A Operação Condor (; , também conhecida como Plan Cóndor) foi uma campanha de repressão política e terror de Estado levada a cabo pelas ditaduras de direita do Cone Sul, com o apoio dos Estados Unidos. A operação envolveu operações de inteligência e assassinato de opositores políticos exilados em outros países. Foi formalmente implementada em novembro de 1975 a pedido do ditador chileno Augusto Pinochet.
Em novembro de 1975, Manuel Contreras, chefe da DINA, a polícia secreta do Chile, convidou 50 oficiais de inteligência do Chile, Uruguai, Argentina, Paraguai, Bolívia e Brasil para o Chile para implementar formalmente a Operação Condor. Mais tarde, o Equador e o Peru juntaram-se à operação com funções mais periféricas. A fase principal da operação ocorreu entre 1976 e 1978. As relações entre o Chile e a Argentina tornaram-se tensas em 1978, levando ao eventual colapso da rede mais ampla da Condor, embora as operações tenham continuado até 1981.
Devido à sua natureza clandestina, o número exato de mortes diretamente atribuíveis à Operação Condor é altamente contestado. Algumas estimativas indicam que pelo menos 50 000 mortes, 30 000 desaparecidos e 400 000 prisioneiros podem ser atribuídos ao Condor, cerca de 30 000 das mortes na Argentina.Larry Rohter (24 January 2014). Exposing the Legacy of Operation Condor. The New York Times. Retrieved 26 August 2015. os Arquivo do Terror documenta o sequestro, tortura, estupro, assassinato e desaparecimento de pelo menos 763 pessoas. O cientista político americano J. Patrice McSherry dá um número de pelo menos 402 mortos em operações Condor que atravessaram as fronteiras nacionais numa fonte de 2002, e menciona numa fonte de 2009 que daqueles que "foram para o exílio" e foram "raptados, torturados e mortos em países aliados ou ilegalmente transferidos para os seus países de origem para serem executados... centenas, ou milhares, de tais pessoas — o número ainda não foi finalmente determinado — foram raptadas, torturadas e assassinadas em operações Condor". As vítimas incluíam dissidentes e pessoas de esquerda, líderes sindicais e camponeses, padres e freiras, estudantes e professores, intelectuais e suspeitos de serem guerrilheiros.
Embora tenha sido descrito pela Central Intelligence Agency (CIA) como "um esforço cooperativo dos serviços de inteligência/segurança de vários países sul-americanos para combater o terrorismo e a subversão", os guerrilheiros foram usados como desculpa, pois nunca foram suficientemente substanciais para controlar o território, obter apoio material de qualquer potência estrangeira, ou ameaçar de qualquer outra forma a segurança nacional."El Estado de necesidad" (in Spanish); Documents of the Trial of the Juntas at Desaparecidos.org.
O governo dos Estados Unidos forneceu planeamento, coordenação, formação sobre tortura e apoio técnico, e forneceu ajuda militar às Juntas durante as administrações Johnson, Nixon, Ford, Carter e Reagan. Tal apoio era frequentemente encaminhado através da CIA.
História Reuniões militares Durante uma conferência realizada em Caracas em 3 de setembro de 1973, o general brasileiro Breno Borges Fortes propôs "estender a troca de informações" entre vários serviços para "lutar contra a subversão".
Em maio de 1974, representantes das polícias chilena, uruguaia e boliviana se reuniram com Alberto Villar, co-fundador do esquadrão da morte Triple A, para implementar as diretrizes de cooperação. Seu objetivo era destruir a ameaça "subversiva" representada pela presença de milhares de exilados políticos na Argentina. De acordo com um documento da CIA desclassificado de 23 de junho de 1976, explica que "no início de 1974, oficiais de segurança da Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Bolívia se reuniram em Buenos Aires para preparar ações coordenadas contra alvos subversivos".
Estabelecimento da Operação Condor O Plano Condor foi estabelecido oficialmente em 25 de novembro de 1975 em uma reunião realizada em Santiago do Chile entre Manuel Contreras, chefe da DINA (polícia secreta chilena) e os líderes dos serviços de inteligência militar da Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai.
O objetivo principal da Operação Condor era lutar contra o comunismo e impedir sua expansão na região por meio do intercâmbio de informações sobre subversivos entre os países envolvidos para reprimir movimentos guerrilheiros armados como Tupamaros no Uruguai, Montoneros na Argentina, MIR no Chile, ALN no Brasil, ou mesmo lideranças políticas civis e militares como os casos de Orlando Letelier ou Carlos Prats e oponentes políticos de regimes militares. O primeiro passo da Operação Condor foi executar a imediata unificação de esforços de todos os aparatos repressivos dos países participantes que se moviam livremente entre os territórios dos países para sequestrar, desaparecer ou assassinar seus concidadãos.
A ação foi conjunta e o governo norte-americano tinha conhecimento dela, conforme demonstram documentos secretos divulgados pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos em 2001. Entretanto, o governo dos EUA alega que dentre todos os papéis liberados, nada há que comprove a participação ativa dos Estados Unidos na Operação Condor.
Fases da Operação Condor A Operação Condor foi realizada em três fases:
Primeira fase: foi criada uma base de dados compartilhada para melhorar o intercâmbio de informações e a cooperação entre os serviços de inteligência. Nos dados estavam guerrilheiros, partidos de esquerda, grupos políticos, movimentos sociais sindicais. Segunda fase: começam as operações coordenadas de espionagem, prisão, interrogatório ou tortura dos alvos que foram estabelecidos na fase anterior. Em alguns casos, eles foram assassinados ou desapareceram. Terceira fase: foram coordenados ataques a pessoas específicas dentro e fora da região. Segundo um cabograma do agente do FBI, Robert Scherrer, esta fase "envolve a formação de grupos especiais de países membros que devem viajar em qualquer parte do mundo para países terceiros, para cumprir sanções, incluindo assassinato, contraterroristas ou simpatizantes de organizações terroristas".
Casos notáveis
Na Argentina
Assassinato de Carlos Prats miniaturadaimagem|297x297px|O corpo do ex-general Prats destruído pela explosão do carro-bomba. Buenos Aires, 30 de setembro de 1974 Em 30 de setembro de 1974, o general aposentado do exército chileno e amigo de Salvador Allende, Carlos Prats, foi assassinado junto com sua esposa por uma bomba controlada por controle remoto em Buenos Aires.
Segundo documentos divulgados à imprensa, o agente da DINA, Juan Morales Salgado, estava monitorando os detalhes da vida de Prats e sua esposa. O autor material do ataque foi o agente da CIA, Michael Townley.
No Brasil Conforme o historiador Carlos Fico, houve intensa integração das atividades repressivas do Brasil com outros países, mas sem obedecer a um comando central latinoamericano. Para ele, há um problema de nominalismo. Não há evidência documental de uma participação brasileira na Operação, e os generais brasileiros sentiam-se superiores aos militares dos outros países. A cooperação internacional brasileira podia ocorrer de forma autônoma, como uma conexão direta entre o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) de Porto Alegre e a Agência de Segurança de Montevidéu. A integração de informações, operações de segurança e prisões já ocorria desde 1940, mas se avolumou durante a ditadura militar.
O sequestro dos uruguaios thumb|268x268px| Lilian Celiberti, sequestrada pela Operação Condor, em 1978, discursa no Fórum Social Mundial, 2010 O episódio com maior reconhecimento internacional, envolvendo a Operação Condor, aconteceu em novembro de 1978, numa colaboração entre as ditaduras do Uruguai e Brasil, mais tarde conhecida como "O sequestro dos uruguaios". Nesta ocasião, sob consentimento do regime militar brasileiro, altos oficiais do exército uruguaio viajaram clandestinamente a Porto Alegre, capital do Estado do Rio Grande do Sul. Alí sequestraram um casal de militantes da oposição política uruguaia, Universindo Rodríguez Díaz e Lilian Celiberti, junto com seus dois filhos, Camilo e Francesca, de 8 e 3 anos de idade, respectivamente.
A operação ilegal fracassou quando dois jornalistas brasileiros, o repórter Luiz Cláudio Cunha e o fotógrafo João Baptista Scalco, da sucursal da revista Veja em Porto Alegre -RS — alertados por um telefonema anônimo, foram ao apartamento onde vivia o casal, no bairro Menino Deus da capital gaúcha.CUNHA, Luiz Cláudio. Sucesso de investigação. In: Fernando Molica (org.) 10 reportagens que abalaram a ditadura. Sao Paulo: Record, 2005, pp. 117-248. Veja também as seguintes edições da revista VEJA: 20 out 1978; 29 nov 1978; 27 dez 1978; 17 jan 1979; 15 fev 1979; 18 jul 1979; 24 out 1979; e 11 jun 1980 Alí, confundidos com companheiros dos uruguaios, os jornalistas foram recebidos por homens armados que mantinham Lílian presa. Universindo e os filhos de Lílian já haviam sido levados ao Uruguai clandestinamente.CUNHA, Luiz Cláudio. Por que sou testemunha de acusação deste sequestro. Playboy, No. 52, nov 1979, pp. 127-131 e 164-168. A inesperada chegada dos jornalistas quebrou o sigilo da operação, obrigando os militares a levarem rapidamente Lílian a Montevidéu.
Em 1980, dois inspetores do DOPS (Departamento de Ordem Político e Social, uma ramificação oficial da polícia a serviço da repressão política durante o regime militar) que haviam participado da prisão dos jornalistas no apartamento de Lilian em Porto Alegre foram condenados pela Justiça brasileira. Eram João Augusto da Rosa e Orandir Portassi Lucas (um ex-jogador de futebol conhecido como Didi Pedalada), ambos identificados pelos jornalistas e pelo casal de uruguaios como sendo participantes na operação de sequestro, o que confirmou a participação do governo do Brasil na Operação Condor. Em 1991, através da iniciativa do governador Pedro Simon, o Estado do Rio Grande do Sul reconheceu oficialmente o sequestro dos uruguaios e indenizou-os, inspirando o governo democrático do presidente Luis Alberto Lacalle do Uruguai a fazer o mesmo um ano depois. Lilian, Universindo e as duas crianças são os únicos sobreviventes conhecidos a terem sofrido uma ação da Operação Condor.CUNHA, Luiz Cláudio. "O sequestro de Lilian e Universindo - 15 anos depois. A farsa desvendada". Zero Hora. Caderno Especial, 22 de novembro de 1993, 8 p. Ver também "O Sequestro dos Uruguaios - 15 anos depois". RBS Documento. Video produced and presented by RBS TV, Porto Alegre, novembro de 1993CUNHA, Luiz Cláudio. Operação Condor. O sequestro dos uruguaios. Uma reportagem dos tempos da ditadura. Porto Alegre: L&PM, 2008.
João Goulart e as circunstâncias pouco claras da sua morte O ex-governador do Rio de Janeiro Leonel Brizola alegava que os ex-presidentes brasileiros João Goulart e Juscelino Kubitschek foram assassinados no âmbito da Operação Condor e, com base nisso, pediu a abertura de investigações sobre suas mortes. Juscelino Kubitschek morreu em um acidente de carro.
Além de Brizola, a família do ex-presidente João Goulart também pressionou por respostas sobre o caso, entrando inclusive com uma ação na Procuradoria Geral da República em que pedia a investigação sobre o suposto complô que teria levado ao assassinato por envenenamento do ex-presidente, deposto pelo golpe de 1964 e morto no exílio, na Argentina, em 1976.