João Carlos Machado, mais conhecido como Chico Machado (Santo Ângelo, 22 de agosto de 1964), é um artista visual multimídia, curador de arte, músico e professor brasileiro.
Biografia Formação acadêmica Formou-se em pintura e desenho na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Tem especialização em Teatro Contemporâneo e mestrado e doutorado em Poéticas Visuais pela mesma universidade. Foi professor na Universidade do Estado do Rio Grande do Sul,Machado, Chico. "Manifestação pela manutenção da Uergs em resposta à jornalista Rosane de Oliveira". Sul 21, 25/05/2015 na Universidade Federal de Pelotas e atualmente ensina no Departamento de Arte Dramática da UFRGS. "Mostra de Teatro DAD 2015/1 apresenta espetáculos de alunos do Departamento de Arte Dramática do IA/UFRGS até 12/7". Instituto de Artes da UFRGS Entre maio de 2021 e maio de 2023 foi coordenador da Comissão de Pesquisa do Instituto de Artes."Comissão de Pesquisa". Instituto de Artes da UFRGS Já fez parte da comissão julgadora do Prêmio Açorianos."Premiados Açorianos 2002". Mais Teatro, 2002
Carreira thumb|300px|Chico Machado em apresentação da banda Aristóteles de Ananias Jr. Iniciou-se nas artes visuais como quadrinista, participando da fundação da revista Kamikaze, que tinha uma proposta de criação coletiva, fazendo adaptações gráficas de músicas e apresentando comic clips."Parada gráfica acontece em porto alegre neste fim de semana". Blogosfera, 21/11/2013 A revista se tornou emblemática no circuito das artes gráficas do estado, Leon Sanguiné a chamou de "antológica",Sanguiné, Leon. "A subjetividade anárquica em quadrinhos" . Diário Popular, 22/08/2014 e em sua dissertação de mestrado Eloar Guazzelli Filho assim a descreveu:
"Em fins dos anos 1970, a história em quadrinhos está praticamente restrita a umas poucas tiras nos jornais e os desenhistas buscam sem resultados criar uma publicação específica. Um forte sentimento de frustração domina o universos dos desenhistas do sul e o exemplo dos autores do centro do país os estimula a buscar solução para o impasse editorial. Por volta de 1984 um grupo de jovens de Porto Alegre faz planos para uma publicação somente de histórias em quadrinhos. [...] Por fim logram editar seis números de uma revista de pequeno formato, cujo nome traduz bem o estado de espírito destes jovens criadores: Kamikaze. [...] Criada no sistema cooperativo e editada de maneira informal, esta publicação teve uma boa recepção junto ao público mais jovem, pois trazia uma visão de mundo mais urbana, cheia de um humor sarcástico e exercendo também a sátira de costumes. É o ponto de convergência de algumas influências: o quadrinho underground norte-americano, a história em quadrinhos contemporânea europeia e também a produção sul-americana (em especial o quadrinho argentino, que nesta época vive um grande momento)".Guazzelli Filho, Eloar. Canini e o Anti-Heroi Brasileiro: do Zé Candango ao Zé — realmente — Carioca. Dissertação de Mestrado. USP, 2009, pp. 50-51
Depois de formado na UFRGS, passou a se dedicar mais à pintura, ao desenho e à escultura, logo assimilando uma ampla variedade de fontes da cultura erudita e popular. Também já trabalhou como cenógrafo, ilustrador e figurinista.Lisbôa, Eliane Tejera. "Usina do Trabalho do Ator: reconhecimento de uma identidade". In: Revista Brasileira de Estudos da Presença, 2012; 2 (2):479-501"SESI apresenta ópera cômica La Serva Padrona em Camaquã". Trairão, 03/03/2011
Foi membro da banda de rock alternativo Aristóteles de Ananias Jr., uma das mais notáveis bandas cult do estado do Rio Grande do Sul, participando como cantor, performer, cenógrafo, baixista e compositor.Faria, Arthur de. Um Século de Música no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: CEEE, 2001Rosa, Fernando & Sillas Jr., Flávio. "A presença do 'rock gaúcho' na cena independente nacional". Senhor F, s/d É de sua autoria uma das peças mais conhecidas da banda, a canção "Bico de Pato".Mendes, Marcelo. "Grandes histórias do rock 2002/2003: cap. 3". Overmundo, 01/06/2006"As músicas que melhor traduzem a alma gaúcha". Zero Hora, 17/08/2000 A Aristóteles trazia uma estética inovadora para o contexto musical do sul, que tinha forte afinidade com os interesses de Chico Machado nas artes visuais: ela também fazia uma síntese entre a cultura erudita e a popular, que estruturava sobre uma base de rock derivado da Jovem Guarda e do rock dos anos 1960, materializada em apresentações performáticas, onde o humor e o improviso também estavam presentes. Sua proposta, na apreciação de Arthur de Faria, foi "a experiência musical mais radical feita em música popular nestas terras", e nas palavras de Eduardo Egs, "usando colagens de trechos de músicas, sobreposição de vozes e muito, mas muito atonalismo, o Aristóteles causou impacto na cena porto-alegrense. O trabalho da banda foi reunido em um CD lançado em 1996 pelo Grenal Records, selo do próprio Marcelo Birck [o líder da banda]. Hoje , passados dez anos, ainda impressiona ouvir as experiências sonoras desse registro".Egs, Eduardo. "Três lados para cada história". Overmundo, 17/04/2006
thumb|250px|left|Chico Machado: deraierendelouer, pintura cinética e sonora manipulável. tinta esmalte sobre madeira, engrenagens e polias, 2007. Desenvolve recentemente nas artes visuais um trabalho que incorpora diferentes materiais, meios e referenciais estéticos, caracterizado pelo hibridismo, com ênfase na apropriação de elementos da cultura de massa em diálogo com a tecnologia. Muitas de suas obras são interativas, cinéticas, sonoras ou manipuláveis, convocando o espectador a participar do ato criativo, integrando vídeo, som, pintura, desenho, animação, performance, escultura e outros elementos organizados como instalações.Rodrigues, Deco. "Galeria Ecarta lança catálogo da exposição de Chico Machado em Porto Alegre". e-cult, 28/04/2014"Professor Chico Machado inicia mostra individual no Cearte". Notícias UFPEL, 15/05/2013Hamerski, Claudia I. "Um ponto de contato". Jornal Extra Classe, mar/2014 Já realizou numerosas exposições individuais e coletivas no estado e no Brasil. Em 2025 foi selecionado para a Bienal do Mercosul."Chico Machado". Fundação Bienal do Mercosul, 2025 Quando venceu o Prêmio Aquisição do V Salão Nacional Victor Meirelles, o Juri assim justificou a escolha:
"Chico Machado perde-se em inumeráveis circuitos elétricos para chegar a uma proposta rica em sentidos, percursos, entradas e saídas. Arte interativa e maquinal, traz o bom humor transgressivo dos inventores-artistas. Sua engenhosidade criativa está vinculada à linhagem de um Barrão ou mais remotamente à inventividade de um Abraham Palatnik".V Salão Nacional Victor Meirelles. Catálogo. Florianópolis, 25/11/1997-01/03/1998
Na ocasião, um dos jurados, Nelson Aguilar, comentou sobre a imprevisibilidade que caracteriza a arte contemporânea: "A gente nem sabe que formato a obra de arte vai assumir. De repente aparece, por exemplo, uma obra instigante como os objetos de Chico Machado, espécies de geringonças que são muito transgressivas. A arte contemporânea é isso, uma surpresa contínua"."Especial". AN, 25/011/1997 Sobre a necessidade da interação física das obras de Chico Machado com o público, por ocasião da individual Aparelhos que Fazem Zóing!, realizada em Porto Alegre em 2014 na Fundação Ecarta, Leo Felipe escreveu:
" [...] a arte está na experiência singular que temos com os objetos e não neles próprios (uma tremenda ironia se pensarmos que se trata de uma exposição de objetos). Valorizando a experiência, podemos, portanto, entender que as propostas nesta exposição expandem-se para além das galerias de arte, reverberando como o som emitido pela vibração das cordas dos aparelhos. [...] Chico Machado: Aparelhos que Fazem Zóing! traz a produção recente deste artista que já transitou nas áreas de quadrinhos, música e teatro, e que encontrou nas artes plásticas um campo generoso em que pôde fundir todas essas experiências. Vejo na produção de Chico resquícios desse trânsito: o ambiente cenográfico [...] remete ao ofício de cenógrafo das artes teatrais, o título da exposição [...] me faz lembrar os heróis dos quadrinhos que disparam o raio laser registrado na página de forma onomatopaica, os sonos metálicos produzidos a partir da manipulação dos aparelhos soam como a música experimental das bandas de rock nas quais ele já tocou.[...] Finalmente há o vídeo, a fonte disparadora dos sons emitidos por uma série de aparelhos. O vídeo que substitui o gesto, vídeo que engendra som e movimento e que faz a figura do artista sempre presente na exposição, miniaturizada como num filme de ficção. Esta exposição e seus desdobramentos devem ser percebidos como um convite à participação".Felipe, Leo. "#ZOING". In: Chico Machado: Aparelhos que Fazem Zóing! Catálogo. Fundação Ecarta, 2014
Os seus objetos assumem de fato formas imprevistas, como assinalou Aguilar, com um impacto visual aumentado pelos contrastes entre a materialidade de seus componentes. Muitas de suas obras individuais combinam materiais dependentes da artesania pessoal do artista, como placas de madeira serrada à mão e superfícies pintadas, com componentes retirados da tecnologia, como fios de arame, cordas, circuitos elétricos que fazem lâmpadas se acender ou piscar, sons serem emitidos, imagens surgir e se mover pelo espaço da sala ao comando do espectador, e não só do artista, que parece estar ali mais para oferecer meios para a expressão da fantasia do próprio público do que para ensinar autoritativamente um dogma estético ou angariar devotos, sugerindo antes um jogo, uma brincadeira, em que se é convidado a participar apenas se for dar prazer para todos — significativamente, ele prefere usar o termo usufruidor antes do que espectador. Nas suas grandes instalações recentes a vivência concreta da obra, do momento, do espaço, do prazer da co-criação, pode só existir com o auxílio de uma tecnologia mais sofisticada do que aquela que levou o homem à Lua, e no entanto ela não é dominante, pois intimamente associados aos circuitos, softwares digitais e telas de vídeo, estão objetos de forte presença espacial e visual realizados com uma artesania semi-improvisada, que o autor chama de low tech, em oposição à high tech dos computadores, e que remete diretamente ao artesanato popular, e deriva muito do seu apelo visual da rusticidade intencional de peças de madeira serradas e assembladas à mão, que permanecem com irregularidades no desenho, pregos aparentes, pinos à mostra, às vezes com algumas farpas soltas, pintadas com grossas camadas de tinta a óleo ou apenas sujas de uns restos aquarelados de cores, agregando materiais inespecíficos e improvisados, objetos prontos usados para fins diferentes dos planejados pela indústria. Os objetos finalizados e postos à disposição do público são máquinas utilizáveis de formas semi-orgânicas, semi-mecânicas, que lembram algo que já vimos mas não remetem especificamente a nenhum objeto conhecido, e que ao mesmo tempo são tão bizarros quanto únicos.Pohlmann, Angela. "Me dá uma Mãozinha?". In: Dispositivos Sônicos. Catálogo. Galeria Barão de Santo Ângelo, Instituto de Artes da UFRGS. Porto Alegre, 2010