1495, Henrique foi nomeado para a Ordem da Jarreteira. Ele recebeu uma educação de primeira qualidade de grandes tutores, tornando-se fluente em latim e francês, além de saber um pouco de italiano. Com exceção de alguns fatos isolados, o começo de sua vida está mal documentado já que não era esperado que se tornasse rei. Em novembro de 1501, participou nas cerimônias do casamento de seu irmão Artur com Catarina de Aragão, filha mais nova de Fernando II de Aragão e Isabel I de Castela.
upright|thumb|Catarina de Aragão, c. 1502. Em 1502, Artur morreu aos 15 anos, vinte semanas depois de se casar com Catarina. A morte de Artur transferiu para Henrique, que tinha então dez anos, as suas honrarias e responsabilidades do seu irmão: em outubro do mesmo ano foi feito Duque da Cornualha e novo Príncipe de Gales e Conde de Chester em fevereiro de 1504. Henrique VII deu-lhe poucas responsabilidades. Vigiado com todo o rigor, o príncipe raramente aparecia em público. Como resultado, Henrique viria a subir ao trono "sem treino na exigente arte de reinar".
Nos seus esforços para celebrar uma aliança com a Espanha, Henrique VII propôs que Henrique se casasse com a viúva Catarina, uma ideia que agradava aos pais e que surgiu pouco depois da morte de Artur. Em 23 de junho de 1503, um tratado foi assinado para o casamento dos dois e eles foram prometidos dois dias depois. Uma dispensa papal era necessária apenas para o "impedimento de honestidade pública" se o casamento com Artur não tivesse sido consumado como Catarina afirmava, porém Henrique VII e o embaixador espanhol queriam conseguir a dispensa por "afinidade", que levava em conta a possibilidade de consumação. Por Henrique ter apenas onze anos, os dois não podiam viver juntos. A morte de Isabel em 1504 e os problemas da sucessão em Castela complicaram as coisas. Fernando II preferia que a filha permanecesse na Inglaterra, porém suas relações com Henrique VII pioraram. Dessa forma Catarina permaneceu no limbo por algum tempo, culminando com o príncipe Henrique rejeitando o casamento aos quatorze anos. A solução de Fernando II foi fazer de sua filha uma embaixadora, permitindo que ela ficasse na Inglaterra indeterminadamente. Muito devota, ela passou a acreditar que era a vontade de Deus que se casasse com Henrique mesmo ele sendo contra isso.
Início de reinado thumb|upright|esquerda|Henrique em 1509 Henrique VII morreu em e o jovem príncipe ascendeu ao trono como Henrique VIII. Logo após o enterro do pai em 10 de maio, o novo rei repentinamente declarou que se casaria com Catarina, deixando questões não resolvidas sobre a dispensa papal e uma parte faltante na porção do casamento. Henrique afirmou que era o último desejo de seu pai seu casamento com Catarina. Sendo isso verdade ou não, era certamente conveniente. Maximiliano I do Sacro Império Romano-Germânico estava tentando casar sua neta Leonor da Áustria (sobrinha de Catarina) com Henrique. Seu casamento com Catarina foi discreto e foi realizado em Placentia. Em 23 de junho de 1509, Henrique levou a esposa da Torre de Londres até a Abadia de Westminster para sua coroação, que aconteceu no dia seguinte. O evento foi grandioso: a passagem do rei foi forrada com tapeçarias de fino tecido. Depois da cerimônia, houve um grande banquete no Palácio de Westminster. Como Catarina escreveu ao pai, "nosso tempo é gasto em contínuas festas".
Dois dias depois da coroação, Henrique prendeu dois dos mais impopulares ministros de seu pai: sir Ricardo Empson e Edmundo Dudley. Eles foram acusados de traição e executados em 1510. O historiador Ian Crofton diz que tais execuções se tornariam a principal tática de Henrique para lidar com opositores; as duas execuções certamente não foram as primeiras. Ele também deu ao povo parte do dinheiro supostamente extorquido pelos ministros. Em contraste, sua visão da Casa de Iorque – potencial reivindicante ao trono – era mais moderada. Muitos daqueles que foram presos por Henrique VII foram perdoados. Outros (mais notavelmente Edmundo de la Pole) permaneceram sem reconciliação; de la Pole acabou sendo decapitado em 1513, uma execução causada por seu irmão Ricardo alinhando-se contra o rei.
Pouco tempo depois Catarina engravidou, porém a criança foi uma menina que nasceu e morreu no dia 31 de janeiro de 1510. Quatro meses depois a rainha estava grávida novamente. No dia de ano novo de 1511, a criança – Henrique – nasceu. Depois da dor de terem perdido a primeira, o casal ficou feliz de terem um menino e houve festividades para celebração, incluindo um torneio de justas. Entretanto, o menino morreu sete semanas depois. Foi revelado em 1510 que o rei estava tendo um caso com uma das irmãs de Eduardo Stafford, 3.º Duque de Buckingham, Isabel ou Ana Hastings, Condessa de Huntingdon. Catarina teve um aborto em 1514, porém deu à luz Maria em fevereiro de 1516. As relações entre o casal haviam sido tensas, porém melhoraram após o nascimento da menina e há poucos indícios que sugerem que o casamento não era "excepcionalmente bom" na época.
Começando em 1516, a mais importante amante de Henrique por três anos foi Isabel Blount. Ela é uma das duas únicas amantes completamente incontestáveis, poucas para um rei jovem e viril. Exatamente quantas ele teve não é certo: David Loades acredita que Henrique teve amantes "apenas de forma muito limitada", enquanto Alison Weir acredita que houve vários casos. Catarina não protestava, engravidando novamente em 1518 com outra menina natimorta. Blount deu à luz em junho de 1519 a Henrique FitzRoy, filho ilegítimo do rei. O menino foi feito Duque de Richmond em junho de 1525 em um ato que foi visto como o primeiro passo rumo sua legitimação. FitzRoy se casou em 1533 com Maria Howard, porém morreu sem filhos três anos depois. Na época de sua morte, o parlamento tinha aprovado o Segundo Decreto de Sucessão, que poderia permitir que ele se tornasse rei.
França e os Habsburgos thumb|Henrique c. 1520 Em 1510, com uma frágil aliança com o Sacro Império Romano-Germânico na Liga de Cambrai, a França estava vencendo uma guerra contra Veneza. Henrique renovou a aliança de seu pai com Luís XII da França, uma questão que dividiu seu conselho. Certamente uma guerra contra o poder combinado das duas potências seria extremamente difícil. Pouco tempo depois, ele assinou um pacto contraditório com Fernando contra a França. O problema foi resolvido em outubro de 1511 com a criação da antifrancesa Liga Santa pelo Papa Júlio II, levando Luís a entrar em conflito com Fernando. Henrique colocou a Inglaterra na Liga Santa pouco depois, com um ataque inicial conjunto anglo-espanhol a Aquitânia planejado para a primavera. Parecia que os sonhos de Henrique começariam a se tornar realidade e ele governaria a França. A declaração formal de guerra ocorreu em abril, porém o rei não liderou pessoalmente o ataque. A ação foi um grande fracasso; Fernando a usou para alcançar seus próprios objetivos, prejudicando a aliança anglo-espanhola. Mesmo assim, os franceses rapidamente foram expulsos da Itália e a aliança ressurgiu, com os dois lados querendo outras vitórias. Henrique então realizou um golpe diplomático ao convencer o imperador a entrar na Liga Santa. Extraordinariamente, Henrique também garantiu a promessa do título de "Rei Cristianíssimo" e uma possível coroação pelo papa em Paris se Luís fosse derrotado.
Henrique invadiu a França em 30 de junho de 1513 e suas tropas venceram a Batalha de Guinegate – uma vitória com pouco significado mas que os ingleses aproveitaram para ampla propaganda. Liderada pessoalmente por Henrique, a hoste inglesa tomou Thérouanne, que entregaram a Maximiliano, e depois Tournai. A sua ausência do país induziu seu cunhado Jaime IV da Escócia a invadir a Inglaterra aliado de Luís XII. Comandado pela rainha Catarina, o exército inglês derrotou os escoceses na Batalha de Flodden em 9 de setembro de 1513 na qual caiu o próprio rei Jaime e com ele a intervenção escocesa. Essas campanhas deram a Henrique o gosto do sucesso militar que tanto desejava. Porém, apesar de indícios que iria prosseguir com uma campanha no ano seguinte, o rei decidiu não realizar o movimento. Ele estava apoiando Fernando e Maximiliano financeiramente, porém pouco recebeu em troca; os cofres ingleses estavam vazios. Com a morte de Júlio II e a eleição de Leão X, que estava inclinado a negociar a paz com a França, Henrique assinou seu próprio tratado com Luís: sua irmã Maria se tornaria a esposa do rei francês, tendo sido anteriormente prometida a Carlos da Áustria, e a paz seguiu-se por oito anos.
thumb|esquerda|220px|O encontro de Francisco I e Henrique VIII no Campo do Pano de Ouro em 1520