Richard Andrew Cloward (25 de dezembro de 1926 – 20 de agosto de 2001) foi um sociólogo, criminologista, professor e ativista social estadunidense, com grande destaque na atuação política em defesa dos mais pobres. Aluno e professor da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, destacou-se por seu trabalho inovador na área de delinquência urbana, movimentos sociais e pobreza.

Sua teoria no campo da criminologia convencional, associada à de Merton e Cohen, é conhecida por Strain theory, que se consubstancia na contradição vivida entre meios (raças, classes, gêneros etc.) e fins (ideologia, por exemplo) na sociedade democrática moderna, e os caminhos pelos quais juventude, principalmente de baixa renda, transitam nesse bloqueio estrutural, geralmente através de "soluções subculturais".

Sendo um dos criminologistas e sociólogos mais citados do mundo, o trabalho de Cloward concentrou-se precipuamente na dinâmica entre a mobilização dos menos favorecidos, a delinquência e a democracia política. Em oposição à corrente até então dominante, Cloward retira a culpa pelo fracasso do sistema dos mais pobres, e o coloca nas camadas conservadoras. O professor e ativista ficou conhecido pelas sua participação política intensa, como no caso da criação do Mobilization for Youth e do National Voter Registration Act of 1993.

Tendo sido influenciado por grandes nomes como Émile Durkheim, Karl Marx, Edwin Sutherland, Robert K. Merton, Henry McKay, Clifford Shaw, Albert Cohen e Walter Miller, Cloward procurou, entre outras coisas, desenvolver o conceito de "anomia", bem como trabalhar mais intensamente conceitos como desvios culturais e consciência racional.

Vida e carreira Cloward nasceu aos 25 de dezembro, na cidade de Auburn, uma pequena cidade ao norte de Nova Iorque. Filho de um pastor radical da Igreja Batista que acreditava na doutrina socialista de Norman Thomas, e de uma artista/feminista. Seu pai, inclinado às ideias socialistas de Thomas, apesar de contrário à Primeira Grande Guerra, foi designado para dirigir ambulâncias nas linhas de frente na França, onde fora ferido. Sua mãe trabalhou, durante a graduação, na capital federal dos Estados Unidos, onde datilografou o primeiro esboço da Emenda para a igualdade de direitos (Equal Rights Amendment, em inglês), como secretária.

No período em que frequentou a escola, Cloward pretendia ser engenheiro. Porém, aos 17 anos de idade, foi convocado para servir à Marinha dos Estados Unidos, mandado à Universidade de Rochester, e então enviado para trabalhar no exterior. Após dois anos expatriado, voltou aos Estados Unidos e, de volta à Universidade de Rochester, trocou seu bacharelado para Sociologia.

O período da graduação nunca entusiasmou Cloward - como ele mesmo disse, "I never reaaly went to college" ("Eu nunca realmente fui para faculdade", em tradução literal). Apesar disso, foi aconselhado a tentar um doutorado em Sociologia. Ao terminar seu trabalho, foi convocado para atuar na Guerra da Coréia, onde alçou o posto de Primeiro Tenente e, ulteriormente, o de diretor de trabalho social no exército estadunidense (1951-1954), atuando em uma prisão de segurança média, no estado da Pensilvânia. Lá, começou seus estudos empíricos baseados na teoria da anomia de Robert K. Merton, concluindo que este sociólogo, em seus estudos, havia dado respostas não totalmente satisfatórias sobre o comportamento humano. Para Cloward, conquanto Merton explicasse corretamente as pressões sobre a juventude de classe baixa para que cometessem crimes, tais trabalhos não teriam levado em consideração a existência e a variedade de subculturas criminosas e a possibilidade de escolha, por parte dessa juventude, através um processo racional, por um tipo de criminalidade em detrimento de outro. Em Cloward, a chave para o entendimento dessa "escolha" residiria no contexto social e no que ele denominou posteriormente de "the structuring variables" (as variáveis estruturantes, em tradução literal). Isto é, a carga acumulada de interação sociológica, forças históricas e interação a que um determinado indivíduo está submetido.

Cloward foi então convidado por Merton para uma discussão em Nova Iorque. Merton reconheceu a incompletude de sua teoria, e que novos estudos sobre sua teoria deveriam tomar por base as ideias de Cloward. Este, então, procurando temas para sua dissertação, desenvolveu estudo sobre a cultura de detentos, apoiada sobre a teoria de Merton e que, posteriormente, veio a ser uma das bases mais importantes para a criminologia, conhecida por "theory of differential opportunity systems" (teoria de sistemas de oportunidades diferenciais, em tradução literal). Esse pensamento pode ser visto em sua obra desenvolvida nos anos 60, em que Lloyd Ohlin fora colaborador.

Cloward era um estudioso ativista. Para ele, não haveria sentido na criação de conhecimento que não implicasse em resultados concretos. Ele mesmo se intitulava "home-grown, American Populist Radical". Nos anos 90, Cloward e Ohlin produziram a base teórica de um programa chamado "Mobilization for Youth". Nesse projeto, juntamente a outras agências, a dupla mapeou um experimento social produzido na Universidade de Stanford para inibir problemas sociais em Nova Iorque. Esse estudo foi nomeado de "Proposal for the prevention and control of delinquency by extending oppotunities" (Proposta para a prevenção e controle da delinquência pela extensão de oportunidades, em tradução livre). O relatório enfatizava a necessidade de melhores condições de educação em todos os níveis, maiores oportunidades de emprego, e da "organização do desorganizado", através de associações de bairro, bem como o provimento de serviços especializados para aqueles que mais precisavam, particularmente aqueles em gangues. Esse estudo, segundo Cloward, foi uma adição de conteúdo ao livro "Delinquency and Opportunity".

Essa campanha serviu de pedra basal para uma série de programas nacionais de combate à pobreza em todo os Estados Unidos. Sua repercussão foi tão grande que, em 1962, Cloward e Ohlin foram convidados para cerimônia na Casa Branca para o lançamento de um dos mais auspiciosos programas sociais do Estados Unidos, "Mobilization for Youth" (Mobilização pela Juventude, em tradução literal).

A administração Kennedy, no início da década de 60, foi um dos motivos, segundo Cloward, para o sucesso de seu programa. Contudo, com o acirramento da disputa política interna nos Estados Unidos, em um contexto global de Guerra Fria, bem como pela existência de uma ala radical de direita naquele país, o professor teve sérios problemas em sua vida e carreira. Nesse sentido, a filial de Nova Iorque do programa "Mobilization for Youth" sofreu com intensas perseguições. Seguimentos de extrema direita, contrários a concessão de benefícios sociais diretos, sob o argumento de que a organização tratava-se, na verdade, de uma organização comunista, começaram ataques hostis àquele projeto. O efeito foi devastador tanto para o projeto quanto para a carreira de Cloward. As contribuições caíram vertiginosamente e sua imagem como professor da Universidade de Columbia ficou extremamente abalada, principalmente quando seu antigo mentor, Robert Merton, decidiu não escrever uma carta em sua defesa.

Após alguns poucos anos, o projeto foi encerrado e Cloward voltou-se a focar em sua carreira acadêmica. Em colaboração com Frances Fox Piven, Cloward fundou o "National Welfare Rights Organization", em 1966, e o "Human SERVE" (Service Employees Registration and Voter Education), em 1982. O professor, no entanto, não mais voltou a atuar na área da criminologia. Segundo ele mesmo, em entrevista no ano de 2000, "I lost interest in criminology and I never went back to it" ("Eu perdi o interesse pela criminologia e nunca voltei atrás", em tradução livre).

Cloward, juntamente a Piven, seguiu sua luta, intelectual e política, contra o movimento de intensificação dos movimentos de direita nos Estados Unidos, o qual teria levado aquele país a um encarceramento em massa de pobres e estrangeiros, tanto na administração republicana, quanto na administração democrata. Sob vários aspectos, a visão de Cloward a respeito da delinquência, inseparável, segundo ele, da pobreza e da democracia política, foi vítima de seu próprio sucesso. Isso porque, para ele, a mudança seria fruto da mobilização das pessoas mais diretamente afetadas, ocasionando, inexoravelmente, uma resistência hostil das camadas mais conservadoras para a manutenção do status quo.

Cloward morreu aos 74 anos de idade de câncer. Sua teoria e seu legado, no entanto, permanecem firmes e atuais no estudo e na análise da criminologia e na luta por um mundo menos desigual.

Influências As influências mais importantes para a vida de Cloward foram aquelas advindas de sua família, do trabalho no exército e, no ramo acadêmico, do trabalho de sociólogos que pesquisavam temas semelhantes ao de seu interesse.

Quando ainda jovem, Cloward recebeu forte influência de seu pai, um pastor da Igreja Batista influenciado por ideias socialistas, e de sua mãe. Ela trabalhou em áreas que contribuíram para o desenvolvimento social dos Estados Unidos. Embora seja de difícil aferição objetiva essa influência, é razoável acreditar, sem grandes especulações, que a influência dos pais em sua formação e no desenvolvimento de sua preocupação com problemas de caráter social foi considerável.

Indubitavelmente, o exército americano foi uma instituição que exerceu influência sobre Cloward. Foi lá, enquanto trabalhava no sistema prisional, que ele iniciou suas primeiras observações e pôde analisar, ainda que exclusivamente empiricamente, o comportamento de determinado tipo de pessoas. Esse estudo foi fundamental na construção de sua teoria e no desenvolvimento do conceito de anomia elaborado por Robert K. Merton.

No campo teórico de desenvolvimento, Cloward foi fortemente influenciado por Richard K. Merton, com quem, no começo de sua carreira, teve um relacionamento profissional próximo, afastando-se posteriormente. Muitos criminologistas reconhecem na obra Delinquency and Opportunity: A Theory of Delinquent Gangs, elaborada também por Ohlin, uma das marcas principais de Cloward. O livro surgiu de obras anteriores de Cloward, combinadas com o conceito de anomia utilizado por Émile Durkheim, e Robert Merton, contendo também interessantes insights de Edwin Sutherland sob a ótica da teoria da associação diferencial e Clifford Shaw sob a perspectiva da teoria do desvio cultural.

Resumos de trabalhos selecionados Não obstante ao grande acervo bibliográfico de Cloward, algumas de suas obras são tidas como icônicas na construção de suas teorias, e contabilizam grandes volumes de citações científicas, até os dias atuais. Três destas obras são aqui elencadas, duas das quais serão, ulteriormente, compiladas/resumidas.

Delinquency and opportunity: A theory of delinquent gangs Autores: Richard A Cloward, Lloyd E Ohlin. Editora: Free Press. Data de publicação: 1960.

Escrito por Richard A. Cloward e Lloyd E. Ohlin, na década de 60. É um estudo aprofundado da subcultura das gangues. Questiona a origem das pressões sociais que levam a um comportamento desviado. Através deste trabalho deu-se início nos Estados Unidos a um dos maiores programas de prevenção à delinquência juvenil. Nele são estudados os atos delinquentes através do que é normatizado como conduta criminosa. Os autores apontam que os delinquentes não se sentem pertencentes ao mesmo sistema de regras sociais que suas vítimas, por muitas vezes tentarem sem sucesso galgar o status social e econômico destas. Assim, desafiam a legitimidade das regras por julgarem ser estas as responsáveis por sua situação.

Poor people's movements: Why they succeed, how they fail Autores: Frances Fox Piven, Richard Cloward. Editora: New York - Vintage Books. Ano de publicação: 1979. ISBN 0394726979.