Congonhas é um município da região central de Minas Gerais, no Brasil. Sua sede cresceu durante a corrida do ouro no início do século XVIII e tornou-se um centro regional de peregrinação depois que a construção do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos começou em 1757. O município ocupa e tinha 52.890 habitantes no censo de 2022.
Acima da parte mais antiga da cidade, o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos reúne uma igreja do século XVIII, um adro em terraços ladeado pelos doze profetas de pedra-sabão e capelas que guardam grupos escultóricos policromados da Paixão de Cristo. Grande parte das esculturas foi feita por Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, junto de integrantes de sua oficina. A UNESCO inscreveu o santuário na lista do Patrimônio Mundial em 1985, reconhecendo o conjunto arquitetônico e escultórico como uma realização excepcional da arte barroca na América Latina. A peregrinação permanece presente na cidade. O Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, realizado todos os anos em setembro, leva ao santuário fiéis de Minas Gerais e de outros estados.
Congonhas passou também a integrar os centros de mineração de ferro do Quadrilátero Ferrífero. A extração em grande escala cresceu depois que a mina de Casa de Pedra foi incorporada à Companhia Siderúrgica Nacional na década de 1940 e voltou a aumentar rapidamente no início do século XXI. A CSN Mineração e a Vale S.A. operam minas no município, e a indústria extrativa respondia por cerca de 40% do emprego formal em 2021. A mineração trouxe elevada produção industrial e muitos postos de trabalho, enquanto cavas a céu aberto, pilhas de resíduos e estruturas minerárias passaram a ocupar extensas áreas em torno da cidade e de seus cursos d'água.
Topônimo
O nome "Congonhas" vem de congonha, arbusto que era comum nos campos em torno da cidade. O chá preparado com suas folhas já era consumido na região antes da colonização portuguesa.
O linguista Eduardo de Almeida Navarro atribui o nome da planta à língua geral paulista, com influência guarani. A forma relacionada congõi é encontrada no Tesoro de la Lengua Guaraní, de Antonio Ruiz de Montoya, publicado em 1639, um dicionário de guarani antigo e espanhol.
História
Mineração de ouro e primeiros povoados
O povoamento começou por volta de 1700, quando a mineração de ouro se espalhava pela região central de Minas Gerais. Arraiais cresceram junto aos córregos e aos caminhos percorridos por pessoas e mercadorias entre as áreas mineradoras. O município atual formou-se a partir de três povoados coloniais, Congonhas do Campo, Soledade, atual Lobo Leite, e Redondo, atual Alto Maranhão. Os três ficavam ao longo de caminhos que atravessavam a região mineradora do centro de Minas Gerais.
Congonhas do Campo cresceu às margens do Ribeirão das Congonhas, mais tarde chamado rio Maranhão. O ouro era extraído dos cursos d'água e das encostas próximas, em grande parte com trabalho de pessoas escravizadas. O rio também fazia parte da divisa entre as comarcas de Ouro Preto e Rio das Mortes. O lado da igreja matriz pertencia a Ouro Preto, enquanto Matosinhos, na margem oposta, pertencia a Rio das Mortes. A divisão permaneceu no século XIX, quando viajantes ainda se referiam aos dois lados como povoados separados.
Uma paróquia dedicada a Nossa Senhora da Conceição foi criada na primeira metade do século XVIII, embora as datas encontradas para sua criação sejam divergentes. Congonhas do Campo tornou-se distrito em 6 de novembro de 1746 e permaneceu parte de Ouro Preto.
Pessoas escravizadas e irmandade do Rosário
miniatura|esquerda|Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, construída pela população negra de Congonhas colonial
A mineração de ouro dependia do trabalho escravizado. A Capela de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos já era utilizada em 1729, quando nela foi realizado um batizado. A data de construção não é conhecida, mas a igreja foi erguida por pessoas escravizadas de Congonhas e da área mineradora próxima.
A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário de Congonhas do Campo reunia membros negros escravizados e livres e organizava cerimônias em torno da devoção a Nossa Senhora do Rosário. Ela integrava o conjunto de confrarias católicas negras estabelecidas nas paróquias em torno de Vila Rica. Congonhas tinha um capelão do Rosário em 1748. Em 1784, a irmandade contratou João Nepomuceno Correia de Castro para pintar o teto da capela e realizar outros trabalhos no edifício.
Os integrantes da irmandade eram sepultados sob o piso da igreja, até que seus restos mortais foram transferidos para o cemitério de Nossa Senhora da Conceição durante uma reforma posterior. Entre as imagens da igreja estão São Benedito e Santa Efigênia, santos com longa devoção entre católicos negros. A Igreja do Rosário passou a receber também celebrações de Congado em Congonhas.
Santuário e peregrinação
Do outro lado do rio Maranhão, Matosinhos cresceu em torno do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos. Em 1757, o minerador português Feliciano Mendes começou a recolher doações para um santuário dedicado ao Bom Jesus de Matosinhos depois de se recuperar de uma doença grave. Ele recebeu autorização para o projeto e continuou arrecadando dinheiro até sua morte, em 1765. As celebrações religiosas já ocorriam no local enquanto a igreja estava em construção.
Doações de peregrinos e moradores financiaram as obras do santuário. A igreja, o adro e as capelas foram construídos e decorados em etapas entre o fim do século XVIII e o início do XIX. O Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos recebeu autorização papal em 1779, e sua primeira celebração oficial ocorreu em 1780. Com a redução da produção de ouro, peregrinos continuaram chegando de outras partes de Minas Gerais.
Por volta da passagem do século XVIII para o XIX, Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, e integrantes de sua oficina fizeram os grupos escultóricos da Paixão de Cristo e os doze profetas de pedra-sabão diante da igreja. O santuário estava quase concluído no início do século XIX. As peregrinações a Congonhas prosseguiram depois do fim do auge do ouro.
Século XIX
Com o declínio das antigas lavras de ouro, iniciou-se nas proximidades a produção de ferro. Em 1811, o engenheiro alemão Wilhelm Ludwig von Eschwege criou a Fábrica Patriótica, em Prata, perto de Congonhas do Campo. A produção de ferro começou em 1812 e continuou até 1831. Foi a primeira siderúrgica brasileira a produzir ferro em escala industrial. O local pertence ao município de Ouro Preto, embora textos do século XIX muitas vezes o situassem em Congonhas do Campo.
Padres lazaristas chegaram em 1827 para administrar o santuário. Abriram um seminário e uma escola, levando estudantes e religiosos à cidade. Fazendas nos arredores produziam alimentos e cana-de-açúcar e criavam animais, enquanto a mineração de ouro em pequena escala prosseguia.
miniatura|Congonhas em 1880, fotografada por Marc Ferrez
No fim do século XIX, Congonhas ainda era uma pequena localidade, com ruas concentradas em torno das igrejas e dos caminhos de peregrinação e propriedades rurais além da área construída.
Ferrovia e formação do município
A extração de ferro em Casa de Pedra começou antes da emancipação de Congonhas. O investidor dinamarquês Arn Kirstein Thun adquiriu a propriedade em 1911, e a produção começou em 1913, ainda com métodos em grande parte manuais.
A Estrada de Ferro Central do Brasil chegou a Congonhas em 1914. A estação foi inaugurada em 14 de novembro. Em 1917, a linha do Paraopeba ligava a localidade a Belo Horizonte e às ferrovias que seguiam em direção ao Rio de Janeiro.
Congonhas do Campo permaneceu como distrito de Ouro Preto até 1923, quando foi transferido para Queluz, depois denominada Conselheiro Lafaiete. Tornou-se município em 17 de dezembro de 1938, inicialmente formado por Congonhas do Campo e Lobo Leite.
A proteção federal da parte antiga da cidade veio pouco depois. O Santuário do Bom Jesus de Matosinhos foi tombado em 1939, e o conjunto arquitetônico e urbano da cidade antiga recebeu proteção em 1941.
Alto Maranhão foi transferido de Conselheiro Lafaiete para Congonhas do Campo em 1943. O município passou a ter o nome abreviado de Congonhas em 1948.
Mineração industrial e crescimento urbano
A mineração de ferro cresceu rapidamente depois da Segunda Guerra Mundial. A mina de Casa de Pedra foi incorporada à estatal Companhia Siderúrgica Nacional em 1946 para fornecer minério de ferro à usina da companhia em Volta Redonda. Os empregos na mina atraíram novos moradores e fizeram a área urbana avançar para além do núcleo antigo em torno das igrejas e da ferrovia.
A CSN construiu cerca de 500 casas perto de Casa de Pedra. A Vila Rica alojava engenheiros, enquanto a Vila Operária recebia outros funcionários. O núcleo mantido pela empresa tinha escolas, hospital, cinema e clube. Os novos bairros prolongaram a cidade em direção à mina, afastando a expansão urbana das antigas igrejas e ruas de peregrinação.
A população cresceu junto com a mineração. Congonhas tinha 5.572 habitantes em 1940, 14.699 em 1960 e 30.776 em 1980. Uma parcela cada vez maior dos moradores passou a viver na área urbana.
A CSN foi privatizada em 1993. A produção em Casa de Pedra aumentou depois da privatização com a introdução de novas tecnologias, e a extração de ferro voltou a crescer no início do século XXI. Cavas, plantas de processamento, instalações ferroviárias e estruturas de resíduos espalharam-se por extensas áreas em torno da sede municipal, inclusive perto de bairros já estabelecidos e da cidade colonial protegida.
Geografia
miniatura|Vista da sede municipal
Congonhas ocupa no centro de Minas Gerais. Seu código municipal no IBGE é 3118007. Faz divisa com Belo Vale e Ouro Preto ao norte, Ouro Preto e Ouro Branco a leste, Conselheiro Lafaiete e São Brás do Suaçuí ao sul e Jeceaba a oeste. O município tem três distritos, Congonhas, onde fica a sede, Alto Maranhão e Lobo Leite.
Distritos
Alto Maranhão e Lobo Leite cresceram a partir de Redondo e Soledade, dois povoados mineradores coloniais incorporados a Congonhas.
Alto Maranhão chamava-se Redondo. Recebeu o nome atual em 1918, quando ainda pertencia a Queluz, depois Conselheiro Lafaiete. O distrito passou para Congonhas do Campo em 1943. A Capela de Nossa Senhora da Ajuda data de 1746 e foi tombada pelo estado em 1978.
Lobo Leite surgiu do arraial minerador de Soledade. Mais tarde recebeu o nome Felipe dos Santos, antes de passar a se chamar Lobo Leite em 1926. Tornou-se parte de Congonhas do Campo com a criação do município, em 1938. A Igreja de Nossa Senhora da Soledade foi construída por volta do século XVIII e recebeu tombamento estadual em 1978.
Uma estação ferroviária foi inaugurada em Lobo Leite em 1886, na linha mais tarde operada pela Estrada de Ferro Central do Brasil. O transporte de passageiros terminou, mas trens de carga ainda percorrem a linha. O Caminho Velho da Estrada Real também passa pelo distrito.
Geografia física
A sede municipal ocupa terrenos ondulados nas duas margens do rio Maranhão. Congonhas fica na borda sudoeste do Quadrilátero Ferrífero, onde serras e morros arredondados se elevam acima de vales fluviais estreitos. As rochas incluem formações ferríferas, xistos, filitos e granitoides. Essas formações ferríferas contêm os depósitos de minério explorados no município, entre eles a mina de Casa de Pedra, cerca de da cidade.
A geologia local também pode ser observada na parte antiga da cidade. Granito e pedra-sabão da região foram empregados em igrejas, esculturas e pavimentação. O granito forma partes estruturais da fachada do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, enquanto a pedra-sabão foi usada em detalhes arquitetônicos e nas esculturas do adro. Ruas antigas receberam pavimento feito com pedras arredondadas de leitos de córregos e pedaços de pedra-sabão assentados sobre o solo.