As duas fontes da moral e da religião (Les deux sources de la morale et de la religion) é uma obra filosófica de Henri Bergson publicada pela primeira vez 1932.

Trata-se da última obra alargada do filósofo. A sua reflexão sobre a moral leva-o a discutir as abordagens sociológicas do seu tempo (Émile Durkheim, Lucien Lévy-Bruhl) com especial ênfase sobre o conceito de obrigação que ele coloca no cerne das relações interindividuais.

Ele coloca a famosa distinção entre 'sociedade aberta' e 'sociedade fechada' (que será retomada numa outra perspectiva pelo epistemólogo Karl Popper). O último capítulo descreve a visão do futuro do autor e contém a famosa passagem sobre o "suplemento de alma", de que o corpo estaria à espera, seguindo as possibilidades extraordinárias conferidas pela técnica. Esta reflexão é colocada sob o signo da dualidade mecânica/mística:

Não nos limitamos portanto a dizer, como o fizemos antes, que a mística recorre à mecânica. Acrescentamos que o corpo engrandecido espera um suplemento de alma, e que a mecânica exigiria uma mística. As origens desta mecânica são talvez mais místicas do que se pudesse acreditar; ela não encontrará o seu verdadeiro sentido, ela não proporcionará os serviços compatíveis com o seu poder, a não ser que a humanidade que ela curvou de vantagens na direcção da terra consiga com ela se endireitar e olhar para o céu.Henri Bergson, Les deux sources de la morale et de la religion, Cap. IV Observações finais. Mecânica e Mística, p. 166, edição eletrónica da Universidade do Quebec,

E este "olhar para o céu” anuncia a sentença final (que ficou tão famosa como o "suplemento de alma"), sobre "a função essencial do universo, que é uma máquina de fazer deuses". Porque, do princípio ao fim, a questão central é a da mística que endeusa os seres.

A questão central da mística A questão central abordada neste livro é, portanto, a da mística, tanto quando o autor opõe "moral fechada" e "moral aberta" como quando opõe "religião estática" (associada a superstição) e "religião dinâmica". Frédéric Worms considera a mística em Bergson "como um conceito limite tornado possível pela sua própria doutrina filosófica, chegando a uma questão que permanece no centro da filosofia do seu tempo e de sempre.»Frédéric Worms, Le vocabulaire de Bergson, Ellipes, Paris, p.50. Worms recorda também que Bergson tinha tomado posição sobre esta questão, tal como muitos autores do seu tempo como Sigmund Freud, Alfred Loisy, William James... É sabido que Bergson considerava os místicos católicos como os mais autênticos (Jesus Cristo, Francisco de Assis, Catarina de Siena, Joana d'Arc, São João da Cruz, Teresa de Ávila...).Catherine Chalier, filósofa e especialista em judaísmo, citando uma passagem do diário de Etty Hillesum, "Eu reencontrei o contacto comigo mesma, com aquilo que há de mais profundo em mim, e que eu chamo Deus, e contigo também", aproxima a jovem holandesa de origem judaica morta com 29 anos em Auschwitz (novembro de 1943), dos grandes místicos: “Este “mais profundo” liga-a de facto aos outros seres humanos e a tudo o que vive, porque isso é a fonte da «grande corrente de vida » e portanto, à maneira de Bergson, Etty Hillesum pressente a força criadora em si." Catherine Chalier, Etty Hillesum. Rejoindre la vie que je portais en moi em Le désir de conversion, Seuil, Paris, 2011, pp. 229-267, pp. 245-246.

A 8 de março de 1932 Bergson disse a Jacques Chevalier a propósito de Duas fontes: «Se eu transmito nestas páginas algo novo, é o seguinte: tento introduzir a mística na filosofia como um procedimento de investigação filosófica.» Jacques Chevalier, Entretiens avec Bergson, Paris, Plon, 1959, 8 mars 1932, p. 152.

Índice da obra Capítulo I: A obrigação moral Capítulo II: A religião estática Capítulo III: A religião dinâmica Capítulo IV: Observações finais. Mecânica e mística.

Capítulo I: A obrigação moral - moral fechada e moral aberta Próximo de Émile Durkheim a este respeito, Bergson considera que a primeira moral, a moral fechada, é todo o sistema de hábitos que regem a nossa conduta de acordo com as exigências sociais e que designamos ou que associamos à obrigação moral, mas uma tal obrigação moral deriva na realidade da vida. Ela corresponde, escreve William Marceau O artigo citado constitui também a primeira parte da sua obra publicada em 1987 pela Universidade de Stanford: Henri Bergson et Joseph Malègue. la convergence de deux pensées, « ao que é o instinto animal; ela corresponde para o ser inteligente a esse instinto que une as abelhas na colmeia e as formigas num formigueiro, aos hábitos que asseguram às células de um organismo um bom funcionamento: os costumes do homem estão inscritos na sua natureza como os da abelha e da formiga.»William C. Marceau, La philosophie spirituelle d'Henri Bergson in Laval théologique et philosophique, vol 42, n° 1, 1986, pp. 35-55, p. 41. La philosophie spirituelle d'Henri Bergson

Apelo contra a obrigação. Heróis e santos A sociedade que exerce pressão sobre nós desta forma não é a humanidade em geral, mas a família, o clã, a tribo, em suma, uma sociedade fechada cujos imperativos, longe de valer como os da moralidade kantiana por exemplo, para todo o ser razoável em geral, apenas são válidos para grupos à parte e fechados. Ela é estranha ao impulso (elã) vital de que resultou a humanidade global.

Pelo contrário, a moral aberta é o apelo do Herói, do homem superior, do santo ou do místico «que se serviu de um impulso aproveitado por ele em contacto com a fonte do próprio elã vital e que se esforça para levar outros homens atrás de si.» Assim foram Sócrates, Jesus Cristo acima de todos e os santos do cristianismo. (...) Esta não é mais uma pressão, como a da sociedade, que eles impõem sobre os indivíduos, para os congelar na rotina e criar uma moral estática, é um apelo que eles fazem entender, uma emoção que eles comunicam e que leva atrás deles as multidões inflamadas, ansiosas de os imitar.»William C.Marceau, artigo citado, p. 42. 'La philosophie spirituelle d'Henri Bergson O que eles criam é a moral aberta que visa tanto a moral fechada como a religião estática, moral fechada e religião estática que os santos, pela sua própria vida, apelam a que seja excedida.William Marceau, Henri Bergson et Joseph Malègue, Amna Libri, Saratoga, 1987, ISBN 0-915838-66-4

Esta emoção obriga mas causando um "sentimento de necessidade acompanhado pela consciência de a poder evitar.»Henri Bergson, Les Deux Sources de la morale et de la religion, PUF, Paris, 2008, p.7; A obrigação apercebida no apelo do herói ou do santo, não é da mesma ordem que a obrigação da moral fechada. Aqui é a obrigação (totalmente de outra natureza), da moral aberta: «não é a sociedade que pressiona com o peso do hábito sobre o indivíduo, mas o indivíduo ao escutar, em si mesmo, as ressonâncias de uma emoção que o libertam dos seus hábitos, ou seja, tanto da sociedade como de si mesmo.»Anthony Feneuil, Bergson, mystique et philosophie, PUF, Paris, 2011, p. 108.

Leitura desta distinção por Paul Ricœur Paul Ricœur retomou esta distinção entre obrigação (tendente à coerção) e o apelo (no sentido de Bergson, a que ele se refere): «A obrigação cessa de ser uma coerção quando os valores representados pelos costumes têm o rosto de qualquer um, são transportadas pelo dinamismo da decisões animadas, em breve são encarnadas por pessoas autênticas (...). Parece certo que ainda que a coerção dos imperativos morais esteja ligada ao seu anonimato (...) mais um valor como a justiça é encarnada por uma consciência militante que lhe dá o impulso da sua indignação e da sua generosidade, mais a coerção se converte em apelo. A coerção é o sinal de uma desumanização (...) o apelo é o sinal de uma criação, de um «historialização» viva dos valores pelos homens eles mesmos vivos. Coerção e apelo Mas Ricoeur também escreve que "a coerção é o limite inferior da obrigação" que se situa entre coerção e apelo... são o limite inferior e o limite superior das "representações colectivas (...) a área do 'social' (...) tem por limite inferior a coerção ou a escravidão onde não há mais sociedade, nem direito e onde a vontade é alienada; ela tem por limite superior a amizade, onde não há mais sociedade, nem direito, mas um apelo libertador, e onde a vontade não está motivada, ou aconselhada, mas criada.»Paul Ricœur, Le volontaire et l'involontaire, Aubier, Paris, 1963, pp. 121-123, Collections Points, 2009, p. 170.

Capítulo II: A religião estática Religião estática é a que naturalmente através da função efabuladora, face ao «poder dissolvente da inteligência»Les Deux Sources de la morale et de la religion, PUF, Paris, 1932 p. 127., contra a representação por ela mesma «da inevitabilidade da morte»Ibidem, p. 137., e para preencher um «déficit potencial de apego à vida»Ibidem, p. 223. por causa desse poder de dissolução da inteligência e da inevitabilidade da morte que ela estabelece, cria «ficções e crenças que se opõem aos factos e às representações da inteligência.»Frédéric Worms, Le vocabulaire de Bergson, Ellipses, Paris, 2000, p. 27. A função efabuladora cria representações «que geram superstições» e que «têm de comum serem fantasiosas.»Les Deux Sources, 1932, p. 111. A religião definida como estática «define-se, portanto, primeiro pelos seus efeitos ou pela sua função: frustrar os «efeitos perversos», por assim dizer, da inteligência; depois pelo seu meio, ou o que assegura essa função na espécie humana: o conjunto de representações actuantes ou ideo-motrizes saídas da função efabuladora e as instituições assim suscitadas em toda a sociedade para os fins de coesão e isolamento.»Frédéric Worms, op. cit., p. 57. No entanto, estes efeitos podem ser obtidos «de outra fonte, de diferente natureza, ainda que ela possa e de facto venha a se enxertar nesta base natural: trata-se da experiência mística, que rompe com a religião «estática» e a mistura a que esta dá lugar, do complexo que é a «religião dinâmica», ela mesmo.»

Capítulo III: Religião dinâmica (e a experiência mística) O misticismo como fundamento da religião dinâmica Para Bergson o défice de apego à vida pode encontrar uma outra solução na religião dinâmica, sendo o misticismo o seu fundamento. O misticismo é uma tomada de contacto e por consequência uma coincidência parcial com o esforço criador que a vida manifesta. Esse esforço é de Deus, se não o próprio Deus ele mesmo. O grande místico será uma individualidade que transpõe os limites atribuídos à espécie pela sua materialidade, que continua e, assim, prolonga a acção divina.»Les Deux Sources, PUF, Paris, 1932, p. 223. A religião dinâmica não deriva da sociedade, pois o místico apreende imediatamente Deus graças à sua intuição. A religião dinâmica «não é portanto o resultado de uma invenção, mas uma certeza, porque a alma do místico está unida ao que lhe dá a vida: «a alma deixa de girar sobre si mesma, escapando por um momento à lei que quer que a espécie e o indivíduo se condicionem um ao outro, em círculo. Ela pára, como se ouvisse uma voz que a chama. Depois ela se deixa levar, a partir daí. Ela não apercebe directamente a força que a move, mas sente a sua presença indefinível, ou a descortina através de uma visão simbólica. Vem de seguida uma imensidão de alegria, de êxtase, onde ela se absorve no arrebatamento que a perpassa: Deus está ali, e ela nele. Não há mais mistério. Os problemas extinguem-se, as obscuridades dissipam-se: é a claridade.»Henri Bergson, Les deux sources de la morale et de la religion, edição eletrónica da Universidade do Quebec, p. 123 http://classiques.uqac.ca/classiques/bergson_henri/deux_sources_morale/deux_sources.pdf O que atesta a autenticidade desta experiência «é precisamente a qualidade da sua acção indiferente aos obstáculos e problemas humanos (sejam práticos ou intelectuais)» e essa qualidade «irá atestar o seu misticismo.»Frédéric Worms, Le vocabulaire de Bergson, p. 50..