O declínio das populações de peixes marinhos é um fenômeno recente e de grandes proporções. Suas causas são as atividades humanas, principalmente a pesca excessiva e predatória, secundada por outras agressões humanas ao meio ambiente, como o aquecimento global e a poluição.

Cerca de 80% de todas as populações de espécies valiosas para o homem atualmente estão sendo exploradas no limite de sua capacidade, estão em redução acelerada ou já foram completamente esgotadas, não havendo perspectivas de melhora na situação sem que o contexto mundial seja profundamente modificado em direção à sustentabilidade. Muitíssimas outras espécies não interessantes para o homem do ponto de vista alimentar ou econômico são prejudicadas e estão igualmente em declínio pela quebra das cadeias alimentares, perda de habitats e outras ameaças indiretas derivadas do desaparecimento de espécies úteis, amplificando o problema ambiental por uma sequência de efeitos em cascata. O declínio de peixes marinhos representa importante desequilíbrio ecológico, com efeitos negativos em múltiplos níveis, dá um grande prejuízo para a economia global e é uma séria ameaça à segurança alimentar e ao bem estar da sociedade, que retira do mar muitos benefícios e produtos.

Causas Até o século XIX, salvo raras exceções, a natureza foi explorada pelo homem sem uma noção de que ela poderia ser exaurida. Pela sua vastidão e riqueza biológica, os mares eram considerados uma fonte de recursos infinita. Contudo, eles têm sido intensamente explorados e degradados desde então por uma variedade de fatores, que incluem a pesca excessiva, a poluição marinha, a penetração de espécies invasoras e o aquecimento global, que juntos desencadeiam uma série de reações adversas sobre as águas e sua biodiversidade.

Pesca

Com o aperfeiçoamento da tecnologia pesqueira e o advento da pesca industrial, ao longo do século XX esta atividade foi incrementada dramaticamente, expandindo-se para áreas antes inexploradas e aumentando o volume do pescado.Hauge, Kjellrun Hiis; Cleeland, Belinda & Wilson, Douglas Clyde. Fisheries Depletion and Collapse. In: International Risk Governance Council. Risk Governance Deficits: An analysis and illustration of the most common deficits in risk governance, 2009, pp. 70-72 A partir dos anos 1950 o volume passou a aumentar aceleradamente. Nesta época capturava-se cerca de 17 milhões de toneladas anuais, e em 1994 foi atingido o pico, com um total de 85,3 milhões de toneladas.United Nations Environment Programme. Fisheries: Investing in natural capital. In: Green Economy Report: Towards a Green Economy: Pathways to Sustainable Development and Poverty Eradication, 2011, pp. 84-107

De acordo com a Avaliação Ecossistêmica do Milênio, promovida pelas Nações Unidas, vários estudos tem apontado que o volume da pesca mostra uma tendência constante de declínio, a despeito dos esforços feitos em aumentá-lo, e não há sinais de que a tendência possa ser revertida se o contexto atual permanecer o mesmo. A queda nos últimos anos da quantidade total de pescado tem sido relativamente modesta, mas como a indústria pesqueira tem se voltado para áreas e espécies que não haviam ainda sido exploradas, isso tem mascarado o fato de que peixes antes importantes e abundantes desaparecem rapidamente.

Em 2003 cerca de 23% dos estoques de peixes valiosos para o homem já haviam colapsado, significando que o volume de captura já não chegava a 10% do que fora em seu auge. Em termos geográficos, sete das dez mais importantes áreas de pesca em todo o mundo já estão exploradas em seu limite ou superexploradas. Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), em 2012 apenas 25% das populações de peixes comestíveis permaneciam em boas condições, mas estas eram em geral pouco valiosas economicamente, ao passo que 52% das populações valiosas já estavam exploradas em seus níveis máximos, sem possibilidade de expansão, 19% já ultrapassaram os níveis de sustentabilidade, pondo-as em declínio acelerado, e 8% já haviam sido esgotadas.

A pesca excessiva, predatória ou ilegal tem sido o fator mais relevante no declínio das populações de peixes marinhos. De 133 extinções de espécies marinhas documentadas nos últimos 200 anos, 55% ocorreram devido à superexploração, com o restante devido à perda de habitats e outras ameaças.United Nations Environment Programme [Armenteras, Dolors & Finlayson, C. Max (leading authors) et al.]. "Biodiversity". In: Global Environment Outlook-5: Environment for the future we want, 2012, pp. 136-149. Estudos indicam que em 2015 apenas metade dos peixes disponíveis nos mares para consumo estavam presentes em relação à sua população de 1970, e algumas projeções indicam que em 2050 só haverá um terço deles. Além disso, certas técnicas de pesca, como o arrastão de fundo, danificam a estrutura do habitat de espécies bentônicas, provocando efeitos negativos sobre outras espécies que não são o objeto da pesca.Macfadyen, Graeme; Huntington, Tim & Cappell, Rod. Abandoned, lost or otherwise discarded fishing gear. UNEP / FAO, 2009

Pesca acidental

A pesca com redes regularmente captura muitos peixes e outros seres aquáticos que não são economicamente interessantes ou não são comestíveis junto com os aproveitáveis, a chamada "pesca acidental" ou "incidental", ou "fauna acompanhante", que pode incluir também golfinhos, focas, aves marinhas, tartarugas, baleias e outros tipos de animais, mas eles acabam sendo descartados com poucas condições de sobreviver ou já mortos, e sua morte se torna tão inútil quanto prejudicial à biodiversidade. Os números exatos dessa mortandade desnecessária são incertos devido à falta de fiscalização eficiente e aos dados pouco confiáveis fornecidos pelas companhias pesqueiras, mas segundo o Greenpeace, certos tipos de pesca podem chegar a ter 90% de toda a captura como fauna acompanhante.Greenpeace. Captura acidental na pesca.

Uma estimativa da FAO baseada numa revisão de 800 artigos sobre este tópico apontou que a dimensão do problema realmente é vasta, sendo que na década de 1990 de 17,9 a 39,5 milhões de toneladas de animais diversificados estavam sendo sendo capturados acidentalmente e descartados a cada ano pelos navios pesqueiros, com uma média provável de pelo menos 27 milhões de toneladas, e uma taxa de sobrevivência dos descartes em geral baixa, sendo um elemento importante num sistema de produção e consumo mundial que se caracteriza pelas grandes taxas de desperdício de recursos.FAO. [Alverson, Dayton L. et al.]. A global assessment of fisheries bycatch and discards: Executive Summary, 1994

Aquecimento global

Outros fatores de grande peso no declínio das populações de peixes são derivados do aquecimento global, um problema gerado pela continuada emissões de gases estufa pelo homem, em especial o gás carbônico, o mais importante gás estufa de origem humana, oriundos da queima de combustíveis fósseis, desmatamento, desperdício de alimentos e outras causas, provocando a elevação das temperaturas mundiais. Assim como aumenta o calor da atmosfera, o fenômeno faz com que os oceanos também seja aquecidos. O aquecimento da camada mais superficial do oceano, até 75 metros, foi de cerca de 0,3 °C em média desde 1971. Esta camada tem um papel essencial na economia oceânica, pois nela se produz a maior parte do alimento disponível para os seres de todas as camadas, e é a camada que está se modificando com maior rapidez.

O aumento da temperatura da água provoca um desequilíbrio metabólico nos seres marinhos, pois as reações químicas no seu organismo são modificadas com a mudança na temperatura ambiente. Também facilita invasões de espécies exóticas e a proliferação de doenças antes desconhecidas, interfere na oferta de alimentos, nos ciclos de reprodução, nas migrações, na distribuição geográfica das espécies e outros processos. Já é um exemplo clássico o maciço branqueamento de colônias de corais em todo o mundo, especialmente no Caribe e na Oceania, causado pelo aumento da temperatura da água."The United Nations just released a warning that the Great Barrier Reef is dying". The Independent, 03/06/2017 Os corais são as zonas mais diversificadas biologicamente dos oceanos. Além disso, o aquecimento reduz os níveis de oxigênio dissolvido na água, um gás essencial para a preservação da vida. Há mais de 500 regiões costeiras onde os níveis de oxigênio têm sido reduzidos abaixo da capacidade de sobrevivência dos seres marinhos, criando as chamadas "zonas mortas". Em muitas outras regiões a redução não chegou a este extremo mas foi observada, também provocando efeitos negativos em larga escala.

Ao mesmo tempo, a elevação dos níveis atmosféricos de gás carbônico induz uma elevação em suas concentrações nas águas, já que os gases do ar permanecem em um estado de trocas contínuas com os gases dissolvidos nas águas. O gás carbônico tem a propriedade de tornar a água mais ácida, o que realmente tem se verificado.IPCC. Climate Change 2013: The Physical Science Basis. Working Group I — Contribution to the Fifth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change, 2013United Nations Development Programme. Ocean Hypoxia — Dead Zones. Issue Brief: Environment and Energy, 2013Bloech, Donald E."Global Warming and Coastal Dead Zones". In: National Wetlands Newsletter, 2008; 30 (4)Gobler, C. J. et al. "Hypoxia and Acidification Have Additive and Synergistic Negative Effects on the Growth, Survival, and Metamorphosis of Early Life Stage Bivalves". In: PLoS ONE, 2014; 9 (1):e83648 Os mares tiveram sua acidez aumentada em 30% desde o início da Revolução Industrial no século XVIII, quando os combustíveis fósseis passaram a ser usados intensivamente,Hall-Spencer, J. M. et al. "Volcanic carbon dioxide vents show ecosystem effects of ocean acidification". In: Nature, 2008; 454 (7200):96–9Key, R. M. et al. "A global ocean carbon climatology: Results from GLODAP". In: Global Biogeochemical Cycles, 2004; 18:GB4031 uma modificação sem paralelos nos últimos 300 milhões de anos.Caldeira, Ken & Wickett, Michael E. "Anthropogenic carbon and ocean pH" . In: Nature, 2003; 425 (6956):365–365

Mudanças na salinidade da água e nas correntes marinhas, outros efeitos paralelos do aquecimento global, também têm impacto ambiental negativo, assim como a erosão costeira, derivada da subida do nível do mar, que destrói muitos habitats litorâneos e aumenta a turbidez da água.Yamanaka, T., Raffaelli, D. & White, P. C. L. "Non-Linear Interactions Determine the Impact of Sea-Level Rise on Estuarine Benthic Biodiversity and Ecosystem Processes". In: PLoS ONE, 2013; 8 (7):e68160 Todas essas alterações têm um impacto negativo disseminado e direto sobre a biodiversidade, poucas espécies têm capacidade de se ajustar a essas mudanças, especialmente na dimensão global e na velocidade em que elas estão acontecendo. Há um amplo consenso de que as condições devem piorar se as tendências permanecerem como estão.

Poluição

Resíduos sólidos thumb|As águas cheias de detritos da Baía de Minamata, Japão.