thumb|300px|Mulheres no túmulo vazio, um dos eventos de Marcos 16.1890. Por William-Adolphe Bouguereau, atualmente coleção particular
Marcos 16 é o décimo sexto e último capítulo do Evangelho segundo Marcos, no Novo Testamento da Bíblia. Ele começa com a descoberta do túmulo vazio de Jesus por Maria Madalena, Maria e Salomé, onde estava um homem vestido de branco que anuncia-lhes a ressurreição de Jesus.
O versículo 8 termina com as mulheres fugindo do local e afirmando que . Muitos estudiosos afirmam que este é o final original do capítulo e que o trecho seguinte () foi escrito e acrescentado depois com o objetivo de sumarizar as aparições de Jesus e os milagres realizados pelos cristãos depois da ressurreição. Neste trecho, o autor faz referência à aparição a Maria Madalena, a dois discípulos e finalmente aos onze apóstolos (os doze apóstolos menos Judas). O texto conclui com a Grande Comissão, declarando que os crentes que haviam sido batizados serão salvos e os infiéis, condenados, a ascensão de Jesus ao céu para sentar-se à direita de Deus. A maior parte dos acadêmicos, concordando com a análise do crítico textual Bruce Metzger, acredita que de fato o trecho não era parte do texto original de Marcos.. Funk, Robert W. e o Jesus Seminar. The acts of Jesus: the search for the authentic deeds of Jesus. HarperSanFrancisco. 1998. "Empty Tomb, Appearances & Ascension" p. 449-495.
Outros críticos identificaram dois finais distintos: o "Final Longo" (que abrange os versículos 9 a 20) e o "Final Curto", que aparece em seis manuscritos gregos e em dezenas de cópias etíopes. Com algumas variações, este final mais curto é o seguinte:
Em um manuscrito latino de 430 conhecido como Codex Bobbiensis ("k"), o "Final Curto" aparece sem o "Final Longo" e todo o texto de Marcos 16 é anômalo: há uma interpolação entre 16:3 e 16:4 que parece relatar que ascensão de Jesus teria ocorrido naquele ponto da narrativa, a parte final de 16:8 está ausente e há alguns estranhos erros na forma como aparece o "Final Curto". Outras irregularidades no Codex Bobbiensis levaram à conclusão que ele foi produzido por um copista (provavelmente do Egito) que não conhecia o material que estava copiando.
Por conta de evidências da era patrística ( em diante) sobre a existência de cópias de Marcos com o "Final Longo", a posição majoritária entre os estudiosos é que ele deve ter sido escrito e acrescentado ao final de Marcos antes do . Mas eles se dividem sobre a questão de se o "Final Longo" foi criado deliberadamente para servir de final para o Evangelho segundo Marcos (como defende James Kelhoffer) ou se ele já existia como um texto distinto que foi utilizado para "remendar" o final abrupto deixado por Marcos. A falta de uma transição suave entre a narrativa da cena em 16:8 e a seguinte é uma evidência a favor desta última posição. Há discordância entre os estudiosos se Marcos de fato parou de escrever em 16:8 — e, se o fez, se foi de propósito ou não — ou se ele continuou escrevendo um final que hoje se perdeu. Alusões a um encontro futuro na Galileia entre Jesus e seus discípulos (em e ) fazem crer que ele tencionava escrever mais.
O Concílio de Trento, reagindo às críticas protestantes, definiu o Cânone de Trento, que é o cânon bíblico da Igreja Católica. "Decretum de Canonicis Scripturis", emitido em 1546 durante a quarta sessão do concílio, afirma que Jesus ordenou que o evangelho fosse pregado por seus apóstolos a todos os homens — uma frase claramente baseada em . O decreto afirmou ainda, depois de listar os livros da Bíblia, que "se alguém não receber como sagrado e canônico os ditos livros inteiros com todas as suas partes, como se costumava lê-los na Igreja Católica, como eles aparecem na antiga edição latina Vulgata e deliberadamente e de caso pensado condenarem as tradições já mencionadas, que seja anátema". Como Marcos 16:9-20 é parte do Evangelho segundo Marcos na Vulgata e a passagem tem sido rotineiramente lida nas igrejas desde tempos imemoriais (como demonstra-se em Ambrósio, Agostinho, Pedro Crisólogo, Severo de Antioquia, Leão Magno e outros), o decreto do concílio reafirma o caráter canônico da passagem. Ela também era utilizada pelos protestantes durante a Reforma: Martinho Lutero utilizou como base para uma doutrina em seu catecismo menor. O trecho também era parte do "Novo Testamento de Reims" e da Bíblia do Rei Jaime (King James Version) e outras influentes traduções. Em sua forma moderna, é baseada principalmente no texto alexandrino, mas aparece entre chaves, com nota de rodapé ou ambos
Túmulo vazio
Marcos afirma que o sabá já havia acabado quando Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e SaloméRichard Bauckham, Jesus and the Eyewitnesses (Cambridge: Eerdmans, 2006), p. 50 n. 43. (todas mencionadas em também) foram até o túmulo para ungir o corpo de Jesus, um relato similar ao de Lucas 24 (). João 19 () parece indicar que Nicodemos já havia ungido o corpo. João 20 () e Mateus 28 () relatam que apenas Maria foi até lá, sem mencionar o motivo.
thumb|320px|Jesus aparece aos dois discípulos, uma das aparições de Jesus depois da ressurreição relatadas em Marcos 16.. Por Altobello Melone, atualmente na National Gallery de Londres
No caminho, elas ponderam como farão para remover a pedra que fecha a entrada do túmulo, mas, ao chegar, percebem que ela já não estava mais lá e entram. Isto demonstra que, no relato de Marcos, elas esperavam encontrar Jesus mortoKilgallen, p. 297 e, ao invés disso, encontraram um jovem vestido de branco que lhes disse:
A roupa branca pode ser um sinal de que o jovem era um mensageiro de Deus,Kilgallen, p. 300 mas Marcos nada mais diz sobre ele. Em , ele é descrito como um anjo. De acordo com Lucas, seriam dois homens. João concorda, mas, em seu relato, Maria os vê depois de encontrar o túmulo vazio e mostrá-lo para os discípulos. Ela volta ao túmulo, conversa com os anjos e Jesus aparece para ela.
Marcos usa o termo grego "neaniskos" para "jovem", o mesmo que ele já havia utilizado para descrever o homem que fugiu durante a prisão de Jesus em Marcos 14 ().Brown et al., p. 629 Neste mesmo capítulo (), na narrativa da Última Ceia, Jesus afirmou que ressuscitaria e que retornaria à Galileia. Marcos utiliza a voz passiva do verbo "ēgerthē" — "ele foi ressuscitado" — indicando que Deus o ressuscitou dos mortos e não "ele ressuscitou" (como a maior parte das traduções da Bíblia para o português).
As mulheres, apavoradas, fogem e nada contam sobre o que viram, a reação mais comum à aparições divinas na Bíblia. É neste trecho que termina o trecho não disputado do Evangelho segundo Marcos: Jesus ressuscitou e irá ter com os apóstolos na Galileia.
Importância do final no versículo 8 Alguns comentaristas bíblicos concluíram que o público alvo de Marcos já conheciam as tradições sobre as aparições de Jesus e que Marcos termina sua história neste ponto para sublinhar a ressurreição e deixar os leitores esperando pela parúsia (a "Segunda Vinda").Brown et al., p. 628 Outros defendem que este anúncio da ressurreição e a ida para Galileia é a parúsia (veja preterismo), mas Raymond E. Brown defende que uma "parúsia limitada à Galileia" seria improvável.Brown, p. 148 O evangelista Marcos não descreve Jesus ressuscitado, talvez por não querer descrever a natureza do divino Jesus já ressurgidoKilgallen, p. 303
thumb|320px|Ascensão de Cristo.1636. Por Rembrandt, atualmente na Antiga Pinacoteca de Munique, na Alemanha
Brown argumenta ainda que este final é consistente com a teologia de Marcos, na qual até mesmo os milagres, como a ressurreição, não geram um entendimento correto ou a fé entre os seguidores.Kilgallen, p. 148 A fuga das mulheres é confrontada, na mente do leitor, com as aparições de Jesus e algumas frases que ajudam a confirmar as expectativas sobre a ressurreição, geradas em Marcos 8, 9, 10 e na profecia durante a Última Ceia de que ressuscitaria.Miller, p. 52 Richard Burridge argumenta que, em linha com o que Marcos revela sobre o que era ser um discípulo, a questão sobre se tudo se acertaria no final é deixada em aberto: "A história de Marcos sobre Jesus se transforma na história de seus seguidores e a história deles, a do leitor. Se eles irão seguir ou desertar, acreditar ou se confundir, vê-lo na Galileia ou permanecer cegos encarando um túmulo vazio, depende de nós".Richard A. Burridge, Four Gospels, One Jesus? A Symbolic Reading (2nd ed., Grand Rapids: Eerdmans, 2005), 64. Ele prossegue e compara o final de Marcos com o começo:
Aparições e Ascensão
Marcos 16 continua então descrevendo a aparição de Jesus à Maria Madalena, descrita aqui como alguém que ele havia curado de uma possessão de sete demônios. Ela então conta aos demais discípulos o que viu, mas ninguém acredita nela.
Em seguida, Jesus aparece, , a dois discípulos não nomeados. Ninguém acredita neles também quando eles contam o que viram. Em Lucas 24 () há o relato de uma aparição similar a Cléopas e um outro discípulo não identificado no caminho para Emaús.
Finalmente, Jesus aparece num jantar para todos os onze apóstolos. Ele os admoesta por não acreditarem nos relatos anteriores sobre sua ressurreição e lhes dá instruções para que vão e preguem sua mensagem , um evento conhecido como Grande Comissão. Os que acreditam e forem batizados serão salvos. Os demais serão condenados.
Nos versículos 17 e 18, Jesus afirma que os crentes "falarão outras línguas", "pegarão em serpentes", serão imunes a venenos que beberem e poderão curar doentes e expulsar demônios. Alguns comentaristas, imaginando que o autor deste trecho estivesse colocando palavras na boca de Jesus, sugeriram que estes versos foram a forma encontrada entre os primeiros cristãos de afirmar que a nova fé vinha acompanhada de "poderes especiais".Kilgallen, p. 309 Ao mostrar exemplos de falta de fé injustificada nos versículos 10 a 13 e afirmando que os que não creem serão condenados, é possível que o autor estivesse tentando convencer o leitor a confiar no que os discípulos pregavam sobre JesusBrown, p. 149.
A luta de Jesus contra a falta de fé e um retrato geralmente negativo dos discípulos é consistente com o relato do resto do Evangelho segundo Marcos.Kilgallen, p. 308
De acordo com o versículo 19, Jesus então é levado ao céu e, segundo Marcos, está sentado à direita de Deus.
Depois da ascensão, seus onze seguem seu mandamento e pregam "em todo lugar", acompanhados sempre dos "sinais" de Deus. Onde foi isso, Marcos não conta, mas é possível presumir pelo versículo 7 que tenha sido na Galileia.
Marcos 16:9–20 em manuscritos e evidências patrísticas A mais antiga evidência inequívoca de Marcos 16:9-20 como parte do Evangelho segundo Marcos é o capítulo XLV da Primeira Apologia de Justino Mártir ( 160). Numa passagem na qual Justino fala do Salmo 110 como uma profecia messiânica, ele afirma que foi realizado quando os discípulos de Jesus, partindo de Jerusalém, pregaram "por toda parte". Sua escolha de palavras é muito similar à de e consistente com o uso constante de uma harmonia sinótica utilizada por Justino, na qual Marcos 16:20 estava fundida com . O aluno de Justino, Tatiano (ca. 172), incorporou o Final Longo em seu Diatessarão, também uma harmonia, mas dos quatro evangelhos canônicos. Ireneu (ca. 184), em Contra Heresias 3:10.6, explicitamente cita Marcos 16:19, notando que citava uma passagem "perto do final do relato de Marcos". Estas evidências são mais de um século mais antiga que o mais antigo manuscrito de Marcos 16. Escritores do , como Hipólito e o autor anônimo de "De Rebaptismate" utilizaram também o "Final Longo".