Márcia Cristina Bernardes Barbosa (Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 1960) é uma física, professora universitária e pesquisadora brasileira.
É professora titular do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Em 2024 foi eleita reitora da UFRGS. É reconhecida internacionalmente por suas pesquisas com a molécula da água e pela sua luta por mais espaços para as mulheres no meio científico.Laboratório de Popularização da Ciência. "Marcia Barbosa". Universidade Federal do Espírito Santo, consulta em 16 de agosto de 2025 É membro titular da Academia Brasileira de Ciências e recebeu diversos prêmios e distinções, entre eles o Prêmio L'Oréal-UNESCO para Mulheres em Ciência e a Ordem Nacional do Mérito Científico no grau de Comendadora. Em 2020 foi eleita pela revista Forbes como uma das 20 mulheres mais influentes do Brasil.
Biografia Márcia Barbosa nasceu no Rio de Janeiro em 1960, e passou toda sua vida em Porto Alegre. Filha de um eletricista militar, desde criança costumava ajudar o pai a arrumar circuitos e construir pequenos equipamentos, e foi com ele que teve as primeiras aulas a respeito do mundo da tecnologia. Na escola, ajudava os professores nos laboratórios a montar experimentos para as aulas. A escolha do curso de Física foi devido ao legado do pai e por ser uma área bastante próxima.
Ingressou no curso de Física da UFRGS, onde notou ser minoria: dos 80 alunos, somente 8 eram mulheres, e na formatura, Barbosa foi a única mulher. Participou dos movimentos estudantis, pedindo por democracia e o fim da ditadura ainda na graduação. Seguiu para a pós-graduação, onde foi orientada por Walter K. Theumann tanto no mestrado quanto no doutorado e fez três estágios de pós-doutorado na UFRGS, na Universidade de Maryland e na Universidade de Boston.
Professora titular do Instituto de Física da UFRGS, coordenadora da Pós-Graduação de 2007 a 2008, diretora do Instituto de 2008 a 2016, trabalha nas áreas de pesquisa, ensino e extensão na Física e nos estudos de Gênero e Ciência. Suas pesquisas se concentram na Física da Matéria Condensada, estudando principalmente suspensões coloidais iônicas, polieletrólitos e a água e suas anomalias dinâmicas em relação aos processos físicos e biológicos.Souza, Ângela Maria Freire de Lima e. "Entrevista com Dra. Márcia Cristina Bernardes Barbosa". In: Revista Feminismos, 2014; 2 (3): 69-"Física Marcia Barbosa assume reitoria da UFRGS nesta sexta-feira". Sociedade Brasileira de Física, 26 de setembro de 2024 Em suas palavras, "sempre fui fascinada por sistemas biológicos. Por muitos anos, estudei o comportamento de eletrólitos, proteínas e DNA, fazendo modelos físicos muito simples nos quais a água entrava de maneira muito coadjuvante. À medida que estudava sistemas mais compactados, como o interior da célula, os canais de íons, mais a água entrava como uma protagonista. Percebi que precisava aprender mais sobre a água para, de maneira correta, apropriá-la nos meus modelos".
Os trabalhos sobre as anomalias da água demonstraram, em essência, o motivo pelo qual a água se move mais rápido quando é comprimida, com as moléculas muito próximas umas das outras. Experimentos anteriores só haviam detectado a mobilidade aumentada, mas não esclareciam o seu mecanismo. Os experimentos observaram o comportamento da água ao passar por nanotubos ultrafinos, sendo descoberto que o reduzido diâmetro do nanotubo cria nas suas paredes internas uma polaridade que repele a água e aumenta a pressão sobre ela, o que aumenta sua densidade, altera a estrutura das moléculas e reforça as ligações entre elas, com o efeito final de organizar e acelerar o fluxo.Pivetta, Marcos. "O lado esquisito da água". In: Pesquisa Fapesp, 2013 (209)Rodrigues, Karine. "Physics shows how water is fascinatingly crazy". Instituto de Matemática Pura e Aplicada, 19 de outubro de 2018Köhler, Mateus H. et alii. "Water in nanotubes: The surface effect". In: Chemical Engineering Science, 2019 (203): 54-67 Este fenômeno é encontrado nos processos de difusão molecular através das membranas celulares, pode melhorar a compreensão de uma grande diversidade de outros fenômenos, e tem muitas aplicações científicas, tecnológicas e industriais possíveis, como na dessalinização da água do mar.Ebel, Ivana. "Física brasileira recebe prêmio internacional". Deutsche Welle, 28 de março de 2013 Essas pesquisas ganharam destaque internacional e lhe valeram o Prêmio L'Oréal-UNESCO para Mulheres em Ciência em 2013.
É defensora da ciência brasileira, e lamenta a perda de profissionais brasileiros para universidades estrangeiras por não terem condições de fazer ciência no Brasil. Foi diretora da Academia Brasileira de Ciências, desempenhando um importante papel na criação de um Código de Ética e Conduta e promovendo ativamente programas de extensão. Em 2019, foi eleita membro da Academia Mundial de Ciências.
Tem se empenhado ativamente na luta por uma maior inclusão das mulheres nas ciências, em especial as Exatas e as Naturais. Ao tornar-se professora, lutou pela criação de um grupo de pesquisa e de grupos de gênero em instituições brasileiras, e por mudanças efetivas que aumentassem a presença de mulheres nas academias e nos cargos de liderança. Participou ativamente do movimento que deu origem à aprovação da lei que instituiu a licença-maternidade para bolsistas de pesquisa no Brasil, e também da inclusão da informação de nascimento ou adoção de filhos no Currículo Lattes.Lages, Luiza. "As batalhas pela diversidade". In: Revista Mulheres na Ciência, 2020 (2): 38-40 De 2011 a 2015 foi membro da Comissão de Relações e Gênero da Sociedade Brasileira de Física."Comissão de Relações e Gênero Sociedade Brasileira de Física. Período: julho 2011 a junho de 2015". In: Saitovitch, Elisa Maria Baggio et al (orgs.). Mulheres na Física: Casos históricos, panorama e perspectivas. Livraria da Física, 2015 - Ficha Técnica Foi a primeira presidente do Grupo de Trabalho sobre Mulheres na Física organizado pela União Internacional de Física Pura e Aplicada. Segundo o Conselho Internacional de Ciência, "essa iniciativa foi fundamental para aumentar a conscientização sobre a situação das mulheres na Física em todo o mundo e levou à criação de equipes nacionais em mais de 60 países que ainda trabalham para aumentar e melhorar a participação das mulheres na Física. Esse movimento levou a inúmeras mudanças de política dentro da UIFPA". Também foi vice-presidente da UIFPA, atuando como a primeira Campeã de Gênero da União, e implementando políticas que promovem mulheres a posições de liderança dentro da organização."Backgroud". International Science Council, janeiro de 2025 Foi membro em 2006 da representação brasileira no Conselho Consultivo de Gênero da Comissão de Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento das Nações Unidas,Huyer, Sophia. GAB Meeting Report: Gender, Science and Technology for Sustainable Development: Looking Ahead to the Next 10 Years. The Gender Advisory Board, 2006, p. 35 em 2020-2021 participou do Conselho Consultivo de Gênero da Academia Mundial de Ciências,"Bolsista do CNPq, Márcia Barbosa é empossada na Academia Mundial de Ciências". Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, 17 de novembro de 2021 e em 2024 foi nomeada membro do Comitê Permanente de Ações Estratégicas e Políticas para Equidade de Gênero da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) do Ministério da Educação."CAPES divulga lista de integrantes do comitê de equidade de gênero". Ministério da Educação, 1 de outubro de 2024
Em 2020 foi incluída pela ONU Mulheres numa lista de sete cientistas que têm moldado o mundo. Na justificativa, a ONU Mulheres declarou: "Barbosa desenvolveu uma série de modelos das propriedades da água que podem aprimorar nossa compreensão sobre uma ampla variedade de tópicos: como ocorrem terremotos, como as proteínas se estruturam, como pode ser gerada energia mais limpa e como são tratadas doenças. [...] Além de sua pesquisa notável, Barbosa está comprometida com a igualdade de oportunidades para as mulheres nas ciências. Ela organizou diversas conferências sobre mulheres na Física, escreveu artigos sobre diversidade geográfica e de gênero na ciência e ministrou seminários que examinaram a escassez de mulheres na área".
No ano de 2023 foi nomeada secretária de Políticas e Programas Estratégicos, uma das quatro pastas que fazem parte do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação do Governo Federal. Nesta capacidade, promoveu a criação de uma plataforma sobre diversidade no Grupo de Inovação do G20, defendeu uma iniciativa internacional para proteção das florestas tropicais e encorajou os países a incluir a biodiversidade na rede internacional e plataforma de dados Global Biodiversity Information Facility.
Durante a devastadora enchente no Rio Grande do Sul em maio de 2024, organizou uma equipe de pesquisadores para monitorar a situação e propor aos governos local e federal iniciativas para a reconstrução. Em julho de 2024 foi eleita reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em uma decisão histórica do Conselho Universitário, sendo a primeira eleição com paridade de votos entre estudantes e professores. Entre as primeiras ações da nova Reitoria está o encaminhamento ao Conselho Universitário dos projetos de criação da Pró-Reitoria de Ações Afirmativas e Equidade, da Secretaria Especial de Mudanças Climáticas e da Coordenadoria de Educação Básica. Em 2025 foi eleita membro da Diretoria do Conselho Internacional de Ciência, ocupando o cargo de vice-presidente para Liberdade e Responsabilidade na Ciência."Márcia Barbosa é eleita vice-presidente para Liberdade e Responsabilidade na Ciência do ICS". Sociedade Brasileira de Física, 30 de janeiro de 2025
Participou de inúmeros congressos e eventos científicos, orientou dezenas de teses de alunos e tem vasta bibliografia publicada. Segundo Klanovicz & Machado, Márcia Barbosa é uma das cientistas brasileiras mais influentes da atualidade.Klanovicz, Luciana Rosar Fornazari & Machado, Roseli de Oliveira. "Mulheres na ciência: uma entrevista com a física Marcia Cristina Bernardes Barbosa". In: Revista Brasileira de História da Ciência, 2020; 13 (2): 298-307 Foi a primeira mulher a coordenar o Comitê de Física e Astronomia do CNPq,Andrade, Rodrigo de Oliveira. "Onde as cientistas não têm vez". Pesquisa FAPESP, 23 de julho de 2025 exerceu mandato de conselheira na Sociedade Brasileira de Física em 2019-2023, e participou do Grupo de Trabalho de Comunicações e Prospecção de Sócios, do Grupo de Trabalho sobre a Governança da SBF, do Grupo de Trabalho sobre as Olimpíadas Brasileiras de Física, e foi delegada da SBF na União Internacional de Física Pura e Aplicada.Relatório Anual da Sociedade Brasileira de Física. Janeiro 2019 – Dezembro 2019. Sociedade Brasileira de Física, 2019, p. 6; 15; 19 É membro da Academia Brasileira de Ciências, da Academia Mundial de Ciências, do Conselho Internacional de Ciência, e da Sociedade Americana de Física.Centro Integrado de Aprendizado em Rede. "Cientistas Brasileiras: o que elas fizeram pela ciência". Universidade Federal de Goiás, consulta em 16 de agosto de 2025
Distinções 2009: Medalha Nicholson, da Sociedade Americana de Física, por seu compromisso pessoal em apoiar e encorajar as mulheres na Física e por sua liderança na 1ª Conferência Internacional sobre Mulheres na Física, que mudou a visibilidade das mulheres na Física."Nicholson Medal". Instituto de Física da UFRGS, consulta em 16 de agosto de 2025 2012: Prêmio L'Oréal-UNESCO para Mulheres em Ciência. 2012: Prêmio Destaque Cientista Gaúcha, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul, por sua trajetória nacional e internacional na área da Física."Divulgados os vencedores do Prêmio Pesquisador Gaúcho 2012". Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul, 23 de outubro de 2012